sexta-feira, março 27, 2015

O mundo ensandeceu

Estive no Porto e ainda passei por Fátima à vinda, preparando as emissões de S. João Bosco (200 anos) e de Santa Teresa de Jesus (500 anos).

Nas conversas destes dias tinha que  sobressair esta estranhíssima ocorrência do Airbus caído nos Alpes com 149 inocentes. E muito mais estranha quando se perfila no horizonte que a queda do aparelho teria por origem uma intenção criminosa do co-piloto -  apanhado numa teia mental de suicídio\homicídio que não tenho competência para julgar.

Não há poema que nos salve destas ocorrências?  Salvar não salva, mas pelo menos ajuda-nos a viver com estas angústias.

Recordo Herberto Helder nesta síntese definidora da sua obra ("Público" de 26 de Março):

No texto de abertura de "Ou o poema contínuo" (2001) – redução da sua “poesia toda” a uma “súmula”, não a uma antologia – Herberto Helder designa a época como a de um tempo de redundância: “O livro de agora pretende então aceitar a escusa e, em tempos de redundância, estabelecer apenas as notas impreteríveis para que da pauta se erga a música”.
Insinua-se aqui uma atitude radical que o poeta seguiu rigorosamente, ao fazer com que a sua obra existisse apenas por si mesma, impermeável a interferências mundanas, erguendo-se fora – e contra – o ruído do mundo.
 
 Há alturas - como estas em que reflectimos sobre as desgraças - onde também gostaríamos que a nossa vida seguisse  existindo apenas por si mesma, impermeável a interferências mundanas... mas não é possível.
 
Do grande Poeta aqui deixo uma simples (aparentemente) Bicicleta:
 

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais.


Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.


O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece.


Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.


De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.


O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada?


De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.


Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.

Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.


Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.


Herberto Helder,  Cinco Canções Lunares
 
 

terça-feira, março 24, 2015

O Solário

Na minha juventude parecia uma foca. Em mais do que um aspecto. Uma foca musculada depois dos 15 anos , quando já fazia judo  a sério, mas mesmo assim uma foca.

Uma foca que todo o santo Verão passava a vida na água e ao sol. Nasci e vivi (ainda hoje) a 150 metros da praia em linha recta. O que fazia com que fosse logo para a praia pelas 9h da manhã. Lá almoçava e só aparecia em casa depois das 19h. Esganado de fome, porque os  5 escudos que levava no bolso do fato de banho  davam apenas para um pacote de batatas fritas e uma ou duas bolas de berlim .

Vinha já com o banho de água termal tomado nas nascentes da Poça (poupava no gás e na água da torneira), jantava e corria outra vez para o paredão com os amigos, fazendo o trajecto pedonal do Estoril até Cascais.

Como diria o grande Jean Gabin, "C'était le Printemps, c'était le début". Saudades desse tempo em que mergulhávamos nas ondas para molhar as meninas à borda de água como forma de demonstrar um bocado à bruta um interesse que dois ou três anos mais tarde já se manifestava de outras formas.

Um miúdo de 15 anos nesses tempos era mesmo isso. Um miúdo. Uma menina da mesma idade não era assim tão imatura. Sonhava já com namoros enquanto nós sonhávamos com os campeonatos de futebol de salão do Estoril-Praia. Fomos campeões 3 vezes! A nossa equipa chamava-se "Scorpions"... Éramos os reis do deserto.

Nessa altura não me lembro de se falar de problemas de pele causados pela  exposição solar.
Falava-se até à exaustão na "necessidade de fazer bem a digestão antes de tomar banho" e ainda no cuidado em "molhar a cabeça para que o Sol não fizesse mal".

Médicos e suas famílias partilhavam connosco aquelas areias e faziam a sua vida na praia de sol a sol. Era um ambiente muito parecido com o do "Verão Azul" , não sei se lembram da série espanhola passada na Caleta de Maro (Málaga)?

Mas nem esses entendidos falavam sobre esta importante questão .

Hoje em dia ando afastado de praia. Tenho receio que o meu mergulho nas ondas do mar provoque alguma maré viva antes de tempo. De foca transformei-me em morsa. É uma espécie de foca soprada.

Por isso houve quem me recomendasse um "soláriozinho para dar uma corzinha".

Não faço. Nem é por medo ao melanoma, mas sim por uma questão de princípio.

A única cor que admito em cima do corpanzil será alguma vermelhidão no apêndice nasal em caso de congestão, por  constipação ou alergia.

Não mascaro a cara com bandeiras, não ponho maquilhagem (pôrra!), nem pinto o cabelo. Porque é que haveria de querer ficar moreno à força?

Não fazes mas gostas de ver nas meninas? 

Sem vergonha admito que sim. É a idade...

segunda-feira, março 23, 2015

As Listas

Nunca gostei muito de listas.

 Já nasci anafado e as listas horizontais faziam-me parecer (ainda) mais gordo. E quanto às listas verticais, sempre me pareceu serem mais dignas dos filmes de gansters, daqueles senhores que usavam camisa cinzenta de risca preta com gravata preta, por baixo de fatos pretos de três peças.

Tolerava as listas das clássicas gravatas regimentais britânicas, na altura em que estavam na moda. Hoje, já nem por isso.

E sobre as "outras" listas? As de nomes, moradas e outros detalhes?

Chegada a tarde da vida (melhor dito, o "depois do almoço", o início da digestão)  a memória já não é o que era, pelo que admito precisar de auxílio para manter a "lista" dos meus contactos vivinha da silva.  Fora essa, que me faz falta embora não seja obrigado a amá-la, confesso que não ligo a mais "lista" nenhuma.

Por isso esta questão da "Lista das Finanças" me apanhou um bocado de surpresa.

Eu sempre admiti - se calhar sem razão nenhuma - que um dos fringe benefits da malta que trabalhava a mexer na informação dos outros era exactamente poder coscuvilhar a vida dos outros...
O gerente da nossa conta no banco, o fiscal das finanças, o merceeiro que sabe o que compramos, até o médico que deve ter - depois dos 50 anos dos doentes - ficheiros sobre as nossas partes privadas que dariam um livro (ou dois). Para não falar do farmacêutico que "avia" o viagra, ou as pílulas do dia seguinte. Com ou sem receita médica.

Estamos a enganar quem? Neste mundo lusitano e provinciano saber da vida dos outros é um "must". Pode-se fingir que não se sabe e que até é imoral, pouco ético ou fora da lei meter o nariz nessas coisas. Mas que há quem lá meta o nariz, desde sempre, isso não duvido.

Leiam o Eça. Leiam o Camilo. Pouco ou nada mudámos.

Recordo-me do velho amigo Américo (do Sagres) que se habituou a espalhar o dinheiro que tinha ( e que não seria pouco) por vários bancos. E quando questionado pelos colegas da profissão sobre esta "idiotice" que não lhe dava músculo ("leverage" como diriam os banqueiros) com nenhum banco, apenas respondia:

- "Da minha vida sei eu! Não é o gerente de um banco que me vai contar os trocos todos."

Porque é que haveríamos de ser todos iguais perante a Autoridade Tributária e Aduaneira? Apenas  porque está lá escrito na Constituição? 

Também está lá escrito que somos todos iguais  perante a Justiça , a Educação, a Doença,  ou o Bem Estar . E nesse aspecto não somos nada iguais mesmo... Depende da carteira.

Depende cada vez mais do peso da carteira.

Esta situação desculpa a "estória das listas da AT"?  Não. Nunca.

Tal como não se desculparia se descobríssemos que uma lista de doentes à espera de quimioterapia  num hospital do estado fosse "politicamente" orientada... Primeiro a malta com cartão do SLB, depois a do SCP... Ou ao contrário.

Uma coisa é a prática diária da desbunda nacional. Outra coisa é a desbunda ser oficial e garantida em papel passado e com selo branco.

E aí, por enquanto, ainda não chegámos! (Acho eu,  que prefiro quadradinhos às listas...)

quinta-feira, março 19, 2015

Descansando a Vista à Quinta

Amanhã é o dia da Convenção CTT 2015, a reunião magna da casa onde se fazem as contas de 2014 e se projecta o ano de 2015. Por isso não vou aparecer por aqui. Lá estarei no Campo Pequeno (salvo seja) com mais de 800 colegas, a ouvir a "lição".

O habitual espaço de poesia terá que falar de Pais e Filhos, neste dia que as outras "convenções", as sociais, dedicam ao Pai Adão e , por inerência, a todos os que o seguiram nesta senda de semear a raça.

Começamos pelo Bardo William Shakespeare (soneto 37):

As a decrepit father takes delight
To see his active child do deeds of youth,
So I, made lame by Fortune's dearest spite,
Take all my comfort of thy worth and truth.


For whether beauty, birth, or wealth, or wit,
Or any of these all, or all, or more,
Entitled in thy parts, do crownèd sit,
I make my love engrafted to this store.


So then I am not lame, poor, nor despised,
Whilst that this shadow doth such substance give
That I in thy abundance am sufficed


And by a part of all thy glory live.
Look what is best, that best I wish in thee.
This wish I have; then ten times happy me!
                            

E acabamos em português com Jorge de Sena:

Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida.
Se a não chegaste a conhecer, se a vida
ta não mostrou - já não conhecerás

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
Já nenhum astro te será fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
- ri-te de ambas, que um filho é imortal.

Jorge de Sena, in 'Visão Perpétua

quarta-feira, março 18, 2015

Ironias e Incongruências

A conversa sobre os livros e a falta de espaço e tudo aquilo que temos ao dispor mas acabamos por não utilizar - os tais 250 anos de vida que seriam necessários para ler o que nos interessa - levaram-me a recordar meu mestre Jorge Luis Borges.

O grande escritor de Buenos Aires cegou na altura em que foi nomeado Director da Biblioteca Nacional da Republica Argentina. 
E logo escreveu:
"A ironia de Deus vê-se em pequenas coisas como esta -  900 000 volumes  e um cego para os ler a todos."

Num dos seus contos -  "Biblioteca de Babel" que alguns consideram ser uma metáfora para a moderna sociedade da informação -  fala-se de uma biblioteca gigantesca onde existirão segundo Borges, para além de muitas outras coisas:  "las autobiografías de los arcángeles, la relación verídica de tu muerte...  basta con que un libro sea posible, para que exista en algún lugar de la inmensa Biblioteca."

Borges também costumava dizer que  "sempre entendera o paraíso como uma espécie de biblioteca."

No final do século XIX ainda era possível a um  cientista, douto e trabalhador, dominar uma área do conhecimento científico e ser um diletante bem informado em mais uma ou duas.

Hoje em dia  a própria noção de "área de conhecimento" especializou-se de tal forma que já não é possível haver "físicos" (por exemplo como Einstein ou Shrödinger) mas sim "físicos de qualquer coisa".

A Universidade de Munique lista 8  cursos para os estudantes interessados neste "campo":
Astronomy and astrophysics, cosmology
  • Molecular biophysics, statistical physics
  • Solid state physics, nanophysics
  • High- and medium-energy physics, mathematical physics
  • Laser physics and quantum optics
  • Meteorology
  • Medical Physics
  • Physics education

  •  
    E em Medicina? Imaginam os "campos de estudo", as "especialidades"?  Reconhecidas oficialmente  pela ONU são 55...
     
    O problema desta especialização pode ser a perda da visão de conjunto. O historiador perito em Arqueologia Naval da Época dos Descobrimentos tem ou não  de estar ainda à vontade nos meandros da História da Expansão Ibérica? E compreender onde tudo aquilo se  enquadra  nas relações políticas europeias do século XV e XVI?
     
    O famoso "Dr. House" era um generalista especializado em diagnóstico.  Mais uma incongruência?
    Ou o reconhecimento que para diagnosticar bem tem de se saber um pouco sobre a grande maioria de todas as doenças?
     
    Mesmo sobre o carbúnculo que o aldeão médico Fernando Namora introduz aos especialistas de Lisboa, lá para os anos 60...
     
    Nota: Bibliotecário de Babel é um quadro original de Maria Helena Vieira da Silva

    terça-feira, março 17, 2015

    Os nossos livros antigos

    Todos temos em casa caixas de papelão antigas com fotografias e papéis, caixas de cartão com livros que não cabem nas prateleiras (este é o meu caso mais gritante), caixas cheias de brinquedos antigos e de roupas que já não nos servem, mas que segundo a tendência optimista de cada um de nós, "ainda podem vir a servir".

    Na última "rabanada" de vento que dei a estas antiguidades foi possível dar muitas coisas (roupas e brinquedos) a organizações de solidariedade social. Mas quando chega a questão dos velhos livros parece que cai o Carmo e a Trindade.

    Os livros não são para dar? Teóricamente concordo com isso. Mas quando se aproxima a data de fazer a escolha? Nem pensar. Volta tudo outra vez para a caixa de onde saíu...

    Tanto eu como o "senhorio" temos paixões assolapadas pelos nossos livros. E como somos nesse aspecto compradores compulsivos e obsessivos, é bem de ver que já não há espaço linear de parede para tanto livro,  e começa a faltar espaço volumétrico para os  15 caixotes de 70x70x70 que se equilibram (mal) em cima uns dos outros na cave.

    Quando tiramos do pó do esquecimento algum livro é normal que traga consigo memórias da 1ª vez que se leu, das circunstâncias dessa primeira leitura , e por aí fora.  Qualquer livro se transforma desta maneira numa espécie de repositório do passado do seu dono. E isto - pelo menos para mim - é difícil deitar fora.

    A possibilidade de começar a armazenar os livros novos em formato e-book foi uma grande lufada de ar fresco que entrou por aquela casa. Temos já uma biblioteca razoável, com mais de 200 títulos nesse formato. O único problema é que usamos o IPad mais novo para armazenar a biblioteca que é comum a ambos... E isso pode dar faísca às vezes.

    Há que comprar outro IPad e segregar as "livrarias". Mas já repararam quantas obras em formato e-book  se podem comprar pelo preço de um IPad??  Difícil decisão, até porque o e-book não se cheira nem se apalpa... Mas necessária.

    Forçado pela inevitabilidade da escassez do espaço - a casa na quinta é bem maior, mas os livros podem estranhar estar afastados dos donos, e podem ainda por cima passar frio lá na serra - dou comigo a perguntar se não estou (estamos) a transformar-nos naquela criatura com problemas mentais a que chamam na literatura da especialidade um "Hoarder" (acumulador patológico)?

    A Clínica Mayo descreve esta condição:
    Hoarding disorder is a persistent difficulty discarding or parting with possessions because of a perceived need to save them. A person with hoarding disorder experiences distress at the thought of getting rid of the items. Excessive accumulation of items, regardless of actual value, occurs.

    Pode ser que ainda não esteja a chegar aí, a esse extremo, mas deve haver qualquer coisa estranha em mim no que diz respeito aos livros e à sua posse.

    Como é que alguém - como eu -  que normalmente "dá tudo a toda a gente" e é geralmente conhecido como   "um mãos largas",  se pode transformar em "tio patinhas das encadernações", sejam elas de capa dura,  tecido ou cartolina barata?

    Mistério...

    segunda-feira, março 16, 2015

    Comeres tradicionais da Raia

    O Bucho da Guarda que comemos no Belo Horizonte levou-nos a falar com o proprietário (Sr. José) para discutir o que os clientes ainda pedem e continua a comer-se agora e o que deixou de ser cozinhado, embora fosse também tradicional.

    Numa cidade onde os talhos  já servem ao passante os produtos da charcutaria espanhola (ali tão perto ) é de desconfiar que algumas das tradições tenham ido por água abaixo, por falta de "animação cultural".

    A procura do tradicional e do antigo leva a situações que nem sempre são as mais desejáveis. Abundam as pequenas falcatruas. Algumas para fugir à regra da "origem controlada". Outras para continuar a fazer em casa o que é agora obrigatório ser feito em local inspeccionável pelas autoridades. O  Bucho e a magnífica Morcela de Sangue são bons exemplos.

    A lei diz sobre o Bucho:

    Entende-se por BUCHO DA GUARDA, o enchido fumado obtido a partir da carne da cabeça, rabo, costelas, cartilagens, osso da espinha, focinho e orelha de porcos de raça Bísara na sua linha pura ou de animais resultantes de cruzamentos, em que pelo menos um dos progenitores seja da raça suina Bísara, inscrito no respectivo Livro Genealógico.

    Sem ter o bicho suíno morto à frente imagina-se que estas questões das genealogias bastas vezes fugirão ao "bísaro" e passem para o "chino" ...

    O mesmo para o Queijo da Serra, onde a Guarda faz figura de chefe de fila (mesmo nos USA!) já que o seu distrito abrange os concelhos de Seia, Gouveia, Fornos de Algodres, Mêda e Sabugal. Grandes terras de ovelhas bordaleiras,  churras e de pastorícia milenar.  Todavia Covilhã, Tábua, Tondela. Trancoso e Viseu também têm freguesias certificadas.

    Aqui a questão parece mais ser a de ter de pagar a certificação e a "coima" à Cooperativa, coisa que muitos pastores e pequenos produtores não desejam fazer, nem fazem...

    Por isso é mais fácil apanhar grandes queijos da serra "fora da  mãe". Como em tudo, é preciso conhecer.

    O uso da Denominação de Origem "Queijo Serra da Estrela - DOP" e "Queijo Serra da Estrela Velho - DOP" fica reservado aos produtos que obedeçam às características estipuladas no caderno de especificações, o qual inclui, designadamente, as condições de produção e conservação do leite, higiene da ordenha, fabrico do produto, o saneamento animal e a assistência veterinária, as substâncias de uso interdito, podendo ser utilizada apenas por produtores expressamente autorizados pelo Agrupamento, ESTRELACOOP - Cooperativa dos Produtores de Queijo Serra da Estrela, CRL., que se comprometam a respeitar todas as disposições do respectivo Caderno de Especificações e se submetam ao controlo a realizar pelo Organismo Privado de Controlo e Certificação - OPC - BEIRA TRADIÇÃO - Certificação de Produtos da Beira, Ld.ª.

    Para mim, e nunca desdenhando do cabrito assado no forno de lenha, uma das iguarias mais mimosas que já comi em terras da "capeia arraiana" é a vitela do Jarmelo. Dizem que é derivada da Mirandesa, mas os pastos de altitude onde normalmente anda adoçam-lhe a carne e o exercício de andar sempre a subir e a descer a montanha faz repartir a gordura natural destes animais de forma uniforme.



    No dia 27 de Abril de 2006, a Assembleia Municipal da Guarda declarou a Raça Bovina Jarmelista como de Interesse Municipal. Mais recentemente, após conclusão dos estudos e investigações iniciadas em 2004 pela Direcção Geral de Veterinária, em colaboração com a Associação de Criadores de Ruminantes do Concelho da Guarda, foi finalmente, em 27 de Outubro de 2007, reconhecida a Raça Bovina Jarmelista como Raça Autóctone Portuguesa.

    Mesmo apenas grelhada nas brasas esta carne de vitela tem tudo para se tornar um ex-libris da Guarda e arredores. O problema é que para a apanhar no prato é preciso meter empenhos e fazer promessas à Virgem da Assunção (padroeira da cidade). Tentem telefonar ao Belo Horizonte e marcar.

    E apesar da posta do lombo ser a parte nobre, nunca digo que não à proletária costela mendinha assada no forno com as batatas da Guarda e os grelos de nabo da mesma proveniência.

    Encerro com umas linhas sobre os vinhos desta zona, longo tempo considerados inferiores por comparação com a  "outra" encosta soalheira onde foi Nosso Senhor servido de colocar a região do Dão. Neste momento os vinhos da Beira Interior estão a subir de qualidade. A casta Roupeiro (aqui designada por Síria) faz belos brancos de guarda, enquanto que a Tinta Amarela, Touriga  e Roriz fazem bons tintos em Pinhel, Figueira de Castelo Rodrigo e na Cova da Beira.

    Por mim gosto do trabalho que Luis Roboredo está a fazer na Mêda, com a sua marca "Gravato". Boa relação qualidade \preço e excelentes vinhos, brancos e tintos. E tem um Palhete notável. Até pela raridade. Que não deve ser confundido com o Rosé!!

    quinta-feira, março 12, 2015

    Na Guarda


    Amanhã tenho reunião na "mais alta" para discussão dos últimos detalhes de um dos nossos próximos livros: "A Rota das Catedrais".
    Enquanto afio o dente para o almoçinho no sempre amado Belo Horizonte aqui deixo um texto de Mestre Eduardo Lourenço (nascido em Rio Seco, Melo, Distrito da Guarda) que apesar de ser em prosa é de facto um grande poema homenageando o seu ( e nosso) amigo  Eugénio de Andrade por ocasião do seu desaparecimento.

    Que grande pedaço de literatura!

    A morte foi-lhe póstuma.

    Como para sublinhar que não lhe dizia respeito.
    Realíssima foi a sua longa agonia branca, o estar assistindo à sua vida sem poder fazer nada por ela. Nem nós, seus amigos, vendo o mais solar dos poetas a braços com esse crepúsculo sem manhã.
    Vivo e consciente, contemplou a última metamorfose, da sua própria margem, aquela que uma luminosa vida de versos lhe construíra como a única barca imune ao negro esquecimento.

    Aí permanecia o deus verde que sonhara o seu destino como quem dança.
    Sem anjos e sem pecado.
    Viera para inventar, cantando-se e encantando-se com o mundo, o seu próprio paraíso.

    Do reino das sombras, só soube da ausência da luz original que elas são.

    No cristal das palavras talhou o corpo dos poemas onde morria e ressuscitava.
    Todas lhe eram caras mas mais aquelas que precisavam dele para serem saboreadas pelos outros, as mais discretas, as mais duras no seu silêncio, as que tocadas por ele se convertiam em chama perpétua.

    As coisas mesmas, as mais banais, foram os seus símbolos.
    Elas lhe bastaram para deixar na memória poética da nossa língua aquela "espécie de música" a que Óscar Lopes aludiu.
    E é o sonho inalcançável de todo o poema.
    No círculo encantado que de Bernardim conduz a Pessanha, Eugénio instalou a sua tenda.

    Agora pode conversar de igual a igual com os seus astros tutelares.
    E concentrar-se inteiro na haste da melancolia que evocou para nós.
    Ave solar em plena luz.

    Vence, 13 de Junho de 2005
    Eduardo Lourenço

    quarta-feira, março 11, 2015

    A Vermelho

    Público
    Todos os jornais do dia de hoje trazem a 1ª página pintada a vermelho.
    Quando cheguei ao quiosque da Av. da República o "dono da casa" logo me disse:

    - "Olhe que o Luis Filipe Vieira hoje comprou a 1ª página dos jornais todos!".

    Mas não devia ser isso.

    Afinal foi o FCP que deu 4 a 0 ontem à noite e empochou os 4 milhões de euros respectivos, e não o SLB que em termos de Champions deve estar agora a sonhar com a erva do próximo ano. Erva não, que parece mal! Relva!

    Entre a evocação dos 40 anos da tentativa de golpe de esquerda que ficou conhecida pelo "11 de Março de 1975" e a infame memória dos atentados de Atocha, Madrid ,de 11 de Março de 2004, inclino-me mais para que tenham sido estes últimos a justificar esta tomada de posição conjunta dos nossos periódicos.

    Podemos sempre admitir que seriam os jornalistas a adivinhar já o sangue do debate parlamentar de logo à tarde, onde se discutirá a memória (ou a falta dela ) do Sr. Primeiro Ministro...

    Ou então,  a Cruz Vermelha Portuguesa  e o Instituto Português do Sangue, aflitos com a falta de dadores,  deram as  mãos para fazer esta pintura mural mediática,  lembrando às pessoas que se não doarem hoje não terão sangue amanhã.

    Para esse efeito  e para a memória de Atocha contem comigo. Para o resto, nem por isso.

    A não ser que se trate de algum golpe publicitário. Mas de quem?

    Quem ousaria pintar de vermelho todos os jornais? Que marcas vermelhas são mais conhecidas em Portugal deixando de fora o "glorioso"?

    Os CTT, o Continente, o Santander-Totta, a Sagres, Aucham, Vodafone...

    Foi a VODAFONE!

    Esclarecido o mistério.

    terça-feira, março 10, 2015

    A Fronteira


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    A linha que separa o domínio público do domínio privado esbateu-se com a divulgação e utilização das redes sociais.

    Aqui no Blog (e na posterior partilha via facebook) tenho sempre algum cuidado em fazer juízos prévios sobre se estarei a divulgar "segredos" só meus ou também de terceiros que podem, ou não, gostar de se ver envolvidos nestas charlas.

    Quando almoço em companhia e a ocasião é trivial, mal não faz que se relate algum episódio interessante, ao mesmo tempo que se fala do que se comeu e bebeu. Mas quando a situação é mais complexa ou - pior ainda - quando sou convidado e não "mando na bola", entendo que deve imperar alguma discrição.
    Por enquanto ninguém se queixou de alguma falta de respeito (embora involuntária) da minha parte na divulgação da respectiva presença, o que - após mais de 10 anos de Posts -  me parece reconfortante.

    Mas também no que diz respeito a questões mais pessoais podemos levantar alguma poeira.

    Por exemplo, eu ando com sintomas gripais há mais de 2 semanas e ultimamente comecei a preocupar-me (o que em mim é raro) porque a p*** da gripe não passa, dá febres baixas e arrasa os pulmões com uma tosse seca incomodativa. E não largo o paracetamol.

    Será isto do domínio público? Claro que não. Mas se servir para eu próprio brincar com a situação e exorcizar os meus demónios, então tudo bem. Só lê quem quer e a"gripe" é minha...Desde que a não "passe" a estranhos.

    Vem esta conversa aqui hoje para ilustrar uma situação engraçada (dependendo dos pontos de vista).

    Um amigo meu, um bocado dado ao convívio, queixou-se amargamente que a mulher lhe fez a vida negra quando o viu à noite, numa bela fotografia de copo na mão (através de uma página de um amigo comum) quando em teoria devia estar a trabalhar. E nem refiro qual era o local do crime...Basta insinuar que tinha tromba...

    O tal amigo fotógrafo da noite (solteiríssimo, que são os piores para estas coisas) era "amigo" da mulher dele no Face. O que o próprio desconhecia. E podem ter a certeza (sabendo-se quantos séculos as senhoras mulheres guardam estas coisinhas dentro da sua memória) que o desgraçado irá ser lembrado até ao fim da sua vida terrena deste "faux pas".

    A transparência e absoluta falta de privacidade que a tecnologia dos smartphones hoje permite também me preocupa.

    Saber que em qualquer lado um fulano pode estar a ser observado, filmado e fotografado, esteja sóbrio ou já um bocado enrolado, esteja sozinho ou acompanhado (bem ou mal), esteja num restaurante, num bar, numa casa de petiscos ou no cinema? É um bocado arrepiante...

    Por isso me parece ser importante traçar-se do ponto de vista ético e formal a tal "fronteira" entre o interesse público e anedótico geral e o direito à privacidade de cada qual.

    Podem saber mais lendo vários artigos especializados que abundam na Internet.

    Com chapelada à Srª Prof. Doutora Maria Eduarda Gonçalves, da Faculdade de Direito da UNLisboa, transcrevo:

    "...Será importante que o utilizador compreenda que se pensar em colocar algo na sua página pessoal que o deixe com dúvidas, opte por não o colocar de todo. Isto é premente (...) porque, embora não exista, actualmente, jurisprudência portuguesa que resolva esta questão, a tendência internacional é considerar as redes sociais como enquadradas na esfera pública do utilizador, independentemente das suas definições de privacidade."

    sexta-feira, março 06, 2015

    Para Descansar a Vista (com Torga)


    Ontem não pude acompanhar a Fátima e o Mário a Évora (ao nosso Fialho)  porque estava com gripe (outra vez).

    Hoje vim trabalhar mas tenho o nariz e a garganta como se tivessem sido passados com  lima de cartão, mas não aquela que se usa para as unhas dos bébés! Da outra, de lixar madeira.

    Não tenho muita paciência para andar à procura de rodriguinhos e malvasias, campos de lavanda à moda dos anúncios da Occitane e coisas parecidas. Hoje apetece-me um poema de trabalho, rijo como o granito e  agreste como a rocha nua.

    Para onde me virei? Exactamente para uma "rocha". Melhor dito, para um "Rocha". O Sr. Doutor Médico Adolfo Correia da Rocha, que conhecemos melhor como Miguel Torga.

    O grande poeta, a Voz de Trás-os-Montes, traz-nos a poesia como  expressão de alguma revolta, embora nunca de tom pessimista.

    A humanidade de Torga não abdica da sua capacidade de sonhar e de buscar a felicidade terrena.
    E nós também devíamos ser assim. Digo eu.


    Livro de Horas

    Aqui diante de mim,
    eu, pecador, me confesso
    de ser assim como sou.
    Me confesso o bom e o mau
    que vão ao leme da nau
    nesta deriva em que vou.

    Me confesso
    possesso
    das virtudes teologais,
    que são três,

    e dos pecados mortais,
    que são sete,
    quando a terra não repete
    que são mais.

    Me confesso
    o dono das minhas horas
    O dos facadas cegas e raivosas,
    e o das ternuras lúcidas e mansas.

    E de ser de qualquer modo
    andanças
    do mesmo todo.

    Me confesso de ser charco
    e luar de charco, à mistura.
    De ser a corda do arco
    que atira setas acima
    e abaixo da minha altura.

    Me confesso de ser tudo
    que possa nascer em mim.
    De ter raízes no chão
    desta minha condição.
    Me confesso de Abel e de Caim.

    Me confesso de ser Homem.
    De ser um anjo caído
    do tal céu que Deus governa;
    de ser um monstro saído
    do buraco mais fundo da caverna.

    Me confesso de ser eu.
    Eu, tal e qual como vim
    para dizer que sou eu
    aqui, diante de mim!

    Miguel Torga

    quarta-feira, março 04, 2015

    As Galinhas aparecem em tudo. São piores do que o DDT.


    Para me distrair dei por mim a contar quantas vezes apareciam galinhas em filmes , séries de TV e seus noticiários. Não falo de programas dedicados às galinhas, tipo National Geographic do Galinheiro! Falo do aparecimento sub-reptício das ditas cujas nos outros programas de interesse geral.

    Family Guy Peter Griffin TV series chickens comicsE antes que me venham gozar com o Benfica, e com as hortas comunitárias (ou biológicas , ou sustentáveis, ou lá o que é)  de Carnide, aviso já que estas galinhas de que aqui falo não voam! Embora, e já que falei nisso, seja certo e sabido que o galinhame esteja também metido nas ditas hortas que referi.

    Mas tanto em Carnide como nas de Alvalade, ou  da Musgueira, onde se situa o Centro Recreativo Águias da Musgueira. O qual não tem galinhas. Pelo menos nas salas...

    A "galinha" aparece em Ramala, na Cisjordânia, em Bagdad, em Tabriz, em Donetz. Nalguns destes locais está em vias de extinção, é mais rara do que o lince ibérico (et pour cause) mas o que é certo é que se mantêm no território.

    Na Serra da Estrela todos os velhos o sabiam: Galinha velha para a panela, galinha nova para a ova.

    Nunca se matam todas as galinhas, por causa dos ovos. Sem galinhas quem é que os vai pôr? Pôr cornos (com vossa licença)  é fácil e qualquer um (uma) o pode fazer. Mas pôr ovos?
    O imbecil que matar as galinhas todas vai chupar no dedo quando lhe apetecer uma omolete.

    Espreitando por detrás dos carros virados do avesso, passeando pelos  crateras das bombas, metendo a cabeça estúpida por entre os buracos do arame farpado, na zona de guerra estão galinhas!

    Ando agora a companhar duas grandes séries:  "Honourable Woman" , sobre o Médio Oriente e as respectivas políticas ocidentais de enquadramento, e "Gotham" uma revisitação mais ou menos fantasiosa do universo pré-Batman na cidade que o terá visto nascer.

    Em ambas aparecem galinhas. Então na que retrata o Médio Oriente chego mesmo a acreditar que serão candidatas a "Best Supporting Actress" nos próximos Emmys.

    Em Gotham podem não parecer tão evidentes. Dá-se mais pela existência do Pinguim. Pelo menos enquanto que esta série nova não introduza o famoso personagem "Egghead", típico da velha série sua antepassada dos anos 60. Mas o que será um Pinguim senão uma espécie de "galinha antártica"?

    Para além disso, em Gotham, o velho mafioso D. Falcone (admitidamente já um bocado ginja) passa a vida num galinheiro de luxo que tem lá por dentro da sua propriedade, a dar de comer às galinhas...

    Nada mais suspeito amigos: Galinhas nas zonas de guerrra, por um lado, e a virem comer à mão de um mafioso, por outro lado...

    E nem falo (porque não investiguei) nas relações da Galinha com a AT... Terão pago a Segurança Social? Foram penhoradas? Onde e como?

    Não me levem a mal. Nada tenho contra esta raça e, pelo contrário,  devo até dizer que muito as aprecio.

    Como gosto mais dela é bem tostada no forno com arroz dos seus miúdos, mas uma cabidela nunca se desdenha! Nem sequer uma galinha frita à moda da Serra de Ossa!

    Agora uma coisa é certa: eu, se fosse vossas mercês, não punha a boca no trombone em havendo galinhas por perto. Quem nos garante que não são mata-haris especializadas na recolha de informação?

    O mundo está perigoso e parece entregue aos galináceos.

    The truth is out there!  E cuidado com o Putin!

    terça-feira, março 03, 2015

    Conversas de Café

    Resultado de imagem para Emissão de selos "Café"Dizem que o último filho é sempre o preferido dos pais. Não o sei dizer porque nesse aspecto quis o destino que não tivesse mais do que uma dessas "encomendas".

    Mas no que diz respeito aos outros "filhos", aos livros e selos que vamos editando com esforço e dedicação, apoiados pela sabedoria dos nossos autores e estribados na grande mestria dos ateliers de artes gráficas com que trabalhamos, a afirmação é mesmo verdadeira!

    Acabei de ler a noite passada, em livro verdadeiro ainda a cheirar a papel e tinta de impressão, a nossa última aventura editorial "Conversas de Café" da Fátima Moura.
    E fui dormir descansado, com a ideia de mais uma vez termos cumprido o nosso dever.

    É difícil falar de uma obra que acabámos mesmo , mesmo agora,  de retirar do prelo. Por causa da tal condição de "último filho" que a torna sempre mais atraente e cheia de glamour.

    Por outro lado, sendo nós os editores, mal feito seria que apoucássemos o que acabámos de fazer... E como sermos juizes em causa própria também não é coisa que fique bem, seja aqui na edição de livros ou noutras coisas mais gerais, estão a ver o sarilho em que me meti.

    Dito isto tudo, o que é certo é que acho este livro "Conversas de Café" um dos melhores que já fizemos. Na esteira dos seus ilustres sucessores vai decerto ser um êxito editorial que muito nos vai encher de orgulho.

    Parabéns à Fátima, autora conscienciosa e de altíssimo profissionalismo! Parabéns ao Atelier AF e seus "muchachos"!  Parabéns ao Mário pelas suas fotografias!

    Um grande abraço de agradecimento aos nossos editores aqui nos CTT, mais uma vez demonstrando
    que com poucos paus também se fazem canoas. Canoas não, naus e caravelas!!

    Se quiserem ver algumas imagens do livro podem ir aqui:


     

    segunda-feira, março 02, 2015

    Rescaldo do Prémio Universidade de Coimbra

    O  dia  de ontem foi bem passado. Sempre em Coimbra.

    Meteu almoço na "Taberna", meteu dois grandes vinhos (Bairrada branco Principal de 2009 e Luis Pato Baga de 1988), e obviamente que meteu a sessão de homenagem ao amigo José Quitério.

    Algumas notas interessantes sobre momentos desse dia:

     - Quando o Sr. António Quitério,  Pai do Zé,  estava à espera para se inscrever em Direito na UC achou que a fila era muito longa. Por esse motivo inscreveu-se antes em Matemática (que, vá-se lá saber porquê, tinha a fila mais curta)... Cinco anos depois, já licenciado em Matemática,  tirou o curso de Direito. Bons tempos ...
    Esta historinha foi contada pelo homenageado, ao dedicar com alguma emoção o prémio recebido à memória de seu Pai.

    - Já antes o Dr. António Arnault, aluno do Pai Quitério em Tomar, tinha recordado a figura de pai e filho, relatando pormenores muito engraçados da vida que partilhou com ambos.

    - O Engº José Bento dos Santos falou sobre a figura do José Quitério. Foi uma palestra muito interessante, discorrendo sobre a noção do "gosto" na vida moderna.  A palavra "gosto" vem da gastronomia e pela sua abrangência de sentido viu a respectiva utilização ultrapassar em muito os limites da cozinha e dos paladares. Quando alguém decora uma casa com qualidade diz-se que "teve muito bom gosto", não se diz que "teve boa vista"...

    - E recordo bem a propósito Zé Quitério no seu melhor:  um dos mais conceituados chefs do mundo afirmara que, a partir de agora, o gosto passa a ser secundário, o que interessa são as texturas e as suas ligações. Eu, perante isto, além de exclamar impropérios, digo: querem seguir por esse caminho? À vontade! Mas não comigo e com pessoas, talvez a maioria, para quem o gosto é o fundamental!

    - O texto escolhido para demonstrar a "sapiência" do homenageado foi (tinha que ser ) o canónico "Um Adeus Português". A famosa elegia ao bacalhau que David Lopes Ramos - entre outros - considerava o mais perfeito texto da língua portuguesa sobre o "fiel amigo". Quem ainda não o conhece pode começar já a preparar os "maravedis" para comprar o próximo livro do Zé onde será este texto magnífico reeditado.  Sairá em Março. Sim, neste Março.

    E termino com uma referência (cortesia wine.pt) ao Luis Pato do ano de 1988 na Bairrada. Para alguns considerado o melhor ano do século XX para aqueles vinhos.

    "Um tinto mítico de uma das grandes colheitas da Bairrada, o primeiro grande vinho de Luis Pato, o tinto que o catapultou para o cume da hierarquia nacional. Uma vintena de anos em estágio agora emancipados, no momento certo, no ponto ideal de consumo!

    Em prova cega, seria impossível dar-lhe vinte anos. O vinho parece muito mais jovem, ainda desinquieto e turbulento, ainda vibrante e tenso. Mas o passar de tempo acrescentou-lhe a sabedoria que só a idade pode proporcionar, complexidade e harmonia difíceis de igualar, uma paz de espírito notável que lhe sobrepôs uma elegância pouco habitual. E pensar que este era o vinho mais simples de Luis Pato, o vinho de entrada de gama, isto, claro, numa altura em que ainda não existiam nenhum dos posteriores rótulos especiais. São estas as sensações que mais nos cativam no mundo do vinho, a descoberta das pequenas diferenças, das subtilezas, das nuances e ornamentos, dos pequenos detalhes que transformam um vinho maduro numa experiência de vida tão perfeita."

    Nota: Fotografia de José Quitério  retirada da reportagem do Expresso , Revista "E", de 10 Janeiro de 2015


    sexta-feira, fevereiro 27, 2015

    Descansando a Vista com a mensagem 3500


    Tenho andado  a pensar no que vou dizer aos leitores por ocasião deste Post 3500. Adiei a escrita para que o Post 3500 coincidisse com uma Sexta Feira, esperando deixar aqui poema adequado, Também o farei. Mas manda o bom senso que não se limite a isso.

    3500 mensagens representam quase 10 anos de alimentação diária deste canto de conversa, que me serve sobretudo de momento "zen" (já tenho saudades do Jon Stewart), um local onde exorcisar as minhas apoquentações.

    No início o Blog era mais voltado para a política pura e dura, análise e previsão de resultados eleitorais, crítica política , etc... Depois começou a desenvolver com maior frequência a crítica gastronómica e de costumes. E hoje?

    Bem, hoje escrevo de acordo com o que me dá na gana ao acordar. Substituo com gosto as drogas ditas de tratamento e prevenção da ansiedade e da depressão por este exercício diário.

    Às vezes sai melhor, outras sai pior...

    O Post mais lido, desde sempre, foi o que dediquei aos palavrões caídos em desuso ("trigo limpo, farinha Amparo") com cerca de 3000 visualizações. Foi seguido de perto por outro que dediquei ao "cozido à portuguesa". E ambos bem acompanhados geralmente pelos posts onde me refiro a restaurantes. De assinalar as crónicas sobre a "Casa da Pega" e sobre as "Dona Julia e Julinha" que também ultrapassaram os dois milhares de leituras.

    O menos lido? Foi durante o Verão, nas férias do pessoal leitor, e dizia respeito a um dos habituais poemas das sextas feiras. Não chegou às 80 visualizações.
    Tendo eu muito estudado marketing na minha juventude, mal estaria se não concluísse que o meu mercado real é constituído por:

    "Gandas burgessos que só gostam de falar mal e de enfardar à mesa . E pouco dados às coisas do espírito, esses gandas ignaros!  Uns abrutalhados sempre prontos a meter a colher na sopa e o copo de três na boca. E  tiram o casaco à mesa e penduram o guardanapo no colarinho, à moda do Don Corleone!"

    Evidentemente que esta constatação de carácter primário  é errada e malévola.  Os leitores que me aturam são  pessoas  afáveis, amáveis e atenciosas, homens e mulheres simpáticos, sociáveis, sofisticados e urbanos. Autênticos "gourmets" que apreciam a boa mesa e a boa companhia, sabem respeitar um grande vinho e amam a boa poesia, lendo-a em qualquer das  línguas civilizadas do mundo ocidental.
    Enfim, gente lhana, polida e de grande refinamento,

    Nota: ia-me f***** lá atrás, mas consegui emendar o pé....

    A todos esses Ilustres Leitores, sem os quais eu viveria bem pior (...enfim...) aqui dedico o habitual Poema das Sextas. E para comemorar o Post número 3500 tinha que ser alguma coisa especial.

    Um dos meus poemas curtos preferidos é em português. Um soneto do cearense  José Albano (1882\1923), o "louco de Deus" como lhe chamava Manuel Bandeira. Um visionário que, sustentando-se de donativos por essa Europa fora, gastava tudo o que lhe tinham dado numa única refeição em Paris, comentando " se o mundo fosse justo todo o Poeta teria direito ao néctar!"
    Muito influenciado pelo nosso Luis de Camões ( seu herói predilecto) aqui vos deixo o Soneto I deste grande  e pouco conhecido poeta:

    Soneto I

    Poeta fui e do áspero destino
    Senti bem cedo a mão pesada e dura.
    Conheci mais tristeza que ventura
    E sempre andei errante e peregrino.

    Vivi sujeito ao doce desatino
    Que tanto engana mas tão pouco dura;
    E inda choro o rigor da sorte escura,
    Se nas dores passadas imagino.

    Porém, como me agora vejo isento
    Dos sonhos que sonhava noute e dia
    E só com saudades me atormento;

    Entendo que não tive outra alegria
    Nem nunca outro qualquer contentamento
    Senão de ter cantado o que sofria.

    José Albano in Rimas (recolha de Manuel Bandeira)

    terça-feira, fevereiro 24, 2015

    A Porta dos Fundos



    Enquanto a minha "santa" continua o inexorável processo de decadência a que chamamos envelhecimento  - e este é daqueles que nos calha a todos - também eu tive ontem que aturar as batas brancas em dois exames médicos.

    No primeiro deles fui questionado a justificar um "desvio para direita" que o meu último ECG teria demonstrado. Um gajo de esquerda a exibir um "desvio para a direita" não me parece bem. Ainda questionei se o aparelho não estaria avariado...

    O doppler não foi fácil de fazer porque - segundo o desgraçado do médico que me calhou em liça  -  eu teria (tenho) "um corpo muito grande". E como o dito médico era pequeno, V. não imaginam a ginástica que tivemos ambos de fazer para levar a efeito o "procedimento"...

    Com um "esculápio" de braços curtos e com um paciente de tronco mais parecido em diâmetro com um tonel de 700 litros penso que estão todos  a ver a dificuldade. Mais ou menos como aquela história da força avalassadora que encontra um obstáculo inamovível.

    Ao fim de mais de 40 minutos e várias nódoas negras nas costelas ( de que pediu desculpa) lá veio meio veredicto. Estava tudo bem. Eu tinha era uma esquisitice anormal no coração, uma coisa rara mas que não era patológica.

    - "E, já agora, podia levar o seu ECG para Santa Maria para mostrar aos alunos?"

    Disse-lhe que podia levar. Antes isso do que aparecer lá eu em pelota em frente à turma...

    Depois disso foram as coisas mais sérias! Pela primeira vez na vida fui sondado pela "porta dos fundos".

    Sempre tive algum cuidado com essa "porta". Até posso dizer que se trata de uma "porta" de que falo pouco, ansiando que a resposta da mesma - não podendo ser sempre nula -  também ela seja comedida e baixa.  Para gritar temos a boca. Não há necessidade de se fazer chinfrim pelo outro lado também. Por muito feijão que se coma.

    Tendo-se contudo verificado um aumento da próstata do animal para além do que seria de esperar, e embora os valores da PSA estejam completamente normais, o malandro do Cantiga receitou a "coisa", a sondagem posterior rectal (salvo seja).

    Entrei logo à defesa e com cara de poucos amigos, para perceberem que ia ali contrariado.  Imaginem um gajo entrar a sorrir, como se já tivesse experimentado e gostasse! Pôrra compadres!

    À força de gel lá se concluiu o procedimento, tendo a conclusão sido também favorável ao possuidor do buraco.

    Tudo bem, aguardemos por eleições em Belém!

    Ou seja, por enquanto safas-te , mas vai controlando o tamanho dessa gaja sff.

    Vim-me embora sem vontade nenhuma de repetir. O que, depois de reflectir,  me pareceu uma conclusão deveras  reconfortante.

    Não acham?

    segunda-feira, fevereiro 23, 2015

    Por hospitais ando hoje



    Hoje quiseram os deuses que me dedicasse à saúde. Tanto eu como a "santa Mãe" temos o dia ocupado com consultas e exames no hospital da CUF.

    Amanhã conto como foi ( se houver alguma coisa para contar)...

    sexta-feira, fevereiro 20, 2015

    Descansando a Vista com a Cabra


    O ano novo chinês (ontem comemorado) trouxe-nos o signo da "Cabra".

    Pelas contas que se fazem é este o "meu" signo chinês.  Mais precisamente, como sou da colheita de 1955,  serei um "Cabra-Madeira". O que é um (salvo seja) "Cabra Madeira"? Aqui vai:

    Um nativo de cabra pensativo, bem humorado, preocupado com os desejos das outras pessoas. É sentimental e gosta de agradar; com a madeira como seu elemento será impedido de ser demasiado esquisito. A sua natureza será mais constante e mais generosa e ele terá princípios morais mais elevados.

    Fiquei satisfeito. À parte aquela referência ao "esquisitismo"...

    Aqui no ocidente chamar a uma  senhora "cabra" não é de bom tom. Uma "gaja cabra" é sinónimo de "vadia", "vagabunda", "muito dada ao convívio", um verdadeiro "raiozinho de sol" (que quando nasce é para todos...). Não é pois um adjectivo simpático para a fêmea da espécie (pelo menos em Portugal).

    E se for para o homem? No país-irmão do Brasil um homem "cabra" é macho valente, bom de briga e danado para a porrada. O "Cabra da Festa" é o bouncer, o segurança que guarda a porta e se ocupa de manter os ânimos pouco exaltados dentro das discotecas e bares.

    De João Cabral de Melo Neto (1920-1999), grande poeta brasileiro, Consul Geral do Brasil no Porto, e Prémio Camões,  aqui deixo duas estrofes do seu poema : A Cabra.

    A cabra é negra. Mas seu negro
    não é o negro do ébano douto
    (que é quase azul) ou o negro rico
    do jacarandá (mais bem roxo).

    O negro da cabra é o negro
    do preto, do pobre, do pouco.
    Negro da poeira, que é cinzento.
    Negro da ferrugem, que é fosco.

    Negro do feio, às vezes branco.
    Ou o negro do pardo, que é pardo.
    disso que não chega a ter cor
    ou perdeu toda cor no gasto.

    É o negro da segunda classe.
    Do inferior (que é sempre opaco).
    Disso que não pode ter cor
    porque em negro sai mais barato.
                        
    Se o negro quer dizer noturno
    o negro da cabra é solar.
    Não é o da cabra o negro noite.
    É o negro de sol. Luminar.

    Será o negro do queimado
    mais que o negro da escuridão.
    Negra é do sol que acumulou.
    É o negro mais bem do carvão.

    Não é o negro do macabro.
    Negro funeral. Nem do luto.
    Tampouco é o negro do mistério,
    de braços cruzados, eunuco.

    É mesmo o negro do carvão.
    O negro da hulha. Do coque.
    Negro que pode haver na pólvora:
    negro de vida, não de morte.

    quarta-feira, fevereiro 18, 2015

    Roncos

    Durmo sozinho há 17 anos. Por norma, está claro, pois houve algumas e honrosas excepções nesse período de celibato.

    De forma que ignoro se ressono muito, pouco, ou nada. Não tenho (feliz ou infelizmente, dependendo das interpretações) quem me acorde para protestar contra a sirene de nevoeiro caso esta se manifeste.

    Todavia admito que dê ao ronco com regularidade, embora não tenha provas físicas  dessa infracção que possam ser admissíveis em tribunal.

    A minha desconfiança vem do facto de já terem existido algumas noites em que a própria criatura ressonante se acordou a ela própria. Para além disso temos a memória histórica. Existem  relatos da antiguidade que me dão como sendo "in illo tempore" criatura roncante de hábitos noturnos.

    As vantagens de dormir sozinho não são muitas. Conto apenas esta da liberalização do ressono, e talvez ainda o facto do édredon e colchão não serem partilhados.

    As (poucas, muito poucas) parceiras que tive nos ultimos tempos até se queixavam desses hábitos de "capitalista rico e açambarcador":
    -"Vê-se logo que estás habituado a dormir sozinho!"

    No Verão ressona-se menos (dizem os entendidos) e dá-se menos pela falta de aconchego. Nas noites mais quentes até admito que se possa esparramar em cima do metro e sessenta de largura do colchão uma certa liberdade de "esticanço dos pernis" que não deixa de ser agradável.

    Num Inverno profundo como tem sido este (e lá em cima na Serra nem vos digo nada) começamos a pensar se não valerá a pena investir num artefacto que nos conforte. Entre os quais: um cobertor eléctrico, uma velha botija de água quente ou, em desespero de causa, um animal de peluche...

    Obviamente que a consideração de seres vivos não me passou pela cabeça, já que não me parece bem considerar um animal de companhia ( há cães bem felpudos que podiam dormir em cima dos nossos pés!!) ou muito menos uma amiga e companheira  como um investimento sazonal.

    Chegavam as primeiras noites amenas da Primavera e o que fazíamos? Despíamos o "casaco" ao desgraçado do Serra da Estrela? Mandávamos a amiga para casa da mãe?

    Isto se quer o cão quer a senhora não tivessem já decidido bazar antes, espantados e afugentados pelos sons da corneta que (alegadamente)  o gordo sopraria todas as santas noites...

    Alegadamente!

    segunda-feira, fevereiro 16, 2015

    A madeira de pau


    Acordei hoje a pensar na madeira. Não na Madeira, apenas na madeira. No pau, naquilo em que se transforma a árvore quando acaba.

    Antes que alguém venha com interpretações parvas que assumem que "pau" não é um objecto de madeira mas sim um eufemismo para outras coisas mais carnais, devo dizer que ainda não sonho com isso. Mas sou novo, logo se verá à medida que o tempo passa. De momento as minhas inclinações são distintas.

    Madeira de pau, portanto. Porquê? Terei dado com a cabeça no travessão da cama? Não deve ter sido isso, não me dói a cornadu**** mais do que o costume...

     Devo ter sonhado com bibliotecas forradas a carvalho, incluindo amplos sofás Chesterfield castanhos com patine, e filas e filas de magníficos livros em cima daquela madeira toda.

    Ou então com outra das minhas obsessões mansas: uma cave de vinhos climatizada feita em faia, à meia esquadria, com capacidade para umas centenas de garrafas, onde repousariam as minhas "meninas" preferidas. Deitadinhas, está claro!

    A madeira é uma preciosidade que tende a tornar-se escassa. E nada a substitui.

    Bem podem dizer que o plástico faz as suas vezes (no tablier dos carros, por exempo) , mas o tacto, o cheiro e a observação dos veios naturais da madeira não têm comparação com nada. Um bom cachimbo de raiz de roseira brava (erica arborea) antes de ser fumado pode-se acariciar e admirar-se a sua textura em "olho de perdiz" ou "grão direito". Tenho só dois ou três desses (são caros que se fartam...).

    Meu pai trouxe-me  das Filipinas, há mais de 50 anos, um leão (enfim...Com tanta águia por lá...) esculpido em madeira local. É  de pau rosa, a árvore nacional das Filipinas. Ainda hoje me dá gosto tocar-lhe e ver a forma ardilosa como o artesão escolheu o grão da madeira para auxiliar o entalhe.

    Entre as muitas vantagens da madeira temos que  não é tóxica, não liberta vapores de origem química, sendo portanto segura ao toque e manejo. Ao contrário de outras matérias-primas a madeira quando envelhece ou deixa de desempenhar a sua função estrutural, não constitui qualquer perigo para o meio ambiente,  sendo facilmente reconvertida. E, sobretudo, enquanto novas árvores forem plantadas conscienciosamente e sem comprometer os recursos naturais, tendo o cuidado de repor as abatidas, a madeira vai continuar a estar disponível por muitos anos.

    E isso é o mais importante: Antes da madeira ser pau existe a Árvore. A árvore e o arbusto são coisas magníficas, sem as quais não haveria vida na Terra como a conhecemos. Para continuarmos a ter paus (salvo seja!!) há que cuidar das árvores. Não sejam cães pôrra!

    sexta-feira, fevereiro 13, 2015

    Para Descansar a Vista (engripada)

    Sexta Feira 13 acordou-me ainda pior do que ontem, com dores de cabeça , febre e mal estar. Não será por ser o dia de anos da Santa Mãe , acho eu... Mas ajuda.

     É um  dia com má disposição absoluta, de nem poder ouvir música suave, quanto mais os queixumes habituais das santas, à espera de almoço arvorado para o próximo Sábado.
    Podem ir esperando bem sentadinhas, porque se isto  não melhorar o "senhorio" sabe bem o caminho até ao galego dos frangos assados...

    Aqui vai poema a condizer.

    Fernando Pessoa também se "constipava". E de mais do que uma maneira, à conta dos bagacitos e por causa do frio...

    Eis uma amostra de um poeta constipado:

    Tenho uma grande constipação, 
    E toda a gente sabe como as grandes constipações 
    Alteram todo o sistema do universo, 
    Zangam-nos contra a vida, 
    E fazem espirrar até à metafísica. 
    Tenho o dia perdido cheio de me assoar. 
    Dói-me a cabeça indistintamente. 
    Triste condição para um poeta menor! 
    Hoje sou verdadeiramente um poeta menor. 
    O que fui outrora foi um desejo; partiu-se. 
    Adeus para sempre, rainha das fadas! 
    As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando. 
    Não estarei bem se não me deitar na cama. 
    Nunca estive bem senão deitando-me no universo. 
    Excusez un peu... Que grande constipação física! 
    Preciso de verdade e da aspirina. 


    Álvaro de Campos, in "Poemas" 
    (Heterónimo de Fernando Pessoa)


    quinta-feira, fevereiro 12, 2015

    50 sombras do Mastronço

    Continuo com gripe e já farto de imobilidade caseira vim hoje para Lisboa. A desculpa foi ter médico marcado esta tarde...Ainda não são 9h e já estou arrependido. Há que encontrar distracções para a mente, porque o traidor do meu corpo não está virado para nada que jeito tenha.

     O que vale é que hoje estreia o "magnífico" filme "50 sombras de Grey" - baseado no romance homónimo da "grande" escritora (dimensionalmente falando) Erika Leonard James.

    Vale apena? Ou não vale? Não vale mesmo compadres.

    Comecemos pelo filme: - 1,5 estrelas do circunspecto IMDB é classificação semelhante à do épico "Killer Tomatoes Eat France", a 4ª versão de 1992 do imperdível "Atack of the Killer Tomatoes" de 1978 .

    Há quem diga mal da senhora E.L.James sem nunca a ter lido e apenas porque atingiu a fama e o estrelato. Têm  Inveja!!

    Eu não sou desses.

    Eu digo mal porque já tentei ler a sua "obra", tendo parado num diálogo onde o protagonista macho assevera à protagonista fêmea que "o teu traseiro necessita de ser treinado".

    "Treinar o traseiro" ,  no diálogo, não me parece que seja aquela coisa que ensinamos aos putos quando são pequenos, o horário do intestino e o local onde o mesmo deve ser reciclado diariamente.

    Acho eu. Mas como não li o livro até ao fim não garanto. Foi a qualidade de diálogos semelhantes que muito contribuiu para largar o livro da mão. O livro não, o seu "alter ego" virtual, porque já não vou na patranha de comprar livros verdadeiros sem primeiro ler na net e ver se valem a pena e o espaço.

    Comecei a ler porque pensei que se tratava de uma passável obra de soft porno localizada no tempo  na grande tradição de Wuthering Heights (Emily Bronte), Flowers in the Attic (Virginia Andrews), ou os mais levezinhos Riders (Jilly Cooper) e Forever (Judy Bloome). Sem esquecer a trilogia Eden da grande Anne Rice (sob pseudónimo Roquelaure).

    Todos de mulheres escritoras, sobre o sexo e as relações sexuais ( e sociais)  e Muito , mas Muito melhor escritos do que as não sei quantas sombras do tal mastronço!!

    A evitar caso possam.
    A não ser que a(s) legítima(s) se sinta(m) mais desperta(s) para qualquer coisinha depois de tal injecção...
    Se assim for, quem sou eu para criticar? Tomem a injecção e Viva a Marinha!

    segunda-feira, fevereiro 09, 2015

    Gripes , Resfriamentos e outras Bezanas

    Ontem à noite o meu "senhorio", assim como os restantes apoiantes verdes, é seguro que se foram deitar ligeiramente constipados. Não sei se por efeito do frio, se por causa dos copos que beberam para esquecer as mágoas, ou simplesmente ansiosos de afogar no soninho mais uma contrariedade.

    A minha idade permite que não me sinta encrespado com estas coisas da redondinha, mas para quem mande o barro à parede, aqui recordo que destas desilusões dos últimos minutos ficámos nós (vermelhos) um bocado fartos na época de 2012\2013. Ou já se esqueceram do golo do Kelvin no Dragão, mesmo a cair o pano?

    Haja por isso contenção nas ferroadazinhas. Claro que o SCP jogou melhor dentro do mauzinho, mas o futebol é mesmo assim. O SLB também foi perder a Paços...

    Mas a gripe mesmo gripe não vem dos desgostos (tanto quanto eu saiba). Causada por invasão dos malditos virus, de várias estirpes,  ela está por aí à espreita "aguda, viral e afectando sobretudo as vias respiratórias" como nos diz a DGS.

    Segundo os especialistas, a vacinação continua a fazer todo o sentido. "É preferível ter alguma protecção do que protecção nenhuma, já que a gripe pode conduzir a descompensação de doenças crónicas e a complicações graves, como pneumonias".

    Eu não me vacinei porque não pensei nisso. A minha santa cá de baixo não se vacinou porque embirrou com a vacina. A lá de cima nem deve saber que a vacina existe (é uma santa, com santa ignorância). Em conclusão, e apesar de ainda não haver um diagnóstico certo, lá por casa já andamos todos com febre e a tomar anti-gripines, benurons e outros parecidos.

    O antigo remédio dos três "A's"  (Abafa-te, Abifa-te e Avinha-te) não deu tanto resultado como antigamente, o que poderá ser por culpa da estirpe gripal ou por culpa do estúpido do corpo, que já foi mais novo...

    Depois de um Sábado "Glorioso" ao redor de lampreia assada e à bordalesa, mas sobretudo rodeado de bons amigos, lá apareceu insidiosamente o síndroma gripal a dar cabo da digestão e da noite que deveria ser de descanso.

    O que vale é que no Domingo já dormi melhor...Ao contrário de alguns...

    É a vida.

    sexta-feira, fevereiro 06, 2015

    Para descansar a Vista

    Nestes lindos dias de frio chamamos pelo "homem das castanhas".

    - "Quentes e Boas!"


    Enquanto o velho triciclo com a campânula de barro não aparece aqui fica, à laia de consolo, um poema do Sr. Alberto Caeiro (um dos disfarces do grande Pessoa). Dele , Caeiro, disse o seu criador:
     
    "Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso."


    Estar Frio no tempo do Frio

    Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
    Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
    O natural é o agradável só por ser natural.

    Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
    Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
    Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
    E encontra uma alegria no fato de aceitar —
    No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

    Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
    Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
    O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
    Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
    Da mesma inevitável exterioridade a mim,
    Que o calor da terra no alto do Verão
    E o frio da terra no cimo do Inverno.

    Aceito por personalidade.
    Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
    Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
    Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
    Nunca ao defeito de exigir do Mundo
    Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

    Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

    quinta-feira, fevereiro 05, 2015

    Ser bem tratado

    Ontem à tarde fiz horas para a reunião da AICEP na Horta, onde a Paulinha me fez um arroz de cabeças de robalo,  ao momento , que estava de lamber os beiços. Comi-o com um Dão bom e barato , o Reserva de 2011 da Quinta do Escudial.

    Ao lado falavam vários VIP's, entre os quais um dos candidatos mais fortes ao lugar de PR (por parte do PS) e, noutra mesa, o sempre bem vindo secretário-geral da AHRESP, infatigável lutador contra o IVA restauracional que tanto oprime os donos das tascas como os clientes das mesmas.

    Estando sozinho e sem feitio para me pôr a ouvir conversas alheias (embora ainda tivesse notado que o nome de "Guterres" foi algumas vezes avançado...) tive o direito de pôr a imaginação a devanear e o mote para essa "viagem" foi o arroz de peixe que estava no tacho. E recordei-me desta história:

    Há longos anos, no restaurante Funil da Elias Garcia - hoje transvestido  é uma sombra do que foi, uma coisinha com atavios à moderna baixa  e comida a condizer - estava também sozinho a matutar que mal teríamos feito aqui nos CTT para nos porem a trabalhar na Terça Feira de Carnaval (naquele tempo era assim, todos tinham esse feriado menos o pessoal dos correios).

    O senhor Caetano ( um dos sócios antigos, o outro era o cozinheiro, ambos "fugitivos" do Polícia) estava habituado à minha presença e ao facto de eu normalmente ir ali comer a cabeça de pescada, de garoupa ou de cherne cozida com todos os acompanhamentos.

     Nessa Terça Feira, vendo-me macambúzio e sem peixe  como o habitual  na montra para oferecer (tinha passado o Domingo, fechavam à Segunda , e depois a Terça era feriado para quase toda a gente)  perguntou-me se eu gostava de arroz de cabeça de peixe.

    Já naquele tempo eu  gostava de tudo que fosse bem feito ( até de pancada, dependendo de quem a dava). Pelo que a resposta foi afirmativa. Mas com algum receio olhava pelo canto do olho para a montra onde costumavam estar as "peixas" inteiras, mas que naquele dia mostrava apenas bacalhau, ovas, chocos e lulas...

    Depois de mais de meia hora (fazer as coisas "ao momento" significa mesmo isso. E quem não sabe esperar por esses mimos é porque não os merece) lá veio o tacho de barro com perfume de coentros, rescendendo.

    Terá sido à segunda ou à terceira garfada que percebi que no tacho...não havia peixe. Havia ameijoa da nossa, da cristã, que no Funil usavam na "marinheira de ameijoas",  havia gamba dita "de Cascais" por ser fresca, descascada,  existiam ainda por cima 2 ou 2 lombos de lagostins. E na calda do arroz notava-se bem o "piso" das cabeças das gambas e dos lagostins...

    Lembro-me que nessa altura (seria para o final dos anos 80) costumava acompanhar o peixe fresco com o Branco seco da Quinta de  Camarate, que  ainda não tinha alvarinho no lote.

    Admirado pela "largueza" mas contido nos reparos, regalei-me e pedi a conta à espera de uma "enormidade". E como um dia não são dias e perdido já eu julgava estar, antes disso ainda afinfei com um malte velho.

    O valor a cobrar pelo "arroz de peixe" foi mais ou menos o que eu costumava pagar pela cabeça de pescada cozida! E quando questionei o Sr. Caetano , a resposta que levei foi esta:

    -"Então um cliente como o senhor entra aqui, eu não tenho na montra o que costuma comer e há-de ser mal tratado? Ora essa!"

     - "Mas então porque não disse que o arroz era de marisco ( e todo fresco!)?"

    - " Porque não queria preocupá-lo com o preço...Depois já não apreciava o arrozinho..."

    Era o Sr. Caetano um beirão "à maneira", um homem onde se demonstravam as maiores virtudes dos"serranos" que têm também os seus defeitos, mas a receber são inexcedíveis.

    E devo dizer aos amigos leitores que  uma das coisas boas que a vida me deu é que ainda hoje, em mais do que uma casa de comer onde vou, ainda sinto que este tipo de tratamento é possível.

    Que grandes pessoas em qualquer país deste mundo , com tanta qualidade!

    quarta-feira, fevereiro 04, 2015

    Em Coimbra

    Ontem estivemos em Coimbra, falando com a Fundação Bissaya Barreto (conhecida pelo Portugal dos Pequeninos, mas que mantém uma obra admirável no capítulo da assistência materno-infantil) e também com o promotor da emissão e livro "Cafés Históricos de PortugaL", no clássico café de Santa Cruz que compartilha a parede com a Igreja e Convento que já foi dos frades crúzios, onde repousa o nosso "Primeiro".

    Descansa em paz Afonso e vai tendo paciência com os tempos que correm, amigo...

    Sabiam que quando se fez a espectacular remodelação do "Santa Cruz" (1920) o projecto tinha escrito na fachada "Cervejaria" e não "Café"? O que se passou a seguir foi que a autarquia, já farta dos excessos estudantis em volta da "loirinha",  mandou dizer que "cervejarias, em Coimbra já havia demais!" pelo que indeferiu o pedido, tendo-se os proprietários resignado a gerir um "café" (onde havia também cerveja. O mundo não é perfeito e enganar a Câmara era habitual...).

    Manda a tradição que quando se vai à velha cidade dos doutores se preste homenagem ao famoso "Pica", o rei da boémia de Coimbra nos anos 30 e 40, e que veio a ser o senhor Dr. Felisberto Pico. (médico). "Veio a ser" uns bons anitos depois, e no Porto, porque de Coimbra logrou apenas ser expulso , decisão única nos anais universitários de Coimbra e que apenas tem paralelo no degredo que impuseram a Luis de Camões!

    "...a fundamental e decisiva razão que ditou o insucesso escolar do Pica deve-se ao inusitado facto, de ter sido institucionalmente expulso da Comarca de Coimbra ( numa área de 5O Km quadrados) a que foi condenado pelo tribunal, porque o seu número de prisões por pequenos delitos( originados pelas "farras"), excedera o montante previsto na lei, o que motivou em boa hora,a sua transferência para o Porto, onde com notável mérito, acabou a sua formatura em Medicina."

    Fonte: António Curado.

    Consta que o Pica, ao ouvir a cruel sentença, terá dito em alta voz:

    -" Exilado? Oh meu Deus! Só eu e Luis de Camões! Também ficarei para a história!"

    E ficou.

    Em louvor da boémia fomos almoçar à Taberna. Restaurante que já aqui referenciei mas onde regresso sempre de alma leve e antecipando (sobretudo) os grandes vinhos bairradinos de antanho que por ali ainda se acolhem. Têm é de falar delicadamente e pedir com jeitinho, porque as preciosidades desta cave não são para meros "turistas".

    Podem ler aqui os contactos e mais informação sobre esta notável casa coimbrã de bem servir comida tradicional das Beiras:
    http://www.restauranteataberna.com/

    Ontem calhou-nos um menu de provas (éramos quatro) que envolveu atum fresco braseado com ervas aromáticas, polvo assado nas brasas, posta de vitela (admirável de tenra) e cabrito assado no forno de lenha. E bebemos (...suspense...) um branco Principal Reserva de 2009 (lindo de morrer) e um tinto Bageiras Reserva de 2009 também. Admirável.

    Na revista de vinhos diz-se o seguinte sobre estes dois monumentos:

    Bágeiras tinto 2009: Com Baga e Touriga Nacional, é um vinho intenso e fresco, com notas vegetais, especiarias, amoras e flores silvestres. O carácter forte da Bairrada está todo aqui, mas suavizado por uma imprevista elegância. Muito bom.
    Principal Reserva 2009: Complexo e elegante no aroma, muito fino, com notas minerais, casca de lima, apontamentos florais e suaves fumados. Cremoso e envolvente.

    E já que não podíamos beber aquilo à saúde do Pica,  bebemos  à saúde de Mestre José Quitério (Prémio Universidade de Coimbra 2015)  e à  memória de Felisberto Pico (o grande Pica)!

    segunda-feira, fevereiro 02, 2015

    O "Morangueiro"

    Vamos lá falar um pouco daquelas "coisas" que se bebem como se fossem vinho ( e são feitas da mesma forma) mas não devem ser como tal apreciadas, nem bebidas por quem se dá ao respeito.

    Nos tempos da filoxera (1868\1870) as castas naturais da velha Europa iam indo todas por água abaixo. A salvação veio sob a forma da vinha americana, que por ser imune à praga, possibilitou que nela se passassem a enxertar as grandes castas de cada país.  Nos raríssimos casos em que a vinha doméstica e natural não está "a cavalo" da "americana" esse vinho diz-se que é de "pé franco".  O grande exemplo  em Portugal é o ramisco de Colares, resistente à doença pela profundidade em que a vinha pega. Mas outras (e muitos caras) excepções existem.

    Nos outros caso opostos, em que se faz vinho a partir da vinha americana plantada directa sem mais nada, diz-se que estamos perante produtos vinícolas ditos "do produtor", do "produtor directo", vinho "morangueiro" ou ainda vinho "americano". Nos Açores chamam-lhe "vinho de cheiro".

    Porque é que estes vinhos se faziam? Porque a produção\rentabilidade destas vinhas é muito grande. E porque os cuidados a ter na vinha com esta espécie robusta são muito menores. Em conclusão, para poupar tempo, trabalho e ganhar nos litros por m2 plantado.

    Porque é que o resultado , o "vinho" obtido, está tão mal visto e até era proíbido em certos países, entre os quais Portugal? Porque se concluíu em tempos históricos pela presença em grau mais que razoável de "metanol" nos produtos finais destas vinhas. O "metanol" é tóxico e ataca sobretudo os olhos de quem bebe.

    Hoje em dia a União Europeia parece que descarta esta presunção do "metanol" no produto final estar ligado ao tipo de planta (vinha) , concluindo que estará sobretudo ligado ao processo de vinificação propriamente dito. 

    A ser verdade,  e por aquilo que referi (menos trabalho e mais rentabilidade) não tenho dúvidas que vão surgir vinhos "morangueiros" por todo o lado, sobretudo nas franjas mais económicas deste mercado.

    Uma coisa é certa: Se for mesmo assim, se o "metanol" estiver no processo de vinificação e não no tipo de planta, então a produtividade deste "americano" é um factor a ter em conta no caso de andarmos à compita, a fazer concorrência aos outros vinhos resultantes de enxertos ...

    E, por fim, qual a qualidade deste "vinho"?

    Dos que bebi, quer tintos quer brancos foram feitos "em casa do lavrador" e bebidos quase que imediatamente após a fermentação. São por isso vinhos "gulosos" com enorme preponderância de fruta (maçãs nos brancos, morangos nos tintos). Não duram, nem deles fica memória depois de se beberem. Agora, como refresco? Se não fizessem mal eram melhores que a Coca Cola e ligeiramente abaixo de uma boa sangria...

    Nota final: Não apenas o Metanol deve fazer temer quem se aproxima destes vinhos. As uvas têm uma película com um pigmento (malvina) que é suposto tratar mal o sistema nervoso central. Mas quem sou eu para falar destas coisas? Se a União Europeia diz que é seguro plantar aquilo...

    sexta-feira, janeiro 30, 2015

    Para Descansar a Vista

    É sexta feira e antes de ir buscar ao hotel o meu colega dos correios franceses  - Temos hoje uma reunião de trabalho ( a pedido dele)  com o Director do mercado filatélico e da impressão  da La Poste -  aqui venho deixar o habitual poema antecipador do fim de semana.

    Vai chover, mas estará menos frio.

    Antecipo um Sábado sem grande trabalho à frente dos tachos, porque as minhas santas querem "ir às compras", o que representa maior responsabilidade para o almoço de Domingo...

    Enquanto penso na ementa e ouço a chuva lá em baixo, aqui deixo 3 poemas de meu mestre Eugénio de Andrade, talvez quem melhor  traduziu para palavras a melancolia da chuva:

    "É quando a chuva cai, é quando
    olhado devagar que brilha o corpo.
    Para dizê-lo a boca é muito pouco,
    era preciso que também as mãos
    vissem esse brilho, dele fizessem
    não só a música, mas a casa.
    Todas as palavras falam desse lume,
    sabem à pele dessa luz molhada."
     
    "As primeiras chuvas estavam tão perto
    de ser música
    que esquecemos que o verão acabara:
    uma súbita alegria,
    súbita e bárbara, subia e coroava
    a terra de água,
    e deus, que tanto demorara,
    ardia no coração da palavra."
     
    "A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
    Não sei por que voltou esta tarde
    Se minha mãe já se foi embora,
    Já não vem à varanda para a ver cair,
    Já não levanta os olhos da costura
    Para perguntar: Ouves?
    Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
    A chuva sobre o teu rosto."