quarta-feira, outubro 22, 2014

As calorias (assunto obnóxio)

Nota prévia:  "Obnóxio" significa Desprezível, Baixo. Humilde ou Funesto.

Para os amigos ( e amigas...) que passam a vida a medir as calorias , lembrei-me de falar aqui um pouco sobre a importância do vinho e dos destilados alcoólicos nestas andanças do controlo do peso.

Segundo os especialistas,  o álcool fornece 7 kcal/g de energia, superando os carboidratos e proteínas, que geram 4 kcal/g, e perdendo apenas para as 9 kcal/g da gordura.
 
Acresce ainda que os nutricionistas classificam o álcool como uma "caloria vazia, pois não possui nutrientes significativos para o corpo. O corpo humano reconhece o álcool como uma toxina, dá prioridade à sua eliminação e deixa em segundo plano a queima da gordura, dos carboidratos e das proteínas – o combustível do organismo. Por isso, quanto maior o consumo de bebidas alcoólicas, menos gordura é queimada e mais os alimentos são armazenados como gordura."
 
O vinho tinto, branco ou rosé é limitado caloricamente em cerca de 70 calorias por 100 ml (menos para o tinto, um pouco mais para o branco) . 100 ml é um copo a vinho tinto  mal aviado. Uma garrafita tem 6 a7 vezes mais...
 
Um whisky, aguardente velha , bagacinho ou Gin  valem já cerca de 240 calorias por 100 ml. Neste caso admito que 100 ml sejam duas doses no bar ...Ou uma dose em casa...
 
A Vodka é mais mansinha (cerca de 120 calorias pelos tais 100 ml). E a cerveja até 4º não chega às 50 calorias. Moscatel, Porto e outros vinhos de sobremesa afinfam-lhe já com umas respeitáveis 150 a 160 calorias, sempre por 100 ml.
 
Termos de comparação: uma dose "à maneira" (350g)  de leitão da Bairrada com molho e batatas fritas vale no prato cerca de 750 calorias. Tanto como a garrafa de espumante que bebermos a acompanhar ! Com o pãozinho da ordem, um queijinho fresco e um whisky de malte para "rematar" fica a refeiçãozinha (sem sobremesa doce!!)  por  apenas 2000 calorias.
 
Um atleta de endurance  (corrida de fundo) com 75 kg, 1,80m , deve ingerir cerca de 3000 calorias por dia. Um "atleta" de escritório, com 95 kg, 1,88m e que deseja manter o peso?  Talvez deva limitar o consumo a 2300 calorias por dia...
 
Deduzo daqui que quem atascar o "depósito" na Meta dos Leitões ou na Nova Casa dos Leitões (abençoadas sejam e muito anos de vida!) , deve chegar a casa e beber um chazinho antes de deitar. sem açúcar.
 
Esta conversa está a dar-me alguma sede e a fazer levantar ameaçadoramente o meu  indicador da "larica".  Nunca mais é hora de almoço, pôrra! 
 

terça-feira, outubro 21, 2014

As Castanhas de S. Martinho

Já há castanhas, embora o tempo neste momento esteja mais para "Olás fresquinhos".
O solar da castanha em Portugal é Trás-os-Montes, e dentro do planalto nordestino serão os soutos de Vinhais e dos seus arredores os mais conceituados.
Claro que há também castanha nas Beiras, Alta e Interior, mas em menor quantidade.
A castanha está também a tornar-se um caso sério para a economia nacional. Leiam aqui sff:

"Trás-os-Montes, com 85% dos castanheiros nacionais (mas também as Beiras), transformou Portugal num dos maiores produtores do mundo de castanha – só ultrapassados na Europa pela Itália. Mas os italianos têm os soutos dizimados pela mosca-asiática que se encasulou nos castanheiros e os está a amputar a eito.  (...) 90% dos soutos italianos estão com troncos ao alto e sem ramos, e por isso o valor da castanha portuguesa tem subido nos últimos anos, porque a Europa vem abastecer–se a Portugal."
Texto de Daniel Deusdado.

Quanto vale o negócio? A produção de castanha gera, anualmente, 20 milhões de euros nos concelhos de Vinhais e Bragança , sendo provavelmente  a cultura mais rentável da região de Trás-os-Montes.

E junto com a castanha vem o turismo, aproveitando estes dias para fazer percursos belíssimos por entre os soutos  e observando os ouriços, deslumbrantes.

O maior concorrente de Portugal na produção da Castanha é a China. E sabendo-se da abundância de ouro por aqueles lados todo o cuidado é pouco...O "irmão" chinês já até começou a investida. Vejam aqui um artigo do Público:

"O maior grupo produtor mundial de castanha, o American Lorain, de capitais chineses mas cotado na bolsa de Nova Iorque, vai apostar no Nordeste Transmontano para abastecer sobretudo o mercado francês, mas também o alemão e o holandês. O grupo adquiriu, recentemente, uma participação maioritária (51 por cento) da luso-francesa Conserverie Minerve, que já detinha uma unidade de produção em Vinhais, a Cacovin, que será agora recuperada depois de encerrada há dois anos após ter sido vendida pela autarquia."

Eu gosto das castanhas assadas ou cozidas. Gosto delas na sua época. Que é agora. Agora mesmo! Nesta altura brilham em pudins, em sopas, junto da perdiz ou do javali. Frescas e suculentas.

Já não aprecio muito a castanha que nos dão em Lisboa acompanhando certos pratos, dos quais o mais conhecido (tipo arroz doce  que não falta a nenhum casamento) serão os "Rojões à moda do Alfacinha" ( não sei que nome lhes chamar) onde a castanha impera todo o santo ano. Congeladíssima e sequíssima...

Uma sugestão: Em 24, 25 e 26 deste mês vão a Vinhais, à festa da Castanha e aproveitem para atascar violentamente no excelente fumeiro de Bísaro lá da zona. E se estiver ainda quente demais para as alheiras, vinguem-se na posta! Ou comprem um presunto que por lá deve estar a secar há já um ou dois anos...Isso é que era.
Aqui vai uma morada adequada: http://www.bisaro.pt/?lang=pt&page=homepage/homepage.jsp
Fica em Gimonde. Não se arrependerão!!

segunda-feira, outubro 20, 2014

Borrego ou Cabrito?

A guerra pela supremacia entre a carne de pelo e a carne de lã é antiga como o mundo.

Os manuais de referência colocam o cabrito no cume da gastronomia nacional, sempre assado no forno e de origem certificada. Com mais ou menos alho, com mais ou menos pimentão, acolitado ou não pelo arroz de forno dos seus miúdos e  quase sempre com a batata assada no mesmo molho da carne  e  com os grelos salteados (ou ervas grossas).

O cabrito grelhado (ou guisado) é desdenhado pelos peritos como formas plebeias de estragar uma matéria prima de grande qualidade.

O cordeiro (ou borrego) é um outro produto de excelência da nossa pastagem serrana ou transtagana, talvez não tão incensado como cabrito, excepto nos locais onde se exalta o queijo de ovelha e onde a existência de cabras nos rebanhos é mal vista. A cabra dá um rendimento de leite bem superior ao das ovelhas das raças certificadas e por isso existe sempre a tentação de a usarem para "arredondar" as latas de leite que vão para queijar.

No prato, todavia, e partindo do excelente princípio que não se devem comparar alhos com bugalhos, o borrego também é superlativo. Com a vantagem que pode continuar a ser utilizado como ingrediente principal da nossa gastronomia tendo uns anos ( e uns kg) mais avançados do que o cabrito. Cabrito que ultrapasse os 5,5 kg e meio (limpo) já é por muitos considerado "cabrão" (com vossa licença).

Mas um borrego "mamão" continua a dar prazer em assados ou em guisados muito para além desse peso . Quase que até aos 11 kg,  se bem criado com produtos naturais ao lado da mãe.

Este fim de semana fiz uma jardineira de borrego, estando o tempo de feição para um prato que em tempos era primaveril, acompanhando a carne jovem com o feijão verde ou as ervilhas, a batata nova e as cenouras infantes.

Não custa nada pedir no talho que vos cortem (para 4 pessoas) 1kg e meio de  peito e costela de borrego. Depois, em chegando a casa,  lavem com vinho branco e façam uma marinada com alho aos pedacinhos, cebola picada, uma colher de massa de pimentão, umas pitadas de pimenta preta e uns rebentos de salsa. Juntem azeite e vinho branco e mexam. Mergulhem os bocados do borrego e aguardem de um dia para o outro.

No dia do almoço preparem uma puxadinha da forma usual (alho, cebola, azeite e uma mão cheia de sal). Deitem também uma colher de sopa cheia de polpa de tomate de boa qualidade.  Em  ficando loura introduzam os bocados do borrego temperados .

Nota: Se o borrego for mais adulto considerem alourar os bocados numa sertã, em azeite ou em banha, a gosto, antes de deitarem no tacho. Caso seja um borrego mais "menino" não há necessidade dessa tarefa inicial.

Deixem apurar uns minutos os pedaços do borrego no refogado.
Depois deitem as batatas cortadas em cubos (duas batatas médias por pessoa) , o feijão verde (ou as ervilhas, a gosto) e as cenouras às rodelas grossas.

Reduzam o lume e vai guisando lentamente por cerca de hora e meia. Vão provando e rectificando de sal. Quando o garfo entrar bem nas batatas está tudo pronto a ir para a mesa.

Para acompanhar bebemos um Tinto Vallado (Douro) colheita de 2011. Excelente relação qualidade\preço!

sexta-feira, outubro 17, 2014

Para Descansar a Vista

Com a velha rabugenta (a ciática) a incomodar-me outra vez em consequência das horas que passei ontem sentado na Conferência da História da Matemática em Óbidos, acordei eu mesmo também um bocado para o estragado...

Estou a ver que tenho de planear umas duas semanitas e tratar da aplicação da "pomada de canivete", como diz o meu médico a gozar (aqui só para nós, ele que vá gozar com a tia).

Mas recordei-me deste poema "a um deus verde" , de meu mestre Eugénio de Andrade, a propósito desta invenção da "Fiscalidade Verde".

E  tive  que sorrir, apesar da dorzita surda pela perna abaixo.

Aqui vai então:


Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.


quinta-feira, outubro 16, 2014

Uma paixão antiga

Os leitores imaginariam que vou finalmente perder a vergonha e contar detalhes da minha vida amorosa dos anos 70 ?

Estão enganados... A "paixão" a que me refiro é a da Matemática .

Quando casei tinha à minha frente dois caminhos: ou seguiria a carreira docente universitária (onde já estava desde 1977) mas desta vez a sério, com doutoramento e agregação e o mais que houvesse se para tal tivesse "peito". Ou então enveredar pela vida profissional.

Que foi o que fiz depois de considerar duas propostas honrosas. A da Empresa Geral de Fomento, que era apadrinhada pelos grandes mestres que foram o Eng. Gomes Cardoso e o seu colega Engº Portela. A dos CTT onde estava já o Joaquim V. Rodrigues, meu colega de turma.

Todos sabem o que escolhi. Tenho alguma vergonha de dizer que , à espera de filho, foi o incentivo do dinheiro que acabou por me decidir.

Mas o "bichinho" dos métodos quantitativos e do ensino levou-me a ficar por 30 anos ligado ao ISCTE, ensinando sempre e pensando no que poderia ter sido uma vida totalmente dedicada à academia.

Hoje vou com muito gosto a Óbidos lançar um carimbo comemorativo do 7º Encontro de História da Matemática Luso-Brasileira, onde se vai decerto evocar o Prof. Sebastião e Silva.

José Sebastião e Silva (1914-1972) protagonizou, nos anos 60, um dos mais inovadores e mais bem-sucedidos projetos de desenvolvimento curricular em matemática. Para além de outros livros de texto – justamente recordados e por muitos professores ainda hoje utilizados na preparação das suas aulas – escreve, em 1964 e 1965, os Compêndio de Matemática e os respetivos Guias para professores. Neles, se evidenciam a sua sensibilidade pedagógica e o seu talento de expositor em combinação com um profundo conhecimento de Matemática e uma visão muito rica tanto da sua história como das suas aplicações.
Sebastião e Silva , de quem celebramos o centenário com um merecidíssimo selo postal, foi um dos grandes filhos de Mértola tal como o Prof. Aureliano Mira Fernandes, seu vizinho de umas dezenas de anos antes. Talvez os dois maiores matemáticos (com Pedro Nunes) deste país nasceram ali, bem perto um do outro. Deve ser da água de Mértola e seus arredores. Devia ser analisada.
Vejam aqui mais informação sff:
http://encontrohistoriamatematicaobidos.com

segunda-feira, outubro 13, 2014

A Fuga das Galin...(digo, das idosas) no supermercado

Tenho andado mais sossegado nos últimos fds por causa da obrigatória falta de mobilidade das minhas anciãs cá de baixo, pelos motivos de saúde conhecidos.

Este bendito sossego acabou no último Sábado.

Desejosas de bater chinela e arejar as ideias (o que é difícil, são 170 anos somados, a dividir por quatro pernas trôpegas) lá me intimaram a comparecer pelas 8,45h (reparem no detalhe) para "irem às compras".

Dentro do carro - e conhecedor do habitual rumo que estas expedições tomam -  sempre fui avisando que tivessem paciência, esperassem umas pelas outras e que não debandassem cada uma pelo seu canto, como galinhas loucas à vista da raposa.

Tá-se mesmo a ver que foi isso que aconteceu. Chegadas ao local do crime e enquanto eu fui buscar o carrinho, alçaram das "canadianas" como se fossem armas de guerra e...desapareceram.

Andei com o carrinho atrás das malucas das velh... (digo, idosas) a hora e meia todinha que estive dentro do estabelecimento comercial.

Eu estava na fila do pão, elas parecia que se dirigiam para a fruta e hortaliças. Eu chegava à fruta e hortaliças e já lá não estavam. Tinham basado para os congelados. No corredor dos congelados bem espreitei e...nada. Nem sombra das desgraçadas!

Depois destas exéquias e já com vontade de as mandar chamar pelo intercomunicador (como se faz às crianças de menos de 5 anos que se separam dos pais) lá consegui vislumbrar  as impetrantes junto dos pratos, tachos e panelas. Mas logo de seguida pediram para irem ver  "resguardos e roupas de cama".

O pior foi quando cada uma decidiu que tinha "coisas particulares para fazer".

Se andar atrás das duas juntas  já era mau, imaginem eu a tentar dar com o paradeiro de cada uma delas!!

Ala  meano! Cada uma para o seu lado e o "Je" , sem poder decidir para onde apontar a antena de detecção. O que resolvi foi sentar-me na área dos livros e esperar que a loucura das duas ginjas acalmasse...

Quando questionadas para terem calma e esperarem por mim, ainda se enxofraram a dizer que andavam com o telemóvel exactamente para isso! Para serem contactadas.

Ignorando as três chamadas que eu já tinha feito para cada uma... A santa Mãe nem tinha trazido o TM, e a santa Tia tinha-o dentro da carteira, debaixo dos lenços "para não se partir" e não ouvia a campainha.

Bem sei que é bom "elas"  mexerem-se cada vez melhor e que se  refilam é sinal que  estão vivas. Pelo menos isto é o que me diz o meu senhorio, a rir-se quando lhe contei as peripécias.

Mas um mistério ficou por resolver...

Se o gajo acha graça e pensa que é natural eu ter de me revestir de santa paciência e aturar as duas destrambelhadas, por que é que ele não alça o cú da cama mais cedo  e se arma em motorista e acompanhante do "duo dinâmico"?  Das perigosas "peruas turbo"?

Deixa lá que para a semana que vem já tens o destino traçado!

sexta-feira, outubro 10, 2014

Para Descansar a Vista

Ainda com as costas a arder das horas passadas em pé e sentado , nas cerimónias do Dia Mundial dos Correios  - vão ver os detalhes à nossa página de FaceBook :


 - aqui venho dar o inevitável poema.

Começo por uma frase de Quintana, para nos fazer pensar:

"Uma borboleta amarela voa perto do chão.
Ou será uma folha de árvore que se desprendeu  e ainda não quis pousar?"

E termino, em Outubro, com  um poema a condizer pelo nosso Grão Mestre da Poesia:

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]


Fernando Pessoa



quinta-feira, outubro 09, 2014

Dia Mundial do Correio

Lá chegámos a mais um dia 9 de Outubro, data em que a União Postal Universal comemora o dia mundial da sua actividade em  150 países e  operadores designados de correio.

Aqui em Portugal a cerimónia oficial será na Fundação Portuguesa das Comunicações, com a presença do Ministro da tutela (Economia). Vamos homenagear seguidamente os trabalhadores dos CTT com mais de 36 e de 40 anos de serviço,  num jantar a realizar na Estufa Fria.

E para celebrar o dia do ponto de vista filatélico, será lançada a emissão comemorativa das tapeçarias da Manufactura de Portalegre, seguida da inauguração da Exposição com  tapeçarias do espólio CTT, da própria Manufactura e do Museu Guy Fino, gerido pela autarquia. Estará patente na Fundação das Comunicações até ao final de Dezembro.

Os selos reproduzem tapeçarias de cartões assinados por: Almada Negreiros, Cruzeiro Seixas, Eduardo Nery, Joana Vasconcelos, Júlio Pomar e Maria Helena Vieira da Silva.
Podem ver aqui sff:

segunda-feira, outubro 06, 2014

O ano vínico de 2011: quase perfeito.

Não sou eu que o digo.

Kim Marcus, o provador oficial da mais antiga revista norte-americana de vinhos, especialista em vinhos portugueses, escreveu sobre as nossas colheitas de 2011:
“Condições climatéricas quase perfeitas e melhorias na vinha e adega criaram condições para um conjunto de vinhos monumental”.

Na prova extensiva de vinhos do Porto desse ano, realizada por Kim Marcus, a qualidade de 2011 ficou amplamente marcada:  o cronista da Revista de Vinhos  não se recorda  de uma prova de uma só colheita ter dado pontuações tão altas. A média foi de 95,4 valores, numa escala até 100 valores.

E como geralmente o vinho do Porto é uma boa referência para os vinhos de mesa, quem sabe desta poda está já há alguns anos a "enfeirar" tintos do Douro ( e Dão, já agora) desse ano bendito pelos deuses.

Com esta situação de enquadramento, o blogger decidiu dar a provar alguns tintos do Douro de 2011 a amigos que se reuniam em torno do famoso "Cozido de carnes e enchidos artesanais" em casa do Álvaro. Aquele cozido onde tudo é comprado a pequenos produtores, desde o porco à carne de vaca. E onde as couves, nabos e cenouras não se compram... São da horta lá de casa.

A nossa experiência antiga nesta matéria das provas que são para beber e não para cuspir (cruzes credo e t'arrenego vadio!) limita o conjunto de vinhos a não mais do que quatro. A partir daí os últimos começam a ser penalizados pela falta de perspectiva e pelos palatos já saturados.

Por último, limitámos por acordo comum o preço máximo dos vinhos em prova (numa garrafeira) a 25 euros por garrafita.

Foram testados, por ordem crescente de preços: Assobio ( a aventura da Herdade do Esporão no Douro); Quinta do Crasto Superior; Passadouro Touriga Nacional; D. Berta Reserva Especial Sousão.

Todos muito bons! O único com madeira evidente (Crasto) teve as melhores referências dos presentes, embora o Passadouro Touriga tenha ficado mesmo, mesmo colado...Uma daquelas chegadas à meta com necessidade de  "photo finish". 

O Sousão D. Berta estranhou um pouco alguns dos presentes por causa da casta pouco habitual em extreme, mas estou convencido que se insistissem mais teriam gostado muito. Pessoalmente foi este que me encheu mais as medidas...
O Assobio tem enorme perfil gastronómico, é um belo vinho para um preço inferior a 10 euros, mas perde para os outros maiorais desta competição.

Para a próxima voltamos ao ataque mas com vinhos do Dão. Sempre de 2011.

sexta-feira, outubro 03, 2014

Para Descansar a Vista...nas Férias

No último dia desta primeira semana de férias - a segunda ficará para o final de Outubro, para ir à serra quando a minha santa lá de cima estiver em convalescença - pensei em dar-lhes um poema de Lídia Jorge, a propósito do seu último livro "O Organista" , fábula que trata da criação do mundo e das relações dos homens com a divindade.



Aqui vai então, dessa grande escritora de Boliqueime um poema de Amor no Outono. Belíssimo!

Assim a Casa SejaAmor, é muito cedo 
E tarde uma palavra 
A noite uma lembrança 
Que não escurece nada 

Voltaste, já voltaste 
Já entras como sempre 
Abrandas os teus passos 
E paras no tapete 

Então que uma luz arda 
E assim o fogo aqueça 
Os dedos bem unidos 
Movidos pela pressa. 

Amor, é muito cedo 
E tarde uma palavra 
A noite uma lembrança 
Que não escurece nada 
Voltaste, já voltei 
Também cheia de pressa 
De dar-te, na parede 
O beijo que me peças 

Então que a sombra agite 
E assim a imagem faça 
Os rostos de nós dois 
Unidos pela graça. 

Amor, é muito cedo 
E tarde uma palavra 
A noite uma lembrança 
Que não escurece nada 

Amor, o que será 
Mais certo que o futuro 
Se nele é para habitar 
A escolha do mais puro 

Já fuma o nosso fumo 
Já sobra a nossa manta 
Já veio o nosso sono 
Fechar-nos a garganta. 

Então que os cílios olhem 
E assim a casa seja 
A árvore do Outono 
Coberta de cereja. 

Lídia Jorge, (Inédito)

quarta-feira, outubro 01, 2014

A Saltarilha

Nem só no Alentejo vive a Lebre! Já que estamos numa onda de Trás-os-Montes, seguimos meu mestre Torga e vamos vê-lo a caçar alguma lebre, sempre na companhia do bom amigo e padre Avelino Augusto da Silva.

Diziam os antigos transmontanos que a lebre até um ano quer-se assada na brasa apenas com sal. Entre um ano e dois já necessita de ser salteada depois da assadura. E quando tem mais de dois anos será mister guisá-la com todos os temperos a que tem direito.

Fui respingar uma receita de Lebre à Transmontana (não assevero se é muito antiga) e que vos deixo aqui com o "óbvio" conselho: como quem não tem cão, caça com gato, à falta de lebre usem coelho! (Mas...não é a mesma coisa...).

Uma lebre de um kg e meio,  350 g favas, 350 g cenouras, 8 batatas pequenas,  duas cebolas às rodelas finas, duas ou três colheres de sopa de banha, 150 g toucinho, Sal e Pimenta a gosto.
 Depois de  esfolar e lavar muito bem a lebre (com vinho branco), parte-se aos bocados e vai a uma sertã alourar em banha. Em estando alourada deita-se num tacho de fundo bem grosso, com toucinho cortado em quadradinhos, mais uma colher de banha, a cebola às rodelas, sal e pimenta. Temperem e deixem assim puxar uns minutos em lume médio a forte. De seguida coloquem os outros ingredientes e vai guisando lentamente, desta vez em lume brando. Vão provando e rectificando os temperos.
E para acompanhar? Um Tinto Transmontano de raça e corpo: Valle Pradinhos 2011 Grande Reserva Tinto, um misto de Cabernet e Touriga, a 25€. Se comprarem a lebre têm de gastar algum no vinhito!
Caso seja coelho no tacho, bebam o Valle Pradinhos Colheita do ano, que ficam bem à mesma!


terça-feira, setembro 30, 2014

De Férias...Uma chatice...

Ainda estou de férias e começo a ficar meio farto...

Por um lado as vicissitudes do trabalho não largam, e tão em cima do Dia Mundial de Correios e das complicações (no bom sentido) que arranjámos para este ano, não há manhã nem tarde que não apareça o "mail" a precisar de solução, o telefonema com a dúvida urgente e a decisão para tomar .

E, por outro lado, também do ponto de vista familiar os "recobros" das minhas duas anciãs cá de baixo impedem viagens demoradas. Troquei assim um trabalho pelo outro, de "filatélico-mor do reino" a cuidador e cozinheiro.

Por isso ninguém me pode levar  mal que aprecie as deslocações (de ir num dia e vir no seguinte), que as cerimónias de obliteração impõem. Primeiro em Miranda do Douro - terra admirável, mas que merecia mais tempo para ser apreciada - e para a semana em Bragança. Sempre debaixo dos bons auspícios de D. José Cordeiro, o mais jovem dos bispos portugueses e a quem (com conhecimento de causa) posso fazer o maior dos elogios: parece o Papa Francisco na forma como encara o seu trabalho.

A Pastoral do Turismo de Bragança-Miranda está a fazer um trabalho admirável naquela área enorme. Vejam aqui o novíssimo Portal e colaborem!

http://ptbm.pt/

Um abraço de parabéns à Drª Alexandrina Fernandes, nossa antiga conhecida dos "Sabores do Ar e do Fogo", criadora de porcos bísaros, dona de um dos melhores fumeiros da zona, e ainda (ou sobretudo) Presidente do Serviço Diocesano da Pastoral do Turismo de Bragança-Miranda!

Por tudo isto, há que ir! Mesmo que as costas se queixem amargamente, e que a p**** da ciática não me largue. Sobretudo nas viagens de regresso...

Agora por enchidos e presuntos, no final desta  semana preparamos mais um almoço de Amigos em casa do Álvaro. Vamos fazer uma "rave" de tintos de 2011, todos do Douro. E votaremos. Depois digo como ficou.

E assim vamos "feriando". Nos tempos que correm nem me posso queixar muito. Pelo contrário...

PS: Não falei do António Costa ? Apenas uma frase batida, dedicada a quem sofreu raios e coriscos:  "este é o primeiro dia do resto da vossa vida" ... E tudo está bem quando acaba bem.




quinta-feira, setembro 25, 2014

E-Books nuns Dias de Férias

Finalmente consegui tirar uma semanita de férias.

Logo na primeira cavadela, digo, no  1º dia , apareceu "minhoca". Motivo pelo qual vim...trabalhar.

É a vida.  O tempo parece que está bom. Há que aproveitar os fins de tarde, dar umas caminhadas  para desmoer o almoço (parte mais importante de cada dia) e depois ler. Ler muito, porque faz falta e por enquanto é uma actividade barata.

Mandámos vir todo o texto dos 5 livros "Game of Thrones" em formato e-book, serão cerca de 4100 páginas, por menos de  1 USD. Leram bem. Um (1). Falem com o meu senhorio que ele diz onde e como.

Também aqui nos CTT acabámos de fazer os primeiros testes de passagem de um dos nossos livros ao mesmo formato, para pesquisar hipóteses de venda em canais alternativos e o acesso a outros continentes (para os livros traduzidos, está claro!).

Utilizámos para o teste o livro CTT de Fátima Moura "Sabores do Ar e do Fogo".

Fizemos testes em dois formatos:
a) epub - que é o mais utilizado (excluindo pdfs), e que é usado pelas apps iBooks da Apple, e Melvin.
b) mobi - que é o formato proprietário da Amazon, usado nos Kindles

 O livro em formato epub só pode ser lido - com as imagens correctamente inseridas ao lado dos textos a que dizem respeito - no iBooks.  O livro em formato mobi também não permite infelizmente  a visualização das imagens.

Temos ainda de limar estas arestas, mas para já será possível colocar o nosso livro "Sabores do Ar  e do Fogo" em formato E-book para ler na aplicação iBooks.
 
Mas primeiro faremos um plano para este negócio. Por quanto vamos vender? É que os preços de capa dos e-books em Portugal não têm nada a ver com as "pechinchas" que se encontram na literatura de língua inglesa, obviamente que por causa das economias de escala...

quarta-feira, setembro 24, 2014

O fim da Crise (importa-se de repetir sff?)

No jornal de hoje, em dois artigos distintos, responsáveis da Sonae-Sierra (centros comerciais ligados à marca "Continente") e da Sony Portugal ( a propósito da Playstation 4) referiam que a retoma dos consumos estava já a caminho, e que a crise em Portugal começava a desvanecer-se.

Não sei se estas informações não teriam a sua pitada de "wishful thinking", bem à maneira do especialista de MKT que,  por muito falar nas coisas que deseja , espera que por artes mágicas se concretizem esses objectivos?

À primeira vista os responsáveis das empresas em causa deviam saber do que falavam.

A "malta" do Continente analisa as compras diárias dos clientes naqueles mastodontes de retalho espalhados por todo o país , e é natural que tenha nas mãos informação sobre os consumos que a maior parte dos analistas desconhece.

E quanto à Sony e à Playstation 4?  Custa quase 500 euros! Com os jogos a 70 euros cada um! Está numa liga diferente da dos ovos ou da margarina!
E  tratando-se de um produto de nicho de mercado, cujo apelo é muito forte nos primeiros dias de lançamento (tal como para o Iphone 6...) é normal que as vendas tenham sido boas ou até excedido as expectativas,  que seriam baixas atendendo à situação...

Mas insisto que - mesmo assim -  deve haver alguma pitada de optimismo, à laia de fermento,  misturada com os dados reais de vendas, em ambos os casos.

De facto, o panorama macro-económico não estabilizou o suficiente para fazer chegar à esfera micro, do consumo, as mais valias supostamente conquistadas nestes anos de austeridade.

E, por outro lado, o anúncio de há dias atrás sobre os cortes nos salários da função pública (já efectivos em Setembro) não me parece que seja tendente a causar grandes euforias consumistas... Muito pelo contrário!

Da minha parte, onde consigo chegar com dados de vendas da minha "loja", o que posso dizer é que esta inversão no padrão do consumo ainda não se verificou. Estabilizou a baixa de vendas em 2014 face a 2013, mas provavelmente porque se atingiu um ponto limite.

Há  duas variáveis que podem influenciar algum incremento do consumo em Agosto e Setembro, nomeadamente o pagamento de subsídio de férias (ou de parte dele) e o facto do emprego sazonal estar em alta nestes dois meses.

Será isso?  Apenas um epifenómeno  localizado?  Receio que sim.

Antes não fosse. Tomara que a melhoria das condições de vida das famílias se reflectisse já nas caixas dos hiper-mercados e aos balcões das "FNAC's" , por esse país fora.

Mas para que isso se concretize teremos ainda que esperar.  Infelizmente.

terça-feira, setembro 23, 2014

Dia do Senhorio e Dia da Água (Pôrra que tem chovido pouco...)

Antigamente prestava-se tributo a "São Senhorio"  a 8 de cada mês... Nos dias antigos em que cada português alugava casa. Depois, bem,  depois passaram a ser os bancos os "senhorios" das nossas hipotecas, e o dia em que o dinheirito saía da conta variava com cada um.

Mas no meu caso o Dia do Senhorio é mesmo o dia de anos do meu "senhorio". Que por acaso foi ontem.

Há 33 anos estava eu no Porto no processo de integração nos CTT , depois de quase um ano a trabalhar na então chamada DRCL do Vicente Tavares, à espera desta "integração".  O impetrante senhorio em projecto demonstrou a habitual falta de modos, não esperou pela paternal figura e vai de nascer sem mim...

Poder-se-ia dizer que o trabalho do macho já estava feito, e que nessas situações qualquer homem "só estrova"... Mesmo assim fica aqui a prova do mau feitio da criatura avant la lettre.

Adiante , que não estamos em Amarante...

E chegámos à "Água" - de onde, aliás,  ainda não saímos...

Porque ontem também foi o dia do início dos trabalhos do Congresso Mundial da Água em Lisboa, na antiga Feira Internacional da Junqueira. Leiam aqui sff:

http://www.iwa2014lisbon.org/pt-pt/

Lá estive ontem bem cedo, por isso faltei aqui no Blogue, para lançar dois Postais Inteiros e falar um pouco sobre o assunto.

Não posso deixar de referir a notável conferência de abertura do Congresso, proferida pelo prof. Sueco Hans Rosling.  Junto um pequeno CV:

Professor International Health, Karolinska Institute and Chairman, Gapminder Foundation. As a young doctor working in Mozambique, Hans discovered the paralytic disease that his research team named ‘Konzo’. For the next 20 years, Hans studied global health and the links between health, economic development, agriculture and poverty. He has advised the World Health Organization and UNICEF, and co-founded Médecins Sans Frontières in Sweden and Gapminder Foundation. Gapminder converts statistics into interactive, engaging, moving graphics, and promotes a fact-based world-view.

Uma apresentação admirável! Onde, entre muitas coisas fundamentais, ficámos a saber que nalguns países de África é mais usual existirem telemóveis na posse das famílias do que saneamento básico...

E dizia o professor Rosling que a culpa era dos Engenheiros, porque não tinham ainda inventado o HighSanita ou o SmartUrinol...

sexta-feira, setembro 19, 2014

Para Descansar a Vista

Quero hoje dar-vos um poema escocês, daqueles que mesmo só de o ler já estamos a ver os kilts esvoaçantes e a gaita de foles a marcar a carga sobre as colinas (Braveheart...).

Mesmo sabendo que ganhou no referendo a segurança da permanência no regaço materno de Sua Majestade Britânica...

Poesia é imaginação. Por isso estou-me marimbando para o resultado do referendo e levanto bem alto a saia do kilt em sinal de desprezo para os casacas vermelhas (deve fazer um frio do caraças. pois segundo a tradição os Highlanders nada mais traziam por baixo para aconchegar as partes...).

Robert Burns (1759 - 1796) é talvez o mais conhecido e apreciado poeta escocês de sempre.  Começou  a vida artística seguindo os preceitos do Romantismo, mas por causa dos princípios políticos que sempre defendeu em vida, é hoje considerado percursor dos movimentos liberais e socializantes do século XIX e XX. Em 2009 foi votado pelos seus conterrâneos como a maior personagem da história da Escócia.

Do grande Robert Burns, poeta e socialista avant la lettre,  aqui vai Red, Red Rose (os nossos cravos também são vermelhos):

O my Luve's like a red, red rose
That's newly sprung in June;
O my Luve's like the melodie
That's sweetly play'd in tune.

As fair art thou, my bonnie lass,
So deep in luve am I:
And I will luve thee still, my dear,
Till a' the seas gang dry:

Till a' the seas gang dry, my dear,
And the rocks melt wi' the sun:
I will luve thee still, my dear,
While the sands o' life shall run.

And fare thee well, my only Luve
And fare thee well, a while!
And I will come again, my Luve,
Tho' it were ten thousand mile.
                            

quinta-feira, setembro 18, 2014

Desabafos Gastronómicos

Nas minhas andanças culinárias tento conciliar as dietas alimentares de duas anciãs que já passaram dos 84 , de um galifão de 32 anos esfomeado e de uma pessoa de bom gosto e média idade (não confundir com a idade das trevas!) que tem de ser maestro desta orquestra de câmara..

Nem sempre é fácil. O "senhorio" o que quer é assados de forno, sobretudo carne. As velh** (digo idosas) o que querem é peixe... e o queima cebolas o que quer é que não lhe cansem a beleza mais do que o normal, preferindo por isso fazer arrozes, que sujam menos louça e (suprema virtude) evitam o ter de descascar batatas ...

Já houve Domingos em que tive de apresentar na mesa duas travessas (melhor dito, uma travessa e um tacho). Na travessa vinha um bife alto de atum grelhado com batatas cozidas com a casca, no tacho estufei garoupa e camarões com cenouras, alho francês e batatas.

Normalmente tento sempre a diplomacia de forma a que se alcance um compromisso: Carne ao Sábado, Peixe ao Domingo (porque tenho mais tempo).
Mas quando a "equipa sénior" decide ir às compras no Sábado, utilizando o motorista de serviço, e apesar disso quer comer às 12,30H?
Aí temos o caldo entornado... E muitas vezes comeram frangos assados do galego que se lixaram, porque eu posso ser muitas coisas, mas não sou (ainda) o super-homem.

A velh** (digo, a "idosa") mãe é mais esquisita de boca. Toda a vida teve quem lhe fizesse a comidinha e está mal habituada. No fim de semana passado recusou-se liminarmente a alinhar num arroz de carnes e couves à moda da Tia Alice (de Fátima), pelo que foi servida de dois ovos estrelados com salsichas...

E por que é que se  recusou a alinhar no arroz? Porque "nunca tinha comido tal coisa, e não come nada que não conheça...". Enfim...

O problema é que estas exéquias obrigam-me a planear os almoços dos fins de semana, coisa que abomino! Fim de Semana é para fazer na cozinha o que me apetece quando acordo.  E sorte tem a equipa abancadora na minha mesa da sala de jantar porque gosto de mexer nos tachos... Se não comiam era ***** ( não posso escrever).

Hoje é Quinta Feira. Logo à noite já me começam a chatear , "O que é que se come no Sábado? E no Domingo?".

Um prato de sandwiches de buracos de queijo sem pão! Mas isto é só da boca para fora...

No fim de contas EU também tenho de comer. E bem, porque estou em fase de crescimento (intelectual).

quarta-feira, setembro 17, 2014

A seca

Antes que os amigos pensem que endoidei de vez ( o que poderia acontecer neste mundo estranho onde vivemos) esclareço que a "seca" a que me refiro não é a da falta de água.

A águinha  de S. Pedro tem caído (não confundir com a "águiazinha" , a qual também caíu ontem no relvado, mas levantou-se, embora manca de uma asa).

Direi até que o santo das chaves adormeceu no Inverno passado, e se calhar ainda não acordou, motivo pelo qual as estações do ano andam um bocado baralhadas... Por mim tudo bem, por que já não me interessa muito ir a banhos de mar. O meu problema é mais com o vinho...Porque se chove na vindima temos o caldo entornado... Até lá, antes e depois, chova tudo o que tem que chover.

Mas não, amigos. A "seca" do título tem a ver com o sentido literário que era usado pelo mestre de nós todos, Eça de Queiroz:

-"Achei-me tão cansada, depois de jantar, veio-me uma preguiça... Mas então partires assim de repente!... Que seca! Dá cá a mão!"
(Os Maias)

"Seca" como coisa aborrecida ou entediante , ou ter de aturar uma pessoa maçadora e importuna.

Todos temos destas "secas", nuns dias mais, noutros dias menos... A mim acontece-me muitas vezes ter de sorrir sem vontade, ter de falar bem e de forma cortês quando o que me apetecia era virar as costas à pressa. São "ossos do meu ofício". Quem os não tem?

Ora "um caso se deu" onde a visão presunçosa do erudito sabichão alfacinha (moi) , já a adivinhar uma tarde  e noite de uma "ganda seca" , se virou contra o feiticeiro.

Num dia (já longe no tempo, era eu jovem ...) tive de receber um senhor norte-americano aqui nos CTT. Ele vinha bem recomendado, mas a forma como se apresentou no escritório era um bocado duvidosa: trazia o cabelo bem comprido, jeans e botas de cowboy de ponteira metálica (que eu nunca tinha visto, só nos filmes). Até tive para lhe perguntar se deixara o cavalo preso à entrada da Casal Ribeiro...

A criatura vinha  recomendada pelo nosso agente nos USA, Mike Buttler, que me dissera ao telefone se eu lhe podia apresentar um agente imobiliário. O "cowboy" queria comprar uma casita no Algarve perto de um campo de golf.

Estávamos numa época em que os cartões de crédito eram pouco utilizados (havia restrições às movimentações de dinheiro, impostas pelo Banco de Portugal) e  poucos teriam  visto em acção o American Express Platina, quanto mais um certo AMEX  Centurion (na gíria conhecido pelo "black card").

Levei o "homem" a jantar ao Reijos, na Rua Direita de Cascais, que era o restaurante preferido dos americanos na linha, local onde tinham "acampado" muitos dos engenheiros yankees que vieram para a construção da Ponte sobre o Tejo.

Nessa noite de assombro, começei logo por ver na mesa principal do Reijos, Sir Clive Sinclair (inventor do Spectrum). Era capa da Times e da Economist, pelo que dei logo pelo homem.

Depois, bem , depois foi quando o "cowboy" insistiu em pagar o jantar, e deu o tal blackcard ao meu amigo António, proprietário do Reijos...

Ao princípio o António olhava desconfiado para aquilo... Depois telefonou para o apoio ao cliente, e quando acabou, chamou-me de lado para perguntar se o senhor americano não desejaria comprar-lhe o restaurantezinho...

O cowboy afinal , vim depois a saber, era um herdeiro de uns poçitos de pitrol lá para o sul da Califórnia...

Nem tudo que luz é ouro? Pois, mas o oposto também é verdadeiro!!

segunda-feira, setembro 15, 2014

Metamorfoses

A borboleta do Novo Banco foi uma opção de MKT interessante. É agradável à vista, simboliza a mudança, e tem asas para voar.

Claro que quando se soube da demissão da gestão Vitor Bento a malta começou logo a gozar com o período curto de vida da dita cuja... Mas os técnicos de MKT que desenharam o símbolo e a campanha não poderiam adivinhar que havia já rombos abaixo da linha de água no navio que se encontravam a aparelhar para nova viagem.

Nem eles, nem nós... "Vender à Pressa" não é o mesmo que "Estabilizar para depois Vender". Alguém percebeu mal?  Precisam-se otorrinos?  Ou mudam os alcatruzes da nora conforme os ventos do poder?

Não sei bem se todos percebem a gravidade da situação, que tem sido "escondida" do público em geral? Fala-se que a retirada de depósitos da instituição em causa atingiu 10 mil milhões de euros em 2 meses e meio, cerca de um terço da totalidade dos depósitos.

É muito. É talvez demais, se tivermos em conta os ratios exigidos pelo BCE.

E agora? Depois da nova reviravolta do carrossel?

A minha Tia toda a vida teve o dinheirinho no BES. Depois destas confusões ainda o manteve no mesmo sítio,  dizendo a toda a gente que com 84 anos já não tem paciência para muita mudança...Mas quando viu a demissão do Dr. Bento mandou-me logo dizer que na segunda feira (hoje) tinha que lá ir "falar". E como o balcão da CGD é uns metros abaixo, na mesma avenida, dá para entender.

Nesta segunda feira  quanto mais dinheiro irá sair do banco?

Entendo que a "venda a correr" poderá evitar ainda maiores desvalorizações da instituição, mas o que questiono é quem - no seu perfeito juízo - o irá comprar nestas circunstâncias?

Depende do preço, dirão os entendidos... E aqui é que a porca (com vossa licença) torce o rabo...

Quem precisa de vender depressa sujeita-se ao princípio da hegemonia do comprador.

Metamorfose por metarmofose estávamos talvez a precisar mais da imagem da rã... Animal muito habituado à água, a meter água por todos os buracos...

sexta-feira, setembro 12, 2014

Para Descansar a Vista ...no Outono

Em tempo de Outono que terá chegado este ano umas semanas adiantado (alguém viu por aí o Verão?) deixo-vos um poema também ele outonal.

Melancólico e pensativo, propenso a passeios por entre as folhas caídas no chão e a apanhar o odor da chuva na terra molhada e das castanhas no assador.

Em uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac, in "Poesias"

quinta-feira, setembro 11, 2014

Um petisco

Poucos portugueses apreciam a Ventresca de atum ou de bonito. O problema não é que não gostem, mas sim que nunca provaram...

Trata-se de um produto gastronómico de grande qualidade, muito valorizado em Espanha e nos outros países  mediterrânicos, mas que aqui em Portugal (tirando talvez o caso de Vila Real de Santo António) não aparece referenciado nos nossos "calhamaços" da especialidade.

O que é mesmo a Ventresca? Trago aqui a definição de "nuestros hermanos":

Se trata de una pieza con forma triangular, que está situada en la parte inferior del pez, en la zona próxima a la cabeza. Su nombre, ventresca, alude a la parte del atún donde está situada, la zona del vientre del atún, aunque también se utilizan otras denominaciones, como ventrisca, ventrecha, mentresca, barriga, ijar o ijada, todas ellas correctas, y más o menos frecuentes, según la zona geográfica en la que nos encontremos.
Las características peculiares de la ventresca que le dan su reputación de exquisitez, son: su proporción de grasa, que le aporta un sabor mucho más intenso, fino y delicado que el resto del pescado, su carne de textura gelatinosa, y su laminado, idóneo para preparar aperitivos, conservas y para cocinar en el horno.

Basta ainda referir que nos mercados que a apreciam é bem mais cara que os lombos de atum fresco... E que aqui em Portugal não é muito fácil de encontrar... Todavia tentem falar com os responsáveis da peixaria onde se abastecem para pedir esta iguaria. Reservando pode ser que tenham sorte. Eu às vezes encontro-a na peixaria do Corte Inglês.

O Paulinho do Beira Mar prepara magnificamente esta Ventresca, fresca está claro!  E no forno. Em casa já a fiz também, utilizando uma receita de Cádiz que dou aqui com todo o gosto:

Uma Ventresca de atum pequeno dá para duas pessoas. Sendo médio ou grande obviamente que serve mais pessoal.

Preparamos primeiro um molho com azeite virgem, salsa e alho esmagado. Bate-se numa tigela ou coloca-se dentro de um "biberon" para utilizar mais vezes em saladas ou grelhados. Quem gostar meta-lhe dois "chumbinhos" de malagueta.

A Ventresca tem de ser muito bem limpa da pele que traz num dos lados e que amarga. Ou peçam que a tirem na peixaria, ou têm de tratar disso em casa...

Depois de bem limpa, sem espinhas, deitem umas pedrinhas de sal, salpiquem generosamente com o molho e ponham no forno (previamente aquecido a 200 graus) durante uns 15 minutos.

Mas cuidado! Este é um dos tais pratos que tem de estar "au point"! Se demasiado assado seca por completo! Por isso vão tirando do forno, aproveitam para borrifar de ambos os lados com o molho  e testem a cor.

Quando começar a corar um pouco apaguem o forno e ponham na mesa. Deve ser servida imediatamente, com umas simples batatas cozidas com a pele ou há quem goste mais com o acompanhamento típico do bacalhau (couves ou bróculos, grão e batata), mas neste caso sem ponta de colorau, cebola ou alho picado!! Quanto muito salpiquem de pimenta preta moída na altura e temperem as batatas com o molho que serviu para "lambuzar" a Ventresca.

Para companhar este petisco gosto de um tinto novo e carnudo, experimentem com o Vallado tinto de 2011 (colheita) ou o  Assobio tinto Douro de 2011 (Herdade do Esporão produz).

Bom apetite!!

quarta-feira, setembro 10, 2014

A atracção do consumo

Depois do espectáculo que foi ontem à tarde (10h da manhã na Califórnia) a apresentação dos novos IPhones 6 e 6Plus e ainda a introdução do novíssimo AppleWatch, que até teve direito a intervenção exclusiva dos U2, dei por mim a pensar como pode o mero mortal evitar enredar-se nestas malhas que o consumo do século XXI vai tecendo...

Os produtos são muito atraentes, os materiais, as especificações  e o design (não foi por acaso que o Vice Presidente para o design da Apple esteve bem em evidência) são, como disse ontem no Face, "de cair para o lado"... Mas precisamos mesmo, mesmo daquilo?

Eu uso um IPhone 4 que herdei do meu senhorio quando este "evoluiu" para o "5". Tem uns 3 anitos  e meio e serve perfeitamente. O velhinho Blackberry "oficial" já só utilizo ao fim de semana, para não me esquecer do interface, e mais como sinal de alguma nostalgia, daqueles tempos em que a BB competia ombro a ombro com a Nokia e com a Apple. Quem se lembra? :):):)

Ontem à noite, ébrios com a magnitude e a eficácia da apresentação,  já se falava cá em casa do Apple Watch e do IPhone 6... Para comprar lá no início de 2015.

Para quê? Não seria muito melhor pôr as massas de lado para investir no novo iMAC, que deve estar por aí a chegar em Novembro com especificações de arromba? E esse sim! É um instrumento de trabalho...

Dirão alguns que para vestir o homem (ou a mulher) não é preciso smokings Versace nem tailleurs Chanel... Existe ainda a La Redoute (que saudades...).

E que para ver as horas qualquer Swatch (de design também ele aprimorado) faz o serviço por 70 euros, ou menos...

E ainda, que para movimentar o corpo tanto serve o SMART como o Porsche Carrera 4S...

Mas "eles" andam por aí. E enquanto andarem alimentam o ego dos felizes possuidores e o sonho daqueles que o mais perto que poderão chegar desses objectos será se trabalharem como "voituriers" num restaurante de luxo.

Posição Social (ou procura dela), Moda, Status e Poder para comprar definem as variáveis que influenciam a evolução do mercado do luxo.

Mas será o universo Apple um condomínio de luxo, reservado aos banqueiros de investimentos e aos seus clientes?

Não senhores!! E aqui talvez a razão do formidável sucesso da empresa: convencer quase todo o mundo (1º mundo sobretudo e social climbers do resto)  que é possível possuir os seus produtos com um pequeno esforço financeiro.

Os produtos Apple de grande consumo estão "quase" ao alcance de muitos trabalhadores, embora o "esticar" do braço para vencer a distância possa custar menos refeições, menos idas ao cinema, mais meias solas e menos sapatos novos...

Numa palavra, sacrifícios.

Valerão a pena? E na resposta a esta pergunta está a linha que separa os  indefectíveis "fans" da Apple e os outros...






segunda-feira, setembro 08, 2014

Vai mas é aprender um ofício que pr'á bola não prestas!

Nas aldeias  as pessoas de mais idade tinham antigamente dois sonhos para os filhos rapazes (era o obscurantismo): tirarem um curso superior ou terem uma carreira como futebolistas.

O curso superior para os pobres era assim como que uma quimera que se vislumbrava ao longe. Mas muito ao longe mesmo. Porque não era apenas o custo do curso propriamente dito! Era a mesada que significava ter o filho a comer e a dormir na cidade  .

Nesse sentido os pobres de Lisboa, Porto ou Coimbra tinham mais sorte...

A saída mais airosa para um rapaz estudioso que tivesse tido o azar de ter nascido na província de pais pobres (e aqui pobres eram todos os que não possuiam terras, fábricas e coisas desse género) era ir para o Seminário e continuar por lá os estudos.

Claro que havia sempre a "outra" saída: transformar o "puto" num Eusébio da Marmeleira. Metê-lo a jogar nos campeonatos regionais à espera que algum olheiro reparasse nele.
Levá-lo a treinar ao Palmense, Sporting da Covilhã ou ao Olhanense (dependendo da geografia), de forma a que - admitindo o "jeito natural" - dentro de 3 ou 4 anos viesse o mânfio para Faro ou para Viseu e daí desse o salto para Lisboa ou para o Porto.

Devemos dizer que menos, muito menos, eram esses bafejados pela sorte  e pelo "jeito natural" que acabavam no SLB, FCP ou no SCP, do que os outros que, apesar de tudo, conseguiam ter acesso ao ensino superior.

O Pai da província, ao ver que afinal e não obstante todos os treinos, o "puto" rematava mal, fintava pior e à conta dos maçitos de  "Definitivos" não tinha pulmão para correr o campo, acabava sempre por lhe dizer:
-" Vais mas é aprender um ofício que pr'á bola não prestas e pr'a estudar não há dinheiro!"

E acabava assim o moço , uns anos depois, como serralheiro, carpinteiro de limpos, mecânico ( se tivesse sorte) ou  servente de pedreiro (o mais normal).

Ontem, depois de ver o jogo com a Albânia,  dei por mim a pensar quantos carpinteiros de limpos não se teriam perdido em Portugal, com a má escolha feita pelos pais, cegos de amor pelas pequenas habilidades dos filhos...

Sendo que a ênfase deve ser posta na palavra "pequenas", pequeninas mesmo....

sexta-feira, setembro 05, 2014

Para Descansar a Vista

Ontem não passei por aqui, os trabalhos para o projecto do Dia Mundial do Correio, à volta com a exposição das Tapeçarias de Portalegre assim o obrigaram.

Mas hoje aqui estou para vos dar poesia (queriam dinheiro? Tenham paciência...).

Na altura em que se aproximam os 250 anos de nascimento de Manuel Maria Barbosa du Bocage, aqui vão mais alguns poemas do Elmano Sadino:

Retrato próprio

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage 

Já Bocage não sou!... À cova escura

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se  me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

Bocage

Nota: Vitral com a imagem de Bocage é da autoria de Isabel  Fidalgo.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Tapeçarias de Portalegre e Dia Mundial de Correios 2014

A Manufactura de Tapeçarias de Portalegre é uma lenda viva do saber fazer nacional na arte da tecelagem.

Em quase 70 anos de existência foram executadas cerca de 3.400 tapeçarias, baseadas em mais de 2.500 cartões originais e perfazendo um total de aproximadamente 12.700 m2.  As tapeçarias de Portalegre espalharam-se pelo mundo podendo hoje ser encontradas em todos os continentes. 
São mais de 200 os pintores, portugueses e estrangeiros, que trabalharam com a Manufactura de Portalegre.

Os mais importantes técnicos franceses de tecelagem quando vieram a Portugal, no final dos anos 50, admiraram a técnica e a perfeição conseguidas com o ponto de Portalegre. Mais tarde, foi o próprio Jean Lurçat que considerou as tecedeiras de Portalegre “as melhores tecedeiras do mundo” vindo a fazer tecer em Portalegre, até à sua morte, um grande número das suas tapeçarias.

A ligação dos CTT a esta tradicional Manufactura é interessante.

Por um lado são os CTT proprietários de 11 Tapeçarias de Portalegre, destacando-se duas de Vieira da Silva. seis de Carlos Botelho e uma de Luis Filipe de Abreu que tem a particularidade de ser uma das três únicas tapeçarias feitas em Portalegre com desenho curvo.
 
Por outro lado, vamos emitir no próximo dia 9 de Outubro - Dia Mundial de Correios - uma série de selos baseada nas Tapeçarias de Portalegre, dando cumprimento  à nossa obrigação de constituirmos uma das  “memórias históricas do País”,  evocando personagens, histórias e patrimónios do maior relevo, que fazem parte do que há de mais profundo e genuíno na unidade e na cultura portuguesas.
 
Nesse próximo 9 de Outubro , na sede da Fundação Portuguesa das Comunicações, vamos inaugurar uma Exposição das Tapeçarias de Portalegre (que inclui as que são propriedade dos CTT e mais algumas que figuram nos selos). E dessa exposição será feito um Catálogo (com os selos dentro).
 
Nota: Tapeçaria de Portalegre sobre quadro de Vieira da Silva " Bibliothéque" 1980

terça-feira, setembro 02, 2014

O preço dos vinhos

O preço dos grandes vinhos portugueses tem paulatinamente subido.

Uma garrafeira de renome tinha na montra o vinho do Douro "Legado" de 2009 por 259 euros, enquanto que uma outra loja do mesmo género anunciava mais glórias vitivinícolas da mesma região acima dos 300 euros:  por 399 euros o Barca Velha 2004, e por 325 euros o Quinta do Crasto Vinha da Ponte 2000.

Tendo em atenção esses preços para garrafitas de 75 cl, quase que nos parece oferecido o Batuta (Dirk Niepoort) double magnum (3litros) de 2011 , por 280 euros...

Mas se sairmos do Douro e formos para o Alentejo, a "estatuária" local com direito a banho de ouro também está bem representada. O Pera Manca começa nos 350 euros para o ano de 1990 e pára nos 179 euros para o ano de 2010. O Quinta do Mouro rótulo dourado de 2007 (um grande vinho alentejano) está a uns "míseros" 59 euros. Tudo em 75 cl.

Situando-nos no ano por todos glorificado de 2011 existem grandes vinhos disponíveis a preços muito mais convidativos.  O Dona Berta Sousão Reserva Especial de 2011 que foi medalha de ouro no concurso de vinhos do Douro e teve 90 pontos "parker", ainda se conseguia comprar (antes dos prémios) abaixo dos 30 euros. O Passadouro Touriga Nacional 2011 que na  Essência do Vinho ficou em 6º nos melhores vinhos portugueses desse ano, compra-se ainda abaixo dos 20 euros. Para terminar, o Dão Quinta da Pellada de 2011, paradigma da região, está por cerca de 25 euros.

E o meu (não sei se vosso) problema é o seguinte:

A partir deste nível de qualidade, e com o vinho deitado em garrafa ou frasco de vidro sem rótulo, quem consegue distinguir a diferença de gosto, de prazer bebível,  que justifiquem pagar 10 vezes mais por um daqueles vinhos preciosos com que começei esta conversa?

O mais que eu poderei dizer será : "Muito bom! Magnífico vinho!". Mas isso direi de todos! Até daqueles tintos dos vinte  e tal euritos atrás referenciados, desde que bem servidos, em copos decentes e à temperatura ideal...

Nunca mais me esqueço daquela história de muito alta fidelidade que envolvia o mais caro amplificador de válvulas que se fazia nos anos 80 - Ongaku (AudioNote).  Podem ler aqui sff:
http://www.audionote.co.jp/en/products/power_amplifier/ongaku.html

Pois essa maravilha de alta fidelidade que custava perto de 100 000 USD (isso mesmo!!) para ser apreciada em pleno necessitaria de um ouvido tão apurado como o de um maestro de orquestra sinfónica devidamente treinado... Por cerca de 350 USD um Cambridge Azur 351A (desde que bem integrado) deixaria perfeitamente satisfeito qualquer comum mortal audiófilo que não tivesse o tal "ouvido fenomenal"...

O Preço é só qualidade testada e validada realmente pelos nossos sentidos, ou é também ( e sobretudo) Marketing? Ou seja, boa publicidade, história e tradição, raridade provocada, embalagem cuidada e críticas a condizer??!!

segunda-feira, setembro 01, 2014

Perús cinéfilos


Este Post não é - antes fosse ... - sobre o filme de animação "Free Birds" de 2013, no qual dois perús de diferentes persuasões têm de pôr de parte as respectivas querelas para arranjar forma de tirar o "perú" dos menus de Natal (Thanksgiving , melhor dito).

Os viciados em cinematografia inventaram a palavra  Perú ("turkey") para designar um filme que é mau de mais para ser verdadeiro. Normalmente os "turkeys" são gozados nas redes sociais de forma expressiva, não faltando os comentários incisivos e as comparações malévolas.

Existem até alguns destes "turkeys" que por serem tão maus, mesmo tão maus, acabam por se transformar em objectos de culto. Por exemplo, o impagável "Attack of the Killer Tomatoes", de , 1978, o qual começou por ser um filme de terror sobre uma invasão alienígena, mas como estava cheio de parvoíces, do princípio ao fim,  acabou por ser visto (ainda hoje) como uma paródia aos filmes do género.

Tudo isto vem a propósito de ter passado o dia de ontem em casa, à espera do derby futebolesco, vendo o filme "Noé" (Noah no original).

Nunca vi coisa tão mal feita. Já não tinha forma de descansar o real assento no sofá, tal a incomodidade que o cab*** do filme me causava. Vi-o até ao fim, na suposição que semelhante purgatório serviria em alto grau para descontar nos tempos que irei passar no verdadeiramente dito cujo depois de morto, mas tenho de confessar que foi esse um esforço e peras... peras não, marmelos, e dos verdes, que são mais amargos.

Não tem esse filme ponta por onde se lhe pegue...A descrição mais verídica que li dele (depois da sessão estar consumada) foi mais ou menos isto:  "Noah  and the hard rock Transformers meet the Village People? What an incoerent load of shit!".

Outro site mais "manso" descreve assim aquilo:Noah meets Transformers meets Mad Max meets Waterworld."

Perante esta salsada de anjos caídos que pareciam gigantes de pedra post-apocalípticos e de diálogos inenarráveis, pôe-se a questão: Anthony Hopkins estavas assim tão à rasca de massas para teres entrado naquilo?

Enfim...Perante aquela coisa do "Noé" até parece que o filme que vi na véspera  - "Godzilla 2014" -  apesar de ser também ele mauzinho , por comparação seria digno de ser oscarizado...

Acabando com décadas de hostilidade entre a humanidade e o histórico monstro, neste remake o velho Godzilla acaba aliado dos humanos, combatendo bravamente contra o casal de M.U.T.O's (Massive Unidentified Terrestrial Objects) que por ali aparece, os ditos MUTOS são consumidores frequentes de radioactividade e grandes engolidores (sobretudo a fêmea, sem ofensa!) de misseis intercontinentais...

Enfim, não é todos os dias que se fazem 59 anos e um gajo também tem direito a uma tripezita de vez em quando. Uma coisa é certa: cogumelos daquela marca que meti no arroz de marisco de Sábado, nunca mais os compro. 

Livra!! Comprar Noés na FNAC e tirar Godzillas da Net?

Bezana por bezana prefiro o velho Lagavullin e um filme dos Marretas...

sexta-feira, agosto 29, 2014

Para Descansar a Vista com Fernando Guimarães

"O poeta Fernando Guimarães venceu a primeira edição do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes concedido pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Câmara de Amarante.

O júri constituído por António Mega Ferreira, Fernando Martinho e José Manuel Mendes decidiu, por unanimidade, atribuir o galardão ao livro "Os Caminhos Habitados" editado pela Afrontamento.

“Um livro que exprime, na renovação e no aprofundamento, a consistência de toda uma obra, aqui conseguida segundo uma precisão até organizativamente notável”, pode ler-se no comunicado da Associação Portuguesa de Escritores, que elogia ainda a “exigência formal e uma concisão e densidade raras na poesia portuguesa contemporânea.”


Venha de lá então um poema, ou dois,  do grande poeta portuense Fernando Guimarães para este dia de final de Agosto.

PÁGINA
Principiamos a ler. O rosto inclina-se. Ainda separadas,
algumas das letras estremeceram.

Tudo aquilo que se sente
é a respiração que fica à sua volta.

O ar destina-se às palavras
e também ao silêncio.

A luz que chega pode explicar-nos
melhor o que se passa. Os olhos sabem-no.

Daí a pressa
com que se aproximaram dela, até se tornar o que se leu
mais nosso.

Depois repousamos um pouco. Uma das mãos
estende-se e vai ao encontro de outra página.

Esta será maior.

AUTO-RETRATO
Está incompleto. Ainda se vê metade do rosto. Sabe-
mos como se acentua junto dos olhos a mesma sombra.

Os lábios fecham-se; à sua volta, um halo apenas: continuam
afastadas as pregas da cor, o rumor trazido pela luz.

Há um contorno que pode tornar-se nítido.
É tudo o que se
procura.

Depois esperamos que venha a respiração ao encontro dessa superfície
até se encontrar um nome.

É o meu. Se quiserem podem esquecê-lo agora.

 

quinta-feira, agosto 28, 2014

Crendices

Eu nunca fui muito de acreditar em presságios, maus olhados, adivinhações, e coisas parecidas.

Do lado da família da Natália , pelo contrário, tais crendices eram habituais. Muitas mulheres da Beira Alta, para além de terem o médico de família e a farmácia, o "endireita" e a mercearia da terra, também tinham a sua "bruxa" de confiança.

Mesmo aqui no Estoril, a minha mãe e a minha tia também são dadas a este tipo de crendices, motivo pelo qual perguntei a mim  próprio muitas vezes se estes "fenómenos", por serem quase sempre protagonizados por mulheres, também não serão mais valorizados pelo mesmo sexo...

Bruxas, videntes, cartomantes, leitores de palmas da mão, etc... as mais das vezes são mulheres. A minha avó paterna adorava estas coisas e, tendo vivido no início do século XX, recordava-se muito bem como se organizavam saraus para que as senhoras pudessem estar entretidas com estas "séances", em redor de um Tarot.

Na Europa esteve este assunto muito em moda no século XIX e início do século XX, mas a história das aventuras do homem e da mulher para além do véu da ciência natural começou há milénios. Leiam (caso lhes interesse) :"Histoire de la divination dans l'Antiquité", de Auguste Bouche-Leclercq.

"Un mercenaire de l'insolite? Un explorateur de phantasmes? Un alchimiste des apparences? Un médiateur de l'au-delà?
Pour le consultant, la voyance est un besoin de s'exprimer avec quelqu'un qui sait vous écouter, et sait partager. Et prenant sur ses épaules, le temps de la consultation, le fardeau de celui qui souffre, il le libère de son angoisse. Il compatis à sa douleur, il s'initie à ses phantasmes, il partage sa solitude."
Georges de Bellerive

Sem desejar comprar guerras inúteis, sempre vou dizendo que entre a descrição feita por Bellerive e a actividade de um bom psicólogo actual, sobretudo da escola de Jüng, irá pouca diferença?

O que todos queremos é alguém que nos convença que amanhã, e depois, e depois, tudo vai correr melhor...

E pagando bem a quem nos diga isso , ainda mais nos convencemos que será verdade. Estamos a comprar um remédio para a doença que nos aflige...

Por esse motivo é que os pobres sempre desconfiaram de remédios baratos...Se era barato não devia prestar para nada.

quarta-feira, agosto 27, 2014

O coice de certas mulas

Um Coice sempre foi a pancada para trás realizada por certos quadrúpedes. Mas dada a falta de quadrúpedes qualificados (que marcham mesmo com as quatro patas) nas ruas das nossas cidades, hoje em dia torna-se a velha palavra mais um  sinónimo de brutalidade, de alguma resposta dada com falta de educação.

Dizem os entendidos que o mais valente coice do reino animal é o da girafa, capaz de abrir o crâneo a um leão (com juba e tudo) se o encontrar no caminho.  Os engenheiros mecânicos explicam o assunto com a dimensão da perna da bicha, de mais de 2 metros de altura, o que aliado ao efeito do potente gluteo maximus (talvez o mais poderoso músculo do corpo) permite dar um pontapé para trás de efeitos devastadores.

Já o grande Eça celebrava a palavra no seu "A Ilustre Casa de Ramires":

"..E Gonçalo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para declarar secamente que Corinde não pegava com Santa Ireneia! Entre as duas terras corria muito justificadamente a Ribeira do Coice, e que o senhor André Cavaleiro, e sobretudo Cavalo, era um animal detestável que pastava na outra margem!"

Mas hoje o caso que aqui trago é mais a utilização da palavra "coice" na gíria moderna: Ser alguém maltratado por uma pessoa sem educação e grosseira. Levar uma patada, metaforicamente falando.

O desaforo público parece ter-se tornado perfeitamente normal. Faltas de respeito, atrevimentos fora de contexto, palavras escolhidas para ferir a honra de terceiros, e por aí fora.

Ainda se estas actividades de diarreia verbal descontrolada se dessem por norma na Assembleia da República, compreenderia. No fim de contas trata-se de uma espécie de moderno Coliseu onde quase tudo é permitido,  até chamar nomes feios aos espectadores da Galeria...

Mas em actividades pretensamente comerciais? Por gente que tem "porta aberta" e aparentemente necessita de clientes pagantes?

Bem sei que simpatia é uma coisa e subserviência é outra. E que a época do "atento, venerando e obrigado" já passou... Mas que diabo! Quem quer comprar e pergunta delicadamente tem direito a uma resposta amável!!

Num destes dias observei uma senhora já de uma certa idade a ser ignorada e tratada com grande sobranceria por uma jovem atendedora numa loja da ZON (hoje NOS). Fiquei varado... É que agora há concorrência na venda dos telemóveis...

Depois ainda questionam porque é que a FNAC sobrevive? Sobrevive porque treina o pessoal a respeitar o cliente sempre , e em primeiro lugar.

Traduzo livremente de Harvard:

"Alguns vendedores tendem erradamente a adoptar uma postura agressiva em contacto com o público. Isso pode atemorizar o consumidor, deixando-o menos propenso a comprar. Pior ainda: ao perceber que é tratado apenas como um degrau que se pisa rumo aos objectivos de  vendas, o cliente sente-se desprestigiado e ganha uma razão para optar pela concorrência."

Dizem que Sócrates (o antigo!!) passeava por Atenas quando um individuo, que o detestava por alegadamente estar a ensinar filosofia ao filho, lhe deu um pontapé na perna sem mais aviso.

O filósofo nada fez.

Estranhando os amigos a sua pacatez perguntaram-lhe por que não respondera?

"- O que haveria eu de fazer? Depois de dado o coice, estava já dado.
 - Pelo menos devia levar o energúmeno à justiça!
 - Se ele ao dar coices revela ser jumento, quereis que leve um jumento à justiça?"

Grande Sócrates ( o velho!!!) que ainda hoje muito nos ensina...

Claro que a forma de responder civilizadamente é nunca mais pôr os pés em semelhante estrebaria onde ocorreram os ditos "coices".