quinta-feira, abril 17, 2014

Para Descansar a Vista...na Páscoa

Depois dos 40 dias da Quaresma (Quadragesima) vai amanhecer o Domingo de Páscoa, festa maior para várias religiões embora em diferentes contextos.

Neste ano não vou para a Serra . Obrigações familiares prendem-me cá em baixo, com  as minhas "santas"  a ficarem  cada vez mais velhinhas.

Mas espero que a semana seguinte, a do 25 de Abril (Sempre!), já me permita tomar o caminho das habituais "Crónicas da Serra", embora por menos dias.

Desejo uma santa Páscoa, uma muito boa Páscoa, uma Páscoa muito feliz (consoante as inclinações) a todos os leitores.

Para amenizar as cores mais sombrias do nosso quotidiano recordo com um poema  uma das  mais antigas invocações a um Deus único de que existe registo escrito.

Foi em 1400 antes de Cristo (mais ou menos) e o autor é o faraó maldito, Akénaton, marido da divina Nefertiti, o casal real que ousou converter o Antigo Egipto ao monoteísmo, pelo menos enquanto durou o sonho que foi Tel-el-Amarna:

Thou appearest beautifully on the horizon of heaven,
Thou living Aton, the beginning of life!
When thou art risen on the eastern horizon,
Thou hast filled every land with thy beauty.
Thou art gracious, great, glistening, and high over every land;

Thy rays encompass the lands to the limit of all that thou hast made:
As thou art Re, thou reachest to the end of them;
(Thou) subduest them (for) thy beloved son.
Though thou art far away, thy rays are on earth;
Though thou art in their faces, no one knows thy going.

 Fonte: Pritchard, James B., ed., The Ancient Near East – Volume 1: An Anthology of Texts and Pictures, Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1958, pp. 227-230.

E termino em português, com um poema de Sofia. E se Akenaton invocava o Sol, aqui neste poema Sofia fala-nos antes da  Lua:

Bebido O Luar

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen 

terça-feira, abril 15, 2014

A pobreza no Estado Novo

 Alguns leitores  gostariam de ler o artigo que Vasco Pulido Valente escreveu no Público, dedicado à "Pobreza no Estado Novo".

Com a devida vénia e  chapelada a meu mestre VPV, aqui vai, para esclarecer quem tem  as memórias mais fracas:

"O primeiro-ministro anunciou que Portugal não voltará tão cedo, se voltar, à relativa prosperidade de 2011. Outras personagens que o apoiam e o aprovam prevêem tranquilamente o empobrecimento progressivo do país. Nenhuma delas parece ter vivido os tempos de fome e desespero que duraram muito mais de 40 anos, durante a República, Salazar e Caetano.

Com 30 anos no “25 de Abril”, não me esqueci depressa do que era a vida nessa altura. Não falo da esquálida miséria do campo, que numa região rica a uns quilómetros de Lisboa, em que as pessoas trabalhavam o dia inteiro, envelheciam depressa e morriam de qualquer maneira, sem diagnóstico e sem assistência. Como não falo da província – do Minho ao Algarve – onde o horror se tinha tornado a normalidade. Na falta de uma experiência directa, seria um impudor.

Mas não me importo de falar da classe média (de resto privilegiada) em que nasci: e posso dizer que a pobreza contaminava tudo. O que se vestia, o que se comia, o que se fazia, o que se pensava. Mais do que na gente que mandava no Estado e no cidadão comum, a tirania estava, como dizia o outro, na necessidade de poupar, na privação perpétua da frivolidade e do prazer, no mundo imóvel e sem saída, que pouco a pouco se tornava numa prisão a céu aberto. As dores de crescimento num liceu de crianças caladas, que muito manifestamente esperavam o pior e, a seguir, numa Faculdade, que se destinava a premiar os filhos de família e a submissão, não levavam a uma descoberta ou sequer a uma aprendizagem, no seu melhor levavam a uma espécie de punição que moía e predispunha à desistência e ao cansaço.

O Portugal de hoje não conseguiria nunca perceber o Portugal de 1950 ou de 1960. Agora, até se glorifica o crescimento da economia e a estabilidade financeira do regime. O primeiro-ministro com certeza nunca se deu ao trabalho de imaginar aquilo a que a pobreza haveria condenado um rapazinho de Trás-os-Montes com uma mediana boa voz. Nem lhe descreveram o deserto que foi Lisboa nessa época de chumbo, onde ir ao café ou a um cinema de “reposição” tomavam as proporções de um acontecimento. Os sinais que o país começa a voltar atrás são claros. Verdade que a civilização que entretanto se criou não vai desaparecer. Mas nada disso consola se imitações substituírem o que existia antes e acabarmos na mediocridade e na tristeza de uma simples sobrevivência sem destino."

 E Olé!!

Ir às Hortas para Odivelas

Hoje haverá uma cerimónia na Câmara Municipal de Odivelas, comemorando o 25 de Abril. E eu lá estarei com a minha habitual "caixa" dos carimbos em prata, exibindo um carimbo que será colocado em cima da série de selos do "25 de Abril - 40 Anos" e com vários exemplares do livro homónimo que o Prof. Costa Pinto escreveu para nós.

Que maravilha podermos celebrar este dia! Para quem ainda desmerece das conquistas de Abril nada como reler o excelente artigo de Vasco Pulido Valente sobre a "pobreza do Estado Novo" escrito no "Público".

Há 40 anos o que era Odivelas? E no dealbar do Estado Novo? E antes disso?

Raul Proença  (em 1924) estigmatizava de forma violenta os habitantes dos "arrabaldes" de Lisboa:

"Quando Afonso Henriques tomou posse de Lisboa, consentiu-se ao mouro que refluísse para os subúrbios da cidade, e ele aí se estabeleceu, entregue ao cultivo das hortas, com a água a escorrer da nora generosa. É desta população consentida, mourisca e subalterna, que deriva o mais da gente que habita os contornos de Lisboa - o Saloio de tez morena, olhos e cabelos negros e castanhos, pele tisnada, membros secos, tipo sem finura de raças ou beleza plástica de linhas..."

Esqueceu-se foi de acrescentar que era essa "gente" sem finura de traços que alimentava Lisboa, que dava de comer aos "outros" belos e robustos do Norte, se calhar demasiado altos para se curvarem sobre a enxada.

Odivelas (com Loures, Amadora\Porcalhota, Sintra e Mafra à mistura) era há muitas dezenas de anos atrás uma zona de belas quintas rurais, onde para além dos lavradores e seus apêndices, existiam as antigas profissões da "lavadeira", "almocreve", "moleiro" e o inevitável "carroceiro", do qual se contavam anedotas mil.

Toda esta gente se encontrava às Portas de Benfica , local onde se efectuava a pesagem dos produtos que entravam na cidade.

(Atenção que não era às Portas de Alvalade! Nessa altura Alvalade era um couto - Quinta das Mouras -  do Sr. Visconde do mesmo nome).

O Instituto Feminino de Educação e Trabalho (protótipo do Instituto de Odivelas) foi ali fundado em 1900, e logo 12 anos depois era lá professora a grande Adelaide Cabete, médica e escritora, uma das mais importantes figuras femininas do século XX em Portugal.

Mas antes, muito antes disto tudo, Odivelas era terra arável, água e hortas.

 Odivelas é também o local de repouso do grande Rei D. Dinis, o rei iniciado. 

Dizem que a D. Dinis e aos seus hábitos lascivos se deve o nome da Vila. Parece que visitava ali muitas jovens do seu agrado, pela noitinha. A Rainha Santa  Isabel  uma vez  fez-lhe uma espera com as suas damas e gritou-lhe  "Ide vê-las Senhor, Ide vê-las!"

Feliz teria D. Dinis sido naquele lugar, porque ali quis ser enterrado.

No seu repouso terreno -  o Mosteiro de S. Dinis e S. Bernardo de Odivelas - as Madres sempre trabalharam bem nos fornos e nas panelas, tendo ali ao pé avultado fornecimento de ovos, e dádivas generosas de açucar:

"O Convento de Odivelas foi, sem dúvida, um dos que mais contribuiu para a doçaria de Portugal.
As suas especialidades em confeitaria e doçaria, fabricadas pelas freiras bernardas fizeram tradição. Destacam-se a célebre Marmelada de Odivelas, os Suspiros de Amêndoa, asRaivas, os Tabefes, os Esquecidos, o Toucinho do céu, entre outros."
Lembremo-nos a terminar da Madre Paula, famosa amiga especial de D. João V, que muitos favores alcançou para o Mosteiro.
Odivelas é terra boa, terra de prazeres terrenos e de gastronomia antiga. Vou gostar muito de ali celebrar o 25 de Abril 40 anos depois. Até porque foi ali - Quartel da Pontinha - que se baseou o Posto de Comando do MFA. 

segunda-feira, abril 14, 2014

Espreitar a vida alheia, lucro ou prazer?

O fenómeno conhecido em literatura como "voyeurism" é definido no Oxford Dictionary como:
A person who gains sexual pleasure from watching others when they are naked or engaged in sexual activity.

A simples cusquice que não implica necessariamente nem nudez , nem truca-truca, aquilo que os anglo-saxões chamam "creeping",  é muitas vezes considerada como "espionagem" em bom português, mesmo que os segredos "do outro" nada tenham a ver com submarinos nucleares ou margens de rentabilidade de produtos apetecíveis.

Existem muitos locais na net que ensinam os truques que o "candidato a espião" deve utilizar. Alguns deles, como este:
http://lifehacker.com/5952171/the-best-ways-to-invade-someones-privacy
são relativamente inofensivos e até começam por explicar que se trata de práticas ilegais e sem dúvida não éticas. Outros são  muito mais agressivos.

Mas o hacker profissional que se transforma em "creeper" ou que vende os seus segredos a outros "creepers", sabe muito mais do que está escrito nestes artigos.

O motivo que as pesquisas  dão como sendo o mais frequente para justificar esta invasão da vida alheia por particulares é conhecido desde o início do mundo, desde aquela altura em que Caim e Abel começaram a "marrar" um com o outro: o velhíssimo ciúme.

Homens e mulheres ( e advogados de uns e de outros, e detectives privados a soldo de uns e de outros) a querer saber onde foi que a "cara metade" passou a tarde,  com quem foi na viagem de negócios, para quem telefona, a quem envia mails.

Depois do ciúme, existem como mais frequentes justificações para o creeping\espionagem as que envolvem a espionagem industrial ou comercial, as preocupações dos pais para saber por onde andam os filhos, e as preocupações dos empregadores para controlar o que fazem e onde estão os empregados, sobretudo a chamada "força de vendas".

Lá para o fim disto tudo aparecem na estatística os verdadeiros "James Bond", os espiões herdeiros da honrada tradição da guerra fria.  A espionagem pura e dura de Estado .

Estas aplicações "profissionais da cusquice" aparecem em último lugar porventura porque os verdadeiros espiões sabem o que fazem  e os mais bem sucedidos não são detectados e continuam a espiar sem que ninguém dê por eles.

Se estão a pensar na NSA são capazes de ter razão... Bom Dia Edward Snowden.

Uma das histórias mais engraçadas desse período da guerra fria , dos anos 50, foi a daquele diplomata sueco com quem alguém (um novato soviético)  tentou fazer chantagem com várias fotografias dele num quarto de hotel com uma companhia que não era a "legítima". E ambos nus e em acção.

O diplomata olhou, sorriu e disse para o cinzento funcionário que lhe apresentara o dossier fotográfico:
-"Olhe, gostei muito! Seria possível arranjar-me umas ampliações desta e daquela fotografia para enviar à minha mulher? Ela devia adorar!"

Espia-se para quê?  Nos casos que não são doentios (e incluo aqui a grande maioria do ciúme, bem assim como a "auto-gratificação" do triste doido que espia apenas para gozo próprio ) espia-se normalmente para encontrar alguma coisa que permita fazer pressão sobre o visado.

Nos dias de hoje, quando  as inclinações sexuais de cada um têm cada vez menos importância social, uma das melhores formas de "aplicar pressão" sobre o "alvo" parece que é a evasão fiscal... Imaginem: o IRS, o IRC e as outras obrigações legais, como a falta de pagamentos para a Segurança Social.

Nos países do sul, onde historicamente uma pessoa que não paga impostos é "um esperto" e o que paga é "um nabo", tenho algumas dúvidas sobre o opróbio social destas denúncias públicas. É claro que se a denúncia for à Repartição de Finanças, é capaz de haver mais chatices.

Mas nada que se compare ao "cacau" que daria se a mesma denúncia fosse feita nos USA...

Há até toda uma jurispridência norte-americana feita em volta desta  aparente contradição:
"Se a chantagem em si já é crime, será aceitável fazê-la para não denunciar outro crime? Por exemplo, exigir a alguém um contrato vantajoso  para  não denunciar que esse visado cometeu um crime fiscal"

Leiam aqui sff uma análise do tema:
http://law.jrank.org/pages/569/Blackmail-Extortion-paradox-blackmail.html

Tendo em atenção a história recente dos administradores do BCP, a única coisa que devo aconselhar a quem se queira meter nestas (ou noutras)  jogadas ilegais onde sejam alvo de denúncias,  é que tenham dinheiro.

Sendo ricos podem esperar pela passagem das ondas sem problemas. Meses e meses, anos e anos, até à Prescrição...

Perante a Justiça todos os Homens são iguais. Mas...sempre houve  homens que eram mais iguais do que outros. Desde o tempo do Adão. Quanto mais hoje, que há Internet...

sexta-feira, abril 11, 2014

Para Descansar a Vista...Em Abril

Numa entrevista que Manuel Alegre deu ontem à TSF ouvi a história estranha do seu poema "Lisboa  Perto e Longe", escrito em 1967, e onde uma das estrofes parece falar já do 25 de Abril.

O poeta não sabe explicar esta coincidência. Sendo agnóstico deve achar tudo isto muito curioso mas apenas isso. Uma daquelas coincidências que surgem de vez em quando...

Não sei se neste caso concreto não será para alguém mais crente no "oculto" ver aqui um daqueles buracos no "espaço-tempo" por onde é possível vislumbrar o futuro.
O que obviamente só se confirma depois do acontecimento "adivinhado" se concretizar.

Porque até essa altura nem o visionário "avant la lettre" nem o seu leitor sonhariam que estavam a ver o futuro dali a 7 anos,  "plasmado" num poema.

Por mim, sempre que me deparo com estas coisas  utilizo o conhecido aforismo   da cultura popular espanhola,  mais vulgarizado por Miguel de Unamuno:

"Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay".

O meu sogro para exorcisar o temor do desconhecido, e preocupado com maus olhados , crendices e feitiços, sempre dizia:

- "Pata de coelho na mala do carro, ferradura de mula atrás da porta , corno de carneiro na gaveta das peúgas".

E acrescentava que "cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém".

Por acaso já morreu (como acontece a todos). Mas enquanto foi vivo acreditava piamente nestas práticas como "profilaxias da desgraça".

Nem serei eu que pensarei mal de algum dos leitores se tomar estas precauções também.

Lá vai então o poema em causa:

Lisboa perto e longe

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa -- branca e rota
a blusa de seu povo -- essa gaivota.

 Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

 Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas -- povo armado
de vento revoltado violas astros
-- meu povo que ninguém verá de rastos.

 Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros -- mar aberto
-- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.

 Lisboa é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

 Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos.

 Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.

  Manuel Alegre
 

 

quinta-feira, abril 10, 2014

O Tempo

Desta vez não me vou queixar do S. Pedro (que parece ter ido já recauchutar as orelhas, de tanto ardor que tinham) mas sim de alguém ainda mais antigo. Muito mais antigo por acaso,

O velho Cronos, titã da mitologia grega que tinha o mau hábito de comer os filhos assim que estes nasciam. Comer mesmo! Não era "comer à moderna"! Digamos que para um Pai ambas as coisas são condenáveis, mas a que envolve mastigação será muito pior. Sobre o assunto diz-nos a Wiki:

Esta representação deve-se ao facto de os antigos gregos tomarem Chronos como o criador do tempo, logo, de tudo o que existe e pode findar, sendo que, por este facto, se consideravam como filhos do tempo (Chronos), e uma vez que é impossível fugir ao tempo, todos seriam mais cedo ou mais tarde vencidos (devorados) por ele.

Pois o que me parece estar agora a acontecer é que começa a faltar-me o tempo. As horas e os minutos. Não no sentido da morte a esperar!! Nada disso. Essa quando vier que venha, estarei pronto para nova aventura! Sou optimista  todos os dias!

Apenas acho que me falta o tempo para as coisas do dia-a-dia. Cada vez mais a filatelia é objecto do interesse da sociedade civil. Cada vez mais há que sair para fora do nosso umbigo, explicar as entrelinhas deste velho negócio, combinar apresentações e lançamentos, falar de Postais Inteiros e de carimbos comemorativos.

E, por outro lado, as minhas idosas  -  as "santas" como lhes chamo - estão cada vez mais frágeis e a precisar de acompanhamento. E como o "Je" é viúvo e filho único, para cima dele caem as obrigações.

A santa lá de cima andou semana e  meia com um pé partido porque se recusava a ir ao médico e ao hospital, com medo que a engessassem e não pudesse "acomodar o vivo".  Tratar das galinhas, patos, coelhos e mais bicharada. Imaginam se isto ainda pode acontecer no Portugal de hoje??!! Pois eu também não imaginava...

As duas cá de baixo andam agora à volta com as gripes. E todo o cuidado é pouco para evitar complicações de pulmões. Que já começaram.

Com um olho no burro e outro no ladrão (o politicamente correcto malta!!) por cá vou vivendo.

Valem algumas coisas boas da vida: o magnífico cozido à portuguesa em casa do amigo Álvaro de Sábado passado (mais um de cair para o lado, só com produtos do chamado Pinhal Interior Sul, que agrupa Oleiros, Vila de Rei, Sertã e Proença-a-Nova ); a volta ao pequeno écran dos Da Vinci Demon's e War of Thrones;

E sobretudo o magnífico livro de poemas de Manuel Alegre ontem apresentado no Quartel do Carmo, País de Abril, posto à venda pela D. Quixote a preço de saldo para que se esgote. E bem merece!!

Até amanhã e aproveitem bem o Tempo!  Tal como a Terra, este também já não se fabrica...

terça-feira, abril 08, 2014

Pequenos prazeres que custam pouco, ou nada...

O nosso amigo  Américo, com a sua crónica sobre o "banco público" que consta ontem dos comentários, lembrou-me que muitas coisas boas da vida não custam ...dinheiro. Podem é custar outras coisas.

O "banco público" é genial. Não é obviamente a Caixa Geral de Depósitos!! Nem sequer o Banco Público para Células Estaminais, ou o Banco Público de Sangue! Trata-se sim do banquinho de madeira ou de ferro que os poderes públicos, as autarquias benévolas, pôem à disposição dos transeuntes para conforto dos reais assentos de quem passa.

Sendo o nosso mundo o que é, obviamente que houve já alguém que complicou uma ideia maravilhosamente simples.  Vejam lá isto:
Como tradicionalmente os bancos de praças públicas reúnem pessoas para uma boa conversa,  a Fisherman’s Friend criou o “Banco da Amizade”, que não permite que alguém se sente sozinho sobre ele. O banco possui um eixo central por onde se equilibra todo o peso. Dessa maneira é necessário se ter no mínimo duas pessoas sentadas para que ele não caia para um dos lados.

Mas que ideia do car****.  (do caraças, ordinários!)

Outra ideia de uma coisa boa sem custos é um beijo.  Um beijo é sempre bom e pode até ser muuuito bom. Teoricamente não terá custos. Na prática...pode sair mais caro que um carro de gama alta. Mas isso é estar já a desconversar.

Quanto custa um sorriso? E não é bom andar por aí a sorrir, distribuindo boa disposição ?

Neste caso dos sorrisos e deixando de lado as razões que se prendem com o "karma" de cada qual, até parece que a sorrir vão as pessoas ganhando . Envelhecem menos e gastam menos músculos da cara do que se andassem mascarados de elefantes.

Finalmente, uma coisa muito boa e importante, relativamente barata (para não dizer gratuita) e frequentemente desvalorizada: o silêncio!!

O sossego do silêncio durante a noite, o silêncio que permite  "ouvir" a Natureza, o silêncio que acalma e traz a paz. O silêncio intercalar sem o qual não existe a pausa que permite apreciar a boa música.

Em casa de homens ( que é o que se passa comigo) o silêncio é muitas vezes rei e senhor. Quando chega a "santa" lá às "premissas" parece que se abriu a torneira do som à radio da Feira da Ladra.
Nem sonham o volume da cacafonia! A "santa" começa a estar tão surda como o Penedo da Saudade, o que a leva a puxar pelos decibéis tal e qual como se fosse o Abrunhosa no Pavilhão Atlântico... De fugir de uma e do outro (digo eu).

Mas quando parte a idosa senhora, o silêncio que se cria por  bendita antinomia sabe quase tão bem como chegar a casa e beber uma cerveja bem fresca depois de duas horas na fila  à saída da Praia da Comporta nalguma tarde de Agosto...

E, já agora que penso em praia, coçar as partes também não custa nada e sabe bem que se farta. Mesmo dentro do mar, onde estamos mais à vontade.

Ponham lá na lista sff.

segunda-feira, abril 07, 2014

Para a beira mar Malta!

O problema é que é Segunda Feira... O tempo está bom e recomenda-se. O solzinho apareceu e as temperaturas vão para cima dos 22 graus.

Mas é Segunda Feira.

Nas Segundas Feiras vão passear os pensionistas e reformados que ainda podem, vão passear as criancinhas se as levarem, podem ir passear os desempregados, se encontrarem ânimo para tal. Mas quem trabalha ( e muito obrigado por isso!) não pode.

Nos finais das tardes -  e agora que mudou a hora é de dia quase até às 20h -  apetece mais "desopilar".

O preço que se paga por uma qualquer bebida nas esplanadas à beira mar já se torna disuassor dessa simples aventura?

Depende... Das esplanadas e do bolso de cada um. Mas não deixa de ser sintomático que se contem hoje os euritos para uma vodka tonica de fim de tarde. Ou para uma Sangria de Espumante...

A antecipação de um copo ao  pôr do sol em boa companhia (pode ser o cão, mas de preferência seria outra coisa) é sempre sinal que a primavera anda no ar.

Os amigos gauleses costumavam dizer "Couture et peinture sont les occupations de Printemps".

Eu não sei coser ( sei mais ou menos cozer, o que não é a mesma coisa) e muito menos pintar, embora tente dar trabalho a alguns pintores.

Por isso, aqui vai copo. Ou, melhor dito, jarro.

Experimentei com o meu senhorio esta sangria e aqui a deixo para vossa crítica depois de experimentarem. É muito mais barata fazê-la e bebê-la em casa do que em frente ao Tejo, numa das esplanadas da moda... Mas não é a mesma coisa!

  • 1 garrafa de espumante rosé Loridos (por ex)
  • 150g de frutos silvestres (podem ser dos congelados)
  • Morangos q.b.
  • 2 paus de canela
  • 4 colheres de sopa de açúcar mascavado
  • 50 ml de vodka
  • cerca de 1 litro de 7up Limão
  • umas folhas de hortelã pimenta frescas
  • Gelo q.b. 
Num jarro coloque os frutos silvestres, o açúcar e a vodka. Em baixo umas folhas de hortelã.
Mexa. Junte os paus de canela e a garrafa de espumante. Acabe de encher o jarro com a bebida gaseificada e o gelo.  Decore com os morangos e mais algumas folhas de hortelã.  Bebam!

sexta-feira, abril 04, 2014

Para descansar a Vista...Em Restaurações e Libertações

Hoje de manhã , à saída da Versailles, reparei numa carrinha de caixa aberta,  já idosa, que trazia pendurado na porta traseira (de acesso à carga) o letreiro: "Fazem-se Restaurações".

Pensei logo que se tratava de algum descendente dos "conjurados de 1640", o qual teria caído em desgraça por causa da crise económica , tendo por causa disso decidido oferecer publicamente os seus serviços de "restaurador" à pátria, ou a quem mais o necessitasse.

Podia também ser uma manobra publicitária do Sr. Vice-Primeiro Ministro Paulo Portas, já inebriado com a iminente "restauração" da nossa soberania, nós que estaríamos (segundo ele)  sob um regime de protectorado.

A ideia mais prosaica era evidentemente estarmos na presença de um profissional da construção civil, que seria perito em "restaurar" casas e apartamentos, fachadas e chãos de cozinha, portas e janelas. Muito capaz de instalar na perfeição alguma "marquise", acessório que já foi tão de moda lá para os lados de Belém.

 Eu teria algumas dúvidas, porém, em adjudicar-lhe algum trabalho.

 Isto porque a carrinha em causa exibia orgulhosamente na janela traseira um cachecol do Sporting Clube de Portugal onde se lia: "Sporting Campeão Nacional 2001\2002".

O problema nem era a simpatia clubística (nessas coisas sou um liberal) mas sim a idade provecta do artefacto, tão desbotado do sol e do tempo que já nem se via a corzinha... Imaginem a idade do "operário"...

Deixemos estes detalhes e passemos à poesia. Para rimar com "Restauração" de uma forma que não seja nem imediata, nem Pimba (o inefável "coração" vem à memória imediatamente) sugiro que se glose hoje - 4 de Abril - mês da Liberdade,  outra palavra : "Libertação".

Do poeta angolano Antero Alberto de Abreu (Luanda, 1927) aqui vos deixo um soneto:

Libertação

Das mentiras loucas que me envolvem
Vou quebrando os liames um a um
E da angústia da libertação
Nascerá um dia a paz
Do ser e do não ser.


Das mentiras vãs que me amordaçam
Os véus arrancarei a um e um
Tristes despojos dum passado velho
Que em mim se quis perpetuar.


E deixarei um rasto de desilusões;
Um caminho de lágrimas choradas;
Um pouco do que fui em cada dia.


Mas ficarei seguro e afirmado,
Com a serenidade dum Buda na floresta,
Com a nudez dum Cristo no redil.


Antero Alberto de Abreu - Permanência  -  Lisboa, Edições 70

quinta-feira, abril 03, 2014

O Joel em Peniche

Peniche tem recordações muito ligadas à mitologia do 25 de Abril. Para o seu Forte eram recolhidos os "opositores ao regime". No seu Forte teve lugar uma das mais conhecidas fugas de presos de que há memória em Portugal, protagonizada por Álvaro Cunhal, em 3 de Janeiro de 1960.

Aqui ficam os nomes dos heróis dessa fuga, para memória futura:
Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, José Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério de Carvalho e Francisco Martins Rodrigues.

Foi Rogério Paulo (o actor de teatro) que deu o sinal para a fuga. E na primeira noite de liberdade Álvaro Cunhal veio dormir para S. João do Estoril, na casa de Pires Jorge, onde acabou por viver ainda algum tempo na clandestinidade.

Nestes tempos algo conturbados e esquecidos faz bem recordar estas histórias.

Mas Peniche é também lugar de bem comer. Famoso pelas suas lagostas, pargos e cardeais, percebes das Berlengas e por tantas outras maravilhas da nossa gastronomia marítima.

Em Peniche existe a Tasca do Joel. Numa rua antiga com o improvável nome de Rua do Lapadusso. nº 73.

Para lá ir ter sem GPS o melhor é tentarem dar com o cemitério (cruzes , canhoto!) e após essa plantação de tabuletas virarem à direita (para quem vem do cabo) ou à esquerda, para quem vem do forte. E perguntem.

Tasca do Joel
Rua do Lapadusso 73
 2520 370 PENICHE

Telefone: 262782945

Na Tasca do Joel existe uma sábia coordenação a que poderemos chamar  o "dois em um". Há uma loja gourmet para vinhos, charutos, petiscos e destilados. Há um restaurante onde podem ser provados logo a seguir os produtos comprados na Loja, sem aumento de preço!

Que grande ideia!

A minha recomendação é que cheguem cedo, vão para a loja, escolham o vinho do almoço (vão cedo para permitir ao branco refrescar). Paguem o vinho. Depois sentem-se e "mandem vir". Não sem antes passarem obrigatoriamente pela montra do peixe fresco!

No Joel deve comer-se aquilo que o mar deixou apanhar no dia a dia (encerra segundas feiras e domingos à noite).  Mas a sua oferta "fixa" é mais ou menos esta:

Entradas: Pataniscas da Tasca; Salada de ovas;Presunto Maldonado; Chouriço assado; Morcela de arroz;
Peixe: Bacalhau à lagareiro; Lulas grelhadas; Espetada de lulas; Bacalhau à tasca; bacalhau à joel; Bacalhau com puré. Peixes frescos do dia.
Carne: Alheiras à tasca; Franguinho à tasca; Lombinhos de porco preto; Secretos de porco preto; Bife à lapa do urso; Javali à tasca com castanhas; Codornizes; Espetadas de porco; Espetadas de perú; Entremeada.
Doces: Pudim de pão; Pudim de ovos caseiros; Pastéis típicos da tasca; Doce de manga.

Dois Mânfios ali aportaram num destes fds. Comeram presunto Maldonado, chouriço assado de Garvão, lulas grelhadas simples . E depois um Cardeal soberbo assado no forno com legumes e batatas novas salteadas.
Nota: Cardeal é um peixe vermelho de carne  firme e branca,  muito próximo do que chamamos em Cascais "Imperador".

Antes tínhamos passado pela Loja e mercou-se uma garrafa dos Projectos Dirk Nieepoort, um Tinto Cão de 2009. Foi este tinto raro , leve e seco, que fez boa companhia ao Cardeal. As entradas foram acompanhadas por dois copos de branco Quinta de Saes Reserva (belo serviço de vinho a copo!).

Um Terrincho velho serviu de sobremesa, terminando-se com Balvenie malte de 12 anos. E fez-se esta festa toda por pouco mais de 80€.

Não gostei apenas de duas coisas: têm o queijo frigorificado. E o peixe, se não avisarmos antes, é escalado antes de posto ao lume... Mas como estou aqui a avisar, qualquer destas coisas é  facilmente ultrapassável com uma pequena conversa antes de nos sentarmos:

-" Amigo, sff tire o queijo de frio e por favor asse (ou grelhe) o peixinho inteiro, como Deus Nosso Senhor o fez".

E pronto!

Aproveitando a viagem aviou-se ainda uns vinhitos mais, que beberemos em honra e memória dos fugitivos de 1960!

terça-feira, abril 01, 2014

Mentiras

Depois de uma segunda feira atribulada com mais médicos e clínicas (onde se veio a provar que,de saúde geral, a "santa" cá de baixo está melhor do que eu e do que o médico dela...) chegámos ao 1º de Abril.

Excepto quanto à sua génese em França, não se entendem os peritos quanto ao acontecimento que esteve na origem deste dia, mas toma algum corpo a ideia que teria sido alguma alteração no calendário havida em França por volta de 1550 que deu origem à tradição. Há também quem diga que o 1º de Abril era dia de proibição de pesca em França, pelo que se tornou costume oferecer por chacota aos pescadores em terra um arenque fumado nesse dia. O "poisson d'Avril" , a mentirinha graciosa que se prega a amigos e familiares terá assim começado.

Agora por França, o nosso amigo François Hollande suponho que estará neste momento desejando que os resultados das eleições locais tivessem sido uma mentira de Abril antecipada, mas isso é outra história!

Neste dia ofereço aos meus amigos e leitores um conjunto de mentirinhas de Abril para escolherem:

- Académica, Braga, Vitória de Guimarães, Tondela, Estoril, FC Porto e Belenenses acabam por formalizar a constituição de uma segunda Liga de Clubes, que organizará os campeonatos de acordo com a regulamentação vigente. FCP e Estoril-Praia terão assim acesso imediato à Champions.

- Pedro Passos Coelho e António José Seguro foram vistos a sair da Horta dos Brunos ontem à noite. Em consequência Paulo Portas convoca Conferência de Imprensa para hoje. Receia-se mais uma irrevogável  demissão.

- Os CTT Correios de Portugal adquirem posição dominante na Tabaqueira.  Admite-se que a iminente legalização do consumo de marijuana em Portugal poderá explicar esta operação.


- BCP solicitou ao BP a passagem a Casa de Câmbios.

- Foi descoberta a famosa cave escondida do BPN. Luis Mira Amaral, agastado com a divulgação da notícia, não confirma nem desmente que se teria lá encontrado a múmia de Alves dos Reis em sarcófago importado da antiga União Soviética.

- USA e Federação Russa chegam finalmente a acordo sobre a Crimeia: Putin compromete-se a libertar a Crimeia quando Barak Obama entregar o Alaska aos russos. Acordo foi selado com sorridente aperto de mão.

- BE pede integração em bloco  no PCP. Jerónimo de Sousa não aceita esta solicitação incondicionalmente e pretende escolher os militantes, um a um. "Há lá garinas que vale a pena entrevistar",  terá dito o patriarca...

- Miguel Relvas apresenta a sua candidatura a Secretário Geral da Academia Portuguesa de História. Segundo ouviu dizer, "é mais fácil branquear a história estando lá mesmo ao lado da máquina de lavar" 

sexta-feira, março 28, 2014

Para Descansar a Vista

Ontem foi dia de apresentação dos nossos livros "Sagres" e "Creoula"  - Autor: Capitão de Fragata Manuel Gonçalves. E já à venda numa Loja de Correios perto de si :):)  - foi no museu de Marinha, com a habitual pompa e circunstância destes eventos, realçada pelo brilho das fardas de tantos ( e bons) Srs Almirantes presentes.

Depois foi altura de ir dar um abraço apertado ao Amigo Acácio, pelos 70 aninhos de uma vida bem cheia de boas recordações. Mestre Acácio, o designer que trabalhou com os melhores do seu tempo (Sebastião Rodrigues, Vasco Lapa) e a quem todos eles recorriam a pedir conselhos ,  tanto para a vida profissional como  para a vida pessoal... Um outro abraço, Amigo, aqui te envio hoje também,  a somar aos de ontem.

Desta forma - por bons motivos - ontem não houve tempo de passar por aqui...

Vamos retomar o mote da amizade para o poema deste dia. 

Do grande Alexandre O'Neil (que também  partilhou tempo e espaço com o Luiz Duran e o Acácio) aqui vos deixo "Amizade".

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

 



quarta-feira, março 26, 2014

Um Chaço?

Acho que todos, ou quase todos,  gostamos da AUDI. Marca antiga e com muita qualidade  que começou a sua apresentação pública pelo desporto automóvel,  talvez em 1933. E ficaram célebres os AutoUnion que antes da 2ª guerra (1935\1937) dominaram as pistas de Grand Prix da Europa, com Tazio Nuvollari e outros grandes pilotos ao volante.

O que se dizia na altura é que poucos tinham "unhas" para segurar 520bhp ( cavalos)  de potência naquele tempo, com travões "de bicicleta"... Recordes mundiais de velocidade (320km\h) e máximos de subida de rampas foram estabelecidos nesses dias por estes carros como se passeassem no Jardim da Estrela, tal a superioridade técnica que lhes era dada pelo Engº Ferry Porsche, filho do "outro" Porsche que inventou o Volkswagen.

Quem não gostaria de ser ainda hoje "Porsche", nem que fosse pela parte de algum primo distante?

Mas divago.

Continuando: Pois eu, que até já tive um Audi A4 distribuído como carro de serviço ( e gostei!) acho que depois deste anúncio do concurso Factura da Sorte coordenado pelo Sr. Governo - conhecida na gíria como o AutoTottaSorteio  e que fará sortear 52 viaturas A4 e 6 viaturas A6 - os "outros" clientes da marca AUDI vão passar a  andar na rua de tromba descaída, trocando a sobranceria da possessão orgulhosa pelo medo que lhes atirem a ignomiosa frase:

-" Olha lá oh meu! Ganhaste o chaço na Factura da Sorte não??!!"

À cautela recomendo que os gestores de frotas aproveitem esta condição de "carro popular" para comprarem mais barato ainda os AUDI...  No fim de contas não é todos os dias que se faz o milagre de transformar um A4 num "topo de gama"...

É que depois do A4 ainda há o A5, o A6, o A7 e o A8. Sem falar na gama "Q", toda ela situada em preço acima do A4 base. Mas que gama de topo mais alargada...

Será que a BMW e a Mercedes se estão a rir com esta história?

Pode ser que sim, mas serão risos de raposa velha a desdizer das uvas:  "estão verdes , não prestam", depois de terem perdido o concurso em causa.

Uma coisa é certa: quem já  tem AUDI A4 ou A6  deve  preparar-se para ser alvo da  piadética nacional.

E quem estiver para comprar? Para bom entendedor...

terça-feira, março 25, 2014

As misturas

O meu Pai sempre me avisou para "ter cuidado com as misturas". Referia-se às qualidades de álcool, está claro!

Misturar a cerveja com o vinho, o whisky com o gin, a aguardente velha com a ginjinha.
Dizia-se que "fazia mal". E que a pior "borracheira" de todas , pela ressaca que dava, era essa da mistura.

Os factos científicos nunca comprovaram essas ideias. Segundo os entendidos, "álcool é álcool, e o grau de cada bebida é que influencia a situação geral do bebedor, não o tipo de bebida".

Mas a tradição tem muita força.

Reparem que só falo de bebidas meias "cotas". É sintoma da idade que levo e da pouca experiência ( e pouca paciência) que tenho actualmente de frequentar os locais da "night" onde se bebem os "shots" da moda.

A Vodka, por exemplo, não sei se por causa da longa noite fascista e das suas conotações soviéticas, não era bebida da moda naqueles anos 70's. Mas dessa ainda aprendi a gostar moderadamente - com gelo, limão e água tónica. Agora  de  "shots", servidos em copos estreitos gelados, a que  os antigos empregados da arte chamavam   "copos a bagaço", não consigo gostar.  Não me sabem bem, não lhes consigo encontrar complexidade de gosto. Parecem-me  simples  injecções de grau álcool.

Mesmo assim, e apesar do meu desconforto, conheço malta da minha idade que nunca deixou esse hábito de frequentar os bares e discotecas a partir das noites de Quinta Feira (dizem que é quando a estudantada mais aparece), estendendo-se para a Sexta e para o Sábado. Ou têm fígados de ferro velho ou já nem sabem o que fazem à conta da cirrose hepática?

Claro que não! Porque não admitimos que se pode tratar de pessoas que gostam dos ambientes e da música? E de ver a malta nova, está claro!

Essa ideia que temos de nos embriagar por obrigação quando saímos à noite é uma coisa muito "moderna" e "práfrentex" que era olhada de soslaio há 30 anos atrás.

Não é que a malta não se empiteirasse de quando em vez! Pelo contrário! Mas quando saíamos à noite o objectivo primário era "engatar a miúda" e não  levar uma ou duas "peruas" para casa...

Não sei  se ainda hoje assim é, mas naquele tempo, um gajo copofónico a tentar engatar uma jeitosa era algo  que  levava imediatamente  o "Frigidaire" do Jaime Aury - famoso porteiro do Maxim's,  2m de altura para 140 kg de músculo - a pôr o impetrante na rua ao pontapé.

Nenhuma garina de respeito admitia que um gajo que a admirasse começasse o idílio perdido de bêbedo. Creio, admito e acredito piamente que ainda assim é.

Então porque motivo a malta nova (eles e elas) corre hoje ansiosamente para os balcões dos bares à procura da bebedeira mais rápida que houver, assim como se levassem um foguete espetado no cú?

Talvez porque o "bem estar" provisório e muito passageiro da "cadela" se sobrepôe na bolsa de valores da malta ao prazer da companhia do sexo oposto? Então, das duas uma: ou não sabem fazer amor - o que é o mais natural. Ou pretendem uma gratificação quase imediata e sem envolvimento emocional.

Conversa de velhos e a cheirar a mofo! Têm razão.

Por mim cada vez mais aprecio o vinho e menos os "espíritos". E cada vez bebo menos, porque o vinho que aprecio está cada vez mais caro...

Nesse preceito não sigo meu mestre Jean Anthélme de Brillat-Savarin, segundo o qual "o prazer dos bons espíritos se devia reservar para os anos já maduros, quando os frios da idade sugerissem o aconchego de um cognac envelhecido a preceito".

Eu adiantei-me. Acho que durante a minha juventude já  esgotei a minha "quota" dessas coisas. Whiskies de Malte ainda  bebo hoje em dia, como coroa de uma grande refeição, fazendo companhia a um bom charuto - situação cada vez mais rara no meu meio ambiente devido à época de austeridade.

E até já admito que um destes dias ainda me poderão ver a namorar com um copo de um grande Porto Vintage nas mãos... É a PDI...

segunda-feira, março 24, 2014

Tanto barulho para nada...

Much Ado About Nothing é uma peça hilariante do velho bardo William Shakespeare, provavelmente escrita em 1599, no auge do talento do grande escritor.  Nela se compôe uma comédia de enganos em torno de amores e desamores, passada em Messina.

Nota: Provavelmente muitos de nós recordam-se melhor do filme (1993) de Keneth Branagh, com o mesmo a fazer de Benedict, e ainda com Emma Thompson e Keannu Reeves.

De todas as formas o que aqui interessa é a intriga: há um casal de amantes um pouco parvos que se amam sinceramente à vista de toda a gente, e um outro de amantes muito mais espertos, que se revelarão apaixonados também, mas que ao início disfarçam o interesse com facadinhas e agastamentos... Nos "finalmentes"  são todos  levados ao altar e  acaba tudo em bem, com algumas confusões mas sem mortes ( o que é raro em Shakespeare).

O enredo desta peça de teatro pode ter alguma coisa a ver com o portugalzinho do futuro. Vemos como hoje aparentemente se encontram de costas viradas os chefes de PS e PSD. Mas há quem jure e trejure que se trata apenas de aparências! Na intimidade parece que se cozinha já algum arranjinho debaixo das saias protectoras de uma certa "anja" tedesca.

Por causa disso até consta que  o actual "casal" governamental pode andar relativamente tresmalhado por causa da intromissão do "outsider" Tó Zé .

O que ainda não se sabe é se daqui a 2 anos o "casal governamental" não acabará por ser outro, "casamento"  esse apadrinhado com grande satisfação pela paróquia de Santa Maria de Belém...

Ou se,  em alternativa, o assunto viraria um "ménage à trois", com Portas, Passos  e Seguro tentando uma convivência algo estranha (mas sempre possível) ao mais alto nível da governação...

Transformando as coisas sérias em comédias de costumes parece que estaremos mais à vontade para dizermos o que nos vai na alma.

Neste caso concreto e à falta de palavras que não resvalem para a ordinarice, tal a esquisitice desta "real politik", acho que me vou refugiar em alguns provérbios lusos:

 - Abre um olho para vender, mas dois para comprar ( e votar)...
 - Anda direito se queres respeito
 - As contas adiantadas saem sempre furadas...
 - Barriga cheia, companhia desfeita...
 - Cada macaco no seu galho...
 - De Janeiro a Janeiro o dinheiro é do banqueiro...
 - Promessas, ovos e juras, foram feitos para quebrar...

 E termino com uma grande verdade à moda do Brasil brasileiro:

 - Em rio de piranha, jacaré nada de costas...

Vá malta lusa, tudo a aprender a nadar! De costas!

Mais poesia de expressão portuguesa

O Amigo Américo , no local do costume, propôe Moçambique e Cabo Verde em poemas! A não perder!

sexta-feira, março 21, 2014

Para Descansar a Vista

Neste Dia Mundial da Poesia (UNESCO) hesito entre o óbvio "hululante" - Camões e Pessoa - depois da decisão saudável de me manter dentro dos confins desse Oceano que é a Língua Portuguesa...

Não vos dou Camões nem Pessoa, achei melhor usar a abrangência da nossa língua para fazer um pequeno percurso sobre vários poetas que escrevem português em locais muito diferentes.


Se houvesse degraus na terra...
 
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

 Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

 Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

 Herberto Helder (Funchal)

 Insensatez

Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado
Ah, por que você foi tão fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro)

Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara (Benguela)


quinta-feira, março 20, 2014

A Prima

Chegou a Primavera. Veio tímida e demasiado recatada para o meu gosto. Depois de um Inverno de água (ainda bem) esperava-se uma Primavera mais meiga e ensolarada.

Mas como deixei de tentar compreender o clima nestes tempos de cataclismos planetários - El Niño; Aquecimento Global; Efeito de Estufa... - nem sequer me vou preocupar a prever o tempo que fará amanhã.

Quando acordar abro a janela e logo se vê. Isto se se vir alguma coisa, porque como eu acordo com as galinhas, na maior parte das vezes não vejo nada. Nem a ponta do meu nariz.

Poeticamente - e estamos a aproximarnos do Dia Mundial da Poesia , a 21 de Março, já amanhã! - a Primavera sempre foi uma dádiva dos deuses.

Muito poeta,  versejador,  compositor,  escritor ou simples gatafunhador, se inspirou na dita Prima.

Tenho até algumas  suspeitas se o velho Escriba Sentado (cerca de 2550 A.C.) não se teria ele mesmo já inspirado na Primavera lá de Saqqara... Pelo menos a cara dele é a de quem apanhou alguma alergia aos pólens...

Claro que a Primavera no Egipto tem hoje em dia outras conotações... Ali e noutros lados.

Espera-se até ansiosamente que a mesma chegue ao Norte, lá para a Crimeia.

Mas com as tais movimentações do estado do tempo a que atrás me referi, a Primavera é capaz de se atrasar um bocado a chegar a esses locais. Para aí uns anitos...

A não ser que o Czar o ordene, está claro! Era o que faltava o Czar convocar a Prima e ela não aparecer!

 Imaginem o Putin a espirrar com febre dos fenos... Iam logo para a Sibéria contar pêlos de mamute congelado todas as Primas que se encontrassem disponíveis.

quarta-feira, março 19, 2014

A diferença entre Gula e Apetite

Nesta discussão sobre as diferenças entre Gula e Apetite começo - e bem - por citar "Os Maias":

A marquesa de Alvenga, para o examinar de perto, pediu o braço a Pedro, e foi aplicar-lhe, como a um mármore de museu, a sua luneta de ouro.
- É de apetite! Exclamou ela. É uma imagem!... E são amigos, são amigos, Pedro?
 
Obviamente que uma Marquesa - mesmo que fosse da Malveira e não de Alvenga - nunca teria dito, (pelo menos naquele tempo, porque atualmente já não juro): 

Só de o ver já fico com Gula!! Exclamou ela.  Apetecia-me  comê-lo  mesmo sem tempero!... E  onde é que ele mora Pedro? Tens o Telemóvel?

Nota-se assim que existe algum requinte, algum recato, alguma distância e alguma elegância na palavra "Apetite".  "Gula", por seu lado, e retirando o sentido carinhoso e mais virado para a doçura que se dá ao termo "Guloso"  na intimidade, parece uma palavra mais adaptada para conversa de  taberna  e de  canjirões  de tintol do que de "bistrot" e garrafas de clarete (para não sairmos do tempo do Eça).

A Gula é um apetite desmesurado que se manifesta pela voracidade, pela  sofreguidão com que um matulão se atira a qualquer coisa que lhe encha as medidas.  Carne, peixe, bacalhau ou queijo da serra da Estrela, morre tudo ali mesmo, haja ou não molho de piri-piri!

Neste sentido, o "guloso" nem os ossos deixa à perna de cabrito , de tal forma esganado se apresenta à mesa!

Da Gula nasce o arrôto e manifesta-se a azia. Como consequência distende-se o estômago e prepara-se a sesta da tarde, completa com roncos e suspiros em acompanhamento. Para não falar de outros sons que  se originam, lá mais para as bandas das traseiras...

Quando se satisfaz o Apetite com moderação sai o impetrante da mesa calmo, satisfeito e pronto a dedicar-se às artes ou às ciências. E até a outras actividades mais movimentadas. Na cama ou mesmo em cima do que estiver mais a jeito, balcão de cozinha ou fardo de palha.

Ter Gula é transvestir-se em Gargântua ou em Pantagruel. Ter Apetite é mais próprio de Brillat-Savarin.

A plebeia "galga" não se deve confundir com a "gula". É uma questão de escala mas também  de atitude! A "galga" está para a "gula", como um Jack Russel Terrier está para um Dogue de Bordéus.

A um civilizado homem de mesa admite-se nalgumas ocasiões a galga, mas a gula não se perdoa.

Vendo a Ana Sidorova naquela coisa esquisita do "curling" nos JO Inverno, a um gajo normal pode dar-lhe a "galga" de comer alguma coisa fresquinha. Lamber um gelado do Santini, ou outra coisa assim...

E depois disto tudo, seguro que esclareci as principais diferenças entre ambos os termos, resta-me desejar aos meus leitores que na vossa vida de todos os dias  tenham alguma "galga". E  que sejam muito mais "apetitosos" do que "gulosos".

Pelo menos na Europa. Porque em certos locais recônditos de África (mesmo na CPLP !!)  e lá para a Oceânia não me parece muito conveniente um gajo ser "apetitoso"... É que ainda o comem! No sentido literal e não no ordinário do termo. Que aqui seria bem mais positivo. Mais vale ter cú (mesmo dorido) que não ter . Salvo seja!

terça-feira, março 18, 2014

Vista para o mar e de costas para a serra

Ontem estive mais uma vez a polir assentos de clínicas e consultórios de braço dado com a minha santa, o que me permitiu - durante os largos espaços de espera - filosofar à vontade e deixar por umas horas o vício do Google e Facebook. O  Outlook é que ainda não consigo desligar...Maldito "pushmail" que não dá descanso ao indígena, esteja ele onde estiver, a qualquer hora do dia ou da noite.

Nesta relativa calma, só interrompida pelas muitas perguntas da santa sobre tudo e mais alguma coisa (está mais chata que as "chatas" da praia da Poça) , li numa  das revistas disponíveis na sala de espera que a nova política do "visto de ouro" - passaportes de favor, vistos de residência e livre trânsito no espaço Shengen -  tem trazido muitos investidores chineses ao nosso país.

E li outras coisas engraçadas sobre as preferências destes novos compradores em termos de imobiliário. Entre outras coisas, como a valorização do investimento, as áreas disponíveis, o preço por m2, etc... parece que dão também  muita importância à milenar arte do Feng Shui na altura de decidirem a compra.   O Feng Shui é a antiga arte chinesa de criar ambientes harmoniosos. Originou-se há cerca de 5.000 anos, e  estuda a influência do espaço no nosso bem-estar e a forma como os locais onde vivemos e trabalhamos se refletem no modo como nos sentimos.

Parece que, para um chinês que se preze,  as propriedades devem ter vista de mar e a serra nas traseiras.

-"Isso também eu queria!!" Dirão alguns leitores.

 Pois queriam vossas mercês e eu também. Mas se calhar não têm.

No nosso caso não é Feng Shui.  Seríamos logo tratados como "Gulosos! Não querias mais nada? E uma dose larga de sarna para te coçares? Se queres vista de mar e serra nas costas, paga!"

Também me apercebi que nesses negócios imobiliários à moda da China, o comprador só fecha o assunto no caso da empresa vendedora lhe garantir 30% de investimento ao fim de 5 anos (por arrendamento).  Seja ou não possível arrendar, o chinês só compra se a promotora imobiliáriia lhe garantir esse rendimentozinho. Se investe 1 milhão de euros, ao fim de 5 anos quer 300 mil. Mantendo a propriedade plena ! Está claro!

De novo, aquilo que para os envolvidos nestas coisas passa por ser uma "política de investimento astuta e financeiramente bem ponderada" por parte dos chineses, se fosse exigida por algum tuga levávamos logo roda de  "Gananciosos! É dado e arregaçado não?! E uma dose larga de sarna para te coçares?!"

De acordo com o "Epoch Times - "Em Portugal, cerca de 75% dos “vistos de ouro” concedidos no ano passado, que dão o direito de residir no país em troca de um investimento mínimo, foram concedidos a chineses, disse Vítor Sereno, o cônsul-geral português em Macau, numa apresentação a potenciais investidores".

Só me admiro é que não sejam mais... Como dizia António Barreto no "Público", "Comprar investimentos com vistos e passaportes de favor é absolutamente repugnante".
Pois é...Mas não parece. Leiam aqui mais sff:

http://expresso.sapo.pt/o-visto-dourado-e-repugnante-e-imoral=f828825#ixzz2wIli22ZY

Mas a coisa mais estranha que li na mesma sala de espera foi a seguinte:
"A nova lei que permite a isenção fiscal, durante dez anos, para as pensões de reforma de cidadãos estrangeiros que residam em Portugal há mais de 183 dias é um factor essencial para a nova vaga de imigrantes reformados que chegam ao país."

Portanto, isenção fiscal durante 10 anos para os pensionistas "entrados lá de fora àparte"!

Qual o português que não desejaria isso??

Mas se o pedisse, levava logo com um rosário de mais injúrias: "Interesseiro! Egoísta! Comodista! A defraudar o erário público?! A querer fugir ao pagamento dos seus impostos?!! Não querias mais nada não??!! E uma dose de sarna para te coçares??!!"

Em conclusão: alguém sabe onde se compra a tal "sarna"?  Na falta de outras coisas (dinheiro, cuidados de saúde, apoio à educação) vamo-nos coçando...   Já aqui escrevi sobre isso... Haja unhas! (até que as retirem também).


sexta-feira, março 14, 2014

Para Descansar a Vista

Os antigos acompanhantes aqui do Blog lembram-se do "meu" cauteleiro com a perna mais curta do que a outra, o  Sr. Saavedra.

Este espera-me quase todos os dias à entrada da Versailles para lhe pagar a bica , fazendo-me a pergunta sacramental :

-"Então a sua mãe como está? E o seu filho passa bem?".

À conta destas questões educadas lá vai cravando o cafézito matinal. Todos os dias, exceto às segundas feiras, dia em que vai "buscar a lista" para fazer o negócio da venda de jogo à Terça Feira. Normalmente eu pago os jornais da semana e a cautela ao Saavedra todas as Terças Feiras.

O Sr. Saavedra é sportinguista (não tem nada de mal, enfim, nada de muito mal..). Os proprietários do quiosque em frente - benfiquistas de gema -  não o chupam, nem com molho de tomate vermelho bem maduro!

Pois hoje, ainda tinha eu os olhinhos a brilhar do jogo de ontem à noite em Tottenham, quando o Saavedra mete conversa ao balcão com um dos empregados (também ele leãozinho):

-"Ontem os lampiões devem ter comido banana antes do Jogo! Corriam que pareciam macacos!"
- "Pois foi Saavedra!  E viste o estúpido do Jesus a mostrar  com os dedos  o nº da camisola do Luisão ao outro treinador? He, He, He... Só que como não frequentou a primária confundiu o 3 com o 4 , He, He! He! Ganda tanso!"
- " Banana! Banana é que os gajos comeram!! E naquela taça não há controlo! Devia ser no ciclismo que iam todos dentro!"

 Como é óbvio paguei, não deixei a gorgeta habitual e também me esqueci de esportular a bica do Saavedra. Um "gajo" só aguenta até determinado ponto.

Oh Saavedra,  vai chamar macacos  aos C**** do teu Pai! (salvo seja).

Todavia, ninguém hoje me tira do sério. Motivo pelo qual aqui deixo poema de felicidade, de Pedro Homem de Mello, o poeta  e investigador de folclore de Leça , onde muitas vezes o vi sentado à mesa do seu restaurante preferido, "O Garrafão":

Encontro

Felicidade, agarrei-te
Como um cão, pelo cachaço!
E, contigo, em mar de azeite
Afoguei-me, passo a passo...



Dei à minha alma a preguiça
Que o meu corpo não tivera.
E foi, assim, que, submissa,
Vi chegar a Primavera...

Quem a colher que a arrecade
(Há, nela, um segredo lento...)
Ó frágil felicidade!

— Palavra que leva o vento,
E, depois, como se a ideia
De, nos dedos, a ter tido
Bastasse, por fim, larguei-a,
Sem ficar arrependido...

Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia"