terça-feira, junho 01, 2010

Sangria desatada (branca ou tinta, venha ela!)

Pedem-me receitas para uma sangria à maneira, uma bebida fresca, alcoólica que baste, que nos dê algum conforto nestas tardes de canícula. Ainda ontem , dentro dos vetustos e bafientos corredores da velhinha e mui nobre Sociedade de Geografia (1908) era impossível escapar aos 35 graus com que S. Pedro entendeu bafejar os lisboetas...

Segundo me informei,  a origem da palavra associa a cor do vinho tinto à do próprio sangue. E, tirando algumas ideias a partir da zurra valenciana – a sangria branca  – é aceitável que atribuamos a origem da sangria, tal como a conhecemos, ao Sul da Península Ibérica, especialmente à Região da Andaluzia e ao nosso Alentejo (com boa vontade). A sangria das tabernas andaluces está sempre associada às Touradas, à Festa Brava. Este "Sangre de Toro"  festivaleiro, estival e aficionado  contribuiu  talvez também para lhe dar  o nome há muitos anos atrás.. Tinha uma vantagem naqueles tempos de miséria: era barata de fazer, podia-se, por isso mesmo, beber à vontade...

Aqui vão algumas receitas, começando por aquela que considero ser a "base" de tudo o resto, com cumprimentos e chapelada ao Autor "P.C." do Blog "Petiscos".

Receita Paradigma:
No fundo do jarro colocar laranjas, limões, maçãs e as frutas eleitas. Cobrir com açúcar e aguardente. Com uma colher de pau, um rolo da massa ou qualquer outro instrumento contundente, macerar o conteúdo até formar uma papa indistinta (ou até nos cansarmos).

Está feita a “massa” da sangria, o que restará no fundo depois de bebido o líquido todo, responsável pela fermentação mágica que fará então outra e outra sangria durante uns bons 5 dias, bastando adicionar metade dos ingredientes, açúcar e vinho.

Despejar, sem contemplações, duas garrafas de vinho para cima da mistela. Mexer tudo. Está feita a sangria. Passemos à parte em que podemos personalizar a “nossa” sangria..

Eu recorro, como os nossos antepassados, às laranjas amargas. Como as avenidas já não são decoradas a laranjeiras bravas, uso Cointreau. Não conheço substituto e já experimentei todos os triple-sec que pude comprar.

Uso também, como “secante”, um bom Gin: Gordon’s, Tanqueray ou Plymouth, a escolha é variada.

Há, entre os incondicionais, quem recorra ao aniz (não recomendo), whisky (também não) e vodka (ibidem). Vinho do Porto, em pequenas quantidades resulta bem, e até já tive sucesso com um pouco de Bols de pêssego, mas sempre em pequenas quantidades.

Cointreau e Gin, três golpadas de cada devem ser suficientes. Mexer.

Prova-se, a quente. Se estiver muito doce acrescente-se mais limão, se estiver muito forte, acrescente-se vinho. Quando estiver perfeitamente equilibrada, tapa-se com um pano limpo e vai para o frigorífico durante – pelo menos – 24 horas. A hortelã, preferencialmente as folhas pequeninas da ponta do ramo, podem “dormir” com a nossa sangria e pode-se acrescentar no dia seguinte umas folhas maiores, assim como rodelas inteiras de maçã e laranja, só para enfeitar.

E está feita a nossa sangria. Depois de beber tudo, e com a massa que fica no fundo do jarro, acrescenta-se um pouco de açúcar e vinho e metade dos ingredientes iniciais, e durante cinco dias pode-se “clonar” a mesma sangria. Depois, finalmente, estraga-se.

Perguntarão onde é que fica a gasosa nesta potente sangria. Fácil: no copo.

A sangria deve servir-se em copos grandes, só com gelo, para os mais aventureiros e afoitos e “cortada” com refrigerantes, na quantidade que se desejar, para as crianças, os condutores e os que têm outras coisas – que não dormir – para fazer depois do repasto. Para as crianças costumo “tingir” o copo com um pouco de sangria e atestar com 7UP ou outro tipo de gasosa.

Depois desta tirada notável de sabedoria e de conselhos, apresento-lhes uma Sangria de Espumante, que costumo fazer muitas vezes, sobretudo lá na Beira Alta, quando somos pelos menos 5 a beber dela:

Sangria de espumante

2 colheres de sopa de açucar amarelo
1 pacote de frutos silvestres (podem ser congelados)
2 laranjas (idealmente das sanguíneas)
1 limão (ou lima)
1 pau de canela
1 garrafa de espumante
1 cálice de Cointreau
3 folhas de hortelã
1 garrafa pequena gasosa ou 7up
sumo de 1 laranja (facultativo)

Coloca-se num jarro grande os  frutos silvestres, 1 laranja descascada e partida aos quartos, o mesmo com o limão. Juntem   o açucar amarelo, um pau de canela, duas folhas de hortelã, o licor e  o sumo de laranja. 

Mistura-se tudo e na hora de servir despeja-se a gasosa (ou 7up) e  a garrafa de espumante...Decorem com as rodelas da outra laranja e um ramo de hortelâ.

Nota Final: Se forem 4 ou 5 utilizem um jarro de 2 L e avancem para o dobre da dose! Vão ver que se bebe todinha...

Agora algumas notas sobre os pormenores. (Nunca se esqueçam que Deus Nosso Senhor está nos pormenores!):

Fruta: Maçãs bravo de esmolfo, se as encontrarem são belíssimas e de bouqet inestimável! Mas algo doces. Contrariem com mais limão ou lima sff.. Os citrinos (Limões, laranjas e limas ) são muito importantes para dar o tom à bebida. Lavem sempre bem e descasquem. Admito que não se descasquem as variedades de casca bem fina. Por norma as rodelas com casca  à vista ficam apenas para a decoração final.

Vinho tinto - não usem o mais barato que encontrarem! Eu utilizo muita vez os Dão (elegantes e de boa relação qualidade\preço) por exemplo, um Dão Cabriz do ano. Deitem-no antes de servir, para macerar e ir tomando o gosto.

Espumante - Utilizo o Loridos Bruto (blanc de noirs feito com Periquita, método tradicional). Mas às vezes esqueço-me  e avanço por um Blanc de Blancs . Experimentem o Soalheiro de Alvarinho.

Gasosas e Seven Up's - Tal como o espumante, e ao contrário do vinho tinto, devem apenas ser entornadas no momento de servir.

Gelo? - Por norma não ponho no Jarro... Apenas no copo se houver necessidade. Mas há quem goste no Jarro, para diminuir a concentração da mistura.

Quando Beber? - Só utilizo uma regra - Nunca às Refeições! Que me desculpem os que a apreciam com as sardinhas, saladas de frango, pastas ou outras coisas estivais... Mas de facto odeio acompanhar a comida com bebidas deste tipo... Fora isso quando quiserem! Mas quando me sabe melhor é nestes fins de tarde de Verão, fazendo de aperitivo para o Jantar...

Por fim, há toda a vantagem dos ingredientes estarem frigorificados (incluindo a fruta) pelo menos 24 horas antes de servir.

Bom Apetite!

Um comentário:

Maigret disse...

Fujo e aconselho toda a gente a fugir das sangrias "enriquecidas" com aguardentes, brandies, whiskies, etc. Por isso, raramente bebo sangria fora de casa. Para mim, os ingredientes essenciais da sangria são: vinho tinto, fruta (com casca e misturando ácidas com outras mais doces), pau de canela, hortelã, vinho do Porto e Cointreau (ou Grand Marmnier, Licor Beirão, etc., qualquer licoroso do tipo "herbáceo" e nunca, mas mesmo nunca,aniz e triple-secs da treta). E, claro, no copo, gasosa e gelo. E nunca à refeição, porque isto de beber refrigerantes às refeições é coisa de meninos.
Finalmente, parabéns atrasados ao blogger pelo poema (em francês) de Verlaine de há 2 ou 3 semanas atrás. Curioso: saíu na semana em que o Expresso noticiava o crescente desinteresse pela língua francesa nas escolas portuguesas. Serão os efeitos da influência cultural anglo-saxónica ou será mais um sintoma dos graves problemas da nossa educação?