terça-feira, abril 28, 2015

A 1ª Guerra: Comemoração ou Evocação?

Andamos nisto dos selos há alguns anos. "Andamos" os Srs filatelistas mais antigos e eu próprio.

Por isso não posso vir aqui dizer disparates do tipo "não se comemoram mortes em selos" , ou "não se celebram guerras na filatelia nacional".

É mentira.  Mortes e Guerras foram retratados em selos, desde sempre.

Uma das primeiras emissões temáticas nacionais foi a de 1931, celebrando os "900 anos da morte de Santo António". E mesmo que quiséssemos fazer excepção do caso dos Santos ( que na doutrina católica começam a viver em plenitude de graça desde o dia da sua morte) o azar é que logo a emissão seguinte de 1934 foi a que celebrou o "4º Centenário da Morte de Gil Vicente" o qual ainda não foi canonizado. E mais ainda: Alexandre Herculano, Pedro Hispano (João XXI), etc, etc...

E sobre as Guerras? Muitas emissões se fizeram: A Tomada de Lisboa aos Mouros (essa malta desprezível...); A Tomada (definitiva) de Coimbra aos Mouros (outra vez esses gajos! E relapsos!); A Tomada de Évora ( é preciso dizer a quem foi tomada??).

Acontece que por estes dias se evoca a Grande Guerra 1914-1918. Portugal entrou na guerra oficialmente em 1916, embora o 1º soldado apenas tivesse pisado o teatro de operações em 1917.

Merece um selo esta efeméride? Ou não? O início da guerra ou as declarações de guerra não me parecem elementos "comemoráveis" no sentido explícito do termo.

Mas talvez fosse possível evocar neste longo período que vai de 2014 a 2018 o centenário do acontecimento de indesmentíveis efeitos e consequências globais  que foi a WWI.

Nas palavras do Sr.Tenente General  Mário Cardoso, Presidente da Comissão Coordenadora da Evocação do Centenário da 1ª Guerra Mundial , estaria em causa nunca celebrar a Guerra, mas antes:

 "Evocar o sacrifício dos portugueses chamados a lutar por objectivos entendidos como nacionais. Sacrifício feito naturalmente por soldados, mas partilhado por toda uma rectaguarda onde está incluído todo o Povo português".

E aqui, nesta forma de tratar o assunto  já eu me revejo. Evocar para nunca esquecer o que se passou , pois o esquecimento levou à WWII, como todos sabemos.

Merece um selo? Digo que sim. Na oportunidade adequada. E já agora, não deixem de consultar este site:
http://www.portugalgrandeguerra.defesa.pt/Paginas/default.aspx

segunda-feira, abril 27, 2015

Entre cravos e outras andanças

Sexta feira de autógrafos acompanhando a Fátima Moura e o nosso livro "Conversas de Café", por Coimbra e Leiria, com paragem no sempre notável "Manjar do Marquês" para recompor.

Mestre Paulo e Dona Maria de Lurdes continuam em grande, fazendo do seu restaurante um oásis de bem estar naquelas paragens. Com três gerações presentes na sala a responsabilidade é cada vez maior. Pede-se à neta (e filha) que saiba aprender e continuar o trajecto que começou - antes do 25 de Abril - num balcão de apoio a uma estação de serviço da Shell... Quem se lembra desta primeira paragem?

Já publiquei as fotos das sessões  no café "Santa Cruz" ao lado do "repouso do guerreiro" ( é o caso) e no "Espaço Eça" (Leiria). Ambas as casas são notáveis , cada uma à sua maneira. E a simpatia com que somos recebidos não cessa de me espantar.

Ali e noutros lados...

Os CTT têm uma magna reserva de credibilidade e de good-will no que respeita aos contactos com as pessoas, por esse país fora. Foram centenas de anos a respeitar os outros para sermos respeitados.

 Tomaram muitas organizações possuirem tão extraordinário "pé de meia"!

Mesmo sabendo que assim é fico sempre agradavelmente surpreendido por ver.

E agradeço: Muito obrigado!

Logo a seguir foi o Dia da Liberdade. Mais um ano a celebrar o "25 de Abril".

Desta vez a Região Autónoma da Madeira associou-se!  Saúda-se o bom senso dos responsáveis do actual Governo Regional, finalmente pondo fim a uma cega-rega que parecia birra infantil.

E como faltou poema na sexta, aqui vai o elogio em forma de verso que a importância da efeméride aconselha.

De Edmundo Bettencourt uma lufada de ar fresco, livre como o vento:

Ar Livre

Enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
E a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
Os olhos verdes no mar.
O corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!

Edmundo Bettencourt - Antologia Poética



quinta-feira, abril 23, 2015

Os Livros

O Dia Mundial do Livro celebra-se esta semana. Nalguns países foi ontem, noutros será hoje.
Poder dizer bem dos livros e da leitura nem é dever ou obrigação. É um autêntico prazer. Neste caso relembro o Poeta e a fala do Gama ao Rei de Melinde:

“Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
De minha gente a grão genealogia:
Não me mandas contar estranha história,
Mas mandas-me louvar dos meus a glória."


Tal como o Dom Vasco sinto-me com o peito inchado por escrever um Post a louvar o livro .

Existem várias ( e muito americanas)  listas de razões pelas quais devemos ler. Uma das mais engraçadas foi escrita por uma mulher e podem ler aqui:

http://www.barnesandnoble.com/blog/10-reasons-we-read-other-than-because-reading-is-the-greatest/

Na minha forma de ver o mundo ler um livro  é como espreitar para dentro de outras mentes sem nunca corrermos o risco de nos expormos ou de observar a exposição nos actores (quando vemos cinema, teatro e televisão). Temos o prazer de "cuscar" à janela sem o opróbio de sermos descobertos.

Podemos ler duas ou três linhas e com elas construir um universo paralelo de faz de conta que nos embala para uma boa noite de sono. Guardando o resto do livro para o dia seguinte.

É a oferta ideal. Também é a mais perigosa das ofertas. Tem ideias dentro.

Neste mundo de reality shows e outras obscenidades, uma ideia original é das coisas mais perigosas que existem.

A prevalência de televisão  torna as pessoas de tal forma  opacas que quem é visto com um livro pela mão toma de imediato o rótulo de "intelectual". Que piada!

"Intelectual" era o antigo teórico da ciência, por oposição aos cultores das ciências práticas. Os filósofos por excelência. Também os grandes generalistas , as mentalidades abrangentes com interesses polifacetados em Arte, História, Literatura, Arquitectura, etc...

Infelizmente  o saber amplo e generalista, a ideologia e o estudo das humanidades estão cada vez mais fora de moda . Hoje deseja-se o imediato e o que dê menos trabalho. O pronto-a -qualquer coisinha.

Compreende-se que o livro esteja em decadência. Pelo menos na sua forma física. Até eu já leio em IPad muita coisa. Mas isso, como já aqui expliquei, é mais consequência da falta de metros nas paredes...

Gostar de ler e de livros não é apenas uma questão de paixão ou de emoção. A Ciência corrobora a necessidade de ler:

"The research, (...) showed that reading literary works cultivates a skill known as "theory of mind," which may be described as the "ability to 'read' the thoughts and feelings of others."

Fonte: o ubíquo HuffPost. Provavelmente leram isto nalgum livro...

quarta-feira, abril 22, 2015

A Formação

A minha gente da Filatelia era há muito considerada "relapsa" pelos colegas dos CTT encarregues das acções de formação. A malta dizia que sim, depois desenfiava-se, depois remarcava, depois tornava a não ir... E por aí em diante.

De tal forma que eu já não tinha lata de me cruzar no elevador com os tais colegas, um bocado farto das alfinetadazinhas que (cheios de razão) me pregavam nas costas. E como (graças a Deus) superfície  não me falta, imaginem a quantidade de buraquinhos minusculos que exibo lá atrás, entre o real assento e a nuca.

O falante ( neste caso escrevente) não ajudava nada a esta festa. Estou sempre pronto a dar formação (vício maldito de ter sido professor e que nunca me vai largar, até morrer). Mas quanto a estar na outra ponta do pau (salvo seja)? Não me seduzia muito e arranjava todas as desculpas possíveis para o desenfianço.

Isto tinha de acabar. Motivo pelo qual começámos ontem com uma acção de formação. A primeira de uma série que envolverá também (um pouco mais tarde) um "team building". A ideia é pôr a quase totalidade das 57 pessoas afectas à direcção a usufruir de sessões de formação fora das nossas instalações.

Et moi aussi!! Era o que faltava!

A não ser, está claro, que apareça alguma gripe...Se um gajo está doente tem desculpa Panair (esta já faliu. Foi antes da TAP)...

Alguém sabe onde se compram? As gripes? Apenas para referência futura, está Claro!

Por isso estes Posts podem sofrer algumas quebras de regularidade. A não ser que apareça a tal gripezita.


segunda-feira, abril 20, 2015

Para Descansar a Vista...À segunda feira

Estive em Fátima (Avé Maria!) na sexta passada, motivo porque apresento hoje aqui o habitual poema "das sextas".

Um poeta fora de classificações num dia fora do normal. Está dado o mote, fazendo com que ambas as escolhas ( a do poeta e a do dia) se acompanhem.

Mas haverá categorias para a poesia ?

No início da Poética, Aristóteles anuncia que vai falar da poesia e das suas “espécies”  - Poética, tradução de Eudoro Sousa (1994) -   podendo nós admitir deste texto que, segundo o Autor, a arte da poesia se concretiza em diferentes modalidades (géneros) a partir de um modo único de realização (mimesis).

Passados uns milhares de anos a "coisa" não será assim tão "taxativa" como o mestre dos antigos a quis apresentar. Há poesia que rima, a que não rima, a que parece prosa e a prosa que se lê como se fosse poesia... E depois? Bem, depois há os poetas que resistem a qualquer tipo de classificação.

Os outsiders.

Tomem  lá , se fizerem o favor, do poeta de rua brasileiro - Mário Gomes - esta proposta:

AÇÃO GIGANTESCA

Beijei a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.


A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.


Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia
Em que o sol me olhava assustadoramente.

Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
Por detrás do Universo.

Mário Gomes

Nota biográfica sobre Mário Gomes com chapelada ao Prof. João da Mata (UFRN)

 O poeta Mario Gomes  tem como lema a liberdade. Nascido em Fortaleza no dia 23 de julho de 1947. Anda maltrapilho pelas ruas pedindo de empréstimos o que comer e beber. Poeta maldito. Vive bêbado. Irreverente viajou diversas vezes ao Rio de Janeiro e Salvador para retornar em seguida à sua terra natal. Mário é doido! Mario é preso e escapa para ser preso novamente. Mário é livre e vive a poesia em estado de miséria. O autor de “Lamentos do Ego” é um poeta metafísico para quem a poesia é vital. A vida é altamente preciosa, mas não vale nada, diz o poeta defendendo tese.

O quadro Starry night é (obviamente) de Van Gogh , mais um outsider de génio.

quinta-feira, abril 16, 2015

Há Bóinas e Barretes


Temos um vizinho lá na Beira que nunca tira a bóina da cabeça. Em 34 anos que levo de frequência daquela terra não me lembro de ter visto cabelo ou careca ao vizinho, que obviamente tem por alcunha "o Bóino".

Ainda por lá anda, e bem, embora mais amparado para a enxada o que será normal para quem conta 40 anos em cada perna.

Nas primeiras vezes em que  meti pés e cabeça na serra não percebi bem a alcunha. E recordo-me de ter perguntado à minha mulher:
 - "Porque é que lhe chamam "o Bósnio"? Passam fome lá em casa? É por ser magro?"
Estávamos na época do grave conflito nos Balcãs, da guerra civil, o que talvez perdoasse a minha confusão.
 - "Não é Bósnio ! É Bóino!!"
 - "Bóino?? De bóina?"
 - "Sim, parece que saíu da barriga da mãe com ela já enfiada na cabeça. Nunca a tira. Nem entra na igreja para não ter de a tirar."

O "vizinho Bóino" tornava-se assim mais uma estranheza da província para o imberbe  sulista, a juntar à mania de "beber um branquinho antes do almoço, porque o tinto de manhã fazia mal" e daquela senhora que era "média" e que nunca devíamos olhar a direito nos olhos... Para não falar do "Ti Zé da Viúva, endireita que sabia mais de ossos a dormir do que os médicos todos do hospital de Seia, juntos e acordados".

Há quem julgue que a "bóina" será sobretudo decoração da cabeça.

Essa gente ainda admite que a "bóina"  também poderá assumir alguma funcionalidade ao nível da proteção do coiro (digo, do couro!) cabeludo, mas é esse um argumento que não os convence inteiramente. Protecção, dizem, é  função dos passa-montanhas, dos capacetes de motociclismo, das viseiras dos soldadores.

Uma "bóina" mal comparada seria assim um protótipo ( um projecto nos primeiros dias de gestação) do que mais tarde se pode vir a transformar num chapéu alto para ir a Ascot.

Evidentemente que quem tal pensa e tal diz corre algum risco com estas metáforas, não vá  dar de frente com algum amigo basco , gascão ou beirão...

Nesses locais a "bóina"  é uma espécie de “gravata” agrícola de honra, um substituto proletário do chapéu de feltro dos proprietários rurais e dos seus "sargentos". Uma "bóina" no Norte de Espanha é um símbolo de resistência ao franquismo.  Um orgulho local!
Para já não falar das aplicações castrenses em vermelho, castanho ou preto...

Lembrei-me hoje desta história do nosso vizinho "Bóino" porque se tomou mania habitual neste país julgar cada um pelo adereço ( a bóina) atribuindo-lhe mais importância do que o fundamental (a cabeça).

Num julgamento de suposto perito internético  sobre um restaurante que não menciono, porque tenho de experimentar em primeiro lugar para depois opinar, li que " se tratava de uma casa muito bem decorada, cheia de luz e de bom gosto. Serviço muito gentil e cordial. Excelentes copos e demais atavios sobre as mesas. Clientela bonita (seja lá isso o que for). Um Must para ver e ser visto!"

Continuando mais uns parágrafos neste tom.

"E sobre a comida?" Perguntarão vossas mercês ( e eu também).

Pouco. Pouquíssimo. Umas frases no sentido de que "É uma casa ainda em processo de crescimento, tem amplo espaço para melhorar. A vontade  de experimentação do jovem chef terá resultados garantidos dentro de pouco tempo."

Aqui quase que me apetece  interrogar "E aos costumes disseram nada? Não serão os críticos parentes do dono do restaurante?"

Para quem lê nas entrelinhas, neste restaurante investiu-se demasiado na "bóina" e um pouco menos nos "miolos".
E quanto à "vontade de experimentar do jovem chef"?
Com o devido respeito ele que vá experimentando com a família. Depois de estar treinado que venha então cá para fora mostrar o serviço.

Quem vê passar o nosso vizinho diz : -"Lá vai o bóino".

Mas antes levar a orgulhosa bóina empoleirada no cocuruto do que um barrete enfiado até às orelhas!

Digo eu.

quarta-feira, abril 15, 2015

El-Rei Anão

Em Elvas apresentámos o último livro da Fátima Moura "Conversas de Café", com direito à presença do Sr. Presidente da Câmara e Srª Vereadora da Cultura.  A sessão em Campo Maior foi adiada para outra ocasião, devido a questões logísticas com as listas de convidados.

A Fátima levou o "material" para fazer um cafézinho lá mesmo na Loja dos CTT, discorrendo sobre a matéria em que se especializou.

E depois almoçámos no "Lagar", casa simples e de bom acolhimento onde se pratica uma cozinha que nos dá ideia de estarmos em nossa casa. As "Migas" eram muito boas. O vinho da casa vem lá de baixo, de Pias e não desmereceu da região de origem. Embora melhor o branco que o tinto.

Naquele lugar era mister haver sericaia e ameixas em calda. E havia.  Boas  ambas.

Não sei quanto custou, porque a nossa colega Luzia fez a partida de se antecipar à continha... Mas estimo preços recatados. Se somarmos a isso doses grandes ( a perder de vista) então resulta daqui a recomendação para visitarem. 

Para mais a casa tem visitantes interessantes: mesas ocupadas por nuestros hermanos eram muitas. E noutra estavam os amigos do Grupo de Intervenção Protecção e Socorro da GNR (GIPS).

Mas tomem em atenção que se trata de uma casa simples, repito! Guardanapos de papel e papel nas mesas.

Como chegar?

Se derem com a estátua de El-Rei Anão (D. Manuel I) desloquem-se de forma a ficarem com a mesma à vossa direita. Depois é só descer a rua e indagar.

El-Rei Anão???!!!

Pois. Parece que o dinheiro para a estátua não terá sido suficiente e então fizeram o rei com metro e trinta ( mais ou menos...).

Por mim nada a dizer. Nunca gostei muito da criatura. Saiu-lhe a sorte grande. O D. João II deixou tudo feito e este aproveitou. E até casou com a prometida do malogrado D. Afonso, único filho do Príncipe Perfeito. 

Bem feito estares para ali em Elvas em propósitos de meia leca...


segunda-feira, abril 13, 2015

Não há descanso para os ímpios (moi)

Vim de  Bragança - onde tudo correu muito bem, grande qualidade da organização por parte do Museu do Abade de Baçal - e já hoje temos o Conselho Consultivo de Filatelia, para logo amanhã ir  para Elvas e Campo Maior para sessões de autógrafos e de apresentação do nosso livro "Conversas de Café"  da Fátima Moura.

O Senhor Comendador Rui Nabeiro fará as honras em sua "casa". No Centro da Ciência do Café, recentemente inaugurado.

Não me lembro se já lhes falei do nosso Conselho Consultivo de Filatelia?

É um órgão - rigorosamente "pro bono", sem qualquer tipo de remuneração -  que reune duas vezes por ano, para se pronunciar sobre a lista de sugestões que recebemos para emissões de selos e edições de livros.

Composto por membros proeminentes da sociedade civil, oriundos de diversas áreas do conhecimento, permite aos CTT que a decisão sobre a short list a apresentar à nossa tutela sobre aqueles assuntos seja devidamente fundamentada e apoiada.

E quem são os elementos deste Conselho? Por ordem alfabética:

 - António Costa Pinto (Historiador e Politólogo - ICS da Universidade de Lisboa)
 - Carlos Fiolhais (Físico - Universidade de Coimbra)
 - Guilherme d'Oliveira Martins (Presidente do TC e do Centro Nacional de Cultura)
 - Henrique Cayatte (Premiadíssimo Designer português)
 - Henrique Leitão (Historiador da Ciência - Universidade de Lisboa - Prémio Pessoa 2015)
 - Luiz Duran (emérito Director de Arte dos CTT)
 - Nuno Crato (Cientista e divulgador da Ciência).
 - Pedro Vaz Pereira (Presidente da Fundação Portuguesa de Filatelia).

Preside o Presidente dos CTT e, quando não coincide a presidência com a tutela da Filatelia,  participa ainda o Administrador que tem a área da Filatelia.

Eu organizo e secretario os trabalhos.

Estas sessões são muito interessantes. É admirável ouvir gente de tanta qualidade exprimir as suas opiniões sobre esta matéria. Que pena não poder escrever sobre o que lá se passa.

Talvez nas minhas memórias...


quarta-feira, abril 08, 2015

150 Anos do Abade de Baçal

Parto para Bragança, onde estarei amanhã e Sexta Feira, nas comemorações dos 150 anos do nascimento de Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal.

Figura incontornável da região transmontana, grande arqueólogo, etnógrafo e historiador da terra e das suas gentes.

Textos escritos neste blog ficam reservados para a próxima Segunda Feira dia 13. Mas vou enviando fotografias dos locais onde vou parando para petiscar.

terça-feira, abril 07, 2015

A saga dos correios em Portugal

Em 2020 comemoram-se 500 anos da actividade postal organizada em Portugal. D. Manuel I criou o ofício de correio-mor do reino em 6 de Novembro de 1520.

Destes homens tomou nome este blog, criado em 2004.

Foram 11 Correios-Mor, contando com os 4 de nomeação real, até 1604, e com os hereditários da família Mata, a partir daí e até 1798. Modernamente o Estado Novo deixou que mais dois dirigentes dos Correios assumissem esse título: Couto dos Santos e Carlos Ribeiro.

Para evocar esta data - que poderá constituir uma das primeiras menções escritas a qualquer actividade de Estado em Portugal ainda no activo - preparamos um conjunto de acções , filatélicas e outras.

Hoje levanto um bocadinho este véu, referindo-me ao programa de selos, livros e de exposições.

-  5 emissões de selos dedicados a esta efeméride ( desde 2016 a 2020, inclusive):
Figuras da história postal (2 séries); A evolução da Marca CTT; Objectos que fizeram a história dos correios; O Futuro - CTT Sociedade Aberta.
-  Um Livro temático sobre os "500 Anos do Correio" que vai conter todos os selos das emissões em causa.
-  Uma exposição alusiva aos 500 anos no Dia Mundial do Correio – a inaugurar em 9 de Outubro 2020 e a realizar na FPC.

Para nos ajudar na coordenação deste projecto fizemos apelo ao Dr. Fernando Moura, antigo curador das colecções do Museu Postal e grande conhecedor da história dos CTT. Será dele o Livro e ainda a escolha ( em conjunto connosco) dos temas de cada selo.

Muitas outras manifestações serão anunciadas sem ser do foro exclusivamente filatélico. A pouco e pouco irei dando aqui conta deste assunto.


Gosto de planear estas coisas com tempo e com calma.  Para ansiedades de última hora não contem comigo.

Acresce que em 2020 farei 65 anos. Provavelmente este será o meu último projecto de relevo aqui nos CTT. Já agora , e se não se importassem, gostaria que saíssemos ambos  bem.


O projecto dos 500 anos e eu próprio!

segunda-feira, abril 06, 2015

Ouçam!! Que disto já não se faz...

A canção "Ouçam" (sempre me pareceu "oução" dada a ênfase no verbo dada pelo vozeirão do Eduardo Nascimento) ganhou um festival em 1967 e , pelo menos durante algum tempo, ficou no ouvido dos portugueses. Tinha uma letra um bocado primária  - o Vento a mudar e ela que não voltava, etc... - que me desculpe o poeta Magalhães Pereira pela observação, mas o refrão ficava connosco.

 Há dias  acordei com ela outra vez no ouvido. Em 1967 tinha 12 anos. O dia-a-dia era simples. Eu nos Salesianos, o meu pai a trabalhar no MOP, a mãe a ensinar telefonistas nos defuntos TLP.

O Celtic ganhou em Lisboa, na Luz o único título dos Campeões Europeus da sua história. Ganharam por 2 a 1 ao Inter de Milão.

E o Sr. Manoel de Oliveira, já com 59 anos,  não filmava longas metragens desde 1962, "castigado" pela nomenklatura que se tinha atrevido a contestar. A PIDE tinha-o "referenciado".

Para convencer a Gulbenkian a financiar o novo cinema português independente  era fundamental que Manoel estivesse nessa barca. Azeredo Perdigão (conhecido "patinhas" para estas coisas dos adiantamentos, essas modernices liberais), só assinava o cheque se "Oliveira concordasse em realizar um último filme".

Aliás, a possibilidade de Oliveira realizar um "último filme" parece que seria a moeda de troca para ele próprio chegar-se à frente e apadrinhar o núcleo dos "modernos realizadores à espera do subsídio",  que integraram depois o Centro Português de Cinema.

Meu mestre Bénard da Costa teria sido o "apóstolo" desta ideia junto do Dr. Perdigão.  E este, entusiasmado pela craveira de Manoel, fora a S. Bento pedir licença para avançar.

O que foi concedido. O que era para ter sido o "último Filme " de Manoel de Oliveira, "O Passado e o Presente",  estrearia em 25 de Fevereiro de 1972.

Depois desse "último filme" o jovem Manoel (que já tinha 13 filmes e documentários feitos em 1972)  ainda tirou para fora da sua funda cartola mais 30 (!!) longas metragens e mais 14 médias e curtas...

É obra? Não amigos leitores. São muitas obras!

Nota: Porque será que a malta do Governo só pensa na cultura quando morre um artista?? Ninguém falta ao funeral... Pôrra compadres que estamos em ano de eleições!!

quinta-feira, abril 02, 2015

Para Descansar a Vista...na Páscoa

Antecipemos o poema das sextas feiras por respeito para com o dia de amanhã.

Pela primeira vez há muitos anos não vou passar a Páscoa à Serra. As "anciãs" cá de baixo não me deixam "laurear a pevide" .

A "santa" lá de cima está pior do que uma barata tonta... Mas como em Junho tenho dois casamentos lá na terra ( e num deles serei padrinho) tudo se irá compor. Acho eu.
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Como Páscoa significa "Passagem" lembrei-me deste clássico de Carlos Drummond de Andrade: Passagem da Noite.

É um poema que reflecte algum desânimo. Mas não há mal que sempre dure!

"Clara Manhã Obrigado! O essencial é Viver!"

Espero que gostem e desejo uma muito boa Páscoa a todos!!

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.

Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.

Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?

É noite no meu amigo.
É noite no submarino.

É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!

Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.

Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.

Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Carlos Drummond de Andrade


quarta-feira, abril 01, 2015

Desconfianças

O gato desconfia do cão, o periquito não confia no gato. São predadores uns dos outros. É compreensível. Se um deles não desconfiasse acabava comido.

Havia um merceeiro na nossa rua, o Sr. Cunha, que desconfiava de toda a gente. Ouviram bem. Não era ao contrário. O cliente pagava e o merceeiro contava os trocos vezes sem conta, sempre à espera de ser enganado. Quando eu lá ia chegava a apalpar-me os bolsos à saída para ver se eu não levava rebuçados do frasco que tinha aberto no balcão. Teria  6 ou 7 anos e por vezes levava mesmo daqueles rebuçados nos bolsos. Mas isso não vem ao caso. O fornecedor não pode duvidar do cliente.

O dono da oficina de mecânica que arranjava o velho chasso do meu Pai (um Fiat 124 1600 com  carburadores duplos "weber"que, se não estivessem bem afinados, gastava uns 15 litros aos 100 ) enganava-o quase sempre que o carro lá ia. O meu Pai sabia e , na volta, enganava-o a ele também quando iam à caça, com as despesas dos hotéis, dos cotos e das viagens. Como ficavam as contas ao fim do ano  não sei bem. Mas nenhum se queixava...

Muitas vezes ouvi o meu sogro a vangloriar-se que enganava os taberneiros porque não enchia até cima os garrafões de vinho. Mas essa pequena vigarice era amplamente amenizada pelos lautos almoços de cabrito, queijo da serra e presunto que antecediam o fecho do "negócio". A minha sogra dizia que ele gastava mil escudos para vender 700 mil réis (não sei se se lembram destes "réis").

Neste caso, e por muito que os taberneiros "desconfiassem", nenhum deles deixava de lá estar sempre na quinta à hora do almoço combinado. Seria sinal que o negócio não era assim tão mau para eles.

Lembro-me que gostavam do vinho carrascão do meu sogro porque à conta dessa cor carregada (e pouco própria do Dão tradicional) podiam alegremente "desdobrar" os penalties lá nas tascas com alguma água da chuva. Sempre dizendo piedosamente às filhas e mulheres que serviam ao balcão e à mesa:
-" Os dois primeiros copos são do bom. A partir do terceiro dá-lhes de mistura para não lhes fazer mal. E a nós faz bem."

Dizem-me  - porque não bebo dessas coisas fora de casa à noite - que nalguns lugares da "movida" o whisky novo com coca-cola (mesmo com castelo) não será muito canónico... E mesmo quando se pede para abrir uma garrafa há que ter algum cuidado com a rolha dita "inviolável".

E esta matéria não é nova. O director de marketing da Distillers Company  (Johnnie Walker) constumava ficar no Estoril uma ou duas semanas no Verão e lembro-me de o ouvir dizer (lá para os anos 70) que se bebia no mundo cerca de duas vezes mais  Red Label do que aquele que era produzido...

Dava para desconfiar. E se calhar ainda dá.

Eu não sou grande "desconfiador". Por norma acredito em tudo o que me dizem.
Faço minha a norma antiga de La Rochefoucauld:  -"É mais vergonhoso desconfiar-se dos amigos do que ser por eles enganado."

Mas está o caldo entornado quando me enganam em três coisas - peixe de aquicultura por peixe de mar, lampreia de barragem canadiana ou francesa pela nossa e perdiz de aviário por perdiz selvagem.

Digam a verdade sobre o que vendem ao cliente. Posso até comer à mesma se forem honestos. Por exemplo, a perdiz de aviário feita de escabeche. E há peixe de aquicultura que disfarça bem, se for bem grelhado. Na Lampreia de barragem é que não toco.

Mas dar conta do engano "depois de estar no prato"? É das poucas vezes em que armo confusão. Delicadamente, mas armo.

terça-feira, março 31, 2015

Rabejar os eleitos

Em tauromaquia "rabejar" significa pegar o touro pela cauda. Grandes rabejadores (nesse sentido) houve em Portugal, com destaque para o grande ribatejano Ricardo Rhodes Sérgio (in memoriam) que foi um dos maiores pegadores de cernelha e também rabejador já no final da sua vida activa.

"Rabejar" também pode significar, em calão brasileiro, engatar uma garina e levar o assunto até às últimas consequências. "Faire la femme".

Ou ainda, na Beira Alta, tosquiar grosseiramente a parte de trás das ovelhas para facilitar a ordenha.

Todavia o sentido mais comum da palavra será "arrastar pelo chão". Antigamente seriam os vestidos longos das senhoras. Hoje, e mais em sentido figurativo, pode dizer-se que não só as saias se arrastam pelo chão, como também a honra e o bom nome de organizações e de pessoas.

Os meios de comunicação social sensacionalistas "rabejam" inexoravelmente a vida e os actos dos chamados "colunáveis" ou "famosos", daqueles que  têm programas na televisão ou fazem figura em novelas , dos que são comentadores, dos políticos ou dos jogadores de futebol.

Assim "rabejando" se vendem revistas e se fazem os programas ditos de "crónica social".
É claro que o público leitor gosta é de escândalos, quanto piores forem, melhor. E os MCS sabem disso e compreendem o que lhes vende mais jornais ou dá mais quota de audiência.
Por isso, ultimamente, tem sido um "fartar vilanagem"  que eleva a coscuvilhive lusa a um patamar nunca antes atingido.

O antigo bastonário da Ordem dos Advogados, Rogério Alves, esclarece esta questão:
 "Nos termos da Constituição e do Código Civil, todas as pessoas têm direito a que a sua vida privada não seja devassada nem divulgada. E essa reserva abrange precisamente o domicílio, onde ninguém pode entrar, fotografar ou gravar sons sem a nossa autorização.  No entanto, quando uma figura pública é fotografada ou filmada num local público, aí os jornalistas são livres de noticiar. É o preço a pagar por se ser uma figura pública".

Se o Cristiano Ronaldo for filmado com uma "carraspana das antigas" dentro de uma discoteca, é notícia. Mas fotografá-lo nuzinho na piscina de sua casa já é crime. Pelo menos em Portugal.

Um político a passear a barriga na praia?  Alvo legal. Legalíssimo! Apontem-lhe o smartphone.

Um deputado na Assembleia da República  a ver sites de meninas nuas no computador, em plena sessão? Aqui já a jurisprudência não será muito clara...

É que nas galerias da  Assembleia tem lugar o público (quando a "presidenta "está bem disposta). Mas lá em baixo, no anfiteatro propriamente dito, só entra o eleito.

A Assembleia da República não é do povo. É dos eleitos pelo povo.

Não é a mesma coisa. 

Contudo:

 O anterior  presidente da Assembleia da República, Jaime Gama,  lembrou aos deputados que o Parlamento é um «espaço público e as regras na Assembleia da República estão aprovadas por todos os senhores deputados».
Estas regras «facultam aos meios de comunicação social a cobertura de toda a sessão legislativa e todos nós sabemos que os computadores que os senhores deputados utilizam não são pessoais, são computadores de serviço público», acrescentou.

 Ah ganda Gama! Rabejem compadres! Rabejem  e publiquem!

segunda-feira, março 30, 2015

A Madeira já não é um Jardim?

As eleições deram de novo a maioria absoluta ao PSD local, embora com menos 15,000 votos. Teve 24 deputados.
CDS perde face a 2011, mas fica em segundo lugar. Com 7 deputados.
PS afunda-se com 6 deputados e coligado tem menos votos do que quando concorreu sozinho.
PCP e BE sobem.  Dois deputados cada um.
A maior surpresa terá sido o novo Partido JPP (Juntos pelo Povo) que liderado pelo arqueólogo Élvio Sousa se tornou a 4ª força política da região, quase, mas mesmo quase a lamber os calcanhares da coligação onde o PS se meteu. E elegendo 5 Deputados!!
Encerra o anfiteatro da Madeira o PND e o seu habitual deputado único ( "único" em mais do que um sentido).

O "recado pós-eleitoral" mais evidente parece ser  um aviso sério ao PS nacional. Embora se saiba que na Madeira e nos Açores nem sempre  o clima destas coisas segue o ciclo continental e da República. Por vezes "chove" lá nas ilhas e "faz sol" aqui no rectângulo. Ou vice-versa. Mas eu, se fosse o Dr. António Costa, reunia o Gabinete de Crise e começava a ver o que é preciso mudar. E não será pouco.

Combine-se esta tachada de más notícias para o PS com a ressurreição gloriosa do "Lázaro" Sarkozy, antecipando uma Páscoa estranha em França  e dando mais sinais de angústia para este jantar à esquerda europeia. E de verdadeira azia para François Hollande, que não haverá Kompensan que cure.

Uns são poder, outros aspirantes. Dirão os amigos leitores.
Certo. Mas o PSD é poder na Madeira  há mais de 40 anos e não há quem o tire de lá.

Provavelmente porque o Senhor Governo da Madeira será o maior empregador no arquipélago, e (diz o povo) quem tem c* tem medo?

Eu só digo que pouco interessam as razões demagógicas (ou não). O que interessa são os resultados. E, quanto a isso, ninguém duvide que deve o PS nacional e geral ler os sinais e traçar o rumo do navio de acordo com o vento.

Haja timoneiro... (salvo seja! Que por cá já apareceu um e foi o que se viu... E ainda se vê...).

Nota: leiam aqui sff o artigo de Francisco Louçã no "Público". Vale a pena digerir...
http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2015/03/30/recados-da-madeira/

sexta-feira, março 27, 2015

O mundo ensandeceu

Estive no Porto e ainda passei por Fátima à vinda, preparando as emissões de S. João Bosco (200 anos) e de Santa Teresa de Jesus (500 anos).

Nas conversas destes dias tinha que  sobressair esta estranhíssima ocorrência do Airbus caído nos Alpes com 149 inocentes. E muito mais estranha quando se perfila no horizonte que a queda do aparelho teria por origem uma intenção criminosa do co-piloto -  apanhado numa teia mental de suicídio\homicídio que não tenho competência para julgar.

Não há poema que nos salve destas ocorrências?  Salvar não salva, mas pelo menos ajuda-nos a viver com estas angústias.

Recordo Herberto Helder nesta síntese definidora da sua obra ("Público" de 26 de Março):

No texto de abertura de "Ou o poema contínuo" (2001) – redução da sua “poesia toda” a uma “súmula”, não a uma antologia – Herberto Helder designa a época como a de um tempo de redundância: “O livro de agora pretende então aceitar a escusa e, em tempos de redundância, estabelecer apenas as notas impreteríveis para que da pauta se erga a música”.
Insinua-se aqui uma atitude radical que o poeta seguiu rigorosamente, ao fazer com que a sua obra existisse apenas por si mesma, impermeável a interferências mundanas, erguendo-se fora – e contra – o ruído do mundo.
 
 Há alturas - como estas em que reflectimos sobre as desgraças - onde também gostaríamos que a nossa vida seguisse  existindo apenas por si mesma, impermeável a interferências mundanas... mas não é possível.
 
Do grande Poeta aqui deixo uma simples (aparentemente) Bicicleta:
 

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais.


Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.


O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece.


Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.


De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.


O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada?


De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.


Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.

Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.


Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.


Herberto Helder,  Cinco Canções Lunares
 
 

terça-feira, março 24, 2015

O Solário

Na minha juventude parecia uma foca. Em mais do que um aspecto. Uma foca musculada depois dos 15 anos , quando já fazia judo  a sério, mas mesmo assim uma foca.

Uma foca que todo o santo Verão passava a vida na água e ao sol. Nasci e vivi (ainda hoje) a 150 metros da praia em linha recta. O que fazia com que fosse logo para a praia pelas 9h da manhã. Lá almoçava e só aparecia em casa depois das 19h. Esganado de fome, porque os  5 escudos que levava no bolso do fato de banho  davam apenas para um pacote de batatas fritas e uma ou duas bolas de berlim .

Vinha já com o banho de água termal tomado nas nascentes da Poça (poupava no gás e na água da torneira), jantava e corria outra vez para o paredão com os amigos, fazendo o trajecto pedonal do Estoril até Cascais.

Como diria o grande Jean Gabin, "C'était le Printemps, c'était le début". Saudades desse tempo em que mergulhávamos nas ondas para molhar as meninas à borda de água como forma de demonstrar um bocado à bruta um interesse que dois ou três anos mais tarde já se manifestava de outras formas.

Um miúdo de 15 anos nesses tempos era mesmo isso. Um miúdo. Uma menina da mesma idade não era assim tão imatura. Sonhava já com namoros enquanto nós sonhávamos com os campeonatos de futebol de salão do Estoril-Praia. Fomos campeões 3 vezes! A nossa equipa chamava-se "Scorpions"... Éramos os reis do deserto.

Nessa altura não me lembro de se falar de problemas de pele causados pela  exposição solar.
Falava-se até à exaustão na "necessidade de fazer bem a digestão antes de tomar banho" e ainda no cuidado em "molhar a cabeça para que o Sol não fizesse mal".

Médicos e suas famílias partilhavam connosco aquelas areias e faziam a sua vida na praia de sol a sol. Era um ambiente muito parecido com o do "Verão Azul" , não sei se lembram da série espanhola passada na Caleta de Maro (Málaga)?

Mas nem esses entendidos falavam sobre esta importante questão .

Hoje em dia ando afastado de praia. Tenho receio que o meu mergulho nas ondas do mar provoque alguma maré viva antes de tempo. De foca transformei-me em morsa. É uma espécie de foca soprada.

Por isso houve quem me recomendasse um "soláriozinho para dar uma corzinha".

Não faço. Nem é por medo ao melanoma, mas sim por uma questão de princípio.

A única cor que admito em cima do corpanzil será alguma vermelhidão no apêndice nasal em caso de congestão, por  constipação ou alergia.

Não mascaro a cara com bandeiras, não ponho maquilhagem (pôrra!), nem pinto o cabelo. Porque é que haveria de querer ficar moreno à força?

Não fazes mas gostas de ver nas meninas? 

Sem vergonha admito que sim. É a idade...

segunda-feira, março 23, 2015

As Listas

Nunca gostei muito de listas.

 Já nasci anafado e as listas horizontais faziam-me parecer (ainda) mais gordo. E quanto às listas verticais, sempre me pareceu serem mais dignas dos filmes de gansters, daqueles senhores que usavam camisa cinzenta de risca preta com gravata preta, por baixo de fatos pretos de três peças.

Tolerava as listas das clássicas gravatas regimentais britânicas, na altura em que estavam na moda. Hoje, já nem por isso.

E sobre as "outras" listas? As de nomes, moradas e outros detalhes?

Chegada a tarde da vida (melhor dito, o "depois do almoço", o início da digestão)  a memória já não é o que era, pelo que admito precisar de auxílio para manter a "lista" dos meus contactos vivinha da silva.  Fora essa, que me faz falta embora não seja obrigado a amá-la, confesso que não ligo a mais "lista" nenhuma.

Por isso esta questão da "Lista das Finanças" me apanhou um bocado de surpresa.

Eu sempre admiti - se calhar sem razão nenhuma - que um dos fringe benefits da malta que trabalhava a mexer na informação dos outros era exactamente poder coscuvilhar a vida dos outros...
O gerente da nossa conta no banco, o fiscal das finanças, o merceeiro que sabe o que compramos, até o médico que deve ter - depois dos 50 anos dos doentes - ficheiros sobre as nossas partes privadas que dariam um livro (ou dois). Para não falar do farmacêutico que "avia" o viagra, ou as pílulas do dia seguinte. Com ou sem receita médica.

Estamos a enganar quem? Neste mundo lusitano e provinciano saber da vida dos outros é um "must". Pode-se fingir que não se sabe e que até é imoral, pouco ético ou fora da lei meter o nariz nessas coisas. Mas que há quem lá meta o nariz, desde sempre, isso não duvido.

Leiam o Eça. Leiam o Camilo. Pouco ou nada mudámos.

Recordo-me do velho amigo Américo (do Sagres) que se habituou a espalhar o dinheiro que tinha ( e que não seria pouco) por vários bancos. E quando questionado pelos colegas da profissão sobre esta "idiotice" que não lhe dava músculo ("leverage" como diriam os banqueiros) com nenhum banco, apenas respondia:

- "Da minha vida sei eu! Não é o gerente de um banco que me vai contar os trocos todos."

Porque é que haveríamos de ser todos iguais perante a Autoridade Tributária e Aduaneira? Apenas  porque está lá escrito na Constituição? 

Também está lá escrito que somos todos iguais  perante a Justiça , a Educação, a Doença,  ou o Bem Estar . E nesse aspecto não somos nada iguais mesmo... Depende da carteira.

Depende cada vez mais do peso da carteira.

Esta situação desculpa a "estória das listas da AT"?  Não. Nunca.

Tal como não se desculparia se descobríssemos que uma lista de doentes à espera de quimioterapia  num hospital do estado fosse "politicamente" orientada... Primeiro a malta com cartão do SLB, depois a do SCP... Ou ao contrário.

Uma coisa é a prática diária da desbunda nacional. Outra coisa é a desbunda ser oficial e garantida em papel passado e com selo branco.

E aí, por enquanto, ainda não chegámos! (Acho eu,  que prefiro quadradinhos às listas...)

quinta-feira, março 19, 2015

Descansando a Vista à Quinta

Amanhã é o dia da Convenção CTT 2015, a reunião magna da casa onde se fazem as contas de 2014 e se projecta o ano de 2015. Por isso não vou aparecer por aqui. Lá estarei no Campo Pequeno (salvo seja) com mais de 800 colegas, a ouvir a "lição".

O habitual espaço de poesia terá que falar de Pais e Filhos, neste dia que as outras "convenções", as sociais, dedicam ao Pai Adão e , por inerência, a todos os que o seguiram nesta senda de semear a raça.

Começamos pelo Bardo William Shakespeare (soneto 37):

As a decrepit father takes delight
To see his active child do deeds of youth,
So I, made lame by Fortune's dearest spite,
Take all my comfort of thy worth and truth.


For whether beauty, birth, or wealth, or wit,
Or any of these all, or all, or more,
Entitled in thy parts, do crownèd sit,
I make my love engrafted to this store.


So then I am not lame, poor, nor despised,
Whilst that this shadow doth such substance give
That I in thy abundance am sufficed


And by a part of all thy glory live.
Look what is best, that best I wish in thee.
This wish I have; then ten times happy me!
                            

E acabamos em português com Jorge de Sena:

Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida.
Se a não chegaste a conhecer, se a vida
ta não mostrou - já não conhecerás

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
Já nenhum astro te será fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
- ri-te de ambas, que um filho é imortal.

Jorge de Sena, in 'Visão Perpétua

quarta-feira, março 18, 2015

Ironias e Incongruências

A conversa sobre os livros e a falta de espaço e tudo aquilo que temos ao dispor mas acabamos por não utilizar - os tais 250 anos de vida que seriam necessários para ler o que nos interessa - levaram-me a recordar meu mestre Jorge Luis Borges.

O grande escritor de Buenos Aires cegou na altura em que foi nomeado Director da Biblioteca Nacional da Republica Argentina. 
E logo escreveu:
"A ironia de Deus vê-se em pequenas coisas como esta -  900 000 volumes  e um cego para os ler a todos."

Num dos seus contos -  "Biblioteca de Babel" que alguns consideram ser uma metáfora para a moderna sociedade da informação -  fala-se de uma biblioteca gigantesca onde existirão segundo Borges, para além de muitas outras coisas:  "las autobiografías de los arcángeles, la relación verídica de tu muerte...  basta con que un libro sea posible, para que exista en algún lugar de la inmensa Biblioteca."

Borges também costumava dizer que  "sempre entendera o paraíso como uma espécie de biblioteca."

No final do século XIX ainda era possível a um  cientista, douto e trabalhador, dominar uma área do conhecimento científico e ser um diletante bem informado em mais uma ou duas.

Hoje em dia  a própria noção de "área de conhecimento" especializou-se de tal forma que já não é possível haver "físicos" (por exemplo como Einstein ou Shrödinger) mas sim "físicos de qualquer coisa".

A Universidade de Munique lista 8  cursos para os estudantes interessados neste "campo":
Astronomy and astrophysics, cosmology
  • Molecular biophysics, statistical physics
  • Solid state physics, nanophysics
  • High- and medium-energy physics, mathematical physics
  • Laser physics and quantum optics
  • Meteorology
  • Medical Physics
  • Physics education

  •  
    E em Medicina? Imaginam os "campos de estudo", as "especialidades"?  Reconhecidas oficialmente  pela ONU são 55...
     
    O problema desta especialização pode ser a perda da visão de conjunto. O historiador perito em Arqueologia Naval da Época dos Descobrimentos tem ou não  de estar ainda à vontade nos meandros da História da Expansão Ibérica? E compreender onde tudo aquilo se  enquadra  nas relações políticas europeias do século XV e XVI?
     
    O famoso "Dr. House" era um generalista especializado em diagnóstico.  Mais uma incongruência?
    Ou o reconhecimento que para diagnosticar bem tem de se saber um pouco sobre a grande maioria de todas as doenças?
     
    Mesmo sobre o carbúnculo que o aldeão médico Fernando Namora introduz aos especialistas de Lisboa, lá para os anos 60...
     
    Nota: Bibliotecário de Babel é um quadro original de Maria Helena Vieira da Silva

    terça-feira, março 17, 2015

    Os nossos livros antigos

    Todos temos em casa caixas de papelão antigas com fotografias e papéis, caixas de cartão com livros que não cabem nas prateleiras (este é o meu caso mais gritante), caixas cheias de brinquedos antigos e de roupas que já não nos servem, mas que segundo a tendência optimista de cada um de nós, "ainda podem vir a servir".

    Na última "rabanada" de vento que dei a estas antiguidades foi possível dar muitas coisas (roupas e brinquedos) a organizações de solidariedade social. Mas quando chega a questão dos velhos livros parece que cai o Carmo e a Trindade.

    Os livros não são para dar? Teóricamente concordo com isso. Mas quando se aproxima a data de fazer a escolha? Nem pensar. Volta tudo outra vez para a caixa de onde saíu...

    Tanto eu como o "senhorio" temos paixões assolapadas pelos nossos livros. E como somos nesse aspecto compradores compulsivos e obsessivos, é bem de ver que já não há espaço linear de parede para tanto livro,  e começa a faltar espaço volumétrico para os  15 caixotes de 70x70x70 que se equilibram (mal) em cima uns dos outros na cave.

    Quando tiramos do pó do esquecimento algum livro é normal que traga consigo memórias da 1ª vez que se leu, das circunstâncias dessa primeira leitura , e por aí fora.  Qualquer livro se transforma desta maneira numa espécie de repositório do passado do seu dono. E isto - pelo menos para mim - é difícil deitar fora.

    A possibilidade de começar a armazenar os livros novos em formato e-book foi uma grande lufada de ar fresco que entrou por aquela casa. Temos já uma biblioteca razoável, com mais de 200 títulos nesse formato. O único problema é que usamos o IPad mais novo para armazenar a biblioteca que é comum a ambos... E isso pode dar faísca às vezes.

    Há que comprar outro IPad e segregar as "livrarias". Mas já repararam quantas obras em formato e-book  se podem comprar pelo preço de um IPad??  Difícil decisão, até porque o e-book não se cheira nem se apalpa... Mas necessária.

    Forçado pela inevitabilidade da escassez do espaço - a casa na quinta é bem maior, mas os livros podem estranhar estar afastados dos donos, e podem ainda por cima passar frio lá na serra - dou comigo a perguntar se não estou (estamos) a transformar-nos naquela criatura com problemas mentais a que chamam na literatura da especialidade um "Hoarder" (acumulador patológico)?

    A Clínica Mayo descreve esta condição:
    Hoarding disorder is a persistent difficulty discarding or parting with possessions because of a perceived need to save them. A person with hoarding disorder experiences distress at the thought of getting rid of the items. Excessive accumulation of items, regardless of actual value, occurs.

    Pode ser que ainda não esteja a chegar aí, a esse extremo, mas deve haver qualquer coisa estranha em mim no que diz respeito aos livros e à sua posse.

    Como é que alguém - como eu -  que normalmente "dá tudo a toda a gente" e é geralmente conhecido como   "um mãos largas",  se pode transformar em "tio patinhas das encadernações", sejam elas de capa dura,  tecido ou cartolina barata?

    Mistério...

    segunda-feira, março 16, 2015

    Comeres tradicionais da Raia

    O Bucho da Guarda que comemos no Belo Horizonte levou-nos a falar com o proprietário (Sr. José) para discutir o que os clientes ainda pedem e continua a comer-se agora e o que deixou de ser cozinhado, embora fosse também tradicional.

    Numa cidade onde os talhos  já servem ao passante os produtos da charcutaria espanhola (ali tão perto ) é de desconfiar que algumas das tradições tenham ido por água abaixo, por falta de "animação cultural".

    A procura do tradicional e do antigo leva a situações que nem sempre são as mais desejáveis. Abundam as pequenas falcatruas. Algumas para fugir à regra da "origem controlada". Outras para continuar a fazer em casa o que é agora obrigatório ser feito em local inspeccionável pelas autoridades. O  Bucho e a magnífica Morcela de Sangue são bons exemplos.

    A lei diz sobre o Bucho:

    Entende-se por BUCHO DA GUARDA, o enchido fumado obtido a partir da carne da cabeça, rabo, costelas, cartilagens, osso da espinha, focinho e orelha de porcos de raça Bísara na sua linha pura ou de animais resultantes de cruzamentos, em que pelo menos um dos progenitores seja da raça suina Bísara, inscrito no respectivo Livro Genealógico.

    Sem ter o bicho suíno morto à frente imagina-se que estas questões das genealogias bastas vezes fugirão ao "bísaro" e passem para o "chino" ...

    O mesmo para o Queijo da Serra, onde a Guarda faz figura de chefe de fila (mesmo nos USA!) já que o seu distrito abrange os concelhos de Seia, Gouveia, Fornos de Algodres, Mêda e Sabugal. Grandes terras de ovelhas bordaleiras,  churras e de pastorícia milenar.  Todavia Covilhã, Tábua, Tondela. Trancoso e Viseu também têm freguesias certificadas.

    Aqui a questão parece mais ser a de ter de pagar a certificação e a "coima" à Cooperativa, coisa que muitos pastores e pequenos produtores não desejam fazer, nem fazem...

    Por isso é mais fácil apanhar grandes queijos da serra "fora da  mãe". Como em tudo, é preciso conhecer.

    O uso da Denominação de Origem "Queijo Serra da Estrela - DOP" e "Queijo Serra da Estrela Velho - DOP" fica reservado aos produtos que obedeçam às características estipuladas no caderno de especificações, o qual inclui, designadamente, as condições de produção e conservação do leite, higiene da ordenha, fabrico do produto, o saneamento animal e a assistência veterinária, as substâncias de uso interdito, podendo ser utilizada apenas por produtores expressamente autorizados pelo Agrupamento, ESTRELACOOP - Cooperativa dos Produtores de Queijo Serra da Estrela, CRL., que se comprometam a respeitar todas as disposições do respectivo Caderno de Especificações e se submetam ao controlo a realizar pelo Organismo Privado de Controlo e Certificação - OPC - BEIRA TRADIÇÃO - Certificação de Produtos da Beira, Ld.ª.

    Para mim, e nunca desdenhando do cabrito assado no forno de lenha, uma das iguarias mais mimosas que já comi em terras da "capeia arraiana" é a vitela do Jarmelo. Dizem que é derivada da Mirandesa, mas os pastos de altitude onde normalmente anda adoçam-lhe a carne e o exercício de andar sempre a subir e a descer a montanha faz repartir a gordura natural destes animais de forma uniforme.



    No dia 27 de Abril de 2006, a Assembleia Municipal da Guarda declarou a Raça Bovina Jarmelista como de Interesse Municipal. Mais recentemente, após conclusão dos estudos e investigações iniciadas em 2004 pela Direcção Geral de Veterinária, em colaboração com a Associação de Criadores de Ruminantes do Concelho da Guarda, foi finalmente, em 27 de Outubro de 2007, reconhecida a Raça Bovina Jarmelista como Raça Autóctone Portuguesa.

    Mesmo apenas grelhada nas brasas esta carne de vitela tem tudo para se tornar um ex-libris da Guarda e arredores. O problema é que para a apanhar no prato é preciso meter empenhos e fazer promessas à Virgem da Assunção (padroeira da cidade). Tentem telefonar ao Belo Horizonte e marcar.

    E apesar da posta do lombo ser a parte nobre, nunca digo que não à proletária costela mendinha assada no forno com as batatas da Guarda e os grelos de nabo da mesma proveniência.

    Encerro com umas linhas sobre os vinhos desta zona, longo tempo considerados inferiores por comparação com a  "outra" encosta soalheira onde foi Nosso Senhor servido de colocar a região do Dão. Neste momento os vinhos da Beira Interior estão a subir de qualidade. A casta Roupeiro (aqui designada por Síria) faz belos brancos de guarda, enquanto que a Tinta Amarela, Touriga  e Roriz fazem bons tintos em Pinhel, Figueira de Castelo Rodrigo e na Cova da Beira.

    Por mim gosto do trabalho que Luis Roboredo está a fazer na Mêda, com a sua marca "Gravato". Boa relação qualidade \preço e excelentes vinhos, brancos e tintos. E tem um Palhete notável. Até pela raridade. Que não deve ser confundido com o Rosé!!

    quinta-feira, março 12, 2015

    Na Guarda


    Amanhã tenho reunião na "mais alta" para discussão dos últimos detalhes de um dos nossos próximos livros: "A Rota das Catedrais".
    Enquanto afio o dente para o almoçinho no sempre amado Belo Horizonte aqui deixo um texto de Mestre Eduardo Lourenço (nascido em Rio Seco, Melo, Distrito da Guarda) que apesar de ser em prosa é de facto um grande poema homenageando o seu ( e nosso) amigo  Eugénio de Andrade por ocasião do seu desaparecimento.

    Que grande pedaço de literatura!

    A morte foi-lhe póstuma.

    Como para sublinhar que não lhe dizia respeito.
    Realíssima foi a sua longa agonia branca, o estar assistindo à sua vida sem poder fazer nada por ela. Nem nós, seus amigos, vendo o mais solar dos poetas a braços com esse crepúsculo sem manhã.
    Vivo e consciente, contemplou a última metamorfose, da sua própria margem, aquela que uma luminosa vida de versos lhe construíra como a única barca imune ao negro esquecimento.

    Aí permanecia o deus verde que sonhara o seu destino como quem dança.
    Sem anjos e sem pecado.
    Viera para inventar, cantando-se e encantando-se com o mundo, o seu próprio paraíso.

    Do reino das sombras, só soube da ausência da luz original que elas são.

    No cristal das palavras talhou o corpo dos poemas onde morria e ressuscitava.
    Todas lhe eram caras mas mais aquelas que precisavam dele para serem saboreadas pelos outros, as mais discretas, as mais duras no seu silêncio, as que tocadas por ele se convertiam em chama perpétua.

    As coisas mesmas, as mais banais, foram os seus símbolos.
    Elas lhe bastaram para deixar na memória poética da nossa língua aquela "espécie de música" a que Óscar Lopes aludiu.
    E é o sonho inalcançável de todo o poema.
    No círculo encantado que de Bernardim conduz a Pessanha, Eugénio instalou a sua tenda.

    Agora pode conversar de igual a igual com os seus astros tutelares.
    E concentrar-se inteiro na haste da melancolia que evocou para nós.
    Ave solar em plena luz.

    Vence, 13 de Junho de 2005
    Eduardo Lourenço

    quarta-feira, março 11, 2015

    A Vermelho

    Público
    Todos os jornais do dia de hoje trazem a 1ª página pintada a vermelho.
    Quando cheguei ao quiosque da Av. da República o "dono da casa" logo me disse:

    - "Olhe que o Luis Filipe Vieira hoje comprou a 1ª página dos jornais todos!".

    Mas não devia ser isso.

    Afinal foi o FCP que deu 4 a 0 ontem à noite e empochou os 4 milhões de euros respectivos, e não o SLB que em termos de Champions deve estar agora a sonhar com a erva do próximo ano. Erva não, que parece mal! Relva!

    Entre a evocação dos 40 anos da tentativa de golpe de esquerda que ficou conhecida pelo "11 de Março de 1975" e a infame memória dos atentados de Atocha, Madrid ,de 11 de Março de 2004, inclino-me mais para que tenham sido estes últimos a justificar esta tomada de posição conjunta dos nossos periódicos.

    Podemos sempre admitir que seriam os jornalistas a adivinhar já o sangue do debate parlamentar de logo à tarde, onde se discutirá a memória (ou a falta dela ) do Sr. Primeiro Ministro...

    Ou então,  a Cruz Vermelha Portuguesa  e o Instituto Português do Sangue, aflitos com a falta de dadores,  deram as  mãos para fazer esta pintura mural mediática,  lembrando às pessoas que se não doarem hoje não terão sangue amanhã.

    Para esse efeito  e para a memória de Atocha contem comigo. Para o resto, nem por isso.

    A não ser que se trate de algum golpe publicitário. Mas de quem?

    Quem ousaria pintar de vermelho todos os jornais? Que marcas vermelhas são mais conhecidas em Portugal deixando de fora o "glorioso"?

    Os CTT, o Continente, o Santander-Totta, a Sagres, Aucham, Vodafone...

    Foi a VODAFONE!

    Esclarecido o mistério.

    terça-feira, março 10, 2015

    A Fronteira


    Resultado de imagem para Country Border, images

    A linha que separa o domínio público do domínio privado esbateu-se com a divulgação e utilização das redes sociais.

    Aqui no Blog (e na posterior partilha via facebook) tenho sempre algum cuidado em fazer juízos prévios sobre se estarei a divulgar "segredos" só meus ou também de terceiros que podem, ou não, gostar de se ver envolvidos nestas charlas.

    Quando almoço em companhia e a ocasião é trivial, mal não faz que se relate algum episódio interessante, ao mesmo tempo que se fala do que se comeu e bebeu. Mas quando a situação é mais complexa ou - pior ainda - quando sou convidado e não "mando na bola", entendo que deve imperar alguma discrição.
    Por enquanto ninguém se queixou de alguma falta de respeito (embora involuntária) da minha parte na divulgação da respectiva presença, o que - após mais de 10 anos de Posts -  me parece reconfortante.

    Mas também no que diz respeito a questões mais pessoais podemos levantar alguma poeira.

    Por exemplo, eu ando com sintomas gripais há mais de 2 semanas e ultimamente comecei a preocupar-me (o que em mim é raro) porque a p*** da gripe não passa, dá febres baixas e arrasa os pulmões com uma tosse seca incomodativa. E não largo o paracetamol.

    Será isto do domínio público? Claro que não. Mas se servir para eu próprio brincar com a situação e exorcizar os meus demónios, então tudo bem. Só lê quem quer e a"gripe" é minha...Desde que a não "passe" a estranhos.

    Vem esta conversa aqui hoje para ilustrar uma situação engraçada (dependendo dos pontos de vista).

    Um amigo meu, um bocado dado ao convívio, queixou-se amargamente que a mulher lhe fez a vida negra quando o viu à noite, numa bela fotografia de copo na mão (através de uma página de um amigo comum) quando em teoria devia estar a trabalhar. E nem refiro qual era o local do crime...Basta insinuar que tinha tromba...

    O tal amigo fotógrafo da noite (solteiríssimo, que são os piores para estas coisas) era "amigo" da mulher dele no Face. O que o próprio desconhecia. E podem ter a certeza (sabendo-se quantos séculos as senhoras mulheres guardam estas coisinhas dentro da sua memória) que o desgraçado irá ser lembrado até ao fim da sua vida terrena deste "faux pas".

    A transparência e absoluta falta de privacidade que a tecnologia dos smartphones hoje permite também me preocupa.

    Saber que em qualquer lado um fulano pode estar a ser observado, filmado e fotografado, esteja sóbrio ou já um bocado enrolado, esteja sozinho ou acompanhado (bem ou mal), esteja num restaurante, num bar, numa casa de petiscos ou no cinema? É um bocado arrepiante...

    Por isso me parece ser importante traçar-se do ponto de vista ético e formal a tal "fronteira" entre o interesse público e anedótico geral e o direito à privacidade de cada qual.

    Podem saber mais lendo vários artigos especializados que abundam na Internet.

    Com chapelada à Srª Prof. Doutora Maria Eduarda Gonçalves, da Faculdade de Direito da UNLisboa, transcrevo:

    "...Será importante que o utilizador compreenda que se pensar em colocar algo na sua página pessoal que o deixe com dúvidas, opte por não o colocar de todo. Isto é premente (...) porque, embora não exista, actualmente, jurisprudência portuguesa que resolva esta questão, a tendência internacional é considerar as redes sociais como enquadradas na esfera pública do utilizador, independentemente das suas definições de privacidade."

    sexta-feira, março 06, 2015

    Para Descansar a Vista (com Torga)


    Ontem não pude acompanhar a Fátima e o Mário a Évora (ao nosso Fialho)  porque estava com gripe (outra vez).

    Hoje vim trabalhar mas tenho o nariz e a garganta como se tivessem sido passados com  lima de cartão, mas não aquela que se usa para as unhas dos bébés! Da outra, de lixar madeira.

    Não tenho muita paciência para andar à procura de rodriguinhos e malvasias, campos de lavanda à moda dos anúncios da Occitane e coisas parecidas. Hoje apetece-me um poema de trabalho, rijo como o granito e  agreste como a rocha nua.

    Para onde me virei? Exactamente para uma "rocha". Melhor dito, para um "Rocha". O Sr. Doutor Médico Adolfo Correia da Rocha, que conhecemos melhor como Miguel Torga.

    O grande poeta, a Voz de Trás-os-Montes, traz-nos a poesia como  expressão de alguma revolta, embora nunca de tom pessimista.

    A humanidade de Torga não abdica da sua capacidade de sonhar e de buscar a felicidade terrena.
    E nós também devíamos ser assim. Digo eu.


    Livro de Horas

    Aqui diante de mim,
    eu, pecador, me confesso
    de ser assim como sou.
    Me confesso o bom e o mau
    que vão ao leme da nau
    nesta deriva em que vou.

    Me confesso
    possesso
    das virtudes teologais,
    que são três,

    e dos pecados mortais,
    que são sete,
    quando a terra não repete
    que são mais.

    Me confesso
    o dono das minhas horas
    O dos facadas cegas e raivosas,
    e o das ternuras lúcidas e mansas.

    E de ser de qualquer modo
    andanças
    do mesmo todo.

    Me confesso de ser charco
    e luar de charco, à mistura.
    De ser a corda do arco
    que atira setas acima
    e abaixo da minha altura.

    Me confesso de ser tudo
    que possa nascer em mim.
    De ter raízes no chão
    desta minha condição.
    Me confesso de Abel e de Caim.

    Me confesso de ser Homem.
    De ser um anjo caído
    do tal céu que Deus governa;
    de ser um monstro saído
    do buraco mais fundo da caverna.

    Me confesso de ser eu.
    Eu, tal e qual como vim
    para dizer que sou eu
    aqui, diante de mim!

    Miguel Torga

    quarta-feira, março 04, 2015

    As Galinhas aparecem em tudo. São piores do que o DDT.


    Para me distrair dei por mim a contar quantas vezes apareciam galinhas em filmes , séries de TV e seus noticiários. Não falo de programas dedicados às galinhas, tipo National Geographic do Galinheiro! Falo do aparecimento sub-reptício das ditas cujas nos outros programas de interesse geral.

    Family Guy Peter Griffin TV series chickens comicsE antes que me venham gozar com o Benfica, e com as hortas comunitárias (ou biológicas , ou sustentáveis, ou lá o que é)  de Carnide, aviso já que estas galinhas de que aqui falo não voam! Embora, e já que falei nisso, seja certo e sabido que o galinhame esteja também metido nas ditas hortas que referi.

    Mas tanto em Carnide como nas de Alvalade, ou  da Musgueira, onde se situa o Centro Recreativo Águias da Musgueira. O qual não tem galinhas. Pelo menos nas salas...

    A "galinha" aparece em Ramala, na Cisjordânia, em Bagdad, em Tabriz, em Donetz. Nalguns destes locais está em vias de extinção, é mais rara do que o lince ibérico (et pour cause) mas o que é certo é que se mantêm no território.

    Na Serra da Estrela todos os velhos o sabiam: Galinha velha para a panela, galinha nova para a ova.

    Nunca se matam todas as galinhas, por causa dos ovos. Sem galinhas quem é que os vai pôr? Pôr cornos (com vossa licença)  é fácil e qualquer um (uma) o pode fazer. Mas pôr ovos?
    O imbecil que matar as galinhas todas vai chupar no dedo quando lhe apetecer uma omolete.

    Espreitando por detrás dos carros virados do avesso, passeando pelos  crateras das bombas, metendo a cabeça estúpida por entre os buracos do arame farpado, na zona de guerra estão galinhas!

    Ando agora a companhar duas grandes séries:  "Honourable Woman" , sobre o Médio Oriente e as respectivas políticas ocidentais de enquadramento, e "Gotham" uma revisitação mais ou menos fantasiosa do universo pré-Batman na cidade que o terá visto nascer.

    Em ambas aparecem galinhas. Então na que retrata o Médio Oriente chego mesmo a acreditar que serão candidatas a "Best Supporting Actress" nos próximos Emmys.

    Em Gotham podem não parecer tão evidentes. Dá-se mais pela existência do Pinguim. Pelo menos enquanto que esta série nova não introduza o famoso personagem "Egghead", típico da velha série sua antepassada dos anos 60. Mas o que será um Pinguim senão uma espécie de "galinha antártica"?

    Para além disso, em Gotham, o velho mafioso D. Falcone (admitidamente já um bocado ginja) passa a vida num galinheiro de luxo que tem lá por dentro da sua propriedade, a dar de comer às galinhas...

    Nada mais suspeito amigos: Galinhas nas zonas de guerrra, por um lado, e a virem comer à mão de um mafioso, por outro lado...

    E nem falo (porque não investiguei) nas relações da Galinha com a AT... Terão pago a Segurança Social? Foram penhoradas? Onde e como?

    Não me levem a mal. Nada tenho contra esta raça e, pelo contrário,  devo até dizer que muito as aprecio.

    Como gosto mais dela é bem tostada no forno com arroz dos seus miúdos, mas uma cabidela nunca se desdenha! Nem sequer uma galinha frita à moda da Serra de Ossa!

    Agora uma coisa é certa: eu, se fosse vossas mercês, não punha a boca no trombone em havendo galinhas por perto. Quem nos garante que não são mata-haris especializadas na recolha de informação?

    O mundo está perigoso e parece entregue aos galináceos.

    The truth is out there!  E cuidado com o Putin!

    terça-feira, março 03, 2015

    Conversas de Café

    Resultado de imagem para Emissão de selos "Café"Dizem que o último filho é sempre o preferido dos pais. Não o sei dizer porque nesse aspecto quis o destino que não tivesse mais do que uma dessas "encomendas".

    Mas no que diz respeito aos outros "filhos", aos livros e selos que vamos editando com esforço e dedicação, apoiados pela sabedoria dos nossos autores e estribados na grande mestria dos ateliers de artes gráficas com que trabalhamos, a afirmação é mesmo verdadeira!

    Acabei de ler a noite passada, em livro verdadeiro ainda a cheirar a papel e tinta de impressão, a nossa última aventura editorial "Conversas de Café" da Fátima Moura.
    E fui dormir descansado, com a ideia de mais uma vez termos cumprido o nosso dever.

    É difícil falar de uma obra que acabámos mesmo , mesmo agora,  de retirar do prelo. Por causa da tal condição de "último filho" que a torna sempre mais atraente e cheia de glamour.

    Por outro lado, sendo nós os editores, mal feito seria que apoucássemos o que acabámos de fazer... E como sermos juizes em causa própria também não é coisa que fique bem, seja aqui na edição de livros ou noutras coisas mais gerais, estão a ver o sarilho em que me meti.

    Dito isto tudo, o que é certo é que acho este livro "Conversas de Café" um dos melhores que já fizemos. Na esteira dos seus ilustres sucessores vai decerto ser um êxito editorial que muito nos vai encher de orgulho.

    Parabéns à Fátima, autora conscienciosa e de altíssimo profissionalismo! Parabéns ao Atelier AF e seus "muchachos"!  Parabéns ao Mário pelas suas fotografias!

    Um grande abraço de agradecimento aos nossos editores aqui nos CTT, mais uma vez demonstrando
    que com poucos paus também se fazem canoas. Canoas não, naus e caravelas!!

    Se quiserem ver algumas imagens do livro podem ir aqui: