terça-feira, maio 24, 2016

O preço das coisas



Já pouco me espanta. Mas algumas situações do dia-a-dia ainda provocam algum sobressalto.

O que me parece ser sinal que as sinapses ainda estão a funcionar. Nas minhas tarefas de "dono de casa", que cumpro com muita honra e gosto pessoal, dou por mim várias vezes a questionar o preço das coisas que vejo e depois adquiro.

Um exemplo para o lado positivo é o assombroso preço a que se podem comprar hoje vinhos de qualidade. A menos de 5 euros por garrafa  podemos beber muito bem (sem vírgula entre os dois adjectivos).
Nos brancos e sem preocupações de ser enciclopedista, temos: Adega de Pegões colheita seleccionada, Quinta de Pancas e Ana Vieira Pinto Regional Alentejano 2014.
E nos tintos: Cerqueiral Vinhão (Arcos de Valdevez), Porca de Murça Colheita, e Vinhas Boas Dão 2009 (Cancela de Abreu).

Outro exemplo mas desta vez para o lado negativo é o preço do kg do peixe de captura: Cherne a 28€, Pargo a 25€, Dourada a 23€, Robalo a 23€, Garoupa a 18€, Sargo a 15€.

Pescada grande, daquelas de 3kg? Está pelo preço do ouro e da  prata...

Quem queira trazer para casa peixe de mar para cozer e para 4 pessoas vai refugiar-se na corvina por uns 14€ o kg.  Terá de comprar um peixe com 2 kg. Fica cada posta (incluindo a cabeça) por 7€... são postas grandes. Mas mesmo assim...

O que nos deixa na obrigação de começarmos a "pesar" a questão da aquicultura.

Para quem, como eu, foi habituado a ver chegar à praia dos pescadores as traineiras com o pescado da noite , esta história de "peixe de estufa" custa-me a encarar.

Mas há quem jure e trejure que a má fama vem das antigas explorações intensivas, feitas sem método e sem supervisão, abusando dos antibióticos ilegais e quase não deixando o peixe mexer-se.

E que hoje, pelo contrário,  as modernas operações de aquicultura permitem que os peixes nadem e que a sua alimentação seja mais condigna com os preceitos de higiene e de sabor.

Faço minhas as palavras deste especialista (Manuel Meireles; Delegado Regional da DRAPLVT): A nossa aquicultura está instalada em locais abrigados, principalmente nos estuários e por essa razão sujeitas a limitações especiais: os produtores estão impedidos de os criar de forma intensiva, o que é bom para o ambiente e bom para a qualidade do pescado. Os peixes da aquicultura que consumimos são importados e produzidos de forma massiva. Serão mais baratos, mas têm o mesmo sabor?

Ou seja, até na aquicultura há que defender o que é nosso!

segunda-feira, maio 23, 2016

Tempo de Bruxas e de resumo da matéria dada



"A chover e a fazer sol, estão as bruxas no paiol, a cozer o pãozinho mole"

Este Maio vai assim estranho. Sexta de inferno, depois da chuva fora de época. Melhoria do tempo e subida das temperaturas  para ir outra vez chover já na 4ª feira, (Instituto do Mar e da Atmosfera  dixit).

Também foi uma época agourada para os meus amigos adeptos do FCP (felizmente tenho muitos). Futebóis à parte vai aqui um abraço para todos e a menção que a vida é como os alcatruzes da nora, uma vezes para para cima e outras para baixo.

Honra ao Braga que jogando sempre na melhor tradição do "catenaccio" milanês acabou por ser feliz.

O SCP esteve bem, lutou até ao final, talvez um pouco "palavroso de mais", mas a culpa não é dos jogadores nem dos adeptos.

E o meu Estoril-Praia por uma unha negra não foi este ano à Europa, por causa de uns desastres nas duas últimas jornadas, com auto-golos e coisas parecidas.

O "Glorioso" SLB sai em ombros pela porta grande. Mas depois da "sangria" dos seus melhores jogadores já ninguém aposta como será a próxima época. O dinheiro pesa...

Começa agora o Campeonato da Europa, para dar distracção ao povo, que bem precisa. A praia não está convidativa e o subsídio de férias já não é o que era...

Nesta zona de veraneio onde moro,  as esplanadas, bares e restaurantes preparam a grande faina da época alta, de Junho a Setembro. Que tenham sorte! Bons clientes que não acompanhem a refeição com água é o que lhes desejo.

Agosto é o mês de pagar o IRS... Até me doem as costas a pensar nisso.

E com esta me vou, que hoje há Médicos e Hospitais para visitar. Outra vez...

Uma dor nunca vem só.

quinta-feira, maio 19, 2016

A caminho de Viseu



Lá vou andando, para as comemorações dos 500 anos da Misericórdia de Viseu.

Ir e vir rapidamente, Por causa da "santa". Agora que está melhor pensa que é a Naide Gomes ou a Rosa Mota e já lhe foge outra vez o pé para a brincadeira...

Se não andamos de olho nela basa imediatamente porta fora para ir ter com as amigas. Um perigo!

Almoço num local novo - O cantinho do Tito - e depois digo como foi.

terça-feira, maio 17, 2016

Sovinas e outros Invejosos



Acordei a pensar num amigo infelizmente já falecido e com o qual "contracenei" vários anos nas minhas funções. Ele, e mais alguns de que não darei nomes (obviamente), eram peritos na nobre arte de passar por entre os pingos da chuva no acto do pagamento.

Provavelmente a "câmara lenta" teria sido inventada quando alguém reparou no tempo que cada um destes senhores ( e senhoras) levava a tirar a carteira do bolso do casaco ou da mala.

Estes profissionais da poupança tinham esquemas admiráveis. Um dos que presenciei consistia em , chegados ao restaurante, pedirem um vinho dos caros que não havia na carta.  Perante o lamento do funcionário que os atendia a resposta era rápida:
"- Era isto que me estava a apetecer...Se não há,  olhe, dê-me uma imperial. Mas sff traga-me só o copo quando chegar o prato de comida à mesa! Não aprecio beber sem acompanhamento!".

Era uma espécie de  gente que telefonava para quem os convidava para um acontecimento público, como um concerto, e dizia com uma "lata" grandiosa:
-"Boa tarde! Venho confirmar a minha presença no concerto. Tenho um pequeno problema que decerto me vai resolver. Em minha casa jantam hoje comigo dois amigos. Sff mande-me bilhetes também para eles."

Quando começámos a fazer apresentações públicas dos nossos livros existia uma lista de individualidades a quem dávamos os livros porque tinham colaborado com a edição, oferecido imagens, etc...

Os tais "muletas negras" das borlas pareciam os abutres do Lucky Luke à espera do cadáver.
Logo que percebiam que havia livros oferecidos e outros vendidos não hesitavam.  Dirigiam-se à "banca" e apresentavam-se, Depois continuavam a conversa dizendo que tinham colaborado activamente na divulgação do livro. Se não fossem eles nem fulano nem sicrano teriam tido conhecimento do assunto. E acabavam exigindo um exemplar.

A frase mais utilizada por tais criaturas é sempre: -"Hoje paga você. Mas para a próxima sou eu! Está combinado!"

A "próxima vez" calhava sempre a 30 de Fevereiro...

Uma vez fizemos a folha a um destes sovinas. Tratava-se de uma daquelas reuniões com centenas de colegas, num hotel da zona centro onde dormíamos de seguida.

Perante a conhecida mania do "encostanço às notas dos outros" de um colega, achámos que estava na altura de lhe dar uma lição de boas maneiras. Conseguimos saber o número do quarto dele e a partir daí todas as bebidas consumidas por nós  no bar iam para aquele quarto!

Na altura da saída - e estamos a falar da época dos "contos", onde um whisky à noite depois da reunião de trabalho não parecia nada mal, e custava uns 200 escudos - o "homem" chegou-se ao balcão e pediram-lhe 17 contos de consumo de bar!

Os uivos ouviram-se no hotel todo...Bem feito!

A inveja , tal como a sovinice, também é uma coisa feia...

Eu tinha por norma basar sempre na altura dos jantares dessas reuniões magnas de trabalho com centenas de participantes.  Ia comer onde bem me apetecia, escolhendo os melhores restaurantes da zona onde era a reunião.

O Presidente dos CTT na altura - que gostava de comer bem e de beber ainda melhor, tal como eu - ficava furioso quando percebia que o "Je" já ia a caminho do leitãozinho do Mugasa, com um ou dois colegas, deixando para trás a reles carne assada da comunidade...

Então (invejoso do caraças!) colocou as minhas colegas das Relações Públicas à espreita do (s) impetrante (s) que se baldavam ao jantar comunitário. Estava eu a sair do estacionamento do hotel e lá vinham a correr as colegas:
-"Oh Doutor! Olhe que o Dr. Pilar já anda a perguntar por si! Tem de se sentar à mesa dele!"

E lá ia eu, porque o respeitinho era de mote com uma "criatura" daquelas...

Logo que me via o Presidente mandava logo a bojarda:
- " Queria comer bem não? E Beber melhor? Pois eu também! Sente-se aqui e aguente porque eu faço o mesmo! Era o que faltava! Você no bem bom e eu aqui a comer m***!

Bons tempos malta!

sexta-feira, maio 13, 2016

Para Descansar a Vista



Lá continuo com as férias "atípicas"... Ontem fui a Lisboa para a reunião da Comissão de Honra da AHRESP e ficou o "senhorio" a tomar conta do forte. Do forte não! Da castelã... Que vai bem melhor das dificuldades físicas. O problema é a cabecita. Não será a única...
Hoje dou um salto aos serviços de manhã e regresso logo a seguir.

No Domingo haverá a mudança de nome do velho aeroporto da Portela para aeroporto "General Humberto Delgado" e lá estarei com a "caixa" dos carimbos de prata.
Será também a 1ª "carimbadela do atual 1º ministro. O Prof. Marcelo já manipulou a "ferramenta" na Gulbenkian, para os "75 anos da Liga Portuguesa Contra o Cancro".

Sai então o habitual poema das sextas feiras, hoje dedicado ao Verão. O qual deve estar como a minha "santa", Esquecidinho de todo!

Aqui vai Fernando Pessoa, no seu disfarce de Alberto Caeiro:

No entardecer dos dias de Verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa... 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... 
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão ... 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos ... 
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma cousa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, 
E deve haver muita cousa 
Para termos muito que ver e ouvir ... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI" 


quarta-feira, maio 11, 2016

O saber de experiência feito: recuperando o Velho do Restelo?



Embora todos saibam que a frase do titulo é dos Lusíadas, talvez nem todos se lembrem quem é o personagem que a diz. É o "Velho do Restelo", no canto IV, oitava 94:

Mas um velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito


Habituámo-nos a dar valor à frase, mas sabendo que quem a disse foi o "Velho do Restelo", a quem toda a vida considerámos retrógrado e defensor do passado,  um inimigo do progresso, como ficamos?

Há quem julgue que este "Velho" tem de ser reabilitado. Eu próprio, não sei se por estar já a entrar nos "60's" , sou daqueles que - em parte - compartilham essa opinião. 

Se nos lembrarmos bem da saga dos Descobrimentos veremos que começou bem (mais ou menos) mas acabou mal:

"O Velho do Restelo representa a voz da razão num momento de euforia e deslumbramento, a voz da experiência perante a irreverência. Em certa parte, os seus conselhos acabaram por se revelar proféticos, pois a prosperidade das Descobertas cedo se revelou fugaz, seguindo-se a decadência económica e territorial, que acabou na perda da independência".

Se ponderássemos tudo o que se deveria fazer com a tal "voz da razão" não tínhamos ido à Lua? Se calhar não... Mas porventura também não teríamos tido as grandes guerras e outras grandes tormentas. Neste balancear entre a "razão" e a "aventura da emoção"  pesamos o progresso da civilização.

Segundo Popper, "no âmbito da investigação científica, o pensamento crítico sempre procede de modo contra-indutivo; isto é, gerando novas teorias aparentemente sem bases ortodoxas que possam testar-se experimentalmente e derrubar as antigas".

Para que essas novas teorias sejam geradas é fundamental existir imaginação criadora.  E por causa disso é que continuo a discordar do "Velho do Restelo". Quem pensa dentro da caixa e avança seguro pelas estrada de alcatrão raramente encontra os novos caminhos.

Alguns desses novos caminhos foram dar a Hiroshima, é verdade. Mas também abriram portas para que a  esperança de vida à nascença em Portugal seja hoje de 80 anos...

Peixe ou carne? Ao invés de gritarmos "muito",  como fazia o esfomeado da anedota, manda a atual conjuntura que se diga "ambos, na proporção adequada".

E aqui é que a porca (com vossa licença) torce o rabo. Somos uma raça de extremos.

terça-feira, maio 10, 2016

Férias em Maio



Ouvi dizer que o caos no trânsito de Lisboa, provocado pela epidemia das obras autárquicas, terá levado alguns "clientes" habituais a meterem férias mais cedo.

De pouco lhes vale. Aparentemente a situação em que nos meteram - sobretudo no chamado "eixo central" do Marquês até ao Campo Grande - vai durar até 2017.

O meu caso não foi esse. Por causa das férias de quem nos apoia em casa com a minha mãe fui também obrigado a "feriar" nesta altura.  Das obras actuais fujo pela 2ª circular. Quando esta se alinhar com as restantes irmãs rodoviárias e começar a abrir os inevitáveis buracos, chegarei ao Parque das Nações pela CREL.

O tempo está óptimo,  como se vê . Óptimo para o agrião da ribeira, que até se pode vir a colher junto das bermas dos passeios, se a chuva continuar.

Que isso não atemorize o feriante! (Não confundir com o "feirante"!). Em casa, de volta dos livros e de algumas boas séries, com o frigorífico apetrechado e a adega provida, estaremos prontos a fazer face a estas contrariedades.

"Penny Dreadful" recomeçou ontem. "Game of  Thrones" está por aí. "House of Cards" continua soberba!  Infelizmente ontem comprei o novo StarWars , corri para casa para o pôr a rodar no B-Ray e foi uma decepção... Nem sempre se pode ganhar.

Recomendo o livro "Paraíso" de Tatiana Salem Levy, uma brasileira que escreve lindamente sobre o seu passado colorido que baste, com maldições à mistura e fantasmas de permeio. Editado pela Tinta da China.
Para quem gosta de rumos alternativos temos já à venda "ReinosDesaparecidos", uma “história alternativa” da Europa da autoria do historiador Norman Davis (Edições 70). 
E nos CTT está mesmomesmo a sair: "Jesuítas, Construtores da Globalização", uma obra notável de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais. Bem na mouche agora que  temos finalmente um papa daquela persuasão.

Quanto a comidas vou-me entretendo em casa. Ontem com uma tortilha de pimentos italianos (doces), hoje com um cozido magro, aproveitando o que posso desta invernia fora de época. Para Domingo  vou assar um galo lá da quinta.  A ideia é  dar algum balanço até às 5 da tarde, quando todos os jogos deste Campeonato memorável da 1ª Liga começarem ao mesmo tempo.

Depois falaremos... Mas nem sonhem que me apanham no Marquês! Sou republicano!

segunda-feira, maio 09, 2016

Os Prémios da AHRESP 2016



Tenho a honra de, pela segunda vez, fazer parte da Comissão de Honra que vai escolher os "Grandes Prémios" da AHRESP de 2016, dedicados às personalidades consideradas mais marcantes da vida gastronómica nacional.

A votação para eleição do vencedor em cada categoria é feita exclusivamente online, no website www.premiosahresp.pt, com exceção dos prémios “Portugueses Lá Fora”, “Personalidade do Ano”, “Prémio Carreira” e “Prémio Excelência”, que serão eleitos exclusivamente pela Comissão de Honra.

No ano passado tivemos a oportunidade de distinguir José Quitério como "Prémio Carreira" e o Sr. Comendador Manuel Nabeiro como "Prémio Excelência". A "Personalidade do Ano" foi o CEO da Sana Hotéis. E o que considerámos o "Melhor Português Lá Fora foi o "Ferreira Café"  de Carlos Ferreira (O famoso café e restaurante português de Montreal).

Nos prémios técnicos destacaram-se:

Conceito / Marca
Time Out Mercado da Ribeira

Contributo para Defesa da Gastronomia como Património Nacional
Portugal APTECE

Produto ou Serviço do Ano / Parceiro do Ano
TOMI “The city’s best friend”

Programa de Divulgação de Oferta Turística
SIC – Portugal em Festa

Projecto de Solidariedade
Cozinha com Alma

Jovem Empresário / Empreendedor do Ano
Choco Real – Tiago Henriques

Entidade Regional de Turismo
Turismo do Alentejo e do Ribatejo

Sustentabilidade Ambiental
Corinthia Hotel Lisbon – Energy Efficient Hotel Project

Vamos ver o que se vai tirar do chapéu na sessão deste ano 
(aprazada para 12 de Maio).
 Uma coisa é certa: Naquele fórum tudo se discute, 
tudo se analisa mas nada sai cá para fora. 
A não ser a listinha dos Prémios. 
E esta, no final dos trabalhos é sempre 
aprovada por unanimidade. 
Nem que demore o dia todo! (o que nunca acontece).
E é assim que deve ser.

sexta-feira, maio 06, 2016

Para Descansar a Vista, com Barca Velha de 64...

Tivemos o privilégio de receber outra vez em Portugal o Sr. Ralf Weinman, o profundo conhecedor de vinhos que é provador e gestor das adegas das mais altas personalidades, da Suiça até à China..

Desta vez o encontro foi no Beira Mar, em redor de umas "bruxas" da nossa costa e de uma cabeça de garoupa estalada no forno.  Provaram-se grandes vinhos da época moderna, sem dúvida. O "Pellada" de 2010 foi bastante elogiado, por exemplo.

Mas aquele que ficou no palato e mereceu mais elogios ao Sr. Weinman foi o Barca Velha de 1964.

Foi decantado e , por "ordem" do Ralf, bebido quase imediatamente, para não perder no ambiente os preciosos aromas.

No início apareceram os aromas terciários, como o couro, mas o vinho demonstrava desde logo que  apesar da provecta idade  certamente não estava morto. 
Apresentou nas papilas gustativas sinais de fruta, a lembrar os primeiros tempos onde todo ele devia ser exuberância,  Ginjas e morangos maduros apareciam quase por magia. Um grande senhor dos vinhos que mostrou saber envelhecer com extrema elegância.

Um portento ainda, apesar dos mais de 50 anos de vida! Um daqueles vinhos que nos faz lamentar não ter sido ainda inventada a máquina de filmar ou de fotografar sensações, tal a impressão que nos causou a todos.

Ficará na memória sensorial, bem sei, mas por quanto tempo?

Em louvor desse momento intemporal e em homenagem ao Douro,  aqui deixo um grande poema de Eugénio de Andrade, um libelo "contra a poluição e o nuclear" que afligem cada vez mais a nossa terra, de nós todos. Que tais flagelos nunca cheguem ao Douro nem  às nossas vinhas!!

(…) A poesia de Eugénio de Andrade sabe-(nos) à vitória , passo a passo, da plenitude e da esperança. Vitória conseguida de modo conscientemente precário sobre todo o negativo, mas conseguida (…)” –  As palavras são do grande mestre Óscar Lopes, um dos seus maiores estudiosos.

Para o meu Filho

Vais crescendo, meu filho, com a difícil
luz do mundo.  
Não foi um paraíso,

que não é medida humana, o que para ti
sonhei. 


Só quis que a terra fosse limpa,
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo homem, todo,
tem direito a sê-lo inteiramente
até ao fim. 


Terra de sol maduro,
redonda terra de cavalos e maçãs,
terra generosa, agora atormentada
no próprio coração; terra onde teu pai
e tua mãe amaram para que fosses
o pulsar da vida, tornada inferno
vivo onde nos vão encurralando
o medo, a ambição, a estupidez.


Se não for demência apenas a razão;
terra inocente, terra atraiçoada,
em que nem sequer é já possível
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio é tanto e tão vil...


Besta fardada é tudo o que nos resta;
abutres e chacais que do saber fizeram
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes e crimes pariam.


Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que a cegueira e cobardia?


Eugénio de Andrade


terça-feira, maio 03, 2016

O Rescaldo

E lá se passou a XXII LUBRAPEX, a Lubrapex dos 50 anos, dedicada à divulgação da filatelia de expressão portuguesa.

Este o motivo de tão grande ausência destes posts aqui no Blog.  Fui compensando com "vistas" no facebook.

À laia de rescaldo aqui ficam as impressões: 1200 faces de quadros com grandes coleções, significativa presença de público, stands de vendas com colegas do Brasil, Guiné-Bissau e Macau. Realizado o Congresso da Federação Europeia de Filatelia.

Do ponto de vista institucional correu muito bem. Impecável o acompanhamento da autarquia de Viana do Castelo, com o Sr. Presidente sempre presente nos actos oficiais.

Do ponto de vista gastronómico acho que podemos dizer que foi a "Lubrapex do bacalhau"...

Não havia jantar ou almoço de referência que não metesse o "fiel amigo"...

Por mim não fazia mal, mas admito que houve outros a quem a presença do nobre gaudídeo nos pratos já dava um certo enjoo...

No último jantar (o do Palmarés, onde foram entregue os prémios) na minha mesa os alemães já mal lhe tocaram.

Como pontos mais altos desta vertente mais plebeia que tem a ver com a comidinha, relevo a visita ao Arcoense, na vizinha cidade de Braga.  E mesmo em Viana penso que o jantar no tradicional "Laranjeira" não correu mal. Apesar ( ou por causa) do prato de bacalhau. Outra vez...

Próxima LUBRAPEX será no Rio de Janeiro, em 2019.



sexta-feira, abril 22, 2016

Para descansar a Vista



Lá foi Prince compor para outras pastagens.
Muito bem escreveu hoje no "Público" sobre ele Vitor Belanciano, a quem tiro o chapéu:

"Foi como se sintetizasse tudo o que vinha de trás (a soul de Marvin Gaye, o jazz de Miles Davis, o funk de Sly Stone, a fisicalidade de James Brown ou a pop dos Beatles) ao mesmo tempo que prenunciava quase tudo o que se seguiria na música popular".

Quando morre um artista o mundo fica mais pobre.  Aqui fica um texto belíssimo de Carlos Drummond de Andrade  sobre o amor, que nos ajuda nesta reflexão dando-nos esperança.

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, abril 20, 2016

Mau serviço e boa comida?



Existem restaurantes que fazem um "teatro" do mau serviço embora tenham uma cozinha muito razoável, para não dizer boa ou muito boa.

Alguns - os que interessam - usam esta "falcatrua" como forma de atrair a clientela. São as respetivas idiosincrisias. Quem acha graça vai lá. Quem não está para aturar não pôe lá mais os pés depois da primeira vez.

Em Milão lembro-me de um chamado "Stomaco di Ferro - Mama Attila", onde o cliente chegava  era mandado sentar (mandado mesmo!) e depois não escolhia nada. Nem a comida nem a bebida.

Começam a chegar pratos e pratinhos à mesa, assim como canjirões de branco e de tinto. Quando o cliente, já aflito, pede para pararem, avisam a cozinha e lá vem o patrão para o teatro: traz uma colher de pau com um bom metro e meio, das grossas, e com maus modos pergunta o que está mal na comida.

O desgraçado do cliente bem tenta explicar que nada está mal ( o que é verdade!) mas é demais. Aí o chefe-patrão começa a vociferar e quando o cliente acha que ainda vai tudo acabar mal ,desatam todos a rir, batem-lhe muito nas costas e fazem-lhe as vontades (finalmente!).

Eu estive lá e entendi que este espectáculo é sobretudo para os clientes repetentes se divertirem. Gozam que nem uns perdidos à espera do desenlace que todos já conhecem. E na final da cena riem todos e vêm à mesa do neófito beber uns copos com ele ( e família, se ainda lá estiverem).

Aqui em Portugal muitos se lembrarão das "manias" da senhora D. Mamuda (alcunha auto-explicativa) dona do restaurante Montenegro no Porto antigo (hoje já não existe). Parte desta herança gastronómica está na Casa Nanda da Rua da Alegria, sobrinha da Mamuda.

A D. "Mamuda" tinha mau feitio e quando a chamavam pela alcunha ( era já tradicional) o prato que tivesse mais à mão ia logo na direcção do impetrante! Normalmente falhava, para que o cliente pudesse pagar a conta.

O meu Pai gostava de lá ir e a conversa era sempre a mesma:
-" Tem tripas minha senhora?"
 - "Tenho sim! Das melhores do Porto"
 - " Sabe , eu tenho alguns problemas com esse prato. Tem de ser muito bem lavado... Só em casa de confiança."
 - "Ai sim? Pois olhe, aqui nunca se lavam! Vão mesmo assim com a m**** da vaca para o tacho!"
 - "Não me diga? Venham então duas doses . Mas uma de cada vez sff"

E lá faziam as pazes...


terça-feira, abril 19, 2016

Dia Nacional da Gastronomia - A conferência de Imprensa

Foi hoje na estação da CP de Santa Apolónia. Estava toda a gente "que é gente" na área da gastronomia em Portugal. Começando pela Federação das Confrarias ( confreiras e confrades fardados e trazendo os cestos merendeiros cheios!)  com a sua presidente Olga Cavaleiro a liderar a "banda",  passando pelo Estado Maior da AHRESP e continuando pelas Direcções Regionais do Turismo e pelos outros apoiantes.

Os nossos autores Fátima Moura e Fortunato da Câmara, muito discretos, partilhavam lugares adjacentes. A grande senhora D. Maria de Lurdes Modesto sentava-se ao lado do Comendador Sr. Mário Pereira Gonçalves.

E obviamente estava presente o anfitrião deste 1º Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, Engº Ribau Esteves, presidente da Câmara Municipal de Aveiro.

Os CTT estão envolvidos, com Postal Inteiro e Carimbo Comemorativo "Aveiro, 29 de Maio".
E vamos ter um stand no Mercado Manuel Firmino, em Aveiro, onde será possível comprar os nossos livros e selos de gastronomia. E ainda fazer "na hora" selos e postais com a cara de quem por lá aparecer.

Não sei se sabiam, mas da última vez que os contei - quando fui fazer uma intervenção à Universidade de Coimbra - tínhamos mais de 19 milhões  de selos em circulação com este tema...

Recordo parte da dita intervenção:

"Os CTT Correios de Portugal já emitiram 73 selos e 15 blocos dedicados à Gastronomia de Portugal,  com uma tiragem conjunta de mais de 19 milhões de unidades.

Foi Portugal o primeiro país do mundo a lançar, em 1996, selos com pratos tradicionais do nosso país, debaixo da orientação de José Quitério.

E, para além disso, temos 9  livros sobre temas de gastronomia também editados, tendo sido o primeiro "Comer em Português”, de José Quitério, lançado em 1997. E os dois  últimos lançados em Abril  e Junho de  2015  -  “Conversas de Café” de Fátima Moura e “A Dieta Mediterrânea” de Fortunato da Câmara. A tiragem conjunta destes livros é superior a 55,000 exs.

Presumo que, em termos de quantidade de mensagens que circulam por todo o mundo através dos nossos selos e dos nossos livros bilingues, serão os Correios de Portugal dos mais prolíficos divulgadores dos usos e costumes gastronómicos do nosso país."

É obra! 

Viva o Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa!
(não esquecendo o "líquido acompanhamento")

sexta-feira, abril 15, 2016

Para Descansar a Vista, por baixo do guarda-chuva...



Aproxima-se a XXII Lubrapex.

Na semana que vai entrar a Conferência de Imprensa oficial anunciadora do Evento será já na Segunda-Feira, em Viana do Castelo. E o vosso Blogger vai lá estar.

Depois disso teremos a vida normal, finalmente em Lisboa e de volta ao gabinete ( que, coitado, já sente saudades minhas). Eu, nem tanto...

Mas é bom que o gabinete não se habitue ( nem ele à minha pessoa inteira,  nem a cadeira ao meu real assento). Porque logo na semana seguinte vou acampar para Viana do Castelo. Mas disso ainda falaremos. A XXII Lubrapex será de 26 Abril a 2 de Maio.

Hoje trago-lhes um poema de chuva. Trata-se de tentar exorcizar a tempestade que não nos larga, um pouco à moda da magia "antipática"... Tanto hei-de falar de ti que te aborreces e basas...

E como estamos em ano comemorativo do grande Vergílio Ferreira aqui vai, da pena do mestre:

Cai a Chuva Abandonada

Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1' 




quarta-feira, abril 13, 2016

Há liberdade a mais?



Em Aveiro apanhei um "colega" de hotel que não se calava.

Não o conhecia de lado nenhum. Estávamos no bar, a tentar passar uma horita antes da deita e como tínhamos o "recinto" todo para nós não havia muita alternativas: ou ficava cada um no seu lado, mandando a delicadeza que déssemos uma "boa noite" solitária, ou então algum puxava do banco e sentava-se ao pé do outro.

Foi o que ele fez. Muito contra a minha vontade. Mas o respeito pela idade aparente e pelo bom aspecto  (fato completo) cortou-me o protesto.

E o dito "colega" não se calou. Começou pelo escândalo do Brasil, (percebi que era contra a Dilma e contra o "chefe" dela) , passou para Portugal e para a prisão dos da Judiciária e da Guarda Fiscal, atalhou com as buscas aos inspectores das Finanças, finalizou com as demissões do CEME e do Secretário de Estado da Juventude e Desportos, não sem antes comentar a "barbaridade" do Dr. João Soares...

Por detrás de toda a argumentação esteve sempre a sombra tutelar do "Sócrates",  essa "criatura" que mexeria todos os cordéis da teia criminosa, em Portugal e no Brasil , qual aranha mortífera! Um autêntico "cérebro do crime" de fazer inveja ao velho Moriarty.

E, para ele, havia apenas uma razão para que tudo isto acontecesse: o 25 de Abril e a "Liberdade a Mais"!!

-" É como lhe digo! Com tanta Liberdade os "Sócrates" deste mundo abusam! Pensam que tudo lhes pertence. São donos disto tudo!"

Eu ainda lhe disse que  "o dono disto tudo" era um banqueiro que se deu bem com Salazar e com "o" Sócrates. Mas a linha de raciocínio do veterano não se prendeu com tais chamadas de realidade.

- "O Salazar tinha fundos no Panamá? Tinha ou não tinha?? Já se vê que não tinha. Homem honesto! Íntegro!"

E assim me calou.

Estou numa fase da minha vida em que não costumo deixar passar as "bojardas". Tenho receio de morrer sem ter dito tudo o que devia...E  ainda mais perante boçal  demagogia, como era o caso.

Mas quando o interlocutor tem mais 15 anos do que eu, e está "aviadíssimo", o que se pode fazer?

-"Olhe, tem razão! Deixe-me ir para o quarto ver a 2ª parte do Real Madrid".

- "Faz muito bem! A Espanha é que é um exemplo! Um Rei!! É o que faz cá falta!"

Aí não me contive:

-"Pois, e uma Irmã princesa burlona e uma Tia envolvida no escândalo do Panamá!!"

O ancião olhou de lado, ignorou a tirada e pediu mais um whisky. Deve-me ter chamado "comunista" entre-dentes.

Eu vim-me embora mais satisfeito. E (não tendo SportTV no quarto) delirei com os três golitos do CR7  que fui acompanhando na SIC notícias...

Se esta noite fosse assim...

segunda-feira, abril 11, 2016

A caminho de Aveiro



Vim de Bragança neste Domingo  e já estou a caminho de Aveiro, para reunião na Autarquia sobre as festividades do Dia Mundial da Gastronomia Nacional, marcado para 29 Maio naquela cidade.

Depois darei notícias do Programa que já está alinhavado pela Drª Olga Cavaleiro e a sua Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal.

Os CTT fazem parte das festividades, desde a 1ª hora sempre ao lado das boas causas.

Irei dar um abraço ao Engº Ribau Esteves, que desde o lançamento do nosso livro "Epopeia do Bacalhau" - naquela altura na Câmara de Ílhavo - sempre nos manifestou enorme disponibilidade para colaborar nas nossas iniciativas.

Depois conto como foi.


sexta-feira, abril 08, 2016

Para Descansar a Vista



Já com alguma normalidade na vida - a que é possível ter nas circunstâncias - preparo a ida a Baçal neste Sábado, para as cerimónias do lançamento da emissão de selos comemorativa do Centenário do Museu do Abade de Baçal.

Francisco Manuel Alves, alma grande de transmontano, arqueólogo e historiador que ergueu esse monumento que são as memórias arqueológicas e históricas do distrito de Bragança.

Poeta transmontano estará na calha, como é lógico. Aqui fica então o enorme Miguel Torga, no seu poema "Solidão".

É um tema que me aflige, este da solidão que a idade traz consigo.  Por essa (e por outras) é que não consigo tirar a "santa" de minha casa. Enquanto pudermos lá ficará.

Solidão
Pouco a pouco, vamos ficando sós,
Esquecidos ou lembrados
Como nomes de ruas secundárias
Que a custo recordamos
Para subscritar
A urgência de um beijo epistolar
Ainda inutilmente apetecido.
Mortos sem ter morrido,
Lúcidos defuntos,
Vemos a vida pertencer aos outros.
E descobrimos, na maneira deles,
Que nada somos
Para além do seu dissimulado
Enfado
Paciente.
E que lá fora, diariamente,
Conforme arde no céu,
O sol aquece
Ou arrefece
Os versáteis e alheios sentimentos.
E que fomos riscados
No rol da humanidade
A que já não pertencemos
De maneira nenhuma.
E que tudo o que em nós era claridade
Se transformou em bruma.

Miguel Torga

quinta-feira, abril 07, 2016

Cerveja de Munique entre Amigos.



Não se confunda  Bayer ( a cidade da aspirina) com Bayern (região da Baviera, o maior estado federal da Alemanha) que é famosa pela cerveja.

O facto de existirem clubes de futebol muito conhecidos em ambas as cidades será aqui mera coincidência...

Mas hoje não falo de futebol (lá para a próxima 4ª feira veremos se falo, ou se não falo).

Falo de cerveja.

Se me derem a escolher prefiro vinho. Sem pestanejar. Mas também já bebi cervejas muito interessantes, sobretudo na Bélgica.

As cervejas de Munique mais conhecidas no mundo são chamadas " As 6 grandes":  Lowenbrau; Hofbrauhaus; Augustinerbrau; Paulaner; Hacker-Pschorr; Spaten.

Nem posso afirmar que bebi de todas. Mas na Alemanha provei com um especialista a "Augustiner Edelstoff" uma Läger de qualidade e que, apesar de me parecer um pouco doce de início, me soube bastante bem a acompanhar uma refeição típica de Munique.

Fui almoçar nessa ocasião  - 1994 - com o meu amigo Schneider , homenzarrão que encontrou em mim um parceiro ideal para as comilanças, desgostoso com os outros "clientes" de operadores postais que ele também representava, sempre a fugirem das calorias como o diabo foge da cruz.

Recordo que me "enfiou" nessa tarde pela garganta um tratado de comida bávara e de cerveja da mesma região que parecia nunca mais ter fim:  salsicha branca (weisswurst); o joelho de porco assado (schweinshaxe); a couve em "choucroute" (sauerkrat) e para provar no fim do pantagruélico festim, os escalopes panados (schnietzel).

"Unbelievable!" que era o que ele costumava dizer quando pasmava com alguma coisa...

Cada vez que eu ia à Alemanha encontrar-me com ele, era certo e sabido que vinha com mais uns 4 quilinhos... A  Natália, coitadinha,  não gostava nada.

Mas foi com o Jürgen que aprendi que uma cerveja também pode ter aptidão gastronómica.  Por muito que me custasse acreditar.

Bebi com ele umas cervejas artesanais de muita qualidade, de micro-destilarias lá para o "Hinterland"  e que ele tinha o cuidado de comprar quando sabia que eu iria aparecer. Não me perguntem pelo nome...

Este nosso amigo era um alemão francófono, que se deslocava a Lyon "para comer" de vez em quando. Fanático do restaurante dos irmãos Trois Gros , em Rouanne, tornou-se amigo de um dos donos e trazia-lhe das tais melhores cervejas artesanais bávaras para levar em troca as "poires" e "cognacs" que ele muito apreciava.

Quando vinha a Portugal eu vingava-me com o nosso peixe magnífico e com os nossos vinhos verdes. Adorava o Palácio da Brejoeira e era um dos melhores apóstolos na Alemanha dessa marca.

E do fado! Nem sei bem porquê amou a nossa canção nacional e tornou-se adepto. Até criou uma tertúlia na sua terra natal para ouvirem fado!  Por muito tempo fui-lhe mandando os discos dos novos intérpretes.

Um grande e bom amigo que a vida não tratou muito bem, profissionalmente falando. E é pena!

quarta-feira, abril 06, 2016

Bacalhau em Lisboa



Com a Primavera aproxima-se o festival "Peixe em Lisboa", que terá lugar entre 7 e 17 Abril.

Nota: PEIXE EM LISBOA é uma organização da Associação Turismo de Lisboa, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e produção da EV – Essência do Vinho.

Fui duas vezes a este Festival. É engraçado. Para quem não gosta de apertos nem de multidões o "é engraçado",  ou "é curioso",  ou até "é interessante",  traduzem aceitação , mas sem grandes emotividades.

Trata-se daquelas coisas das quais gostamos mas não amamos, nem de perto nem de longe...

Este festival teria algum interesse acrescido se se debruçasse também sobre o bacalhau seco.  Com a moda do "skrei" por tudo quanto é sítio é sempre melhor agora escrever "bacalhau seco" para não existirem dúvidas. 

Estou a escrever isto e se calhar algum stand terá este ano pastéis de bacalhau e pataniscas...

Quando lá fui não tinham.

Mas de uma forma geral acho que compreendem aquilo que quero dizer.

O panorama do serviço de restauração do bacalhau seco em Lisboa está cada vez pior. A maior parte dos restaurantes escolhe o produto congelado, por motivos que conseguimos compreender: menos trabalho, menos exigências sanitárias da ASAE, etc...

Já agora, para quem pretende fazer o mesmo em casa,  o menos mau ( até  acho que se pode considerar "bom") destes bacalhaus congelados e já demolhados é o da firma, passe a publicidade, Rui Costa e Sousa. Marca "Senhor Bacalhau".

Podem ler aqui sff:

http://www.srbacalhau.com/quem-somos/?title=quem-somos&idioma=pt

Mas obviamente não há nada que se compare ao Bacalhau de cura amarela, bem seco e depois demolhado em nossa casa.

Escreveram-se livros sobre a melhor forma de demolhar o fiel amigo. Parece que o segredo estará na temperatura sempre baixa da água e da necessidade da mesma ser corrente ou, pelo menos, frequentemente renovada. Isto porque o fenómeno da "demolha" liberta calor  e cheiro menos agradável.

Desde que se inventou a "máquina de demolha" -  uma espécie de serpentina de máquina de tirar cerveja , que se acopla a uma arca com um abastecimento contínuo de água filtrada - qualquer um de nós ( haja dinheiro e espaço na cozinha) tem este problema resolvido da maneira mais eficaz.

O que , se me permitem a tirada, deveria dar que pensar a muitos restaurantes com as tais preocupações de tempo, espaço e mão de obra , para fazer as coisas como deveriam ser feitas ao nível do bacalhau..

Podem ver aqui bastas ligações para estas maquinetas que podem custar em redor de 1200 euros cada uma ( mais ou menos):

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=576203

http://www.somengil.com/pt/sw_cm.html

http://www.friline.pt/imagens/produtos/demolha/001.jpg 


Dadas estas circunstâncias,  em Lisboa posso recomendar ainda o velhinho "João do Grão",  bastião que se mantêm fiel ao bacalhau demolhado em casa, quase desde os tempos de Martim Moniz! 

Claro que se estivermos a falar do outro país a Norte, outro galo cantaria...E não só em Barcelos! 
mas disso falarei noutra crónica!

terça-feira, abril 05, 2016

O nosso "Idalécio" do Panamá



Começo com uma enorme chapelada ao Prof. Manuel Sobrinho Simões, pela grande lição que deu ontem na Fundação Gulbenkian, a propósito dos 75 anos da Liga Portuguesa contra o Cancro.

Uma grande conferência que explicou a todos o que é o cancro e como a percepção da doença se modificou nos últimos anos. Com a maior longevidade é quase certo que metade da população irá sofrer de um tipo de cancro. Mas as boas notícias são que cada vez mais se pode ter uma vida completa e produtiva apesar da doença.

No outro extremo do espectro da escala temos o Panamaleaks.

Já desconfiado e preocupado com a falta de Tugas na lista a que apenas o Expresso e a TVI têm acesso em Portugal, fiquei mais descansado quando se tornou público e notório que, afinal, tínhamos um na lista.

O Idalécio do pitrol!

Ainda bem!  Não somos menos que os outros!!

Ouviste Messi? Toma lá para aprenderes!

quinta-feira, março 31, 2016

A ver Voar

Cá vou a caminho de Vila Nova da Rainha, muitíssimo bem acompanhado pelo Tenente-General Mimoso e Carvalho, o grande conhecedor de tudo quanto é detalhe da história da aviação militar no nosso país ( e não só!).

Em Vila Nova da Rainha aconteceu o nosso 1º voo militar, por esse motivo os historiadores chamam-lhe  "o berço da aviação militar":

A Lei 162 de 14 de maio de 1914,  criou a Escola de Aeronáutica em Vila Nova da Rainha, “Berço da Aviação Militar Portuguesa” .

Desse "berço" darei notícias. Que serão boas!

terça-feira, março 29, 2016

Assar Sargos no forno



O grande peixe do nosso mar para o forno é o Pargo (Pagrus,pagrus). Ficam ali sempre bem ainda o Imperador e o Goraz. Todos têm gordura suficiente nos meses bons ( e até nos outros) para aguentar a "pancada" da temperatura do forno sem ficarem ressequidos.

 E se se tratar do Sargo?  Os peixes da família Diplodus sargus, são magníficos para grelhar sem dúvida, com uma alimentação baseada em bivalves  (a quem partem a casca com os incisivos) e moluscos, o que lhe dá carne branca e firme e um sabor excelente. Mas no forno?

 Já veremos como e quando...

Tal como é normal para as famílias de peixes mais conhecidas em Portugal, também existem vários tipos de "sargo": O sargo comum, o sargo veado, o sargo prateado de lábios grossos,  a safia e o sargo preto são os mais conhecidos.

De entre estes o que é melhor para o meu gosto é o sargo preto das rochas, que se apanha em Sagres e no Cabo da Roca perto de Cascais.

Quando tivermos sorte de apanhar um peixe destes na época em que está bem gordo, e se for um exemplar a atingir os dois kg ( ou até ultrapassando, o que será raro) temos os ingredientes para um invulgar prato de forno.

 De Setembro até Fevereiro são os melhores meses para  comer estes peixes. O peixe prepara-se para o acasalamento para depois desovar em meados de Fevereiro,  está geralmente gordo e aparecem exemplares de maior dimensão. As douradas e os sargos alimentam-se nesta época principalmente de marisco (mexilhão, percebes,...) o que os faz deliciosos.

Vamos agora à receita e ao truque para que o Sargo no forno não fique com aquele mau aspecto de encarquilhado e seco.

O lume quer-se brando e as batatas do acompanhamento devem ir para o tabuleiro já "entaladas" , para que asse tudo ao mesmo tempo. Ou então partir as batatas cruas às rodelas finas...

Quando o animal for mais magro podemos abusar um pouco mais dos temperos. E assá-lo "à moda de Sines" é aceitável: fazemos um pisado com um pouco de azeite, alho e coentros , juntamente com sal grosso. Esfrega-se com esse pisado e vai depois a assar no tal forno brando a médio, com mais um fiozinho de azeite,  com tomate e cebola às rodelas no fundo, sendo as batatas previamente entaladas na panela antes de se lhe juntarem.

Mas quando apanhamos por boa fortuna o tal sargo gordo preparado para a desova?

O mínimo de tempero: sal e uma pitadinha de orégãos. Azeite do melhor e chalotas às tirinhas , em vez da cebola, para não abafar o gosto a mar. Podem pôr tomates inteiros pequeninos em redor, fazendo companhia às batatas novas já acalentadas.

 O forno deve estar previamente aquecido a 170º ou 180º.  Dessa forma o tempo de forno serão uns 45 minutos a 50 minutos. Mas deitem para lá os olhos a partir da meia hora!

Acompanhem com um branco de categoria. Porque o sargo gordo o merece.

E aqui dou algumas referências, só de grandes vinhos brancos:  Alvarinho Dona Paterna 2009, Vallado Moscatel Galego de 2010, Primus 2013,  Cortes de Cima 2013.

segunda-feira, março 28, 2016

O mundo vai acabar



De propósito não juntei nenhum "ponto" à afirmação do título. Se fosse de exclamação diriam que sou alarmista (ou pessimista).

Se fosse de interrogação passaria por pusilâmine, indeciso ou sofrendo de anancástica (transtorno de personalidade compulsiva-obsessiva caracterizada, entre outras coisas, por um sentimento de dúvida perene).

A verdade é mais comezinha. Vou explicar: nestas alturas da Páscoa todos pegamos no telefone e damos saudações aos amigos e parentes. A mim cabem-me várias "parentas" que já estão a entrar na casa dos 90's...

Uma dessas tias da província , acicatada pelas desgraças da quadra ( Bruxelas e mais o desastre de Bordéus com os emigrantes), teve a seguinte frase:
 - "Olha filho, está a morrer mais gente do que aquela que nasce. O mundo assim vai acabar."

Remoendo a observação fui ver os dados oficiais da ONU e fiquei mais descansado. Segundo as estatísticas oficiais nascem 180 pessoas por minuto e morrem 102 no mesmo período. Estamos a crescer!

Menos satisfeito fiquei quando reparei que dessas 180 pessoas que nascem por minuto em todo o mundo tantas quantas 33  veêm a luz do dia na Índia, que a este ritmo deve ultrapassar a população da China em 2031.  E ainda que nascem mais homens que mulheres (105 para 100).

Ou seja, o mundo não estará para acabar já, mas cresce mais nuns lados do que noutros, e à custa de mais pilinhas do que da "outra coisa".

Aqui na velha Europa o panorama é mais sombrio:

"A Europa possui atualmente um ritmo de crescimento populacional inferior a qualquer outro no mundo. Certos países alcançaram o crescimento zero (número de nascimentos igual ao número de mortes) e alguns outros acusam até mesmo uma regressão populacional, isto é, a população tem diminuído ao invés de aumentar. Embora não deva ser tomado como regra, de maneira geral são os países mais desenvolvidos os que apresentam crescimento vegetativo negativo. Dessa forma, o déficit populacional tende a acentuar-se em toda a Europa. 

Os principais efeitos do decréscimo populacional são o aumento do número de velhos na população total e a diminuição progressiva da população ativa (carência de mão-de-obra)."


E aqui no rectângulo? Aumentamos  - crescimento natural - cerca de 1% ao ano. E por enquanto nascem mais mulheres do que homens (obrigado!). 

Mas se tivermos em conta a população existente  e não apenas o tal crescimento natural,  o "saldo" entre os que nascem vivos e os que morrem,  Portugal foi um dos 5 países do mundo que mais perdeu população em termos relativos (Porto Rico, Letónia, Lituânia e Grécia acompanham-nos). Porquê? 

Porque os nascimentos são mais baixos do que a mortalidade somada ao saldo migratório, as emigrações estão em alta, as imigrações estão a baixar cada vez mais. O país deixou de ser atractivo para trabalhar e para os trabalhadores.  E sem esperança numa vida melhor há cada vez menos bebés.

E isso sim, dá para pensar e remoer nas noites de insónia... Como subsistirá a Segurança Social?