quinta-feira, agosto 25, 2016

Para Descansar a Vista...em Itália

Antecipo o "momento de poesia" já que na sexta feira não estou por cá.

A desgraça do terremoto no centro de Itália lembra que  - contrariamente aos que muitos pensam, na sua arrogância de espécie supostamente dominante - a humanidade ainda não controla o planeta onde mora.

Estragar pode estragar e tem estragado, tal e qual como algum grupo de holligans pode dar cabo de um bar no hotel onde pernoitam.

Mas quanto ao resto, ao mais importante, somos quase como os cachorros dentro do laboratório do Dr. Pavlov. Salivamos quando toca a campainha, mas nem fazemos ideia da motivação do célebre cientista russo para essa experiência.

Entrego a todos , in memoriam das vítimas, um poema belíssimo sobre a perda. É de Florbela.

A Minha Dor

A minha Dor é um convento ideal 
Cheio de claustros, sombras, arcarias, 
Aonde a pedra em convulsões sombrias 
Tem linhas dum requinte escultural. 

Os sinos têm dobres de agonias 
Ao gemer, comovidos, o seu mal ... 
E todos têm sons de funeral 
Ao bater horas, no correr dos dias ... 

A minha Dor é um convento. Há lírios 
Dum roxo macerado de martírios, 
Tão belos como nunca os viu alguém! 

Nesse triste convento aonde eu moro, 
Noites e dias rezo e grito e choro, 
E ninguém ouve ... ninguém vê ... ninguém ... 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas" 
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terça-feira, agosto 23, 2016

Culpados



Estejam descansados que não vou falar do episódio de Ponte de Sôr, o qual já cheira mal em todos os sentidos.

Aqui os "culpados" têm a ver com os incêndios,  a propósito do último grande fogo de ontem e hoje, andando lá por cima, muito perto da nossa quinta, na zona de Seia.

O meu cunhado chegou a fazer parte das equipas camarárias que faziam prevenção de incêndios florestais no parque natural da Serra da Estrela. Eram pagos pela autarquia, com ajudas governamentais , no tempo "daquele primeiro ministro" que todos ( ou muitos) querem agora fingir que nunca foi eleito (e duas vezes).

Nesses anos havia fogos na zona, claro, mas eram menos e mais controláveis no chão. Porventura as condições de temperatura e de vento ajudavam, mas havia algum cuidado em prevenir.

As equipas de ajudantes  camarários assinalavam as principais áreas de risco, iam lá, falavam com os proprietários, ajudavam na limpeza da floresta. Trabalhavam 8 ou 9 horas por dia, entre Abril e Setembro. Sempre no jipe (era um velho UMM) enquanto houvesse luz do sol.

E traziam de lá "estórias" fantásticas. Daquelas que não gostamos muito de ouvir mesmo que sejam verdade. Como por exemplo, o facto de que muitos dos incêndios se deviam aos proprietários, que continuam a fazer queimadas quando e onde não deviam.

Não é apenas por deixarem as matas sem limpeza! É por queimar restolho nos meses de Verão...

Porque são criminosos? Não!! Porque são velhos e velhas, de mais de 80 anos, que não têm outra forma de limpar os terrenos para  plantarem algumas batatas, cebolas ou feijão .

Porque são mais do que pobres . E dependem do que cultivarem para sobreviverem. E porque não sabem fazer melhor, nem têm dinheiro para pagar, se soubessem. E mesmo se tivessem dinheiro, quem iria desbastar mato para esses locais perdidos nos vales? Onde habitam 3 ou 4 tristes?

Devem ser castigados e multados! Diríamos todos com razão derivada do código civil.

Mas onde estaria o dinheiro para pagar essa multa? Nem que fosse em géneros... Se pagassem 200 euros de multa os velhotes não iam à farmácia durante 6 meses.

O país não é Lisboa, nem sequer as plantações tipo "jardim" das modernas empresas agrícolas. Muita da área "cultivada" (entre aspas)  é destes pequenos proprietários que já não podem fazer o que faziam.

Porque, e esta será talvez a mais importante preocupação, nem só de SPA's, Quintas de Lazer e Resorts turísticos é feita a nossa ruralidade... É feita de idosos cada vez mais sozinhos e cada vez mais velhos... E quem não entende isto não entende o país onde vive.

Claro que depois há os "outros", os incendiários que deitam fogo por vingança, psicose, ou outro transtorno ligado ao diagnóstico de piromania. Mas o  deserto em que se vai transformando o país rural também tem por consequência a cada vez maior probabilidade dos incêndios florestais. E essa parece ser uma raiz do problema. Talvez a mais importante.

segunda-feira, agosto 22, 2016

O espelho das almas


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Os meios sociais, embora se ponham a jeito, não devem ser espelho das almas de quem neles colabora. Esta , obviamente, é a minha opinião. Há quem não concorde, o que também é respeitável.

Gosto de partilhar aqui momentos engraçados, as minhas omnipresentes "comidas e bebidas", os prémios que vamos ganhando no "boulot", e até faço comentários políticos e desportivos ao correr da pena.

Mas o que nunca lerão neste espaço são as minhas tristezas. Também as tenho, mas essas são do foro privado.

Esta lenga-lenga veio em reflexão por um comentário de uma boa amiga, que reparava na perpétua boa disposição dos meus textos: "Que boa vida e alegre deves ter!"

Quero dizer que faço os possíveis, mas não devem acreditar que só tenho dias bons e óptimos... Chuva e granizo também comparecem na ementa, nem só sol radioso e brisa de mar.

O meu Pai dizia que a alegria é para compartilhar, enquanto que os momentos de tristeza são privados. E essa filosofia sempre me orientou e continuará a orientar.

Este assunto recorda-me mais uma narrativa do Tio Santidade, personalidade da minha Serra muitas vezes aqui evocada  e que - como se devem recordar - tinha ódio profundo à água canalizada ( para beber e para se lavar).

Quando andava mais sóbrio (o que era raro) contava "estórias do tempo da miséria". Segundo aquela autoridade,  naqueles tempos um pobre devia andar sempre com duas coisas no bolso da jaqueta surrada: um copo de madeira ou de alumínio (para não partir) e ...um ossito de borrego. O copo era para beber à espicha nalguma adega que encontrasse com a porta encostada. E o osso era para cheirar antes de beber.  Com o cheiro da carne do borrego (já "falecida") o vinho  sabia-lhe melhor.

E o Tio Santidade gostava de terminar a parábola com a frase -"Hoje já não há pobres! Ainda bem, porque as portas das adegas já não são de madeira velha e têm todas fechaduras de jeito..."

A vida do homem "rico" da aldeia, que criava dois ou três porcos para vender, comprava queijo aos pastores para comercializar em Viseu e tinha algumas terras para batatas e vinho,  devia parecer aos pobres de então tão "opulenta" como hoje nós consideramos "excessiva" a vida do CR7 a passar férias ao largo de Ibiza num Iate "Ascari" alugado com tripulação por cerca de 100 000 euros por semana...

É a distinção entre o "relativo" da vida (das vidas) que nos faz ser mais optimistas ou pessimistas.

Uns (equipa de que faço parte) dirão sempre nas circunstâncias mais chatas: "podia ser pior..."

sexta-feira, agosto 19, 2016

Para descansar a vista...numa fotografia



Hoje, Dia Mundial da Fotografia, presto homenagem aos grandes fotógrafos que trabalharam no passado connosco e a quem devemos muito do sucesso dos nossos projectos. Por ordem de edição dos livros CTT em que colaboraram, desde 1985:
Luis Filipe Cândido, Jorge Barros, Júlio Marques, João Menéres, Homem Cardoso, Fernando Guerra, Mário Cerdeira, Paulo Bastos, Anabela Trindade.

Um grande abraço aos que felizmente ainda estão entre nós, e um pensamento de respeito e gratidão a quem já partiu para a "viagem".

Neste belo poema curto de Albano Martins se substituíssem "pintura" por "fotografia" nada perdia sentido:


Pintura

Onde se diz espiga 
leia-se narciso. 
Ou leia-se jacinto. 
Ou leia-se outra flor. 
Que pode ser a mesma. 

As flores 
são formas 
de que a pintura se serve 
para disfarçar 
a natureza. Por isso 
é que 
no perfil 
duma flor 
está também pintado 
o seu perfume. 

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas" 

quarta-feira, agosto 17, 2016

As medalhas



Portugal é o que é.

Pequeno numas coisas, por exemplo, na área do território "seco", só 92 000 km2.

Mas grande noutras coisas. Na área do território "molhado" , que é mais de 2 milhões de km2, também por exemplo. Temos (ou teremos depois de aprovada na ONU) uma das maiores plataformas continentais oceânicas do mundo...haja pernas e braços para tanto mar.

Nestas coisas dos Jogos Olímpicos somos pequenos. Temos sido e continuamos a ser parcos nas medalhas conquistadas.Temos 24 desde que existem registos. As mesmas que a Tailândia e que a Mongólia. Menos duas que a Índia e mais duas que Marrocos.

Reparem que se estas coisas se medissem pela dimensão do país, a Suíça, com metade da área "seca" de Portugal deveria ter 12 medalhas...Mas tem 328!

E a Índia (7º país em área "seca" do mundo, depois da Rússia, Canadá, China, EUA, Brasil e Austrália) teria várias centenas de medalhas. Mas não tem.  Tem apenas 26, como referido.

Se calhar a importância da competição não é evidente para o espírito do povo indiano. Não fará parte das suas prioridades.

Já na Suiça será diferente.

 Em Portugal a "malta" anseia pelas medalhas. Espera-se ansiosamente pelo "Lopes" ou pela "Rosinha" deste século... Os quais tardam em chegar. Tanto à meta como aos Jogos Olímpicos.

Nesta Olímpiada brasileira temos o "bronze" da Telma  (parabéns querida!!), e se calhar mais nada...

Porquê?  Não explicará tudo, mas aqui deixo, com chapelada ao jornal Público,  umas frases que podem explicar alguma coisinha:

(::::::) Rui Bragança, o lutador de Tae-Kwan-Do de Guimarães, contou  que muitas vezes tem de ir sozinho às provas. Quando os britânicos vão com dois treinadores, quatro pessoas só para verem os combates, um massagista, um fisioterapeuta, um médico ou um técnico, Bragança chega a ir completamente só.

(:::) Há poucos atletas que recebem um salário durante todo o ano; alguns chegam a treinar no Jamor – um centro de alto rendimento desportivo – com oito nadadores atribuídos a uma mesma pista; os dirigentes desportivos vêm a alta competição como perda de dinheiro e não como investimento; é muito difícil para um atleta, mesmo com excelentes resultados internacionais, dedicar-se 100% à sua modalidade;  muitos não prosseguem os estudos porque as universidades não lhes facilitam a vida nem nas coisas mais simples (como os horários ou poder assistir a aulas de diferentes turmas).

E vá lá que muito melhoraram as coisas! Quem se lembra que Aurora Cunha treinava "por correspondência" e com equipamento pago do seu bolso? Hoje já há isenção de IRS e de Segurança Social, apoio no pagamento de propinas escolares e patrocínios a longo prazo, como o da Santa Casa, coordenado pelo Comité Olímpico de Portugal.
Mas, se calhar ainda não chega...

quinta-feira, agosto 11, 2016

Para Descansar a Vista



Amanhã não venho aqui, há outra vez sessão hospitalar prolongada.

Por isso retomo hoje o poema semanal. Houve quem se queixasse da falta...

Com os sentidos nas nossas florestas em chamas recordo um grande poema de Ronald Stuart Thomas, o clérigo das montanhas de Gales.

Nota: Ronald Stuart Thomas (1913-2000) foi um poeta do País de Gales, clérigo anglicano nas comunidades rurais, sobretudo conhecido pelo seu forte nacionalismo e oposição ao centralismo inglês. Na sua poesia sente-se o amor pela natureza e  pelos trabalhos do campo. A  rudeza da vida nas comunidades onde se praticava  agricultura de montanha deu o estilo a este poeta: sóbrio, puro e estilizado.

Forest Dwellers

Men who have hardly uncurled
from their posture in the
womb. Naked. Heads bowed, not
in prayer, but in contemplation
of the earth they came from,
that suckled them on the brown
milk that builds bone not brain.

Who called them forth to walk
in the green light, their thoughts
on darkness? Their women,
who are not Madonnas, have babes
at the breast with the wise,
time-ridden faces of the Christ
child in a painting by a Florentine master


The warriors prepare poison
with love's care for the Sebastians
of their arrows. They have no
God, but follow the contradictions
of a ritual that says
life must die that life
may go on. 


They wear flowers in their hair. 

Ronald Stuart Thomas

quarta-feira, agosto 10, 2016

O Azar e a Sorte



Quem lesse alguns dos comentários europeus à vitória de Portugal no campeonato da Europa de Futebol (sobretudo franceses, mas sem exclusividade gaulesa) leria que "Portugal teve sorte".

Teve "sorte" no resultado dos jogos, teve "sorte" no sorteio, e teve "sorte" por ter ficado em 3º lugar na sua série, antes dos quartos de final. Enfim, teve "sorte" do princípio até ao fim, mesmo na final, quando a França não ganhou apenas por ter enviado uma bola ao poste a encerrar o tempo regulamentar.

Ao contrário, diríamos nós que Portugal teve "azar" na final de 2004 contra a Grécia, que o Benfica teve "azar" na final da Liga Europa contra o Sevilha (em 2014, Turim). E ainda mais "azar" contra o Chelsea em 2013 (Londres).

Esta manhã, ao ouvir na TSF o relato angustiante da situação no Funchal, dei pelo jornalista a afirmar que dois prédios - na localidade da Penha, alto do Funchal -  tinham sido consumidos pelas chamas , à esquerda e à direita de outro que não ficou afectado... Foi "azar" de uns proprietários e "sorte" do outro?

Apaixonei-me pelo cálculo de probabilidades na universidade. E é interessante notar que a sua génese (devida a Blaise Pascal) foram os chamados "jogos de azar" que deram origem a uma célebre troca de cartas entre Fermat e Pascal.

Esta possibilidade de quantificar os resultados aleatórios de experiências (controladas em laboratório)  pode dar a ilusão de que é possível também prever o resultado de acontecimentos do dia-a-dia, sejam eles fenómenos naturais ou ocorrências sociais provocadas pela intervenção humana.

São exemplos de previsões hoje habituais: os resultados eleitorais, o grau de aceitação de produtos novos, o tempo que vai fazer no futuro próximo, até a ocorrência de desastres naturais em determinadas circunstâncias ( alertas de tsunamis, prevenção de terremotos).

Mas infelizmente são menos os tipos de ocorrências que se podem "prever" do que os outros, que não têm (ou não a conhecemos ainda)  bases de análise que permitam aplicar os tais "modelos de previsão".

Podemos ter uma ideia sobre os fenómenos de causa e de efeito: fogo posto criminosamente, tempo quente, terrenos sem desbaste e vento, potenciam o perigo dos incêndios em floresta. Num meio ambiente como o da Madeira e  Funchal seria expectável que o fogo na montanha, empurrado pelo vento, e também devido ao efeito de "funil",  chegasse à cidade e se propagasse pelo casario.

Agora em que termos se poderia "adivinhar" que seria neste ano,  naquela noite e com estes efeitos terríveis?

Nesse sentido, e como escreveu Emanuel Kant, "Só podemos pensar as coisas numa relação de causa e efeito porque a causalidade está no sujeito, não nas circunstâncias".

Foi o "sujeito" Gignac que enviou a bola ao poste de Rui Patrício, foram os "sujeitos" Oscar Cardoso e Rodrigo que falharam os penalties do Benfica contra o Sevilha, e foi um "sujeito" que terá ateado o fogo na Madeira que levou ao actual descalabro.

Mas, se não é possível prever com exactidão, é (sempre foi) possível actuar de forma profiláctica.

E o tal "sujeito" dado a brincadeiras com fósforos na Madeira estava registado e sabia-se da sua inclinação...Nos meses de Verão não se podia pôr o homem a ajudar na preservação das Ilhas Selvagens?

Digo eu, que não sei.

terça-feira, agosto 09, 2016

Real Politik à Ribatejana





Já se sabe que as idiossincrasias do português são muitas e nem sempre relacionadas com comportamentos ditos "racionais".

Apreciamos  extremidades no prato (cabeças, pezinhos, joelhos) , "desportos" antigos e politicamente incorrectos (touradas, "chegas" de bois), temos alguma irresponsabilidade ambiental firmada nos nossos genes, adoramos o mar e a natureza, o que não nos impede de os sujar e maltratar quando a ocasião se proporciona.

Somos um povo de contrastes, nem melhor nem pior do que os outros.

Vem esta conversa a propósito de mais uma vez ter observado a convivência - num mesmo espaço e no mesmo tempo -  de paixões tão aparentemente contraditórias como a política de esquerda ortodoxa, o amor à festa brava e o respeito pela tradição católica.

Entre  a saudade por Mestre David Ribeiro Telles, a reverência à Nossa Senhora do Castelo e  o abraço aos princípios do Partido ( sim, desse mesmo!) faz-se a vida pública neste Ribatejo a meio caminho entre Évora e Lisboa.

Estranho? Porquê? Só a malta da direita "tem direito" a gostar de touros? Quem disse que a festa brava é propriedade só de alguns? E quanto à Igreja católica estamos conversados...Por cada Monsenhor enfeudado à oligarquia do momento ( seja ela qual for) temos um Francisco de Assis, um D. António Ferreira Gomes ou um D. Hélder da Câmara.

Para já não falar do Papa atual.

Duas das pessoas que mais respeito , pela qualidade intelectual e pelo assumir sem qualquer tipo de preconceito os seus ideais de esquerda, são adeptos da capeia raiana (um deles) e o outro do toureio apeado. Aliás, foi este último que escreveu a mais sentida homenagem a Manolete que tive ocasião de ler na minha vida, no Expresso, em Agosto de 1997.

A expressão "gauche caviar" dos gauleses foi cunhada para denegrir: Une fausse gauche qui se donne bonne conscience sans rien risquer, qui parle de la justice mais ne la pratique pas, Une gauche qui dit ce qu'il faut faire, mais ne fait pas ce qu'elle dit...

Aqui em Portugal e para o caso em apreço não se trata de nada disso! São homens e mulheres que vivem de acordo com as suas ideias, equilibrando com argúcia as preocupações legítimas de cariz social com o respeito pelas tradições da sua terra.

Bem hajam elas, e eles!

sexta-feira, agosto 05, 2016

Em Coruche louvando Nossa Senhora do Castelo



Esta tarde estarei em Coruche , participando no início das comemorações dos 500 anos  da  Procissão em Honra de Nossa Senhora do Castelo (1516-2016), com a presença confirmada de D. José Alves, Arcebispo de Évora na procissão solene que se realizará a 15 deste mês. 
Mas hoje teremos a inauguração da Exposição sobre este tema no Museu Municipal, bem assim como a edição de um catálogo sobre a história do evento. Os CTT fazem um Postal Inteiro Comemorativo e, como não podia deixar de ser, lá vai o embaixador itinerante da filatelia com a caixa de carimbos debaixo do braço, para dar testemunho do ofício e ver se converte mais alguma alma para esta arte.
Estando por lá pode ser que me arrime a umas febras e cachola em azeite e vinagre, um petisco típico de Coruche que já não provo há muitos anos. 

quinta-feira, agosto 04, 2016

Chuva de Verão



Caetano Veloso imortalizou este poema com a sua música. Ainda se lembram?

Podemos ser amigos simplesmente
Coisas do amor nunca mais
Amores do passado, no presente
Repetem velhos temas tão banais
Ressentimentos passam com o vento
São coisas de momento
São chuvas de verão...

Pois hoje está assim. Dia para a melancolia e para alguns de nós se perderem outra vez na conhecida "Memory Lane".

Por entre os temas passados que me vieram à memória recordo com saudade  um episódio passado nos meus primeiros dias nos correios.  Pedindo desculpa aos colegas que "entraram na comédia", alguns dos quais já cá não estão connosco neste mundo.

O director de então tinha introduzido nos serviços da chamada Direcção Comercial (que nesse tempo não se limitava à  filatelia, tinha tudo o que era produto de correio) a grande inovação da máquina de calcular eléctrica.

Não sei se se recordam, mas nos anos 70 do século passado (e antes) havia umas maquinetas mecânicas de manivela (para trás diminuíam, para a frente somavam) que eram utilizadas para o mesmo fim.

O nosso chefe de contabilidade - o Sr. Magalhães - era homem antigo do correio antigo. Proficientíssimo na máquina "da manivela", exímio na soma com lápis e papel, mas desconfiadíssimo da "electricidade".

Nessa altura só saíamos da Casal Ribeiro quando já não havia trabalho. Devo recordar que éramos quatro gestores de produto que  fazíamos todo o processo comercial dos CTT: Cartas, registos, correio publicitário,   encomendas e serviços financeiros. Estava tudo  a nosso cargo. No meu caso eram os chamados "finos", as cartas, os postais, os registos,  etc..

Não existiam computadores. Os relatórios e memorandos eram escritos à mão e depois passados à máquina numa "poole" de dactilógrafas que era comum aos quatro.

Pois num desses dias, já mais para a noite do que para o final da tarde, desci à contabilidade onde reparei que o Sr. Magalhães ainda trabalhava, com os seus "manguitos" enfiados para proteção da camisa, aparentemente a fazer contas de cabeça com o seu lápis de estimação, tendo à frente a fita impressa da máquina eléctrica.

Questionado sobre o porquê da operação a horas tão tardias,o notável funcionário logo me disse:

-" Eu cá desconfio desta coisa das máquinas eléctricas! Quando acabo o trabalho fico aqui mais um bocado a refazer as contas todas à mão,  para ver se a "gaja" se enganou!"

Bons Tempos!

quarta-feira, agosto 03, 2016

Resquícios (bons) do Passado



Com as circunstâncias que a situação da minha "santa" envolve, muitas vezes necessito de deixar "farnel" em casa antes de sair.

O problema é que saio antes das 7.00 da manhã... E torna-se difícil (ou impossível) encontrar pastelarias abertas antes dessa hora.

Quando andávamos na faculdade lembro-me que a Teresa e eu (vindos no velho "50" de Algés) muitas vezes fazíamos fila na "Gondola", ali ao Campo Grande, que era o único poiso perto do ISCTE para o café da manhã, abrindo por volta das 7.00h.

Foi há mais de 40 anos (nem quero acreditar...).

Outros locais de abertura  a essas horas matinais se calhar ainda existem em Lisboa. mas para quem mora no concelho de Cascais o problema é mais complicado.

Ou seria, se não fosse a existência da antiga pastelaria "Novo Dia" , no Monte Estoril. Aberta desde 1943!

O Sr. Euclides e a sua família já estão de volta dos fornos por volta das 6,30.  E nunca deixam sem avio quem por lá aparecer a essas horas. Embora a hora oficial de abertura seja às 7,00.

Está claro que nos Sábados e Domingos corre-se o risco de encontrar por ali a malta da "night" a precisar de reconforto depois de deixar a "Jezebel" ou outra que tal. Mas nos dias de semana só mesmo os trabalhadores à moda antiga por ali se apresentam antes das 7.00.

Daqueles trabalhadores que ainda presenciei noutros locais (lá está, há 40 anos atrás) a pedirem ao pequeno-almoço um "pãozinho com manteiga e um bagaço".  E eu, que bagaço não costumo beber,  muito menos a essas horas...

Mas voltando ao Novo Dia, há poucas coisas melhores do que antecipar a dentada nas coisas boas que estão a sair dos fornos. Estar à espera uns minutos pela fornada dos folhados de carne, folhados mistos , pelos croissants, ou pelas bolas de Berlim, pastéis de nata, etc...enquanto se cavaqueia com os proprietários e se vai bebendo o 1º café do dia.

E logo a advertência: -" Cuidado! Não se vá queimar que tirei agora mesmo do forno!"

Podemos encomendar todo o tipo de salgadinhos (panados incluídos e a bola de carnes à moda de Lamego) para levantar logo pela manhãzinha. Está claro que esperando primeiro que saiam do forno ou da fritadeira. Ali não há sobras da véspera. Tudo o que não se vende é oferecido a várias entidades solidárias.

Fica aqui um grande obrigado a toda  a família "Euclidiana" por este autêntico Munus Publicum que praticam há já tantos anos.

Depois da morte da antiga "Valmar",  apenas a "Novo Dia" e a "Garret" (óptima também, num registo mais "posh" e finório, basta olhar para a raça dos cavalos "amarrados" à porta) mantém a antiga tradição dos bolos finos no Estoril.

E na altura do Bolo-Rei venha o diabo e escolha se devemos levar o do "Novo Dia" ou o da Garret"...O próprio Presidente da República actual já confessou ter também esse dilema.

Claro que os nativos têm um truque para decidir.  Mas essa revelação ficará para mais tarde...

segunda-feira, agosto 01, 2016

O Galo do Campo



Está na moda ( ou devo escrever "de moda") todo o restaurante arvorar o termo "pica-no chão" para descrever o arroz de cabidela de galo (ou de galinha) que apresentam na sua carta. Naquelas casas só se serve galo da quinta alimentado a milho e "andante". Quanto muito alguma galinha criada à mão e na "província"  também.

Recorda-me com saudade os tempos em que o que estava na vanguarda era o "porco preto". Não sei se se lembram, mas não devia haver em toda a Península Ibérica porcos pretos suficientes para tanto "secreto", "pluma" ou "lombinho". De porco...preto...

Obviamente que como o animal depois de esfolado e de se lhe cortarem as unhas é mais ou menos igual ao primo pobre (o branco) na carnadura, era difícil, para já não dizer impossível, ter mesmo a certeza do que estávamos a comer... Por isso e porque a imaginação tem muita força, podiam estar os comensais a banquetear-se com umas febras do Montijo retiradas de algum porco "chino"  alimentado a ração, que pagariam por "porco preto de montado" e - pior ainda - deveria saber-lhes ao mesmo.

E era bem feito.

Lá "montado" o "chino" poderia ter sido, em pequeno, pelo irmão que do lado mamava... mas fora isso nada.

Mas voltando à vaca fria, que por acaso é galináceo. Existirão galinhas, galos, galarós, ou até galetos do campo (campo mesmo, não me refiro à quinta da Marinha) em número suficiente para tanta panela citadina?

Duvido.

Mas então, perguntarão os mais crédulos, como arranjam estes senhores o sangue que entra neste tipo de confecção??

Já se compram animais  com sangue nos supermercados, a chamada "galinha do campo", que por lei tem de ser criada  ao ar livre e que leva 90 dias de criação face aos 30 dias do frango de aviário. Para terem a certeza saibam que são aquelas galinhas que se vendem com patas e cabeça nas embalagens.

E na falta de sangue, ou quando este é pouco? Avança o de porco, que é pau para toda a obra... Tanto aqui nas cabidelas como no arroz de lampreia.

E calo-me porque já escrevi de mais hoje. Pôrra que ainda me fazem a folha. E não me dá jeito nenhum emigrar nesta idade.

Galos de 2 anos e meio, criados à mão quase como se fossem da família? Isso é para quem tem avós na terra e (já agora) dentes sãos e sem mácula. Porque os gajos são mais rijos que os cornos dos bois.

sexta-feira, julho 29, 2016

O Sr. Barroso no seu melhor



No destacado restaurante "Arcoense" de Braga há algum tempo que não tínhamos notícia do Sr. Barroso, proprietário, mas mais do que isso, autêntica alma forte do empreendimento.

Cozinheiro, comprador das matérias primas, cultivador da fruta e legumes ali servidos, criador dos porcos bísaros que ali também se apresentam, amigo dos clientes, e tudo o mais que lhe quiserem acrescentar em virtudes que tenham a ver com a excelência do serviço e da comidinha que se saboreia.

Questionámos as filhas (o Arcoense tem como empregados as duas filhas e acho que também os genros) que nos disseram que o Pai já só vinha aos fins de semana. Estava na quinta a descansar.

Desconfiados de algum problema de saúde lamentámos "para dentro", mas não foi por isso que deixámos de frequentar a casa. Agora é com satisfação redobrada que em duas visitas seguidas ( e não ao fim de semana) lá encontrámos de novo a jovialidade do Sr. Barroso!

Não há como ele para entender o que o cliente deseja, para lhe indicar a melhor opção daquele dia e para o ajudar na escolha final.

Sabedor da minha inclinação para cabeças de pescada logo que me viu entrar disse logo:
-" Tenho ali uma menina de Vigo com 8 quilinhos! A cabeça é para si! Aguenta-se?"
- " Oh Sr. Barroso, eu sou de Cascais! Se não me aguentasse com isso tinha que mudar de terra..."

Demorei quase duas horas e meia, mas só deixei o esqueleto.

Depois no fim ainda teve a lata de nos desafiar:
- "Amanhã ainda estão por cá? Tenho lá na quinta um lombo de bísaro mesmo bom para assarmos..."

Mas já não havia nem tempo, nem estômago... Ficará para a próxima vez!

Uma cabeçona daquele tamanho, com mais um linguado ovado de 1 kg (para o senhorio) , mais as entradas da praxe onde se incluiu "dobradinha", "sardinhas fritas" , pataniscas de bacalhau" e  "prato de enchidos de bísaro" , com um monumental melão apimentado e duas jarras de vinho branco da casa. Um épico almoço por 50 euros por cabeça.

Grande Sr. Barroso!  Muitos anos de boa vida!

terça-feira, julho 26, 2016

Volta a Portugal



Não gosto muito de ciclismos... Aprendi a andar de bicicleta e até me aventurei por trilhos mais ou menos campestres na minha adolescência, mas o certo é que rapidamente larguei a bicla e  me cheguei aos outros desportos de que gostava mais. E como no sítio onde morava e moro este meio de transporte não era prioritário (levo 8 minutos a pé para chegar à estação da CP), mais uma razão para não ter adoptado as duas rodas de tração animal.

Por isso vejo com algum distanciamento os "Jaquins Agostinhos" de Verão. Devo contudo dizer que reconheço os benefícios deste desporto, para a saúde e para a estética,  sendo sem dúvida por isso que esta moda pegou em todas as épocas do ano. Tenho até um amigo que é profissional de artes gráficas e não deixa de ser um exímio praticante de trial  - penso que será assim que se chama, mete bicicletas e longos percursos.

Desta forma a Volta a Portugal a que me refiro é a minha. Parto hoje para Braga e depois dou uma saltada a Viana.  Vou reunir para falar de selos e de livro sobre os notáveis Arcebispos de Braga. E gostaria de meter o nariz na Feira do Livro de Viana, onde temos um stand.

Posts vão estar de molho (tomara eu também) até sexta feira. Mas farei uns apontamentos sobre os secos e molhados dos locais onde parar.

quinta-feira, julho 21, 2016

Para Descansar a Vista



Neste final de semana faço uma "infiltração" na coluna. Mas das modernas, acho que se chama nucleólise de ozono , técnica não invasiva ( e de rápida recuperação) para minorar as consequências da inflamação no nervo ciático.

A qual já me incomodou mais, mas quando dá sinal de despertar não é flor que se cheire...E com uma horas de pé "a ver os aviões" com o PR piorou.

Como ainda por cima tenho para a semana trabalho em Braga e Viana do Castelo, com muitos km para fazer de carro, mais vale prevenir.

De todas as formas fico na sexta feira "esticado". Pelo que  vai já hoje o poema das sextas antecipado.

Do grande mestre Herberto Hélder aqui ficam variações sobre um poema:

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne. 

Herberto Hélder


quarta-feira, julho 20, 2016

Tintos de Verão?

Um conhecido escanção francês,  quando questionado sobre os melhores vinhos tintos para beber no Verão, a temperaturas ambiente perto dos 30 graus ( e mais) respondeu de forma clara:

-"Qualquer um dos grandes vinhos . O verdadeiro conhecedor bebe  em ambientes refrigerados com ar condicionado".

Pondo de lado o imperialismo da resposta - Oh miserável, vai mas é comprar à Sanyo o Ar Condicionado antes de fazeres a garrafeira no T2 onde pernoitas! - devemos saber que existem vinhos tintos  mais indicados para o Inverno e outros para o Verão.

Mesmo que  a temperatura de serviço seja a mesma em qualquer mês do ano, o certo é que os 17º da garrafa em Agosto e os mesmos 17º em Novembro nos "parecem" bem diferentes.

Direi que não só nos parecem, como também nos sabem a diferente. Para já não dizer que, em plena canícula agostiniana, muito rapidamente os 17º do vinho na  garrafita chegam aos 25º nos copos, se não bebermos depressa...

Variáveis como a idade, estrutura, casta, acidez e até a cor do vinho, podem pesar na balança da decisão sobre o que será um tinto mais adequado para as temperaturas elevadas.

De facto, são os taninos, corpo, acidez e grau álcool que normalmente vêm de mãos dadas com potencial de envelhecimento e fazem a base do que se convencionou chamar "Grandes Vinhos".

Mas nem só dos Petrus, Cheval Blanc e Barcas Velhas vive o enófilo.  E há vinhos tintos muito bons para todas as ocasiões, mesmo que seja em pleno Verão.

À beira da praia, perante um almoço de peixe grelhado, penso que apenas um empedernido apoiante do velho ditado "vinho é tintobranco é refresco"  continuaria a refugiar-se no tinto.

Mas admitindo que a noite já caiu e que estamos perante a hipótese de um jantar elaborado, onde a ementa, embora mais aligeirada, tem pratos de carne, porque não apostar num tinto jovem e mais leve?

Os antigos lavradores diziam que,  no Dão,  o branco era para o Inverno e o tinto para o Verão.  Há alguma verdade nisto, sobretudo se tivermos na mesa os brancos velhos de encruzado e os tintos mais novos de alfrocheiro ou de touriga.

Um destes tintos novos de grau álcool mais contido acompanha magnificamente pratos ditos "de verão" onde a carne predomina (ou não). Lembro-me por exemplo da família dos tártaros e carpaccios, não esquecendo os souflés e até alguns fricassés de aves.

E para não estar sempre a falar do Engº Álvaro de Castro aqui vai outra proposta: Vinha Paz (António Canto Moniz). Por cerca de 8 euros o Vinha Paz colheita de 2014 é uma proposta excelente para as noites de verão, se a comida ajudar. Tem 13º  e é um vinho macio com  fruta silvestre, fresco, pouco encorpado e elegante, com um final longo e persistente.

Claro que entre brancos e tintos aparecem os rosés... 

Algo vilipendiados pelo Macho Luso, acusados de serem "vinhos para damas". 

Todavia serão das propostas mais adequadas aos meses de muito calor e têm (os melhores) aptidões gastronómicas evidentes. Para além de serem daqueles que mais aguentam o inimigo número um do vinho: o vinagre . Do qual por vezes se abusa nos pratos mais veraneantes (escabeches frios e mayonaises vêm logo à memória).

Mas essa será uma história para discutirmos mais tarde.

terça-feira, julho 19, 2016

Espreitando pela fechadura

Estava um destes dias a almoçar no Pedro da Horta dos Brunos quando entram mais dois hoteleiros pela porta. O Sr. Evaristo com a Dona Graça (do Solar dos Presuntos) e ainda o Sr. Angelino Fernandes (Nora do Zé da Curva, em Guimarães) também acompanhado pela esposa. Este último tinha trazido dois melões de casca de carvalho bem maduros, daqueles que só se encontram no Minho. E que bons estavam!

Gosto muito de ver os oficiais do mesmo ofício a frequentarem os colegas.  É saudável e parece sempre bem. E se quisermos procurar desígnios mais "obscuros",  tem ainda a vantagem de assim se poder "espiar" a concorrência sem ter que espreitar pelo buraco da fechadura.

O que, obviamente e pelas pessoas referidas, nunca, (mas nunca mesmo !)  estaria em causa naquele dia do almoço citado.

O Pedro tinha recebido de Tondela  dois cabritos daqueles de comer e chorar por mais. E foi o que se comeu. Com um tinto argentino  assinado  Rui Reguinga, feito com  Malbec e Touriga Nacional. Um pouco estranho mas muito gastronómico.

Esta situação lembrou-me a velha Cascais da Rua das Flores (rua da lota) , lá para os anos 80 do século passado, onde os proprietários dos restaurantes se davam todos bem mas não desdenhavam espreitar pelo canto do olho o que se passava nas casas "do lado". Sobretudo quando o negócio ia mais fraco.

Nessas alturas era usual mandarem um empregado dos mais novos ir até à Rua Direita e voltar devagar, tomando mentalmente notas para depois fazer o relatório à chegada. Assim que os outros davam pelo "passeio" começavam logo a chamar coisas feias ao desgraçado. E a mandá-lo trabalhar ou, ainda pior, a "regressar à barraca"!

Nós clientes gozávamos como uns perdidos com estas cenas. Muitas vezes trazíamos as contas, que tínhamos pago numa casa , para a outra e tentávamos fazer negócio com as ditas cujas:
- Oh Sr. Américo (do Sagres)  troco esta conta do Beira Mar por um whisky velho! 
 - Ai não quer? Não faz mal que vou vendê-la ao Sr. Pinheiro! (Do Pimentão). 

Claro que era tudo na brincadeira. O meu amigo Manuel Moreira (infelizmente já desaparecido) fazia um cozido à portuguesa descomunal no Pipas, nas quartas feiras de Inverno. Eu era cliente, já se sabe.

Parece-me até que com o Luís Corte-Real e mais uns parceiros (onde o Paulinho Mendonça do Beira Mar às vezes se incluía) demos cabo do stock do Tinto de Borba rótulo de cortiça de 1964, uma pinga de cair para o lado... Quando vieram as últimas garrafas para a mesa o Manuel Moreira disse logo que aquelas não se vendiam. Era oferecidas.

 O sucesso espalhou-se. Começou a soar a história do "cozido das quartas feiras " e de como o grupo do "cozido" , que tinha começado com 4  mânfios por minha instigação, já ia em 9 ou 10.

Pelo que alguns dos colegas dos outros restaurantes pensaram logo na imitação. Quem se adiantou foi o Sr. Américo.

 E logo convidou o grupo numa quinta feira para o cozido dele. Lá fomos. Era também muito bom. Estávamos no tempo em que a  esposa ainda tomava conta da cozinha no Sagres, a Dª Maria da Luz. E ela sabia cozinhar magnificamente.

Ficámos assim com um problema. Onde ir? É que comer cozido às quartas e às quintas pode fazer-se por uns tempos, mas tende para o enjoo, como percebem.

Quem ganhou esta contenda foi o Borba de 1964. Ou seja, o Manuel Moreira do Pipas, que sempre tinha tido faro para abastecer a garrafeira quando lhe cheirava que o vinho poderia aguentar-se bem.

E lá nos íamos distraindo com estas exéquias. Bons tempos em que eram estas as preocupações. Brincar com os amigos entre garfadas e copos de muita qualidade.

sexta-feira, julho 15, 2016

Não há palavras



Há histórias que nos dão um punho no estômago logo pela madrugada, como foi a do atentado em Nice de ontem à noite.

Aqui sentados à sombra das palmeiras da nossa marginal já estávamos incomodados quando soubemos que  a marinha italiana retirara na quarta-feira mais 500 cadáveres do mar. Náufragos da fuga a caminho da Europa.

Homens , mulheres e crianças,  a quem prometeram o paraíso para depois  serem roubados e deixados à deriva por meliantes.  E digo apenas "incomodados" porque era "gente" longínqua, das Sírias e dos Iraques.  E talvez também porque são tantos estes náufragos mortos que a nossa sensibilidade já está a ficar embotada com a repetição destas notícias..

Mas quando morrem 80 pessoas em Nice, europeus como nós, porque um tresloucado usou um camião como arma de guerra, o incómodo passou de repente a ultraje, uma sensação de aviltamento que nos dá vontade de fazer qualquer coisa.

Pelo menos compreender a atitude do jovem português Mário Nunes, que desertou da FA para ir combater o Daesh de armas na mão, tendo morrido em combate.

Parece que a "táctica" do terrorismo estará agora a apostar na actuação do chamado "lone wolf" - o militante sozinho que se infiltra para depois fazer uma barbaridade daquelas, utilizando instrumentos de trabalho  em vez de armas sofisticadas ou explosivos.

São mais difíceis de detectar e causam tantos estragos, ou até mais do que o terrorista "convencional", o "bombista".

Quem se deve estar a rir por dentro com estes ataques são os partidos de extrema direita, cada vez mais a verem reforçadas as suas ideias xenófobas nos mais diversos extractos da sociedade.

E é isso que as Daesh's deste mundo pretendem.  A extrema direita no poder é terreno fértil para recrutamento de simpatizantes. Admiro-me como ainda há quem não perceba isto no ocidente e vá jogar direitinho  com as mesmas regras dos terroristas.

quarta-feira, julho 13, 2016

Não ouvir



Estou há alguns dias sem ouvir quase nada do lado direito. O meu colega dos Salesianos e agora  Otorrino em Cascais não me atende o telefone. Deve estar de férias.

Não me parece que tenha sido das emoções da grande final. Se fosse rouquidão talvez. E não atino com o motivo, embora o médico já várias vezes me tenha dito que tenho o canal auditivo muito apertado, perguntando-me se fazia surf...

Parece que é a água fria do mar que pode provocar estes "apertos" do canal. Mas Surf eu não fazia. E o mais que praticava  - no mar - era o tradicional e honrado desporto de boiar.

Agora, boiar dentro de água fria deve ser ainda pior que surfar,  dado que o surfista nem sempre está com  a orelha na água. Mas isso serão detalhes.

O mais importante é que deixei mesmo de ouvir daquele lado e passo a vida a pedir aos interlocutores que se coloquem à minha esquerda.

Muito me tenho lembrado  do Engº Emílio Rosa e dos seus problemas sociais devidos à surdez.

Uma vez estava o presidente da Federação Europeia de Filatelia do lado "mau" dele à mesa (era Emílio Rosa Presidente dos Correios) e não se conteve depois do jantar. Chamou-me de lado e disse-me que se tratava da pessoa mais mal educada com quem se tinha sentado a uma mesa! Nem lhe respondia!

Pudera...O Engenheiro não ouvia nada daquele ouvido. Nada mesmo! E tive que me rir ao mesmo tempo que explicava.

À volta cá te espero! E é bem certo.

Há coisas que não tenho pena de deixar de ouvir.  Mas o mundo não está feito de forma que as coisas boas venham da esquerda e as coisas más nos cheguem do lado direito. É pena mas é a vida...

Por isso abalo daqui a pouco para a CUF para que me façam uma ou duas mangueiradas de desentupimento.

segunda-feira, julho 11, 2016

Noite de Redenção



Nascemos para sofrer, como escreveu Jean-Jacques Rousseau. Que era francês...

Mas que bela noite cheia de peripécias que fazem empalidecer um filme de mestre do suspense.

Depois de ter visto a obra prima (classificação 10\10 do IMDb pela primeira vez na história) que foi o episódio 10 da sexta série de "Game Of Thrones", continuámos a noite com os 120 minutos mais longos de qualquer jogo de futebol a que tenha assistido.

Teve tudo: A "morte" do artista principal, o longo período de sofrimento e de perda iminente e o final feliz concretizado pelo "patinho feio" da selecção. Que nunca tinha sido utilizado ainda na fase final.

Tivemos connosco a estrelinha da sorte. Não há dúvida que sim. Mas fizemos por a merecer.

Audaces fortuna juvat.

E, já agora, espero que se lembrem daquele que era grande crente na "estrela da sorte"? Esse mesmo, Napoleão Bonaparte. Não era também ele  francês? ... Que me perdoem os corsos.

sexta-feira, julho 08, 2016

Com vista para a Esperança do Título



Haja unhas em condições de morder, haja alma e coração. Domingo às 22h logo saberemos quem leva a taça. Ou mais tarde se for tudo a penaltis.

Aconselho amêndoas torradas e um "refresco" a condizer. Evitem cognacs e armagnacs.

Há uns Portos mesmo a calhar para esta aventura: O Porto Branco Seco, quando servido com água tónica, gelo e uma rodela de limão num copo alto, o chamado “PORTONIC”, é um fantástico aperitivo! 

De todas as formas e para dar coragem impôe-se um poema de esperança.

Do velho Filinto Elísio (se fosse vivo faria 283 anos em Fevereiro) o padre poeta, mestre da Marquesa de Alorna, aqui vai um exemplo do seu "neoclassicismo".

Não aprecio muito a forma, mas adequa-se ao tema do fim de semana...

Ode à Esperança

Vem, vem, doce Esperança, único alívio
    Desta alma lastimada;
Mostra, na c'roa, a flor da Amendoeira,
    Que ao Lavrador previsto,
Da Primavera próxima dá novas.

Vem, vem, doce Esperança, tu que animas
    Na escravidão pesada
O aflito prisioneiro: por ti canta,
    Condenado ao trabalho,
Ao som da braga, que nos pés lhe soa,

Por ti veleja o pano da tormenta
    O marcante afouto:
No mar largo, ao saudoso passageiro,
    (Da sposa e dos filhinhos)
Tu lhe pintas a terra pelas nuvens.

Tu consolas no leito o lasso enfermo,
    C'os ares da melhora,
Tu dás vivos clarões ao moribundo,
    Nos já vidrados olhos,
Dos horizontes da Celeste Pátria. 

Eu já fui de teus dons também mimoso;
    A vida largos anos
Rebatida entre acerbos infortúnios
    A sustentei robusta
Com os pomos de teus vergéis viçosos.

Mas agora, que Márcia vive ausente;
    Que não me alenta esquiva
C'o brando mimo dum de seus agrados,
    Que farei infelice,
Se tu, meiga Esperança, não me acodes?

Ai! que um de seus agrados é mais doce
    Que o néctar saboroso;
É mais doce que os beijos requintados
    Da namorada Vénus,
A que o Grego põe preço tão subido.

Vem, vem, doce Esperança, que eu prometo
    Ornar os teus altares
Co'a viçosa verbena, que te agrada,
    Co'a linda flor, que agora,
Enfeita os troncos, que te são sagrados. 

Filinto Elísio - "Odes"

quarta-feira, julho 06, 2016

Gales, o adversário amigável



O País de Gales tem por tradição ser a pátria do arco longo que ganhou as batalhas de Crécy,  Poitiers e Agincourt (Guerra dos 100 anos). Os melhores archeiros do mundo eram ali criados e treinados. Não era por acaso que os franceses, naquela altura da "pancadaria",  imediatamente cortavam os polegares a todos os prisioneiros galeses que apanhavam ... Sem polegares acabava a extensão do arco.

Tem o País de Gales ainda a fama e o proveito de ter uma "língua" ainda mais esquisita do que o nórdico da Dinamarca , que é considerado pelos próprios não tanto como um dialecto mas mais como uma doença da garganta...

Para exemplo, um local (aldeia) no País de Gales tem o seguinte nome:  Llanfair­pwllgwyngyll­gogery­chwyrn­drobwll­llan­tysilio­gogo­goch

Já acabaram de pronunciar? É obra... E significa o quê? Aqui vai em inglês normal: Saint Mary's Church in a hollow of white hazel near the swirling whirlpool of the church of Saint Tysilio with a red cave.

Do ponto de vista gastronómico Gales é sinónimo do melhor cordeiro do Reino Unido. As pastagens magníficas em montanha originam das melhores carnes de borrego do mundo. O problema estará (para o nosso gosto) na maneira como o preparam.

A forma tradicional de assar o borrego é deixando-o rosado , a adivinhar-se o sangue... Segue imagem para apreciarem a coisa.

Mas esta noite o problema não é borrego, língua de trapos ou arco e flechas. É bola na relva e chuto para a frente.

Amigos de Gales, desejo-vos o melhor do mundo em tudo. Nem me ralo que tenham votado a favor do Brexit. Mas percam o joguinho se fizerem favor...

quinta-feira, junho 30, 2016

Portugal-Vietnam: 500 anos de contactos

Hoje recebo o Encarregado de Negócios da Embaixada do Vietname em França ( aqui ainda não têm representação). Fala bem português porque já foi embaixador em Angola. E estará presente na cerimónia de amanhã, quando colocarmos em circulação a emissão de selos que dedicámos - em ambos os países - a estes 500 anos de relacionamento.

Passaram 500 anos desde que Fernão Peres de Andrade, pressionado pela turbulência da monção, chegou a Da Nang, a região da Cochinchina que muitos anos mais tarde, em 1802, quando ocorreu a reunificação do território pela dinastia Nguyên recebeu o nome Viêt Nam (Povo do Sul) para designar o povo e o país.

Evidentemente que a Cochinchina dos Portugueses em 1516 não corresponde ao espaço do protetorado francês homónimo do século XIX. E, por outro lado, nunca os naturais da terra chamaram Cochinchina ao território onde viviam; apresentavam-se na corte chinesa, nos séculos XVI e XVII, como Dai-Viêt (Povo Ilustre).

O que interessa salientar neste historial longuíssimo de vivências comuns é que ao longo destas centenas de anos de contactos comerciais e culturais, nunca existiu a sombra de nenhuma guerra entre os dois povos, nem sequer nenhuma tentativa de colonização por parte dos portugueses. E é este um caso notável de exemplar relacionamento entre duas formas de ser e de estar tão afastadas no espaço e tão diferentes culturalmente como a vietnamita e a portuguesa.

Para comemorar esta efeméride decidiram os Operadores Postais Designados dos dois países lançar uma emissão filatélica conjunta. Trata-se de uma iniciativa que traduz, naturalmente, o ambiente de boas relações mútuas existente, mas que é em si mesmo um gesto que vem contribuir para reforçar os ancestrais laços de amizade que unem os dois povos.
Uma imagem expressiva desse espírito de abertura, diálogo e amizade que se deseja manter e incentivar no relacionamento entre os nossos países foi escolhida para ilustrar os selos que agora são postos a circular em Portugal e no Vietnam.


Trata-se de dois magníficos exemplos de porcelana da época deste primeiros contactos, uma executada no Vietnam e a outra em Portugal.

terça-feira, junho 28, 2016

Bienal do Azeite



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Sempre estive mais virado para o vinho.

Que querem, o azeite fazia parte dos dados adquiridos quando casei na província.  


A "casa agrícola" dos meus sogros também tinha vinho, e bom! Mas de facto o azeite não se discutia tanto como o vinho. 

Lá estavam as árvores, lá se colhia a azeitona em Dezembro, lá se fazia a lagarada.  Enchiam-se os potes, começava a usar-se do mais antigo, a malta arrecadava uns garrafões para trazer para Cascais e pronto.

O vinho era a estrela da companhia. Alvo de provas e reprovas (nalgumas "reprovavas" mesmo para baixo da mesa). Vinham os taberneiros e donos das lojas testar os depósitos, faziam-se as travessas de febras para ajudar à festa, abria-se um queijo velho para ensopar. E quando se faziam as contas era quase ela por ela... O preço a que o meu sogro vendia o litro quase não dava para cobrir as tais "festas" das provas e reprovas.

Este azeite feito em lagar conhecido e com a nossa azeitona passou de moda.

Costumávamos fazer a noite da lagarada à espera do trabalho da pressão, assando postas de bacalhau com batatas a murro numa fogueira acesa em frente ao lagar. Não só todos comiam e bebiam bem como também era desculpa para estarmos de olho na nossa azeitona, garantindo que o azeite que se levava era o que correspondia à azeitona de nossa casa.

Hoje não funciona assim. Entrega-se a produção  e o mestre do lagar faz a mistura atendendo à qualidade e "raça" do fruto.  Paga-se  em dinheiro  e já não  em quinhão de azeite.

Em Castelo Branco realiza-se de 1 a 3 de Julho a Bienal do Azeite, desta vez centrada no tema: “O Azeite e a Dieta Mediterrânea".  Este evento realiza-se  de dois em dois anos e é organizado pela Câmara de Castelo Branco, Casa do Azeite, APABI (Associação de Produtores de Azeite da Beira Interior) e Confraria do Azeite.

Os CTT e a Filatelia vão lá estar, representados pela TerraProjectos, tal como aconteceu em Santarém, na Feira Nacional da Agricultura. 

É um pretexto para visitar a bela cidade e provar os queijos fenomenais que por lá se fazem. Idanha-a-Nova e Alcains integram os rebanhos da  Cooperativa de Produtores de Queijo da Beira Baixa, que foi muitas vezes ofuscada pela aristocracia da serra. 

Mas que agora ganham estatuto e nobreza.  Entre eles o Castelo Branco Amarelo DOP. Mas sem esquecer os "queimosos" de sabor e cheiro tão característicos que sabemos de fonte segura que a mulher do nosso amigo que nos costuma trazer uns para o “Jockey” já lhe fez um ultimato: ou vem ela ou vêm queijos desses no carro. Ambos nunca!

Vamos até lá provar o azeite, comer o bacalhauzinho e trincar alguns destes queijos.


segunda-feira, junho 27, 2016

Fim de Semana branco

Branco, de Hospital. Foi onde passei grande parte da sexta, do sábado e do domingo.

Almoços fartos e demorados foram adiados para melhor ocasião, e as santas tiveram que se aguentar firmemente. Ia dizer " ao bife", mas a verdade é que nem isso houve para ninguém...

Uma delas ficou às voltas com a "dieta" hospitalar. Pouco faltou para atirar com o prato da vitela estufada ( sem sal) à cabeça da senhora empregada lá na CUF... E a outra irmã, tal como o senhorio,  foi contentada à custa de frangos do "galego" (sem ofensa, que o gajo é rico como o Jorge Mendes).

No Domingo à tardinha, quando veio para casa depois da operação, a mãe  quis logo café. E ao ver-me com a chávena na mão indagou de imediato:  Só café? Não há nada para comer?? Isto ainda é pior que o hospital!

E logo acrescentou: "Quero ir ao cabeleireiro. A operação deixou-me o cabelo todo em pé!"

Como se vê as coisas estão a entrar na normalidade.

O maior problema foram as duas anestesias com um intervalo pequeno, que lhe deixaram a pobre cabeça um bocado azoada... Mas vamos lidando com o assunto de forma filosófica.

Até dá um certo jeito esta sensação de confusão mental...Pode ser que ela não se lembre de me pedir de volta os cartanitos...das contas bancárias...

Mas não conto muito com isso.