Amor sem idade, sem limitações, sem materialismos, sem subterfúgios, sem malícia, sem egoísmo e sem ciúme. Amor do corpo, da alma e do coração. Amor eterno, puro, simples e verdadeiro.
Obviamente que tal coisa não existe.
Nunca existiu no plano dos mortais em que nos movemos. É uma criação de pensadores e de poetas, abstrata, miraculosa e convenientemente revestida de todas as qualidades humanas , na maioria dos casos para desculpar ou disfarçar a luxúria de uns e de outras, ou para justificar "in illo tempore" os casamentos (cozinhados pelos parentes) ,da industria com a agricultura , do comércio com a construção naval, ou até mais plebeiamente, do Xico da Viúva com a Zefa do Ti Manhoso, que têm as courelas quase pegadas uma à outra...
Isto digo eu que estou a tornar-me meio descrente nesta religião ao atravessar a casa dos "cinquentas"...
Não quero impor esta visão mais cínica a ninguém - sobretudo a todos aqueles e aquelas que que ainda acreditam em vampiros e lobisomens sofrendo pelo amor de castas donzelas em technicolor ou em outros milagres deste tipo - e por isso sempre lhes vou dizendo que tudo o que faz "mexer" o homem e a mulher, quer horizontal quer verticalmente, (já cá faltava a ordinarice do costume) é bem vindo e positivo.
A vida é mesmo assim, "pelo sonho é que vamos", com a imaginação à frente da razão, "naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito".
Desta forma, pelo enamoramento de todas com todos, pelo aproveitamento mais carnal destes dias de chuva e de frio, pela esperança numa vida melhor, aqui lhes deixo o Príncipe dos Poetas (apesar de ser um tremendo lugar comum ):

É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões
Nota: Quadro de Maria Cepêda, considerada por muitos a sucessora de Mestre Lima de Freitas