quinta-feira, setembro 29, 2016

Na Guarda (outra vez)


Jornadas Internacionais de Jogos - AJTG-Associação de Jogos Tradicionais da Guarda

Não me canso de visitar a "mais alta". E podem pensar, mas não digam em voz alta,  que é só por causa dos enchidos e do vinho!

Agora o pretexto é o Congresso Internacional sobre a História dos Jogos em Portugal, no âmbito do qual se encontra  na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço uma exposição sobre o tema "Os Jogos Tradicionais na Filatelia e na Literatura".

Esta é uma iniciativa da Associação de Jogos Tradicionais da Guarda que podem conhecer melhor aqui:
http://www.culturacentro.pt/evento.asp?id=2856

Darei notícias no local habitual.






quarta-feira, setembro 28, 2016

O opúsculo do Saraiva


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Tentei chamar "pasquim" ao livro mais recente do Arqº Saraiva , mas as mitologias históricas do 25 de Abril deram a essa palavra toda uma outra conotação que para mim é impeditiva desse elogio...

Não o comprei . Nem o comprarei.

Li o que apareceu na internet sobre a coisa, o que pode ser limitativo da análise que segue, mas não ficaria de bem com a minha consciência se não afirmasse isso já de início.  Por outro lado, acho que ainda ficaria pior com a minha consciência se comprasse a "obra".

Refere José Manuel Fernandes no "Observador":

"Não faço parte daquele grupo de activistas das redes sociais (e de colunistas de jornal) que não se envergonha de escrever “não li esse livro, mas…”, desatando a seguir a proferir a maiores inanidades sobre o que não se conhece."

Ora eu serei um dos "sem vergonha". Não me importo nada.

O que é certo é que com ou sem Pedro Passos Coelho aquilo esgotou. Informei-me na FNAC e na Bertrand. Os exemplares que chegam todas as manhãs  desaparecem antes do almoço, em todas as lojas. E já vai na 7ª edição, se bem que começou devagarinho, com 500 livritos.

Este sucesso editorial pode comparar-se ao de livros semelhantes noutros países. "As Sombras de Grey" vêm logo à memória. E, por memória, parece que o actual livro da polémica seria já o 3º das "memórias" do Sr. Arquitecto. E dos outros não reza a história. Terão tido os 500 exs da ordem na 1ª e única edição.

O que é que "valorizou"  este "Eu e os Políticos"? Sempre seguindo a análise fria de José Manuel Fernandes, não terão sido as confidências pessoais de políticos agora tornadas públicas - o que já existiria nos outros "romances". O que disparou as vendas,  depois de ter disparado a discussão,  foram as referências a assuntos da vida privada desses políticos, na maior parte das vezes transmitidas oralmente por terceiras pessoas, todas (ou quase todas) já falecidas...

A forma de tratar a matéria é inovadora: O escritor tem um caderno (presumo que até devem ser mais) onde anotava as confissões dos terceiros falecidos,  antes de estarem mortos. Esperava (qual abutre do Lucky Luke) pelo desfecho da vida terrena do informador bufão. E nessa altura retirava a poeira dos cadernos e punha a matéria em forma de letra publicada.

Mal comparado lembra-me aquela série da TV sobre a vida íntima de Salazar, onde se "provava" que o Presidente do Conselho teria tido várias "amigas especiais", todas perfeitamente documentadas. E quando os historiadores sérios discordavam das conclusões, dizendo nunca ter tido acesso a essas supostas "fontes", a resposta era sempre a mesma: testemunhos verbais fidedignos. E eu acrescentaria: de "malta" já enterrada.

O problema da testemunha estar  falecida tem a ver com aquela chatice da actividade jornalística honesta: corroborar a informação... A ética exige que se faça a pergunta:  Onde podemos encontrar outras fontes para corroborar essa informação? Elas estarão identificadas?

E aqui é que a porca torce o rabo... 

Se o  poeta Camões tivesse deixado um soneto reportando que tinha comido bacalhau com grão no "Mal Cozinhado", tínhamos notícia e grande : já se comia bacalhau com grão no século XVI! (Batatas é que não haveria ainda naquela tasca). 
Mas se a mesma notícia fosse reportada em 1995 por alguém que a teria lido  num livro, exemplar único que entretanto ardeu no incêndio do Chiado, o que poderíamos dizer?

-"Olhe, faça como o Miguel Sousa Tavares ou o José Rodrigues dos Santos,  amigo. Escreva um romance".

Claro que se o Arqº Saraiva tivesse intitulado o livro como uma ficção qualquer, ninguém iria agora meter-se com ele. Por exemplo: "Confissões de um Editor de Jornais; a memória ficcionada do Portugal político dos últimos 50 anos". E até se poderia fazer um filme mais tarde, dando mais relevo ao sexo e à pancadaria.  E vendia-se na mesma!

quarta-feira, setembro 21, 2016

Mudar de vida. Chegou a Hora?



Tenho que fazer nos dois próximos dias e vai ser difícil passar por aqui. E como alguns amigos se queixaram da falta da poesia, aqui lhes mando hoje um poema da minha mestra Sophia.

Fala da esperança e da vontade de recomeçar. Quantos de nós não gostariam de fazer à vida ( a alguns momentos da vida) o que se fazia na escola aos quadros negros? Apagar e escrever de novo?

O síndrome de "Burnout" (esgotamento profissional) está muitas vezes associado à vontade de fazer alterações radicais na forma de vida, sobretudo em actividades demasiado exigentes que não nos deixam tempo para mais nada.

Raramente se concretizam essas "vontades" de mudança, com medo de perder o conforto da posição alcançada. E será pena.

Porque as segundas oportunidades, os percursos alternativos (recordo o excelente filme "Sliding doors") e o arrepiar caminhos, nem sempre  implicam mudar de cidade, de empresa, de país...
Dentro de nós é que a mudança se faz. Haja vontade.

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta , por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera o peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias, Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello-Breyner


terça-feira, setembro 20, 2016

O "espião"



Sempre gostei de livros de espionagem. Devorei todos os do Ian Fleming e deliciei-me depois com a série televisiva "Fleming" que vi no cabo em 2014. Se a puderem ainda apanhar aproveitem.

Quanto aos filmes do dito 007 já tenho opinião dividida. De alguns gostei, outros detestei, sobre a maioria fiquei indiferente.

A palavra "espião" utiliza-se também para identificar a malta dos clubes de futebol que anda a ver o que fazem os adversários, usa-se nos negócios, transborda para a indústria e para as patentes, é o "infiltrado" no caso das polícias e,  na prática,  acaba por fazer parte integrante do mundo de hoje.

Na política em geral e na segurança dos estados em particular, esta questão da espionagem não terá a importância monumental que já teve na época da guerra fria - diz a tradição que se construíam vilas americanas na URSS para treinar os "infiltrados"- mas continua a ser fundamental para tentar adivinhar os planos dos terroristas.

Há países que estabeleceram uma reputação muito boa nesta matéria, o Reino Unido, os USA. Há outros que já foram bons e hoje não se percebe bem (a Rússia) e há ainda outros que sempre foram um pouco para o anedótico.

Vêm à memória os acidentes de Bruxelas, só para dar um exemplo recente.

Lá mais para trás devem estar lembrados da história do espião búlgaro em treino, nos anos 60, que tentou fazer chantagem com um diplomata sueco mostrando-lhe fotografias tiradas num quarto de hotel com ele em actividade horizontal muito dinâmica, sobre uma bela mulher que não era a sua. O diplomata adorou as fotos e pediu logo umas cópias das melhores para enviar à esposa...

E depois temos Portugal, que deve ser um caso particular (daqueles mesmo "à parte).

Todos se recordam do "caso das secretas". Aquele senhor que ao fim de 22 anos de serviço público se passou para a "OnGoing" levando consigo um alforge bem carregado de informações e de contactos privilegiados. E que mandou vasculhar a vida privada de um jornalista já depois de não ter (supostamente) autoridade para o fazer. Violação de segredo de Estado, acesso ilegítimo a dados pessoais, abuso de poder e corrupção activa e passiva para acto ilícito são os crimes em causa neste processo,

Mais perto de nós, a NATO estaria a preparar uma "inspecção" aos nossos serviços de segurança, depois daquela história interessante do pacato funcionário português do SIS apanhado em Roma a tentar vender documentos secretos a um colega russo do mesmo ofício e defendendo-se por "ter exigido recibo da transacção"!!

Para mim, que ando um bocado perdido na história, com a vontade de celebrar condignamente os "500 anos do Correio em Portugal", espião mesmo, mas dos bons, daqueles que envergonharia qualquer destes tristes de hoje,  foi Pêro da Covilhã! E em boa hora saiu nova edição do Livro de Deana Barroqueiro (Casa das Letras)  sobre esta importante figura: "O Espião de D. João II".

Aqui vai um resumo, para vos abrir o apetite por mais:

"Pêro da Covilhã, o formidável espião de D. João II, injustamente esquecido pelos historiadores e quase desconhecido dos portugueses, é uma personagem histórica invulgar, cujas acções tiveram enorme repercussão no xadrez político da Europa.
Escudeiro do rei, que o escolhia para as missões mais secretas e arriscadas, era dotado de qualidades e talentos excepcionais: memória fotográfica, extraordinária aptidão para aprender línguas, mestria na arte do disfarce para assumir as mais diversas identidades, capacidade de adaptação ao imprevisto, perícia no manejo de todas as armas do seu tempo, uma imensa coragem e espírito de sacrifício, ideais cavaleirescos da Demanda, da Aventura e do culto da Mulher e do Amor.
Em 1488, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva são enviados, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias, a descobrir por terra o que o navegador ia demandar por mar: uma rota para as especiarias da Índia e notícias do misterioso reino de Preste João. Disfarçado de mercador do Al-Andalus, o espião de D. João II vai realizar proezas admiráveis que causaram espanto no mundo do seu tempo."


segunda-feira, setembro 19, 2016

Mais um pouso bom



Depois de um fds familiarmente mais complicado aqui estou de volta à liça para lhes falar de uma amável casinha onde nos servem bem e barato, mesmo no centro de Lisboa.

Esta aventura começou com um convite de alguns amigos, uma tertúlia enológico-gastronómica que se junta de vez em quando para provar vinhos (o mais importante) e acompanhar essa prova com petiscos "à maneira".

Normalmente trazemos uma ou duas garrafas mais "estranhas" de casa, juntamos todas e vai de abrir e provar. Mas desta vez a escolha dos vinhos
(e a respectiva oferta) foi de um conhecedor profundo deste meio, o qual trouxe para provas coisas admiráveis, que só pecavam pelo excesso.

De facto, ao fim de 4 ou 5 garrafas diferentes, todas muito boas - a começar com Champanhe Billecart Saumon e a terminar no grande Bordéus que é o  Chateau Lafitte-Rothschild - o palato começa a evidenciar sinais de "overdose"... Está sobrecarregado pelo que se passou antes e pede água, muita água para intervalar.

O tempo é inimigo destas lides, que exigem calma,  paciência e almofadas nos assentos...
E como o vosso blogger anda sempre a 100 à hora , teve pena de não ter podido dar mais valor a quem o merecia.

Todavia sobrou o tempo para dar notícia da casa que nos acolheu e onde foi possível acomodar tais preciosidades com uma roda-viva de sabores com prevalência do Alentejo, mas sem exclusividade dessa província.

Desde os ovos mexidos caseiros com batata (de outra vez com cogumelos do campo), até ao arroz de coelho criado em casa, passando pela sopa de tomate, pela pescada assada no forno, não esquecendo as entradas onde sobressaíam o patê ali mesmo feito e as empadas, estaladiças e de recheio mimoso, com presunto segadinho e carne picada. A perdiz de escabeche é um monumento comparável à que se come no Oliveira, em Évora, e este é o maior elogio que lhe posso fazer.. Os pezinhos de coentrada (são desossados) e têm um paladar do paraíso!

 O "patrão" da casa  é de Murça, por isso não falta o Toucinho do Céu , vindo expressamente daquela localidade todas as semanas.

Tudo é muito bem feito. A amabilidade no trato é notória, a mão de forno e fogão está bem treinada, a matéria-prima é de grande qualidade. E há sabedoria na orientação que é dada.

O maior  problema é que se trata de um pequeno restaurante (sentará cerca de 18 ou 20 pessoas) e está sempre cheio. Marcações apenas se fazem para grupos a partir de  4 manducantes.  E mais ainda, vende para fora em take away!

A boa novidade é que a cozinha funciona sem interrupções desde as 12,00h até às 24,00h! Quem gosta de almoçar às 16,00h é bem vindo!

O "patrão", mentor , cozinheiro e gestor deste novo empreendimento é o Sr. Belarmino de Jesus, a grande alma do "Salsa e Coentros", que tendo deixado o sócio Sr. Duarte no afamado restaurante de Alvalade desceu a Av de Roma para nos deleitar com a sua arte.

E a casa chama-se: Bel'Empada, mesmo ao lado da garrafeira Napoleão da Av. de Roma, no cruzamento desta com a Av João XXI.

Venham cedo, e depois digam coisas... Admirável em vários aspectos,  qualidade soberba e preço maneirinho. Por isso recebe o "selo": Recomendadíssimo!

terça-feira, setembro 13, 2016

Regressar ao Méson Andaluz


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O Senhor Almeida é personagem importante na história da gastronomia da Costa de Lisboa. Desde a Parede até ao Cascais Shopping, e agora em Lisboa, perto da Rua do Alecrim.

O seu "Méson" foi e é uma casa de bem servir.

Mestre Almeida passou por muitos trabalhos e teve de ultrapassar muito "penedo",  nestas veredas da restauração em Portugal, sobretudo quando a aposta é em alguma coisa fora do normal: Comeres andaluzes, vinhos espanhóis, tapas e sangrias. Música ambiente destilada das tabernas ciganas de Sevilha.   Touros e toureiros nas paredes.

Debatendo-se com as dificuldades dos primeiros tempos, em que os "patas negras" entravam em Portugal disfarçados, nunca se deixando vencer pelas contrariedades, sempre arvorando a boa disposição e o sorriso cativante que o distingue.

Hoje na Travessa do Alecrim,  este restaurante teve de alterar alguma da ementa porque os clientes , em 40 anos de vida, também eles mudaram.

Por encomenda ainda se podem degustar ( en su tiempo) o "Cochinillo al horno" e o "Lacón con grelos", embora actualmente a cozinha esteja mais virada para a modernidade da sinergia dos sabores, para a composição quase japónica dos pratos e para a delicadeza da confecção.

Mas a filosofia da casa é sempre a mesma: encantar o cliente, que sai já como amigo.

Num almoço de "tapear" entreguem-se nas mãos do mestre: Comecem pelo Pata Negra ( que será dos melhores que se podem comer em Portugal). Depois é continuar:  Huevos rotos, Atum em duas texturas, Vieiras, Escalopes de foie gras, Ceviche de bacalhau...  Um queijo Manchego e ao lado o picante Cabrales.

Peçam os vinhos a copo (muitos e bons). Iniciem com uma Cava excelente e terminem com um Orujo de Hierbas ou uma aguardente "Albariña".

Grande casa e grande profissional. Recomendadíssimo!

Nota: para estacionar utilizem o parque subterrâneo em frente à Praça da Ribeira, na Praça D. Luis I. Depois é uma caminhadazita de uns 100 metros ( se forem) desde o Largo de S. Paulo até às escadinhas.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Onde pára a Polícia?


 

Festejam-se hoje os 125 anos da criação da Polícia Municipal.

Em 1891 - ano do nascimento desta polícia - as coisas estavam meio escuras para Portugal: foi-nos servido o Ultimato por Sua Majestade Britânica, e logo de seguida o Governo da nossa Majestade , o Rei D. Carlos I, declarou Bancarrota...

Mas já havia polícia à porta da edilidade para prevenir desacatos! Foi o que nos salvou...

É engraçado pensar que qualquer destes guardas de antanho era suposto ter pêra e bigode. Quanto mais farfalhudos mais respeito deviam impor ao transeunte, fosse ele meliante ou cidadão cumpridor.

Esta Polícia Municipal tem raízes antigas, obviamente que no Corpo de Polícia Civil.  O Rei D. Luis fez publicar, em 2 de Julho de 1867, a lei que o criou em Portugal  - mas ainda mais para trás,    nos “quadrilheiros” de D. Fernando, também conhecidos nos "bas fonds" da capital  por “sisudos”, “morcegos” ou “nocturnos”, e na Guarda Real de Polícia do Intendente Pina Manique.

Sendo que se deve evitar hoje em dia chamar à autoridade "sisudo", "morcego", e nem sequer "nocturno", sob pena de sermos nós a ir passar a noite à esquadra...

Agora,  se tentarem chamar "quadrilheiro" ao guarda municipal que está a colocar a cinta da EMEL na v. viatura, embora tenham a compreensão de muita gente não se devem livrar de uma bastonada entre os olhos. Para não dizer entre os c*****, que é feio. Feia a palavra e mais feio ainda levar com um bastão nos ditos.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Museus, Cultura, pratos e talheres



Li num estudo recente sobre o turismo nas nossas cidades (e cito de memória):
 "Na falta de Museus de referência e Eventos culturais importantes que atraiam visitantes,  as principais cidades de Portugal oferecem sobretudo a gastronomia, a hospitalidade e o tipicismo dos bairros antigos(...)".

Dá que pensar.

Lisboa não é Nova Iorque, com o MET,  e o Porto não é Bilbao, nem tem  o seu Guggenheim Museum. Em Braga não haverá todas as semanas concertos de Mozart e Strauss, como em Viena. E , para não deixar o sul apeado, em Évora não encontramos uma cena dramática tão envolvente como em Berlim.

Temos é o Jockey e a Horta dos Brunos, o Solar e o Beira Mar, mais  a Cozinha do Manel e o Abadia,  o Arcoense e o Fialho, e ainda o D. Joaquim...

Comes e bebes, fado e azulejos velhos, calçadas artísticas e mar à vista.  É só isto? Nem o MNAA, nem o Soares dos Reis? Nem a Gulbenkian? Nem a Biblioteca Joanina?

Mas depois recebemos 23 prémios no concurso internacional dos "Óscares do Turismo". Podem ler aqui:
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/turismo___lazer/detalhe/portugal_ganha_23_oscares_do_turismo.html

Coisa estranha... Ou talvez não.

Mas uma coisa é certa: cuidem da mesa, cuidem da restauração e da hotelaria, formem bons profissionais, cuidem dos nossos vinhos e dos nossos comeres. Disso depende grande parte da nossa  sobrevivência neste mundo do "turismo".

segunda-feira, setembro 05, 2016

Sombra de Pecado



Não está em causa o filme de Fonseca e Costa, com Mário Viegas e Vitória Abril (belo filme, aliás) mas sim o que podemos sentir quando "prevaricamos"... O remorsozinho do day after.

Eu "prevarico" sobretudo à mesa.

Alguns dos marotos habituais estarão já a pensar que deito as parceiras em cima da mesa para depois resolver o assunto daquela forma menos ortodoxa. Mas com verdade vos digo que - com o perfil, o peso e a idade que assumo -  já me custa erguer do chão o cesto da roupa para estender, quanto mais levantar assim 50 quilitos de  boa-ventura para os estender em cima de alguma mesa, mesmo que fosse baixita.

Não compadres! Aqui o problema é mesmo abusar à mesa, comendo e bebendo do que não devia.

Com o açúcar a entrar nos 110 não posso abusar de doces, nem de cerveja (que tem açúcar que se farta). E como estou a perder peso para compensar a glicémia  ( devagar, não se assustem!) de cada vez que enfio carbo-hidratos ou gordura a mais ( o queijo da serra...) sinto logo um aperto de consciência.

Sem doces passo bem. O meu doce preferido é bacalhau com grão. Agora em relação ao resto vivo intensamente o "prazer da mesa ". E como cozinho e sei o que lá ponho , a "fórmula" tem sempre a ver com o azeite extra-virgem ou a banha de porco alentejano ( margarina não existe na minha cozinha) , ainda mais "culpado" me sinto.

Quando fiz 61 anitos passei a manhã divertido a trabalhar duas pernas de borrego lá da Beira Alta. Salteei grelos de nabo, assei batatas no forno. Bebi uma bela garrafita de tinto (Montes Claros Garrafeira de 2011) e afinfei um cálice ( ou dois, ou três) de Lagavullin.

Nessa noite a "sombra do pecado" que me assolou  parecia a sombra da pirâmide de Kéops... Enorme e pesada.

Perguntarão se  dormi bem e sem indigestões, apesar da transgressão?

Pois o problema é que dormi . Mesmo bem.

A questão será mais psico-somática? Nem isso. É mesmo sentimento de culpa sem reflexo no físico.

Se ao menos me desse uma dor de barriga, já um gajo tinha mais respeito... Assim temos que nos apoiar no auto-controlo.

Mas a carne é fraca. E o peixe, e o bacalhau, e os percebes. Tudo fraco. E a lampreia? Essa então é fraquíssima...

O mundo está mal feito.

sexta-feira, setembro 02, 2016

Sobrecarga emocional



Há quem imagine ser este um país de "brandos costumes", onde a resolução de problemas de água a golpes de enxada era coisa do tempo do Júlio Dinis e da "Morgadinha dos Canaviais" , quando os camponeses andavam pouco esclarecidos e debaixo do sapato (da bota) dos feudos.

Não sei se lhes fez a mesma comichão do que a mim o caso do jovem de 14 anos agredido (assassinado) em Gondomar por outro rapaz de 16 anos, à pancada ( usando uma soqueira)? Tendo sido o móbil do crime aparentemente uma discussão por causa da namorada do primeiro?

Um  "puto" daquela idade andar já de soqueira em punho (porventura ao lado da ponta e mola, do "chino") enquanto não arranja umas massas para comprar a pistola?

Quando questionados, "amigos" de ambas as partes intuíam que "aquilo era uma coisa antiga, gangues diferentes e assim..."

Agora pomos na equação o "caso de Ponte de Sôr", onde a única coisa que se sabe mesmo é que está mais um "puto" entre a vida e a morte no Hospital.  Gente da Vila esclarece em surdina que "há gangues, há grupos. Encontram-se para se embebedar e andar á porrada...O bar já é conhecido pelo mau ambiente".

Parecem histórias do Bronx, lá das Novas Iorques...

Onde pára a polícia, GNR, Brigada de Intervenção, ou lá o que deve ser, que não fecha esses bares onde menores bebem e andam "à porrada"?  Bebem , comem, e chutam para a veia com certeza. E, nos intervalos da peça, matam-se.

Estamos civilizados demais, ao que parece. Andámos depressa desde o tempo do Júlio Dinis , e como o mundo é redondo, viemos parar ao mesmo sítio.

Quem é que quer ser Regedor desta freguesia? Pôrra Compadres!

terça-feira, agosto 30, 2016

Ir ao mar

Ontem a equipa directiva a que pertenço teve uma sessão de "team-building" a bordo de dois veleiros, passando um dia engraçado no Tejo, a resolver enigmas e a aprender os rudimentos da vela.

Houve pormenores deliciosos desse dia fora do normal, para além da convivência em alegria mas falando de coisas sérias.

Colocando o assunto na primeira pessoa, e pedindo desculpa por algum exagero poético, dedico o Post de hoje a recriar alguns desses pormenores.

Começo por dizer que a minha outra   experiência de mar, nesse caso mar aberto, foi há muitos anos atrás, quando um bom amigo me convidou para umas horas de navegação a bordo de um iate a motor da categoria "sea wolf".

Com  800 hp de força nos dois motores Volvo, e 50 pés de comprido, aquilo era quase um transatlântico visto de terra na doca de Vilamoura. E assim fui enganado...

Depois de lá estar em cima, quando os motores começaram a "falar" e o barco a bater fortemente de chapa nas ondas, foi o bom e o bonito...Só à força de vodkas tónicos ( com pouca água tónica) consegui disfarçar o susto.

Quando me apeei (ou lá como se diz) as pernas tremiam mais do que se tivesse andado num daqueles "roller-coasters" malucos dos USA que fazem "loops" e tudo. É claro que a litrada de vodka também não teria ajudado ao equilíbrio...

Velejar nunca tinha experimentado. Mas estava desconfiado. Claro que aquilo ontem era no Tejo e não no mar aberto entre Vilamoura e Puerto Banús. E ver as duas margens com o rio ao meio ajudou.

A primeira peripécia consistiu em resolver enigmas a bordo, tirando fotografias das soluções encontradas, que tinham todas a ver com pontos da costa entre a Praça do Comércio a a Baía de Cascais.

O rio\mar estava que parecia um espelho, a malta lá ia escrevendo e palpitando resultados, pelo que  essas primeiras 3 horas passaram-se bem. Tirando a necessidade de deslocar do veleiro para o cacilheiro do almoço a minha imponente figura através das duas amuradas.  Parece simples, mas convido a que o façam tendo a envergadura da besta que se assina.

Passa a perna por cima do cabo de aço. Segura-te à porta do outro lado, cuidado que a maré está a bater e os 30 cm são agora 50 cm... Tenta outra vez. Já está! Sem esfolar demasiado as canelas.

Almoço a bordo, em frente à zona histórica do Seixal e tendo por pano de fundo a Quinta da Atalaia, onde já se trabalhava na Festa do Avante deste ano. Um almoço sem  muita história gastronómica, valendo pelas anedotas e pela boa disposição das tripulações.

Como não há almoços grátis (já estávamos avisados) seguiu-se a horita da introspecção e do sermão da quaresma, que o ano vai assim-assim, mais a dar para o assado...

De tarde estava combinado fazer-se a "regata". Eram dois veleiros, a malta foi distribuída pelos dois e, chegados a certo ponto do trajecto Seixal-Padrão dos Descobrimentos, fomos "largados" à vela.

De repente o "mar-chão" encorpou e começou a falar com voz mais grossa. A esse atropelo juntaram-se as onditas dos catamarans,  cacilheiros modernos que se cruzavam connosco. O vento desatou a fazer-se ouvir  e estava criado o ambiente para o desporto.

Apesar dos adversários terem ligado o motor a meio do desafio (BÙUUUUU) foi o veleiro onde eu ia que ganhou a regata. Provavelmente porque ia mais baixo na linha de água? Não preciso de dizer a razão.

Chegámos à Doca do Bom Sucesso sãos e salvos, sem sustos de maior e, o que é o mais estranho, quase todos a falar em dialecto. O conhecido "maritimês de veleiro"

Caça a escota dessa vela imbecil! Orça! Orça! Força no molinete! Folga a grande! Folga a grande! Vamos arrear a genoa! Deitem as defensas!

Pôrra! Senti-me quase o Fernão de Magalhães!

Nota: Só não entendi porque motivo nos mandaram levar uma muda de roupa num saco... medo sim, mas não a esse ponto... Acho eu.

quinta-feira, agosto 25, 2016

Para Descansar a Vista...em Itália

Antecipo o "momento de poesia" já que na sexta feira não estou por cá.

A desgraça do terremoto no centro de Itália lembra que  - contrariamente aos que muitos pensam, na sua arrogância de espécie supostamente dominante - a humanidade ainda não controla o planeta onde mora.

Estragar pode estragar e tem estragado, tal e qual como algum grupo de holligans pode dar cabo de um bar no hotel onde pernoitam.

Mas quanto ao resto, ao mais importante, somos quase como os cachorros dentro do laboratório do Dr. Pavlov. Salivamos quando toca a campainha, mas nem fazemos ideia da motivação do célebre cientista russo para essa experiência.

Entrego a todos , in memoriam das vítimas, um poema belíssimo sobre a perda. É de Florbela.

A Minha Dor

A minha Dor é um convento ideal 
Cheio de claustros, sombras, arcarias, 
Aonde a pedra em convulsões sombrias 
Tem linhas dum requinte escultural. 

Os sinos têm dobres de agonias 
Ao gemer, comovidos, o seu mal ... 
E todos têm sons de funeral 
Ao bater horas, no correr dos dias ... 

A minha Dor é um convento. Há lírios 
Dum roxo macerado de martírios, 
Tão belos como nunca os viu alguém! 

Nesse triste convento aonde eu moro, 
Noites e dias rezo e grito e choro, 
E ninguém ouve ... ninguém vê ... ninguém ... 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas" 
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terça-feira, agosto 23, 2016

Culpados



Estejam descansados que não vou falar do episódio de Ponte de Sôr, o qual já cheira mal em todos os sentidos.

Aqui os "culpados" têm a ver com os incêndios,  a propósito do último grande fogo de ontem e hoje, andando lá por cima, muito perto da nossa quinta, na zona de Seia.

O meu cunhado chegou a fazer parte das equipas camarárias que faziam prevenção de incêndios florestais no parque natural da Serra da Estrela. Eram pagos pela autarquia, com ajudas governamentais , no tempo "daquele primeiro ministro" que todos ( ou muitos) querem agora fingir que nunca foi eleito (e duas vezes).

Nesses anos havia fogos na zona, claro, mas eram menos e mais controláveis no chão. Porventura as condições de temperatura e de vento ajudavam, mas havia algum cuidado em prevenir.

As equipas de ajudantes  camarários assinalavam as principais áreas de risco, iam lá, falavam com os proprietários, ajudavam na limpeza da floresta. Trabalhavam 8 ou 9 horas por dia, entre Abril e Setembro. Sempre no jipe (era um velho UMM) enquanto houvesse luz do sol.

E traziam de lá "estórias" fantásticas. Daquelas que não gostamos muito de ouvir mesmo que sejam verdade. Como por exemplo, o facto de que muitos dos incêndios se deviam aos proprietários, que continuam a fazer queimadas quando e onde não deviam.

Não é apenas por deixarem as matas sem limpeza! É por queimar restolho nos meses de Verão...

Porque são criminosos? Não!! Porque são velhos e velhas, de mais de 80 anos, que não têm outra forma de limpar os terrenos para  plantarem algumas batatas, cebolas ou feijão .

Porque são mais do que pobres . E dependem do que cultivarem para sobreviverem. E porque não sabem fazer melhor, nem têm dinheiro para pagar, se soubessem. E mesmo se tivessem dinheiro, quem iria desbastar mato para esses locais perdidos nos vales? Onde habitam 3 ou 4 tristes?

Devem ser castigados e multados! Diríamos todos com razão derivada do código civil.

Mas onde estaria o dinheiro para pagar essa multa? Nem que fosse em géneros... Se pagassem 200 euros de multa os velhotes não iam à farmácia durante 6 meses.

O país não é Lisboa, nem sequer as plantações tipo "jardim" das modernas empresas agrícolas. Muita da área "cultivada" (entre aspas)  é destes pequenos proprietários que já não podem fazer o que faziam.

Porque, e esta será talvez a mais importante preocupação, nem só de SPA's, Quintas de Lazer e Resorts turísticos é feita a nossa ruralidade... É feita de idosos cada vez mais sozinhos e cada vez mais velhos... E quem não entende isto não entende o país onde vive.

Claro que depois há os "outros", os incendiários que deitam fogo por vingança, psicose, ou outro transtorno ligado ao diagnóstico de piromania. Mas o  deserto em que se vai transformando o país rural também tem por consequência a cada vez maior probabilidade dos incêndios florestais. E essa parece ser uma raiz do problema. Talvez a mais importante.

segunda-feira, agosto 22, 2016

O espelho das almas


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Os meios sociais, embora se ponham a jeito, não devem ser espelho das almas de quem neles colabora. Esta , obviamente, é a minha opinião. Há quem não concorde, o que também é respeitável.

Gosto de partilhar aqui momentos engraçados, as minhas omnipresentes "comidas e bebidas", os prémios que vamos ganhando no "boulot", e até faço comentários políticos e desportivos ao correr da pena.

Mas o que nunca lerão neste espaço são as minhas tristezas. Também as tenho, mas essas são do foro privado.

Esta lenga-lenga veio em reflexão por um comentário de uma boa amiga, que reparava na perpétua boa disposição dos meus textos: "Que boa vida e alegre deves ter!"

Quero dizer que faço os possíveis, mas não devem acreditar que só tenho dias bons e óptimos... Chuva e granizo também comparecem na ementa, nem só sol radioso e brisa de mar.

O meu Pai dizia que a alegria é para compartilhar, enquanto que os momentos de tristeza são privados. E essa filosofia sempre me orientou e continuará a orientar.

Este assunto recorda-me mais uma narrativa do Tio Santidade, personalidade da minha Serra muitas vezes aqui evocada  e que - como se devem recordar - tinha ódio profundo à água canalizada ( para beber e para se lavar).

Quando andava mais sóbrio (o que era raro) contava "estórias do tempo da miséria". Segundo aquela autoridade,  naqueles tempos um pobre devia andar sempre com duas coisas no bolso da jaqueta surrada: um copo de madeira ou de alumínio (para não partir) e ...um ossito de borrego. O copo era para beber à espicha nalguma adega que encontrasse com a porta encostada. E o osso era para cheirar antes de beber.  Com o cheiro da carne do borrego (já "falecida") o vinho  sabia-lhe melhor.

E o Tio Santidade gostava de terminar a parábola com a frase -"Hoje já não há pobres! Ainda bem, porque as portas das adegas já não são de madeira velha e têm todas fechaduras de jeito..."

A vida do homem "rico" da aldeia, que criava dois ou três porcos para vender, comprava queijo aos pastores para comercializar em Viseu e tinha algumas terras para batatas e vinho,  devia parecer aos pobres de então tão "opulenta" como hoje nós consideramos "excessiva" a vida do CR7 a passar férias ao largo de Ibiza num Iate "Ascari" alugado com tripulação por cerca de 100 000 euros por semana...

É a distinção entre o "relativo" da vida (das vidas) que nos faz ser mais optimistas ou pessimistas.

Uns (equipa de que faço parte) dirão sempre nas circunstâncias mais chatas: "podia ser pior..."

sexta-feira, agosto 19, 2016

Para descansar a vista...numa fotografia



Hoje, Dia Mundial da Fotografia, presto homenagem aos grandes fotógrafos que trabalharam no passado connosco e a quem devemos muito do sucesso dos nossos projectos. Por ordem de edição dos livros CTT em que colaboraram, desde 1985:
Luis Filipe Cândido, Jorge Barros, Júlio Marques, João Menéres, Homem Cardoso, Fernando Guerra, Mário Cerdeira, Paulo Bastos, Anabela Trindade.

Um grande abraço aos que felizmente ainda estão entre nós, e um pensamento de respeito e gratidão a quem já partiu para a "viagem".

Neste belo poema curto de Albano Martins se substituíssem "pintura" por "fotografia" nada perdia sentido:


Pintura

Onde se diz espiga 
leia-se narciso. 
Ou leia-se jacinto. 
Ou leia-se outra flor. 
Que pode ser a mesma. 

As flores 
são formas 
de que a pintura se serve 
para disfarçar 
a natureza. Por isso 
é que 
no perfil 
duma flor 
está também pintado 
o seu perfume. 

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas" 

quarta-feira, agosto 17, 2016

As medalhas



Portugal é o que é.

Pequeno numas coisas, por exemplo, na área do território "seco", só 92 000 km2.

Mas grande noutras coisas. Na área do território "molhado" , que é mais de 2 milhões de km2, também por exemplo. Temos (ou teremos depois de aprovada na ONU) uma das maiores plataformas continentais oceânicas do mundo...haja pernas e braços para tanto mar.

Nestas coisas dos Jogos Olímpicos somos pequenos. Temos sido e continuamos a ser parcos nas medalhas conquistadas.Temos 24 desde que existem registos. As mesmas que a Tailândia e que a Mongólia. Menos duas que a Índia e mais duas que Marrocos.

Reparem que se estas coisas se medissem pela dimensão do país, a Suíça, com metade da área "seca" de Portugal deveria ter 12 medalhas...Mas tem 328!

E a Índia (7º país em área "seca" do mundo, depois da Rússia, Canadá, China, EUA, Brasil e Austrália) teria várias centenas de medalhas. Mas não tem.  Tem apenas 26, como referido.

Se calhar a importância da competição não é evidente para o espírito do povo indiano. Não fará parte das suas prioridades.

Já na Suiça será diferente.

 Em Portugal a "malta" anseia pelas medalhas. Espera-se ansiosamente pelo "Lopes" ou pela "Rosinha" deste século... Os quais tardam em chegar. Tanto à meta como aos Jogos Olímpicos.

Nesta Olímpiada brasileira temos o "bronze" da Telma  (parabéns querida!!), e se calhar mais nada...

Porquê?  Não explicará tudo, mas aqui deixo, com chapelada ao jornal Público,  umas frases que podem explicar alguma coisinha:

(::::::) Rui Bragança, o lutador de Tae-Kwan-Do de Guimarães, contou  que muitas vezes tem de ir sozinho às provas. Quando os britânicos vão com dois treinadores, quatro pessoas só para verem os combates, um massagista, um fisioterapeuta, um médico ou um técnico, Bragança chega a ir completamente só.

(:::) Há poucos atletas que recebem um salário durante todo o ano; alguns chegam a treinar no Jamor – um centro de alto rendimento desportivo – com oito nadadores atribuídos a uma mesma pista; os dirigentes desportivos vêm a alta competição como perda de dinheiro e não como investimento; é muito difícil para um atleta, mesmo com excelentes resultados internacionais, dedicar-se 100% à sua modalidade;  muitos não prosseguem os estudos porque as universidades não lhes facilitam a vida nem nas coisas mais simples (como os horários ou poder assistir a aulas de diferentes turmas).

E vá lá que muito melhoraram as coisas! Quem se lembra que Aurora Cunha treinava "por correspondência" e com equipamento pago do seu bolso? Hoje já há isenção de IRS e de Segurança Social, apoio no pagamento de propinas escolares e patrocínios a longo prazo, como o da Santa Casa, coordenado pelo Comité Olímpico de Portugal.
Mas, se calhar ainda não chega...

quinta-feira, agosto 11, 2016

Para Descansar a Vista



Amanhã não venho aqui, há outra vez sessão hospitalar prolongada.

Por isso retomo hoje o poema semanal. Houve quem se queixasse da falta...

Com os sentidos nas nossas florestas em chamas recordo um grande poema de Ronald Stuart Thomas, o clérigo das montanhas de Gales.

Nota: Ronald Stuart Thomas (1913-2000) foi um poeta do País de Gales, clérigo anglicano nas comunidades rurais, sobretudo conhecido pelo seu forte nacionalismo e oposição ao centralismo inglês. Na sua poesia sente-se o amor pela natureza e  pelos trabalhos do campo. A  rudeza da vida nas comunidades onde se praticava  agricultura de montanha deu o estilo a este poeta: sóbrio, puro e estilizado.

Forest Dwellers

Men who have hardly uncurled
from their posture in the
womb. Naked. Heads bowed, not
in prayer, but in contemplation
of the earth they came from,
that suckled them on the brown
milk that builds bone not brain.

Who called them forth to walk
in the green light, their thoughts
on darkness? Their women,
who are not Madonnas, have babes
at the breast with the wise,
time-ridden faces of the Christ
child in a painting by a Florentine master


The warriors prepare poison
with love's care for the Sebastians
of their arrows. They have no
God, but follow the contradictions
of a ritual that says
life must die that life
may go on. 


They wear flowers in their hair. 

Ronald Stuart Thomas

quarta-feira, agosto 10, 2016

O Azar e a Sorte



Quem lesse alguns dos comentários europeus à vitória de Portugal no campeonato da Europa de Futebol (sobretudo franceses, mas sem exclusividade gaulesa) leria que "Portugal teve sorte".

Teve "sorte" no resultado dos jogos, teve "sorte" no sorteio, e teve "sorte" por ter ficado em 3º lugar na sua série, antes dos quartos de final. Enfim, teve "sorte" do princípio até ao fim, mesmo na final, quando a França não ganhou apenas por ter enviado uma bola ao poste a encerrar o tempo regulamentar.

Ao contrário, diríamos nós que Portugal teve "azar" na final de 2004 contra a Grécia, que o Benfica teve "azar" na final da Liga Europa contra o Sevilha (em 2014, Turim). E ainda mais "azar" contra o Chelsea em 2013 (Londres).

Esta manhã, ao ouvir na TSF o relato angustiante da situação no Funchal, dei pelo jornalista a afirmar que dois prédios - na localidade da Penha, alto do Funchal -  tinham sido consumidos pelas chamas , à esquerda e à direita de outro que não ficou afectado... Foi "azar" de uns proprietários e "sorte" do outro?

Apaixonei-me pelo cálculo de probabilidades na universidade. E é interessante notar que a sua génese (devida a Blaise Pascal) foram os chamados "jogos de azar" que deram origem a uma célebre troca de cartas entre Fermat e Pascal.

Esta possibilidade de quantificar os resultados aleatórios de experiências (controladas em laboratório)  pode dar a ilusão de que é possível também prever o resultado de acontecimentos do dia-a-dia, sejam eles fenómenos naturais ou ocorrências sociais provocadas pela intervenção humana.

São exemplos de previsões hoje habituais: os resultados eleitorais, o grau de aceitação de produtos novos, o tempo que vai fazer no futuro próximo, até a ocorrência de desastres naturais em determinadas circunstâncias ( alertas de tsunamis, prevenção de terremotos).

Mas infelizmente são menos os tipos de ocorrências que se podem "prever" do que os outros, que não têm (ou não a conhecemos ainda)  bases de análise que permitam aplicar os tais "modelos de previsão".

Podemos ter uma ideia sobre os fenómenos de causa e de efeito: fogo posto criminosamente, tempo quente, terrenos sem desbaste e vento, potenciam o perigo dos incêndios em floresta. Num meio ambiente como o da Madeira e  Funchal seria expectável que o fogo na montanha, empurrado pelo vento, e também devido ao efeito de "funil",  chegasse à cidade e se propagasse pelo casario.

Agora em que termos se poderia "adivinhar" que seria neste ano,  naquela noite e com estes efeitos terríveis?

Nesse sentido, e como escreveu Emanuel Kant, "Só podemos pensar as coisas numa relação de causa e efeito porque a causalidade está no sujeito, não nas circunstâncias".

Foi o "sujeito" Gignac que enviou a bola ao poste de Rui Patrício, foram os "sujeitos" Oscar Cardoso e Rodrigo que falharam os penalties do Benfica contra o Sevilha, e foi um "sujeito" que terá ateado o fogo na Madeira que levou ao actual descalabro.

Mas, se não é possível prever com exactidão, é (sempre foi) possível actuar de forma profiláctica.

E o tal "sujeito" dado a brincadeiras com fósforos na Madeira estava registado e sabia-se da sua inclinação...Nos meses de Verão não se podia pôr o homem a ajudar na preservação das Ilhas Selvagens?

Digo eu, que não sei.

terça-feira, agosto 09, 2016

Real Politik à Ribatejana





Já se sabe que as idiossincrasias do português são muitas e nem sempre relacionadas com comportamentos ditos "racionais".

Apreciamos  extremidades no prato (cabeças, pezinhos, joelhos) , "desportos" antigos e politicamente incorrectos (touradas, "chegas" de bois), temos alguma irresponsabilidade ambiental firmada nos nossos genes, adoramos o mar e a natureza, o que não nos impede de os sujar e maltratar quando a ocasião se proporciona.

Somos um povo de contrastes, nem melhor nem pior do que os outros.

Vem esta conversa a propósito de mais uma vez ter observado a convivência - num mesmo espaço e no mesmo tempo -  de paixões tão aparentemente contraditórias como a política de esquerda ortodoxa, o amor à festa brava e o respeito pela tradição católica.

Entre  a saudade por Mestre David Ribeiro Telles, a reverência à Nossa Senhora do Castelo e  o abraço aos princípios do Partido ( sim, desse mesmo!) faz-se a vida pública neste Ribatejo a meio caminho entre Évora e Lisboa.

Estranho? Porquê? Só a malta da direita "tem direito" a gostar de touros? Quem disse que a festa brava é propriedade só de alguns? E quanto à Igreja católica estamos conversados...Por cada Monsenhor enfeudado à oligarquia do momento ( seja ela qual for) temos um Francisco de Assis, um D. António Ferreira Gomes ou um D. Hélder da Câmara.

Para já não falar do Papa atual.

Duas das pessoas que mais respeito , pela qualidade intelectual e pelo assumir sem qualquer tipo de preconceito os seus ideais de esquerda, são adeptos da capeia raiana (um deles) e o outro do toureio apeado. Aliás, foi este último que escreveu a mais sentida homenagem a Manolete que tive ocasião de ler na minha vida, no Expresso, em Agosto de 1997.

A expressão "gauche caviar" dos gauleses foi cunhada para denegrir: Une fausse gauche qui se donne bonne conscience sans rien risquer, qui parle de la justice mais ne la pratique pas, Une gauche qui dit ce qu'il faut faire, mais ne fait pas ce qu'elle dit...

Aqui em Portugal e para o caso em apreço não se trata de nada disso! São homens e mulheres que vivem de acordo com as suas ideias, equilibrando com argúcia as preocupações legítimas de cariz social com o respeito pelas tradições da sua terra.

Bem hajam elas, e eles!

sexta-feira, agosto 05, 2016

Em Coruche louvando Nossa Senhora do Castelo



Esta tarde estarei em Coruche , participando no início das comemorações dos 500 anos  da  Procissão em Honra de Nossa Senhora do Castelo (1516-2016), com a presença confirmada de D. José Alves, Arcebispo de Évora na procissão solene que se realizará a 15 deste mês. 
Mas hoje teremos a inauguração da Exposição sobre este tema no Museu Municipal, bem assim como a edição de um catálogo sobre a história do evento. Os CTT fazem um Postal Inteiro Comemorativo e, como não podia deixar de ser, lá vai o embaixador itinerante da filatelia com a caixa de carimbos debaixo do braço, para dar testemunho do ofício e ver se converte mais alguma alma para esta arte.
Estando por lá pode ser que me arrime a umas febras e cachola em azeite e vinagre, um petisco típico de Coruche que já não provo há muitos anos. 

quinta-feira, agosto 04, 2016

Chuva de Verão



Caetano Veloso imortalizou este poema com a sua música. Ainda se lembram?

Podemos ser amigos simplesmente
Coisas do amor nunca mais
Amores do passado, no presente
Repetem velhos temas tão banais
Ressentimentos passam com o vento
São coisas de momento
São chuvas de verão...

Pois hoje está assim. Dia para a melancolia e para alguns de nós se perderem outra vez na conhecida "Memory Lane".

Por entre os temas passados que me vieram à memória recordo com saudade  um episódio passado nos meus primeiros dias nos correios.  Pedindo desculpa aos colegas que "entraram na comédia", alguns dos quais já cá não estão connosco neste mundo.

O director de então tinha introduzido nos serviços da chamada Direcção Comercial (que nesse tempo não se limitava à  filatelia, tinha tudo o que era produto de correio) a grande inovação da máquina de calcular eléctrica.

Não sei se se recordam, mas nos anos 70 do século passado (e antes) havia umas maquinetas mecânicas de manivela (para trás diminuíam, para a frente somavam) que eram utilizadas para o mesmo fim.

O nosso chefe de contabilidade - o Sr. Magalhães - era homem antigo do correio antigo. Proficientíssimo na máquina "da manivela", exímio na soma com lápis e papel, mas desconfiadíssimo da "electricidade".

Nessa altura só saíamos da Casal Ribeiro quando já não havia trabalho. Devo recordar que éramos quatro gestores de produto que  fazíamos todo o processo comercial dos CTT: Cartas, registos, correio publicitário,   encomendas e serviços financeiros. Estava tudo  a nosso cargo. No meu caso eram os chamados "finos", as cartas, os postais, os registos,  etc..

Não existiam computadores. Os relatórios e memorandos eram escritos à mão e depois passados à máquina numa "poole" de dactilógrafas que era comum aos quatro.

Pois num desses dias, já mais para a noite do que para o final da tarde, desci à contabilidade onde reparei que o Sr. Magalhães ainda trabalhava, com os seus "manguitos" enfiados para proteção da camisa, aparentemente a fazer contas de cabeça com o seu lápis de estimação, tendo à frente a fita impressa da máquina eléctrica.

Questionado sobre o porquê da operação a horas tão tardias,o notável funcionário logo me disse:

-" Eu cá desconfio desta coisa das máquinas eléctricas! Quando acabo o trabalho fico aqui mais um bocado a refazer as contas todas à mão,  para ver se a "gaja" se enganou!"

Bons Tempos!