sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Descansando a Vista com a mensagem 3500


Tenho andado  a pensar no que vou dizer aos leitores por ocasião deste Post 3500. Adiei a escrita para que o Post 3500 coincidisse com uma Sexta Feira, esperando deixar aqui poema adequado, Também o farei. Mas manda o bom senso que não se limite a isso.

3500 mensagens representam quase 10 anos de alimentação diária deste canto de conversa, que me serve sobretudo de momento "zen" (já tenho saudades do Jon Stewart), um local onde exorcisar as minhas apoquentações.

No início o Blog era mais voltado para a política pura e dura, análise e previsão de resultados eleitorais, crítica política , etc... Depois começou a desenvolver com maior frequência a crítica gastronómica e de costumes. E hoje?

Bem, hoje escrevo de acordo com o que me dá na gana ao acordar. Substituo com gosto as drogas ditas de tratamento e prevenção da ansiedade e da depressão por este exercício diário.

Às vezes sai melhor, outras sai pior...

O Post mais lido, desde sempre, foi o que dediquei aos palavrões caídos em desuso ("trigo limpo, farinha Amparo") com cerca de 3000 visualizações. Foi seguido de perto por outro que dediquei ao "cozido à portuguesa". E ambos bem acompanhados geralmente pelos posts onde me refiro a restaurantes. De assinalar as crónicas sobre a "Casa da Pega" e sobre as "Dona Julia e Julinha" que também ultrapassaram os dois milhares de leituras.

O menos lido? Foi durante o Verão, nas férias do pessoal leitor, e dizia respeito a um dos habituais poemas das sextas feiras. Não chegou às 80 visualizações.
Tendo eu muito estudado marketing na minha juventude, mal estaria se não concluísse que o meu mercado real é constituído por:

"Gandas burgessos que só gostam de falar mal e de enfardar à mesa . E pouco dados às coisas do espírito, esses gandas ignaros!  Uns abrutalhados sempre prontos a meter a colher na sopa e o copo de três na boca. E  tiram o casaco à mesa e penduram o guardanapo no colarinho, à moda do Don Corleone!"

Evidentemente que esta constatação de carácter primário  é errada e malévola.  Os leitores que me aturam são  pessoas  afáveis, amáveis e atenciosas, homens e mulheres simpáticos, sociáveis, sofisticados e urbanos. Autênticos "gourmets" que apreciam a boa mesa e a boa companhia, sabem respeitar um grande vinho e amam a boa poesia, lendo-a em qualquer das  línguas civilizadas do mundo ocidental.
Enfim, gente lhana, polida e de grande refinamento,

Nota: ia-me f***** lá atrás, mas consegui emendar o pé....

A todos esses Ilustres Leitores, sem os quais eu viveria bem pior (...enfim...) aqui dedico o habitual Poema das Sextas. E para comemorar o Post número 3500 tinha que ser alguma coisa especial.

Um dos meus poemas curtos preferidos é em português. Um soneto do cearense  José Albano (1882\1923), o "louco de Deus" como lhe chamava Manuel Bandeira. Um visionário que, sustentando-se de donativos por essa Europa fora, gastava tudo o que lhe tinham dado numa única refeição em Paris, comentando " se o mundo fosse justo todo o Poeta teria direito ao néctar!"
Muito influenciado pelo nosso Luis de Camões ( seu herói predilecto) aqui vos deixo o Soneto I deste grande  e pouco conhecido poeta:

Soneto I

Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.

Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana mas tão pouco dura;
E inda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.

Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noute e dia
E só com saudades me atormento;

Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento
Senão de ter cantado o que sofria.

José Albano in Rimas (recolha de Manuel Bandeira)

terça-feira, fevereiro 24, 2015

A Porta dos Fundos



Enquanto a minha "santa" continua o inexorável processo de decadência a que chamamos envelhecimento  - e este é daqueles que nos calha a todos - também eu tive ontem que aturar as batas brancas em dois exames médicos.

No primeiro deles fui questionado a justificar um "desvio para direita" que o meu último ECG teria demonstrado. Um gajo de esquerda a exibir um "desvio para a direita" não me parece bem. Ainda questionei se o aparelho não estaria avariado...

O doppler não foi fácil de fazer porque - segundo o desgraçado do médico que me calhou em liça  -  eu teria (tenho) "um corpo muito grande". E como o dito médico era pequeno, V. não imaginam a ginástica que tivemos ambos de fazer para levar a efeito o "procedimento"...

Com um "esculápio" de braços curtos e com um paciente de tronco mais parecido em diâmetro com um tonel de 700 litros penso que estão todos  a ver a dificuldade. Mais ou menos como aquela história da força avalassadora que encontra um obstáculo inamovível.

Ao fim de mais de 40 minutos e várias nódoas negras nas costelas ( de que pediu desculpa) lá veio meio veredicto. Estava tudo bem. Eu tinha era uma esquisitice anormal no coração, uma coisa rara mas que não era patológica.

- "E, já agora, podia levar o seu ECG para Santa Maria para mostrar aos alunos?"

Disse-lhe que podia levar. Antes isso do que aparecer lá eu em pelota em frente à turma...

Depois disso foram as coisas mais sérias! Pela primeira vez na vida fui sondado pela "porta dos fundos".

Sempre tive algum cuidado com essa "porta". Até posso dizer que se trata de uma "porta" de que falo pouco, ansiando que a resposta da mesma - não podendo ser sempre nula -  também ela seja comedida e baixa.  Para gritar temos a boca. Não há necessidade de se fazer chinfrim pelo outro lado também. Por muito feijão que se coma.

Tendo-se contudo verificado um aumento da próstata do animal para além do que seria de esperar, e embora os valores da PSA estejam completamente normais, o malandro do Cantiga receitou a "coisa", a sondagem posterior rectal (salvo seja).

Entrei logo à defesa e com cara de poucos amigos, para perceberem que ia ali contrariado.  Imaginem um gajo entrar a sorrir, como se já tivesse experimentado e gostasse! Pôrra compadres!

À força de gel lá se concluiu o procedimento, tendo a conclusão sido também favorável ao possuidor do buraco.

Tudo bem, aguardemos por eleições em Belém!

Ou seja, por enquanto safas-te , mas vai controlando o tamanho dessa gaja sff.

Vim-me embora sem vontade nenhuma de repetir. O que, depois de reflectir,  me pareceu uma conclusão deveras  reconfortante.

Não acham?

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Por hospitais ando hoje



Hoje quiseram os deuses que me dedicasse à saúde. Tanto eu como a "santa Mãe" temos o dia ocupado com consultas e exames no hospital da CUF.

Amanhã conto como foi ( se houver alguma coisa para contar)...

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Descansando a Vista com a Cabra


O ano novo chinês (ontem comemorado) trouxe-nos o signo da "Cabra".

Pelas contas que se fazem é este o "meu" signo chinês.  Mais precisamente, como sou da colheita de 1955,  serei um "Cabra-Madeira". O que é um (salvo seja) "Cabra Madeira"? Aqui vai:

Um nativo de cabra pensativo, bem humorado, preocupado com os desejos das outras pessoas. É sentimental e gosta de agradar; com a madeira como seu elemento será impedido de ser demasiado esquisito. A sua natureza será mais constante e mais generosa e ele terá princípios morais mais elevados.

Fiquei satisfeito. À parte aquela referência ao "esquisitismo"...

Aqui no ocidente chamar a uma  senhora "cabra" não é de bom tom. Uma "gaja cabra" é sinónimo de "vadia", "vagabunda", "muito dada ao convívio", um verdadeiro "raiozinho de sol" (que quando nasce é para todos...). Não é pois um adjectivo simpático para a fêmea da espécie (pelo menos em Portugal).

E se for para o homem? No país-irmão do Brasil um homem "cabra" é macho valente, bom de briga e danado para a porrada. O "Cabra da Festa" é o bouncer, o segurança que guarda a porta e se ocupa de manter os ânimos pouco exaltados dentro das discotecas e bares.

De João Cabral de Melo Neto (1920-1999), grande poeta brasileiro, Consul Geral do Brasil no Porto, e Prémio Camões,  aqui deixo duas estrofes do seu poema : A Cabra.

A cabra é negra. Mas seu negro
não é o negro do ébano douto
(que é quase azul) ou o negro rico
do jacarandá (mais bem roxo).

O negro da cabra é o negro
do preto, do pobre, do pouco.
Negro da poeira, que é cinzento.
Negro da ferrugem, que é fosco.

Negro do feio, às vezes branco.
Ou o negro do pardo, que é pardo.
disso que não chega a ter cor
ou perdeu toda cor no gasto.

É o negro da segunda classe.
Do inferior (que é sempre opaco).
Disso que não pode ter cor
porque em negro sai mais barato.
                    
Se o negro quer dizer noturno
o negro da cabra é solar.
Não é o da cabra o negro noite.
É o negro de sol. Luminar.

Será o negro do queimado
mais que o negro da escuridão.
Negra é do sol que acumulou.
É o negro mais bem do carvão.

Não é o negro do macabro.
Negro funeral. Nem do luto.
Tampouco é o negro do mistério,
de braços cruzados, eunuco.

É mesmo o negro do carvão.
O negro da hulha. Do coque.
Negro que pode haver na pólvora:
negro de vida, não de morte.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Roncos

Durmo sozinho há 17 anos. Por norma, está claro, pois houve algumas e honrosas excepções nesse período de celibato.

De forma que ignoro se ressono muito, pouco, ou nada. Não tenho (feliz ou infelizmente, dependendo das interpretações) quem me acorde para protestar contra a sirene de nevoeiro caso esta se manifeste.

Todavia admito que dê ao ronco com regularidade, embora não tenha provas físicas  dessa infracção que possam ser admissíveis em tribunal.

A minha desconfiança vem do facto de já terem existido algumas noites em que a própria criatura ressonante se acordou a ela própria. Para além disso temos a memória histórica. Existem  relatos da antiguidade que me dão como sendo "in illo tempore" criatura roncante de hábitos noturnos.

As vantagens de dormir sozinho não são muitas. Conto apenas esta da liberalização do ressono, e talvez ainda o facto do édredon e colchão não serem partilhados.

As (poucas, muito poucas) parceiras que tive nos ultimos tempos até se queixavam desses hábitos de "capitalista rico e açambarcador":
-"Vê-se logo que estás habituado a dormir sozinho!"

No Verão ressona-se menos (dizem os entendidos) e dá-se menos pela falta de aconchego. Nas noites mais quentes até admito que se possa esparramar em cima do metro e sessenta de largura do colchão uma certa liberdade de "esticanço dos pernis" que não deixa de ser agradável.

Num Inverno profundo como tem sido este (e lá em cima na Serra nem vos digo nada) começamos a pensar se não valerá a pena investir num artefacto que nos conforte. Entre os quais: um cobertor eléctrico, uma velha botija de água quente ou, em desespero de causa, um animal de peluche...

Obviamente que a consideração de seres vivos não me passou pela cabeça, já que não me parece bem considerar um animal de companhia ( há cães bem felpudos que podiam dormir em cima dos nossos pés!!) ou muito menos uma amiga e companheira  como um investimento sazonal.

Chegavam as primeiras noites amenas da Primavera e o que fazíamos? Despíamos o "casaco" ao desgraçado do Serra da Estrela? Mandávamos a amiga para casa da mãe?

Isto se quer o cão quer a senhora não tivessem já decidido bazar antes, espantados e afugentados pelos sons da corneta que (alegadamente)  o gordo sopraria todas as santas noites...

Alegadamente!

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

A madeira de pau


Acordei hoje a pensar na madeira. Não na Madeira, apenas na madeira. No pau, naquilo em que se transforma a árvore quando acaba.

Antes que alguém venha com interpretações parvas que assumem que "pau" não é um objecto de madeira mas sim um eufemismo para outras coisas mais carnais, devo dizer que ainda não sonho com isso. Mas sou novo, logo se verá à medida que o tempo passa. De momento as minhas inclinações são distintas.

Madeira de pau, portanto. Porquê? Terei dado com a cabeça no travessão da cama? Não deve ter sido isso, não me dói a cornadu**** mais do que o costume...

 Devo ter sonhado com bibliotecas forradas a carvalho, incluindo amplos sofás Chesterfield castanhos com patine, e filas e filas de magníficos livros em cima daquela madeira toda.

Ou então com outra das minhas obsessões mansas: uma cave de vinhos climatizada feita em faia, à meia esquadria, com capacidade para umas centenas de garrafas, onde repousariam as minhas "meninas" preferidas. Deitadinhas, está claro!

A madeira é uma preciosidade que tende a tornar-se escassa. E nada a substitui.

Bem podem dizer que o plástico faz as suas vezes (no tablier dos carros, por exempo) , mas o tacto, o cheiro e a observação dos veios naturais da madeira não têm comparação com nada. Um bom cachimbo de raiz de roseira brava (erica arborea) antes de ser fumado pode-se acariciar e admirar-se a sua textura em "olho de perdiz" ou "grão direito". Tenho só dois ou três desses (são caros que se fartam...).

Meu pai trouxe-me  das Filipinas, há mais de 50 anos, um leão (enfim...Com tanta águia por lá...) esculpido em madeira local. É  de pau rosa, a árvore nacional das Filipinas. Ainda hoje me dá gosto tocar-lhe e ver a forma ardilosa como o artesão escolheu o grão da madeira para auxiliar o entalhe.

Entre as muitas vantagens da madeira temos que  não é tóxica, não liberta vapores de origem química, sendo portanto segura ao toque e manejo. Ao contrário de outras matérias-primas a madeira quando envelhece ou deixa de desempenhar a sua função estrutural, não constitui qualquer perigo para o meio ambiente,  sendo facilmente reconvertida. E, sobretudo, enquanto novas árvores forem plantadas conscienciosamente e sem comprometer os recursos naturais, tendo o cuidado de repor as abatidas, a madeira vai continuar a estar disponível por muitos anos.

E isso é o mais importante: Antes da madeira ser pau existe a Árvore. A árvore e o arbusto são coisas magníficas, sem as quais não haveria vida na Terra como a conhecemos. Para continuarmos a ter paus (salvo seja!!) há que cuidar das árvores. Não sejam cães pôrra!

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Para Descansar a Vista (engripada)

Sexta Feira 13 acordou-me ainda pior do que ontem, com dores de cabeça , febre e mal estar. Não será por ser o dia de anos da Santa Mãe , acho eu... Mas ajuda.

 É um  dia com má disposição absoluta, de nem poder ouvir música suave, quanto mais os queixumes habituais das santas, à espera de almoço arvorado para o próximo Sábado.
Podem ir esperando bem sentadinhas, porque se isto  não melhorar o "senhorio" sabe bem o caminho até ao galego dos frangos assados...

Aqui vai poema a condizer.

Fernando Pessoa também se "constipava". E de mais do que uma maneira, à conta dos bagacitos e por causa do frio...

Eis uma amostra de um poeta constipado:

Tenho uma grande constipação, 
E toda a gente sabe como as grandes constipações 
Alteram todo o sistema do universo, 
Zangam-nos contra a vida, 
E fazem espirrar até à metafísica. 
Tenho o dia perdido cheio de me assoar. 
Dói-me a cabeça indistintamente. 
Triste condição para um poeta menor! 
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor. 
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se. 
Adeus para sempre, rainha das fadas! 
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando. 
Não estarei bem se não me deitar na cama. 
Nunca estive bem senão deitando-me no universo. 
Excusez un peu... Que grande constipação física! 
Preciso de verdade e da aspirina. 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


quinta-feira, fevereiro 12, 2015

50 sombras do Mastronço

Continuo com gripe e já farto de imobilidade caseira vim hoje para Lisboa. A desculpa foi ter médico marcado esta tarde...Ainda não são 9h e já estou arrependido. Há que encontrar distracções para a mente, porque o traidor do meu corpo não está virado para nada que jeito tenha.

 O que vale é que hoje estreia o "magnífico" filme "50 sombras de Grey" - baseado no romance homónimo da "grande" escritora (dimensionalmente falando) Erika Leonard James.

Vale apena? Ou não vale? Não vale mesmo compadres.

Comecemos pelo filme: - 1,5 estrelas do circunspecto IMDB é classificação semelhante à do épico "Killer Tomatoes Eat France", a 4ª versão de 1992 do imperdível "Atack of the Killer Tomatoes" de 1978 .

Há quem diga mal da senhora E.L.James sem nunca a ter lido e apenas porque atingiu a fama e o estrelato. Têm  Inveja!!

Eu não sou desses.

Eu digo mal porque já tentei ler a sua "obra", tendo parado num diálogo onde o protagonista macho assevera à protagonista fêmea que "o teu traseiro necessita de ser treinado".

"Treinar o traseiro" ,  no diálogo, não me parece que seja aquela coisa que ensinamos aos putos quando são pequenos, o horário do intestino e o local onde o mesmo deve ser reciclado diariamente.

Acho eu. Mas como não li o livro até ao fim não garanto. Foi a qualidade de diálogos semelhantes que muito contribuiu para largar o livro da mão. O livro não, o seu "alter ego" virtual, porque já não vou na patranha de comprar livros verdadeiros sem primeiro ler na net e ver se valem a pena e o espaço.

Comecei a ler porque pensei que se tratava de uma passável obra de soft porno localizada no tempo  na grande tradição de Wuthering Heights (Emily Bronte), Flowers in the Attic (Virginia Andrews), ou os mais levezinhos Riders (Jilly Cooper) e Forever (Judy Bloome). Sem esquecer a trilogia Eden da grande Anne Rice (sob pseudónimo Roquelaure).

Todos de mulheres escritoras, sobre o sexo e as relações sexuais ( e sociais)  e Muito , mas Muito melhor escritos do que as não sei quantas sombras do tal mastronço!!

A evitar caso possam.
A não ser que a(s) legítima(s) se sinta(m) mais desperta(s) para qualquer coisinha depois de tal injecção...
Se assim for, quem sou eu para criticar? Tomem a injecção e Viva a Marinha!

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Gripes , Resfriamentos e outras Bezanas

Ontem à noite o meu "senhorio", assim como os restantes apoiantes verdes, é seguro que se foram deitar ligeiramente constipados. Não sei se por efeito do frio, se por causa dos copos que beberam para esquecer as mágoas, ou simplesmente ansiosos de afogar no soninho mais uma contrariedade.

A minha idade permite que não me sinta encrespado com estas coisas da redondinha, mas para quem mande o barro à parede, aqui recordo que destas desilusões dos últimos minutos ficámos nós (vermelhos) um bocado fartos na época de 2012\2013. Ou já se esqueceram do golo do Kelvin no Dragão, mesmo a cair o pano?

Haja por isso contenção nas ferroadazinhas. Claro que o SCP jogou melhor dentro do mauzinho, mas o futebol é mesmo assim. O SLB também foi perder a Paços...

Mas a gripe mesmo gripe não vem dos desgostos (tanto quanto eu saiba). Causada por invasão dos malditos virus, de várias estirpes,  ela está por aí à espreita "aguda, viral e afectando sobretudo as vias respiratórias" como nos diz a DGS.

Segundo os especialistas, a vacinação continua a fazer todo o sentido. "É preferível ter alguma protecção do que protecção nenhuma, já que a gripe pode conduzir a descompensação de doenças crónicas e a complicações graves, como pneumonias".

Eu não me vacinei porque não pensei nisso. A minha santa cá de baixo não se vacinou porque embirrou com a vacina. A lá de cima nem deve saber que a vacina existe (é uma santa, com santa ignorância). Em conclusão, e apesar de ainda não haver um diagnóstico certo, lá por casa já andamos todos com febre e a tomar anti-gripines, benurons e outros parecidos.

O antigo remédio dos três "A's"  (Abafa-te, Abifa-te e Avinha-te) não deu tanto resultado como antigamente, o que poderá ser por culpa da estirpe gripal ou por culpa do estúpido do corpo, que já foi mais novo...

Depois de um Sábado "Glorioso" ao redor de lampreia assada e à bordalesa, mas sobretudo rodeado de bons amigos, lá apareceu insidiosamente o síndroma gripal a dar cabo da digestão e da noite que deveria ser de descanso.

O que vale é que no Domingo já dormi melhor...Ao contrário de alguns...

É a vida.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Para descansar a Vista

Nestes lindos dias de frio chamamos pelo "homem das castanhas".

- "Quentes e Boas!"


Enquanto o velho triciclo com a campânula de barro não aparece aqui fica, à laia de consolo, um poema do Sr. Alberto Caeiro (um dos disfarces do grande Pessoa). Dele , Caeiro, disse o seu criador:
 
"Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso."


Estar Frio no tempo do Frio

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Ser bem tratado

Ontem à tarde fiz horas para a reunião da AICEP na Horta, onde a Paulinha me fez um arroz de cabeças de robalo,  ao momento , que estava de lamber os beiços. Comi-o com um Dão bom e barato , o Reserva de 2011 da Quinta do Escudial.

Ao lado falavam vários VIP's, entre os quais um dos candidatos mais fortes ao lugar de PR (por parte do PS) e, noutra mesa, o sempre bem vindo secretário-geral da AHRESP, infatigável lutador contra o IVA restauracional que tanto oprime os donos das tascas como os clientes das mesmas.

Estando sozinho e sem feitio para me pôr a ouvir conversas alheias (embora ainda tivesse notado que o nome de "Guterres" foi algumas vezes avançado...) tive o direito de pôr a imaginação a devanear e o mote para essa "viagem" foi o arroz de peixe que estava no tacho. E recordei-me desta história:

Há longos anos, no restaurante Funil da Elias Garcia - hoje transvestido  é uma sombra do que foi, uma coisinha com atavios à moderna baixa  e comida a condizer - estava também sozinho a matutar que mal teríamos feito aqui nos CTT para nos porem a trabalhar na Terça Feira de Carnaval (naquele tempo era assim, todos tinham esse feriado menos o pessoal dos correios).

O senhor Caetano ( um dos sócios antigos, o outro era o cozinheiro, ambos "fugitivos" do Polícia) estava habituado à minha presença e ao facto de eu normalmente ir ali comer a cabeça de pescada, de garoupa ou de cherne cozida com todos os acompanhamentos.

 Nessa Terça Feira, vendo-me macambúzio e sem peixe  como o habitual  na montra para oferecer (tinha passado o Domingo, fechavam à Segunda , e depois a Terça era feriado para quase toda a gente)  perguntou-me se eu gostava de arroz de cabeça de peixe.

Já naquele tempo eu  gostava de tudo que fosse bem feito ( até de pancada, dependendo de quem a dava). Pelo que a resposta foi afirmativa. Mas com algum receio olhava pelo canto do olho para a montra onde costumavam estar as "peixas" inteiras, mas que naquele dia mostrava apenas bacalhau, ovas, chocos e lulas...

Depois de mais de meia hora (fazer as coisas "ao momento" significa mesmo isso. E quem não sabe esperar por esses mimos é porque não os merece) lá veio o tacho de barro com perfume de coentros, rescendendo.

Terá sido à segunda ou à terceira garfada que percebi que no tacho...não havia peixe. Havia ameijoa da nossa, da cristã, que no Funil usavam na "marinheira de ameijoas",  havia gamba dita "de Cascais" por ser fresca, descascada,  existiam ainda por cima 2 ou 2 lombos de lagostins. E na calda do arroz notava-se bem o "piso" das cabeças das gambas e dos lagostins...

Lembro-me que nessa altura (seria para o final dos anos 80) costumava acompanhar o peixe fresco com o Branco seco da Quinta de  Camarate, que  ainda não tinha alvarinho no lote.

Admirado pela "largueza" mas contido nos reparos, regalei-me e pedi a conta à espera de uma "enormidade". E como um dia não são dias e perdido já eu julgava estar, antes disso ainda afinfei com um malte velho.

O valor a cobrar pelo "arroz de peixe" foi mais ou menos o que eu costumava pagar pela cabeça de pescada cozida! E quando questionei o Sr. Caetano , a resposta que levei foi esta:

-"Então um cliente como o senhor entra aqui, eu não tenho na montra o que costuma comer e há-de ser mal tratado? Ora essa!"

 - "Mas então porque não disse que o arroz era de marisco ( e todo fresco!)?"

- " Porque não queria preocupá-lo com o preço...Depois já não apreciava o arrozinho..."

Era o Sr. Caetano um beirão "à maneira", um homem onde se demonstravam as maiores virtudes dos"serranos" que têm também os seus defeitos, mas a receber são inexcedíveis.

E devo dizer aos amigos leitores que  uma das coisas boas que a vida me deu é que ainda hoje, em mais do que uma casa de comer onde vou, ainda sinto que este tipo de tratamento é possível.

Que grandes pessoas em qualquer país deste mundo , com tanta qualidade!

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Em Coimbra

Ontem estivemos em Coimbra, falando com a Fundação Bissaya Barreto (conhecida pelo Portugal dos Pequeninos, mas que mantém uma obra admirável no capítulo da assistência materno-infantil) e também com o promotor da emissão e livro "Cafés Históricos de PortugaL", no clássico café de Santa Cruz que compartilha a parede com a Igreja e Convento que já foi dos frades crúzios, onde repousa o nosso "Primeiro".

Descansa em paz Afonso e vai tendo paciência com os tempos que correm, amigo...

Sabiam que quando se fez a espectacular remodelação do "Santa Cruz" (1920) o projecto tinha escrito na fachada "Cervejaria" e não "Café"? O que se passou a seguir foi que a autarquia, já farta dos excessos estudantis em volta da "loirinha",  mandou dizer que "cervejarias, em Coimbra já havia demais!" pelo que indeferiu o pedido, tendo-se os proprietários resignado a gerir um "café" (onde havia também cerveja. O mundo não é perfeito e enganar a Câmara era habitual...).

Manda a tradição que quando se vai à velha cidade dos doutores se preste homenagem ao famoso "Pica", o rei da boémia de Coimbra nos anos 30 e 40, e que veio a ser o senhor Dr. Felisberto Pico. (médico). "Veio a ser" uns bons anitos depois, e no Porto, porque de Coimbra logrou apenas ser expulso , decisão única nos anais universitários de Coimbra e que apenas tem paralelo no degredo que impuseram a Luis de Camões!

"...a fundamental e decisiva razão que ditou o insucesso escolar do Pica deve-se ao inusitado facto, de ter sido institucionalmente expulso da Comarca de Coimbra ( numa área de 5O Km quadrados) a que foi condenado pelo tribunal, porque o seu número de prisões por pequenos delitos( originados pelas "farras"), excedera o montante previsto na lei, o que motivou em boa hora,a sua transferência para o Porto, onde com notável mérito, acabou a sua formatura em Medicina."

Fonte: António Curado.

Consta que o Pica, ao ouvir a cruel sentença, terá dito em alta voz:

-" Exilado? Oh meu Deus! Só eu e Luis de Camões! Também ficarei para a história!"

E ficou.

Em louvor da boémia fomos almoçar à Taberna. Restaurante que já aqui referenciei mas onde regresso sempre de alma leve e antecipando (sobretudo) os grandes vinhos bairradinos de antanho que por ali ainda se acolhem. Têm é de falar delicadamente e pedir com jeitinho, porque as preciosidades desta cave não são para meros "turistas".

Podem ler aqui os contactos e mais informação sobre esta notável casa coimbrã de bem servir comida tradicional das Beiras:
http://www.restauranteataberna.com/

Ontem calhou-nos um menu de provas (éramos quatro) que envolveu atum fresco braseado com ervas aromáticas, polvo assado nas brasas, posta de vitela (admirável de tenra) e cabrito assado no forno de lenha. E bebemos (...suspense...) um branco Principal Reserva de 2009 (lindo de morrer) e um tinto Bageiras Reserva de 2009 também. Admirável.

Na revista de vinhos diz-se o seguinte sobre estes dois monumentos:

Bágeiras tinto 2009: Com Baga e Touriga Nacional, é um vinho intenso e fresco, com notas vegetais, especiarias, amoras e flores silvestres. O carácter forte da Bairrada está todo aqui, mas suavizado por uma imprevista elegância. Muito bom.
Principal Reserva 2009: Complexo e elegante no aroma, muito fino, com notas minerais, casca de lima, apontamentos florais e suaves fumados. Cremoso e envolvente.

E já que não podíamos beber aquilo à saúde do Pica,  bebemos  à saúde de Mestre José Quitério (Prémio Universidade de Coimbra 2015)  e à  memória de Felisberto Pico (o grande Pica)!

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

O "Morangueiro"

Vamos lá falar um pouco daquelas "coisas" que se bebem como se fossem vinho ( e são feitas da mesma forma) mas não devem ser como tal apreciadas, nem bebidas por quem se dá ao respeito.

Nos tempos da filoxera (1868\1870) as castas naturais da velha Europa iam indo todas por água abaixo. A salvação veio sob a forma da vinha americana, que por ser imune à praga, possibilitou que nela se passassem a enxertar as grandes castas de cada país.  Nos raríssimos casos em que a vinha doméstica e natural não está "a cavalo" da "americana" esse vinho diz-se que é de "pé franco".  O grande exemplo  em Portugal é o ramisco de Colares, resistente à doença pela profundidade em que a vinha pega. Mas outras (e muitos caras) excepções existem.

Nos outros caso opostos, em que se faz vinho a partir da vinha americana plantada directa sem mais nada, diz-se que estamos perante produtos vinícolas ditos "do produtor", do "produtor directo", vinho "morangueiro" ou ainda vinho "americano". Nos Açores chamam-lhe "vinho de cheiro".

Porque é que estes vinhos se faziam? Porque a produção\rentabilidade destas vinhas é muito grande. E porque os cuidados a ter na vinha com esta espécie robusta são muito menores. Em conclusão, para poupar tempo, trabalho e ganhar nos litros por m2 plantado.

Porque é que o resultado , o "vinho" obtido, está tão mal visto e até era proíbido em certos países, entre os quais Portugal? Porque se concluíu em tempos históricos pela presença em grau mais que razoável de "metanol" nos produtos finais destas vinhas. O "metanol" é tóxico e ataca sobretudo os olhos de quem bebe.

Hoje em dia a União Europeia parece que descarta esta presunção do "metanol" no produto final estar ligado ao tipo de planta (vinha) , concluindo que estará sobretudo ligado ao processo de vinificação propriamente dito. 

A ser verdade,  e por aquilo que referi (menos trabalho e mais rentabilidade) não tenho dúvidas que vão surgir vinhos "morangueiros" por todo o lado, sobretudo nas franjas mais económicas deste mercado.

Uma coisa é certa: Se for mesmo assim, se o "metanol" estiver no processo de vinificação e não no tipo de planta, então a produtividade deste "americano" é um factor a ter em conta no caso de andarmos à compita, a fazer concorrência aos outros vinhos resultantes de enxertos ...

E, por fim, qual a qualidade deste "vinho"?

Dos que bebi, quer tintos quer brancos foram feitos "em casa do lavrador" e bebidos quase que imediatamente após a fermentação. São por isso vinhos "gulosos" com enorme preponderância de fruta (maçãs nos brancos, morangos nos tintos). Não duram, nem deles fica memória depois de se beberem. Agora, como refresco? Se não fizessem mal eram melhores que a Coca Cola e ligeiramente abaixo de uma boa sangria...

Nota final: Não apenas o Metanol deve fazer temer quem se aproxima destes vinhos. As uvas têm uma película com um pigmento (malvina) que é suposto tratar mal o sistema nervoso central. Mas quem sou eu para falar destas coisas? Se a União Europeia diz que é seguro plantar aquilo...

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Para Descansar a Vista

É sexta feira e antes de ir buscar ao hotel o meu colega dos correios franceses  - Temos hoje uma reunião de trabalho ( a pedido dele)  com o Director do mercado filatélico e da impressão  da La Poste -  aqui venho deixar o habitual poema antecipador do fim de semana.

Vai chover, mas estará menos frio.

Antecipo um Sábado sem grande trabalho à frente dos tachos, porque as minhas santas querem "ir às compras", o que representa maior responsabilidade para o almoço de Domingo...

Enquanto penso na ementa e ouço a chuva lá em baixo, aqui deixo 3 poemas de meu mestre Eugénio de Andrade, talvez quem melhor  traduziu para palavras a melancolia da chuva:

"É quando a chuva cai, é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos
vissem esse brilho, dele fizessem
não só a música, mas a casa.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada."
 
"As primeiras chuvas estavam tão perto
de ser música
que esquecemos que o verão acabara:
uma súbita alegria,
súbita e bárbara, subia e coroava
a terra de água,
e deus, que tanto demorara,
ardia no coração da palavra."
 
"A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
Se minha mãe já se foi embora,
Já não vem à varanda para a ver cair,
Já não levanta os olhos da costura
Para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
A chuva sobre o teu rosto."
 

 
 

quinta-feira, janeiro 29, 2015

A Barba do Faraó

Não sei se têm estado a acompanhar um dos assuntos mais interessantes dos últimos dias? O caso da barba do velho Tutankamon?

A "coisa" conta-se em poucas palavras. A múmia mais famosa do mundo encontra-se no Museu Egípcio do Cairo, a cargo do poderoso departamento de antiguidades egípcias, que se designa adequadamente por Conselho Supremo das Antiguidades Egípcias.

O único Director deste "Supremo" que eu conheci  não era pessoa para se encontrar numa noite escura...Nem de dia, quanto mais de noite!

 Consta no Cairo que até o "faraó"  dos tempos modernos, o Sr. Mubarak, apesar do poder absoluto, tinha alguma "calma" quando lidava com a tal criatura.   Trata-se do  Egiptólogo Zahi Hawass, demitido em 2011 por "proximidade a Housni Mubarak", mas logo depois readmitido devido à greve das múmias de todo o mundo, que o idolatravam. O Homem ia buscar múmias à cabeça de um tinhoso e guardava-as ferozmente.

Tive o "prazer" de trocar algumas mensagens com ele quando lhe pedi autorização para reproduzir a pirâmide do amigo Kéops em selo (para as Maravilhas do Mundo, uma sinecura que nos impuseram).
Membro da classe alta egípcia, o Director do Supremo Conselho das  Antiguidades não me mandou catar piolhos em mandris, mas a resposta, dada de forma educada,  tinha o mesmo sentido...

Mas divago. Voltemos à vaca, digo, à barba.

O jovem Tut (quando morreu era adolescente) foi enterrado com  a mais impressionante colecção de objectos da época que chegou aos nossos dias. Tal era a profusão e o valor dos objectos enterrados com aquele rei adolescente, e sem ainda ter feito história que se visse, que muitos egiptólogos se interrogaram como seria se o túmulo do grande Ramses II tivesse chegado aos nossos dias sem ter sido profanado...

Por entre os ditos objectos sobressai a máscara funerária do sarcófago real, em ouro e madeira pintada a dourado e azul. Essa máscara tem barba.

A barba é cerimonial, todos os sarcófagos que chegaram aos nossos dias tinham a dita cuja, mesmo que o faraó em causa fosse mulher. Era uma indicação de  nascimento nobre e de ligação aos deuses. Um sinal de classe real.

Pois bem, um destes dias, durante a noite, estava a malta do museu egípcio do Cairo a fazer a manutenção do sarcófago do amigo Tut quando, inadvertidamente, deixaram cair ao chão a máscara e ...partiram a barba do faraó.

À rasca  -  é o termo, aqui sinónimo de transidos de medo do velho Zahi Hawass, que apesar de se ter reformado parece que percorre de noite os corredores do "seu" Museu à procura de ladrões (coitados) -  os operários basaram do local , deixando à desgraçada da Conservadora Chefe do Museu a tarefa de resolver o assunto.

A Srª Conservadora  Alham Abdelrahman, na iminência de lhe dar uma (ou duas) coisinhas más logo ali no local, lembrou-se de um estratagema: colar a barba ao queixo do Tut com um tubinho de cola tudo.

Descoberta a tramóia ( a cola epóxica deixou na barba do faraó uma cor esquisita que seria prenúncio de higiene deficiente se o gajo fosse vivo) a ira do Zahi "y sus descendientes" abateu-se sobre a pobre da Conservadora.

Na impossibilidade prática de a enterrarem viva ( que era a proposta inicial, muito à moda dos procedimentos semelhantes ali no burgo em 2800A.C.) foi imediatamente afastada das funções  e cometida a "Conservar" o real museu das carroças e carros de bois dos faraós, onde a utilização de cola moderna nos eixos das rodas  não dará tanto nas vistas...

Moral da História:   Entre pentear a  barba do faraó e dar serventia às bestas dista apenas um tubo de cola...Dos pequenos...

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Ansiedades Enológicas


No âmbito da minha vida profissional bastas vezes tenho de lidar com gente que sabe muito mais do que eu.

De quê? (perguntarão os leitores).

Pois de tudo, ou de quase tudo. Se almoço com o Prof. Fabião sou esmagado pela densidade do seu conhecimento arqueológico. Se janto com o Prof. Contente Domingues, lá levo um baile transcendente de história dos descobrimentos e seus navios, se me encontro ao final da tarde para falar com o Prof. Mário Ruivo, a "banhada" é certa  em tudo o que diz respeito ao mar e às ciências do mar...

Para já não falar das tertúlias "da comilagem" onde entra o Zé , a  Fátima, a Dª Maria de Lurdes, o Engº Bento dos Santos  ou o amigo Fortunato, e onde a sabedoria conjunta à mesa sobre gastronomia é tanta que o pobre mortal anseia ser parente do Sponge Bob, para poder absorver tudo o que ali se diz...

Hoje tenho um dilema parecido, uma vez que,  já em trabalhos preparatórios de mais um livro temático sobre "Vinhas Velhas de Portugal" , levo a almoçar um dos melhores críticos de vinhos do país e uma fotógrafa especializada na mesma matéria . Ambos, repito, são do melhor que existe aqui no burgo nesta matéria.

E que vinhos lhes vou dar a beber??
O meu amigo Paulo Mendonça  do Beira Mar (galinholas de cair para o lado, ainda "lambo os bêços") tem às vezes pela frente este dilema, quando lhe entra pela casa dentro o Sr. Bernd Philippi, wine maker "extraordinaire" tanto em França, como na Alemanha, Espanha, Portugal , África do Sul, etc... com o seu amigo Werner Näkel, outro que tal. São daquelas pessoas que adivinham o ano do  Porto Vintage e apostam por fora. Em Portugal a marca que fizeram e engrandeceram foi a Campo Ardosa do Douro.

Sabem de vinhos ( e do mercado de vinhos) mais eles sozinhos do que a troupe circense inteira do Sr. Parker....

O Paulo normalmente dá-lhes Alvarinhos envelhecidos, com 6 anos ou mais, e Mouchão dos anos 70.

 E os bons alemães (porque o são, magníficos!) gostam...

Mas eu, hoje, com gente aqui criada no rectângulo não poderei resolver o problema dessa maneira elegante...

Vou ao meu "maluco encartado" almoçar, porque é o local onde a iconoclastia enológica se pode observar na sua forma mais delirante (Horta dos Brunos) e logo veremos o que o Pedro nos há-de pôr na mesa...

Uma coisa é certa: seja o que for , "eles" já o devem ter provado...

terça-feira, janeiro 27, 2015

A Brisa do Syriza


O rame-rame da burocracia europeia sofreu um pequeno impacto com a vitória do Syriza nas eleições gregas.

À Chanceler y sus muchachos não terá passado despercebido que o novo senhor grego que têm de acolher em suas casas começou a vida pública por deixar umas flores no túmulo dos gregos mortos pelos alemães (nazis)...

Fora a idiosincrisia do pescoço ao léu (que nos recorda  Francisco Louçã), Alexis Tsipras é uma figura politicamente atraente. Novo, magro, bem falante. Um "Passsos Coelho" antes do banho de boutique e de boas maneiras a que foi sujeito.

O problema vai ser (já é) quando abrir a boca...Será para dizer o quê? E quando o fará?

Está meio mundo (aquele que nos interessa) pendurado no que vai dizer o mestre da banda do lado de lá, numa expectativa que será meio jocosa, meio receosa, consoante a "religião" praticada...

Eu devo dizer que me dá um certo gozo antecipar o que se irá passar. Dançará Alexis com o diabo (de saias)? Ou vai mandar o diabo para o Inferno?

Nota: No Decameron de Bocaccio "pôr o diabo no inferno" tinha toda uma outra conotação, como devem estar lembrados. Mas lá estou a resvalar para a ordinarice...

E - nos intervalos dessa  cadenciada "sirtaki" -  como resolve os pequenos detalhes das pensões e vencimentos da função pública? E do sustento da Segurança Social?

Uma coisa é certa: os tempos futuros vão ser interessantes. E mais animados do que se esperaria para uma senhora tão avançada em ideias feitas,  empertigada e espartilhada à força, como é a velha Europa.

Abra-se a janela para entrar esta brisa doce.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

Plano de Emissões de Selos de 2015

A tutela dos CTT aprovou o Plano de Emissões para este ano:

 Plano de Emissões Filatélicas para 2015 

a)    6 Vultos da História e da Cultura da Língua Portuguesa

- Bocage (250 Anos do Nascimento)
- Vieira Portuense (250 Anos do Nascimento) 
- Ruy Cinnati (100 Anos do Nascimento)
- Ramalho Ortigão (100 Anos da morte)
- Arquitecto Frederico George (100 Anos do Nascimento)
- Arquitecto  Agostinho Ricca (100 Anos do Nascimento) 

 
b)    Datas da História Nacional (7 emissões)

- 600 Anos da Entrada dos Portugueses em Ceuta
- A presença portuguesa no mundo: 650 anos do nascimento
de Tomé Pires; 500 Anos da Chegada dos Portugueses a Timor.
- 500 Anos da Torre de Belém
- 150 Anos da Questão Coimbrã “Bom Senso e Bom Gosto”
- 100 Anos da Revista Orpheu 
- 25 Anos da AICEP - Associação Internacional das
Comunicações de Expressão Portuguesa
- 40 Anos da Instituição do Provedor de Justiça

c)    Emissões Temáticas (10 emissões)

- As Tapeçarias de Portalegre 2ª Série (tem livro associado)
- A Dieta Mediterrânica (tem livro associado) 
- O Mar Português (tem livro associado)
- O Caminho Português de Santiago de Compostela 
- Bonecos de Barro tradicionais das regiões de Portugal
- A Fruta Portuguesa Certificada - 1ª Série 
- 150 Anos da CUF
- A Mobilidade Sustentável como garante de preocupações ecológicas
- Grandes Músicos do Mundo: Sibelius (150 anos do nascimento) e Elizabeth Swarzkopfe (100 anos do nascimento).
- A Dança Clássica em Portugal
 

d)    Projecção Internacional (2 Emissões)

- Grandes Figuras da Igreja - Santa Teresa de Ávila
(500 anos do Nascimento) e São João Bosco
(200 anos do Nascimento)
- 150 Anos da Descoberta das leis da Hereditariedade  

e)    Emissões Conjuntas (1 Emissão)

- Emissão Conjunta de Portugal com a República da Bulgária
(tema a desenvolver).


f)     Emissão de Temática AÇORES


g)    Emissão de Temática MADEIRA
 

h)    Emissões Protocoladas

- EUROPA 2015 (tema: brinquedos antigos)


i)      Etiquetas de MAV’s (2 Emissões)

 - Ano Internacional dos Solos e Ano Internacional da Luz
e das Tecnologias baseadas na Luz. (ONU)

- 50 Anos do Plano Nacional de Vacinação em Portugal

 
j)      Emissão Base - Desportos Radicais 3ª Série

Rafting (descida de rios e rápidos em barco insuflável),
Kite Surf (prancha com asa semelhante a um pára-quedas),
BMX (acrobacias com bicicletas), Escalada Desportiva (em montanha)
e Wingsuit (queda livre com fato alado).

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Para descansar a Vista

Na manhã da Bazukada do Signori Dragghi andei à procura de poemas que nos falem de esperança.

Notando que dos portugueses já aqui citei vários, e tendo em atenção que a bazukada deve ser pan-europeia, deixei-me "apanhar" (mais uma vez) por meu mestre Paul Verlaine.

Aqui vos deixo um soneto magnífico de 1881:

L’espoir luit comme…

L’espoir luit comme un brin de paille dans l’étable.
Que crains-tu de la guêpe ivre de son vol fou ?
Vois, le soleil toujours poudroie à quelque trou.
Que ne t’endormais-tu, le coude sur la table ?


Pauvre âme pâle, au moins cette eau du puits glacé,
Bois-la. Puis dors après. Allons, tu vois, je reste,
Et je dorloterai les rêves de ta sieste,
Et tu chantonneras comme un enfant bercé.


Midi sonne. De grâce, éloignez-vous, madame.
Il dort. C’est étonnant comme les pas de femme
Résonnent au cerveau des pauvres malheureux.


Midi sonne. J’ai fait arroser dans la chambre.
Va, dors ! L’espoir luit comme un caillou dans un creux.
Ah ! quand refleuriront les roses de septembre !


Paul Verlaine, Sagesse (1881)

quinta-feira, janeiro 22, 2015

A Cultura da Gastronomia

Zé Quitério é o Prémio Universidade de Coimbra de 2015.

Que bem me soube a notícia! 

Mas antes que algum desordeiro ponha em causa esta atribuição, argumentando com  a definição do eventual destinatário regulamentar do Prémio, ataco já eu aqui primeiro, com base na sempre recordada táctica do falecido Bella Gutman.

Nota: "Destinatário do Prémio Universidade de Coimbra: personalidade de nacionalidade portuguesa que se tenha distinguido por uma intervenção particularmente relevante e inovadora nas áreas da cultura ou da ciência."

Gastronomia não é cultura nem ciência??   Estariam em desacordo grandes personalidades desta ( e doutras) terras.

E nem precisamos de chegar à complexidade das actuais obras de referência sobre estes assuntos. Recordo que o livro de texto actualmente mais falado sobre estas matérias é o "Modernist Cuisine" de Nathan Myhrvold. 

http://modernistcuisine.com/

Myhrvold era Chief Technology Officer na Microsoft. Tem doutoramentos em Física Teórica e Prática, possui ainda um Master em Matemática aplicada à Economia. Para além disto tudo é gestor de uma das mais bem sucedidas empresas do mundo de patentes científicas e industriais, a Intelectual Ventures, e é um constante colaborador em revistas de Vida Animal e Meio-Ambiente, como fotógrafo, com trabalho diversas vezes premiado...

E ainda (não nos esqueçamos) é um cozinheiro amador e co-autor do tal livro que é considerado o "must have" de toda a gente que se interessa por gastronomia hoje em dia.

Vão lá dizer-lhe que Gastronomia não é Ciência nem Cultura...

Um bom Químico saberá explicar o porquê das temperaturas de cocção mais adequadas, ou a reacção da matéria-prima ao tempero, ou ainda como o bater um bife com maço se destina a quebrar a molécula alongada da carne dos bois de trabalho. E mais, que existem hoje em dia enzimas que cumprem a tarefa do malho de pontas sem danificar a textura da carne... E muito mais ainda...

Qualquer historiador, antropólogo ou sociólogo nos dirá que o conhecimento da dieta alimentar dos povos é fundamental para a compreensão da respectiva sociedade. A análise das origens dos pratos tradicionais leva-nos por uma avenida de investigação sobre a miscigenação de culturas que foi amplamente percorrida pelo (também) antropólogo Alfredo Saramago, por José Pedro de Lima-Reis, por Fortunato da Câmara, etc, etc...

Camilo José Cela, o grande galego prémio Nobel , gastrónomo e autor de "La familia de Pascual Duarte" porventura a obra literária espanhola mais editada de sempre, depois do D. Quixote, dá nome a uma universidade de Madrid. Nessa Universidade existe a Cátedra Ferran Adrià de Cultura Gastronómica e de Ciências da Alimentação: " La Cátedra tiene como objetivo esencial acercar el mundo de la gastronomía al ámbito educativo, promoviendo el estudio y la investigación de las Ciencias de la Alimentación a nivel superior."

E os exemplos poderiam repetir-se até à exaustão.

Gastronomia é Cultura. Gastronomia é Ciência!

E José Quitério fica muito bem ao lado dos anteriores vencedores do Prémio Universidade de Coimbra, como António Sampaio da Nóvoa, João Luis Ramos, António Pinho Vargas, Maria de Sousa e Fernando Lopes da Silva.

Eis a justificação oficial: "A inegável qualidade e consistência do percurso profissional de José Quitério" e o contributo que, através dos seus escritos, durante décadas, tem dado nos planos "cultural, histórico, sociológico, etnográfico" e até, de forma indirecta, económico, para "a qualificação da sociedade portuguesa".

Boa malha Universidade de Coimbra! E lá estaremos para ver e aplaudir.

 

quarta-feira, janeiro 21, 2015

A Idade do Frio chega a todos...

A série de desenhos animados "Ice Age" tem sido uma das coisas mais bem conseguidas da industria cinematográfica do género.  Já vai no 4º episódio ( A Deriva Continental) e nunca deixo de me rir com o maluco do esquilo dentes de sabre sempre atrás da bolota num mundo paralelo ao do enredo, sem palavras, que faz uma homenagem ao grande clássico de Chuck Jones "Road Runner"  (1949)com o desgraçado do coiote sempre atrás do papa-léguas , sem que nenhum deles pronunciasse uma palavra.

Mas o tema do Post hoje não é a animação de qualidade. Trata-se do estuporado frio que parece estar de férias aqui no rectângulo e incomoda a malta de uma certa idade.
Na maioria dos casos "certa" é um eufemismo para "avançada".

Mas neste caso concreto veremos que não é assim.

Não deve causar admiração que as minhas santas sofram com o frio. No fim de contas já todas andam há anos a percorrer a casa dos 80's.  As duas cá de baixo usam vestuário técnico (polar) por baixo das camisolas de lã clássicas. A lá de cima, onde tarda em chegar a revolução estética, anda com as antigas mantas de lã preta cardadas por cima dos ombros. A única vantagem da velha manta de lã é que num aperto pode comparar-se ao "sombreiro" dos pastores alentejanos: protege da chuva, embora não caibam lá debaixo 5 ou 6 ovelhas. E também não serve para dar umas porradas no c*** do carneiro. Mas fora isso é quase igual.

Numa destas manhã de "griso" feroz fui buscar o meu Amigo Zé a casa e deixei-o espantado por ter ido esperá-lo à porta apenas de mangas de camisa. Esclareci que eu era feito à medida da raça das focas e elefantes marinhos, pelo que a camada de gordura que existia entre a pele e o resto era suficiente para isolar a besta. O Zé concordou e disse que também ele já tinha sido assim, mas que agora, no dealbar dos 70's , até tinha aderido à roupa interior... (De cima, está claro! Não quero que pensem na ausência da de baixo!!).

Eu que, salvo casos especiais que tiveram a ver com grandes bezanas e noites de verão na praia, também sempre usei cueca, nunca meti pela cabeça uma camisola interior.

Mas depois do agravamento da rinite alérgica e farto de estar sempre a tomar anti-histamínicos para poder dormir, compreendi que tinha que passar a considerar essa situação. A adesão à "camisola interior" começou a ser uma possibilidade.  Não tarda muito ainda me verão a usar luvas...

A idade é lixada...

terça-feira, janeiro 20, 2015

O "Outro Lado"

Tenho passado parte das noites a ver de empreitada uma série chamada "Dead Like me" que passou em 2003 e 2004 na TV americana em apenas duas temporadas, provavelmente por ser demasiado "intelectual" para o prime time dos pequenos burgueses que mandam nos ratings.

Podem ler mais aqui sobre a série em causa: http://www.imdb.com/title/tt0348913/

Um miúda de 18 anos morre subitamente porque lhe cai em cima da cabeça um tampo de sanita da estação espacial MIR, que se estava a desintegrar no espaço. Esse "bocado" veio parar mesmo em cima da dita miúda.

Convenhamos que haverá formas mais normais de morrer, mesmo com apenas 18 anos...

Em vez de continuar o percurso para o "outro lado", a protagonista é recrutada para uma unidade especial de mortos-vivos que tem por função "recolher almas". Na prática o que eles fazem é estar presentes na altura da morte e dar algum consolo aos falecidos antes de estes partirem não se sabe bem para onde...

A série parece-me admirável pela qualidade dos argumentos e dos textos, mas também pela participação de grandes actores em episódios como artistas convidados, normalmente a fazerem a "parte" do morto.
Dead Like Me: Life After Death (2009) Poster
Nesta interessante reflexão sobre o "grande mistério" que se prolonga por todos os episódios, existem sempre facetas de muito humor  que se cruzam com outras mais dramáticos.

Lembro-me, por exemplo, do grande actor Shelley Berman (teria 80 anos na altura) , que neste episódio  (IV, Temporada 2) morre numa piscina a saltar da prancha. Depois disso passeia nu pela cidade arvorando uns "meninos" de tamanho para recorde mundial, ao lado do seu "anjo da morte" , e insistindo que antes de "partir" queria por força assistir ao seu enterro, para ver quem iria e o que diriam dele... E o anjo da morte encartado para o levar embora a correr atrás dele, com uma toalha na mão para o tapar, embora ninguém o possa ver .

O grupo destes anjos meio esquisitos reune-se todas as manhãs num café tirolês (!) de Chicago, para que o "chefe" distribua as tarefas do dia. Os mortos a recolher. O que não impede que antes , durante ou depois da recolha, tenham que trabalhar como os comuns dos mortais para ganhar a vida (mesmo estando mortos)...

É uma série de humor negro muito engraçada e feita com muita inteligência.
Recomendável.

Veio depois um filme, que ainda não tive ocasião de "puxar" da Net. Chamava-se Dead Like Me : Life After Death  e era de 2009.

http://www.imdb.com/title/tt1079444/

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Para Descansar a Vista

Foi O'Neil que, na minha opinião, escreveu o mais belo poema em português sobre a Amizade. Mas já aqui o citei. E mais do que uma vez, porque muito o aprecio.

Variemos então um pouco em torno da Amizade  com algumas outras jóias da nossa poesia:

Para Um Amigo

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"


Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"


Bilhete a um Amigo

Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"


 


quinta-feira, janeiro 15, 2015

Excitações em torno de um "Cozido à Portuguesa"

O assunto conta-se em poucas palavras: Um dos chefs actuais que pontifica no "Tavares" terá ousado fazer uma interpretação do prato tradicional "Cozido à Portuguesa" que foi mal vista ( isto será dizer pouco) por alguns dos mais tradicionais escritores de gastronomia em Portugal.

Reis Torgal, venerável especialista destas matérias, arrasou desde o seu solar Vimaranense: " (...) este prato assim apresentado é o resultado da pascovice portuguesa e da pouca-vergonha dos "chefes" apoiados por uns média ignorantes ou vendidos".

Na blogosfera houve ainda quem lhe chamasse "Caganitas de Gourmet", com algum exagero...

Bento dos Santos, outro grande especialista, pôe água na fervura e , declarando-se defensor intransigente da matriz do que se considera cozinha tradicional portuguesa, não deixa de acrescentar:
 
"Porém, uma vez que a mudança e o progresso são inexoráveis, só vejo na possibilidade da modernização de tais receitas a garantia da manutenção da memória coletiva dessa "matriz do gosto" que afinal todos gostaríamos de preservar".
 
O politicamente correcto perante esta matéria parece então ser qualquer coisa como:
 
Preservar o "GOSTO", manter as características dos pratos antigos, defender a tradição, mas...não deixar de "autorizar" a experiência e a inovação da malta jovem, prendada que baste.
 
Por mim concordo, obviamente,  mas sou talvez um pouco mais prático:
 
Se algum portuga for ao Tavares ( ou ao Bel Canto, etc...) comer um cozido à portuguesa, só merece que lhe saia no prato uma coisa daquelas.
 
Só peço uma coisa: não lhe chamem "Cozido à Portuguesa"!! Falem de "Variações sobre um Cozido"... Ou ainda de "Cozido: Interpretação do Chef".
 
E quem lá for talvez goste! Pois se foi lá tem ideia do que se passa portas adentro, da filosofia da casa e de que forma é que o "mestre cuca" interpreta a "pauta" da música. 
 
Já agora, quanto custará o tal "cozido" no Tavares? Parece que em redor de 30 euros. Esta é outra subtil  (assim-assim) forma de seleccionar a clientela. O Zé dos Pneus teria a tendência de enviar aos c*** do chef este cozido "impressionista", enquanto que Madame Nouvelle Riche se extasiaria com a "ousadia do jovem génio culinário"...
 
Agora, se fosse na Tia Matilde que tal coisa saísse da cozinha? Pôrra Santinhos do Céu!! Mandávamos logo vir a ambulância para internar o Ti Emílio (com todo o respeito!!).
 
Cada macaco no seu galho! O Zé Avillez no BelCanto e a Srª Dona Graça no Solar dos Presuntos.
 
Poderá o "Arroz de Lampreia" vir a ser interpretado "à moderna"? Porque não? O resultado visual não me parece ( assim à distância) que seja o melhor do mundo, mas quem sou eu?
 
Não lhe chamem é "Arroz de Lampreia" assim taxativamente. Arranjem uma alcunha diferente.
 
Viva a diversidade ! Viva a autenticidade! Todos diferentes mas todos iguais.
 
Mas cuidado! Trazer um estrangeiro "de fora" aqui ao cantinho pátrio, querer mostrar-lhe a gastronomia lusitana e levá-lo a comer uma das tais "interpretações post-modernas" do Cozido? 
 
Eu não iria por aí. Primeiro, o Cozido canónico. Depois, a modernidade. Até para dar à criatura oportunidade de fazer o seu próprio discernimento.
 
E se o dinheiro não der para tudo isso? Então escolha-se a Tia Matilde (por exemplo). Pelo menos vai melhor alimentado e mais bem servido. O que, para os tempos que correm, não é dizer pouco!