quarta-feira, julho 22, 2015

Limonadas e outras bebidas que não estão entregues ao demoino (coca-cola)


limalimon refresco

Tenho o privilégio de apanhar limões directamente do terraço da casa da aldeia. Basta esticar o braço e colher.

O limoeiro carregado de frutos pendura-se  e invade as escadas de acesso ao terraço. São um bocado para o casqueiro, têm a casca grossita. Mas o gosto é muito agradável. Suspeito que o meu sogro andou por ali a experimentar algum enxerto com limeiras ou até laranjeiras...

Lembrei-me de falar hoje sobre bebidas refrescantes de Verão porque o Limão (como veremos) é comum a praticamente todas elas.

A Limonada que as senhoras bebiam no Verão lá na serra era sempre feita de limões e de laranjas, na proporção de  sete ou oito limões para duas laranjas. Lembro-me que a minha sogra os espremia bem  e depois juntava açúcar amarelo e água a ferver. Mexia tudo e deixava arrefecer com um pano por cima. Só no final metia algumas pedras de gelo.

Se as laranjas forem sanguíneas podem pôr o sumo de mais uma ou duas e diminuir no açúcar.  Caso prefiram juntar uma colher de groselha em xarope, a limonada também fica bem apaladada e cor de rosa. Não se esqueçam é outra vez de diminuir no doce.

O Capilé das avós (feito a partir da avenca) pode ser reproduzido em casa - para evitar macerar as folhas da planta - tendo acesso a uma garrafa de xarope com o mesmo nome.  A "Neto Costa" tem. A "Sabores de Santa Clara" também o produz. Para obter a bebida de Capilé adiciona-se  uma colher ou duas de xarope de capilé  à casca de  um limão, pomos açúcar a gosto, mexe-se muito e  deita-se gelo. Acaba de encher com água mineral.

O Mazagran argelino (um jarro)  leva uma chávena de chá de café forte , sumo de um limão e rodelas de outro limão, um pouco de rum e o inevitável açúcar. Mexe-se muito bem e deita-se depois água com gelo para acabar de encher. Um pau de canela pode ser utilizado para aromatizar. Ou flores de anis.

Dos trópicos chega-nos o Refresco de Lima com Menta.  É uma espécie de limonada feita a partir das limas e que é depois aromatizada com folhas de hortelã-pimenta. De novo o açúcar vai a gosto do artista. Gelo e água mineral compõem o ramalhete.  A novidade é que não se extrai o sumo das limas. Estas são partidas aos bocados, como se fosse para a "caipirinha", deitadas para dentro do jarro e batidas com o açúcar e com a hortelã. A água é a última coisa a entrar, com o gelo.

Tenho insistido na água mineral - apesar dos avisos dos entendidos sobre a qualidade da água das torneiras - por uma razão mais "estética". É que a água del cano pode ser boa para beber ( e sem dúvida que é) mas se não for fervida deixa um gosto pouco agradável nos preparados onde entra " a crú". Em casa só faço gelo de água do Luso. Para não estragar o "escocês"...

Sem querer avançar pelas sangrias e outras bebidas onde o álcool já é um parceiro sério - podem sempre ir ler os posts mais antigos onde esta temática foi abordada - não me despeço sem lhes falar do chá de verão, o chá gelado que se pode fazer em casa sem ter de comprar as garrafas da Lipton's  ou da Nestea.

Estes chás - de limão, de pêssego, com menta, etc... - fazem-se sempre da mesma maneira: água a ferver  onde duas ou três colheres de açúcar (mascavado) é diluído. Depois com ela ainda a ferver mergulhamos os saquinhos de chá (eu uso chá preto). Estando a infusão feita deixamos arrefecer e deitamos o sumo de um ou dois limões, consoante o tamanho da garrafa ou do jarro.  Em estando tudo frio aromatizem com pedaços de pêssego maduro, folhas de hortelã, o que quiserem.

No caso de usarem fruta aos pedaços deixem repousar uma noite e no dia seguinte coem o líquido sem a fruta para outro jarro.

terça-feira, julho 21, 2015

A "problemática" dos pratos frios para o Verão



Salada de atum será talvez o prato frio mais conhecido e utilizado pelos portugueses actualmente.

No passado não.

Há muitos anos atrás  desenvolveu-se em praticamente todo o país  o escabeche para a conservação de peixe que não se consumia todo na mesma ocasião. Como consequência, o escabeche ( de carapaus, de sardinha, de fanecas, etc...) veio a tornar-se apetecível para o Verão, comido a frio.

No Alentejo os gaspachos eram há séculos comida de estio. Com ou sem carapauzinhos fritos.

E na Beira Alta os endinheirados (ou os remediados que caçavam) também costumavam conservar (para comer no Verão) as perdizes, enfiadas em frascos de boca larga previamente esterilizados. As perdizes eram primeiro estufadas lentamente em azeite, vinho branco e vinagre, a que se juntava a gosto cebola e uns grãos de cravinho, pimenta e sal.

Saladas frias -  como as que se servem hoje como acepipes e entradas nos restaurantes de genética mais ou menos alentejana - são novidades com um cheirinho de marketing.
Honra seja feita aos percursores (Irmãos Fialho a destacar) que de um conjunto de pratos mais ou menos  completos fizeram uma "tábua de entradas" que serve dois propósitos ao mesmo tempo: aconchega a caixa registadora e dá satisfação ao cliente.

São imensas: de pimentos, de polvo, de ovas, de fígado frito ou grelhado, etc...

Destaca-se para mim a de coelho S. Cristóvão (localidade de Montemor-o-Novo) que é assado na brasa primeiro (temperado com alho e sal) e depois cortado aos pedaços e marinado em molho de azeite, alho, vinagre e coentros.

Do Algarve chega-nos a velhinha receita dos "carapaus alimados". São bem limpos e  depois de  salgados em camadas, cozem-se. A seguir deixam-se esfriar e passam-se bem por água fria para enrijar. Só depois são filetados os lombos, tira-se a pele  e tempera-se com rodelas de alho, de cebola e salsa picada.

Em praticamente todo o país se utiliza ( há quantos anos?) a famosa receita de "bacalhau onanista " (Mestre Quitério dixit). O fiel amigo desfiado em crú e bem temperado de azeite, alho, cebola e vinagre.
O meu sogro usava bacalhau sem ser demolhado. Desfiava a posta em tiras finas, passava-as depois por água bem fria apertando bem cada tira. E só depois temperava. Imaginamos que puxaria bem ao vinho...

Um ponto comum a quase todos estes pratos frios é a utilização do azeite e do vinagre. Ou não estivéssemos num país de tradição mediterrânea.

O tradicional molho de Verão é a maionese. Dizem que criada para homenagear o Duque de Richelieu após a conquista da cidade de Mahon (1756?). É praticamente um molho universal que, se for bem feito, na sua simplicidade realça os pratos de peixe, marisco e até de carnes frias em que se coloca.

Em Portugal  usa-se a "vinagreta" (azeite, vinagre, sal, pimenta, mostarda e ervas finas, alcaparras e salsa picada) importada em tempos das Invasões Francesas (?)  para algum peixe cozido ou para o pós-modernista "peixe ao sal".

Mas para mim o verdadeiro molho "Tuga" é o molho de vilão, abundantemente utilizado na Madeira e nos Açores (molho crú, molho das vindimas, são sinónimos) para condimentar peixe. Mas também aqui no continente. Como em muitas receitas do nosso extraordinário "tesouro gastronómico nacional" as interpretações do molho de vilão são inúmeras. Faz-se com caça ou com peixe, aplica-se ao bacalhau, tem variações desde Trás-os-Montes até às Ilhas de Bruma. Pode ser utilizado frio ou quente.

Dou dois exemplos:

 No Algarve (para o atum fresco e frito, receita  antiga de Vila Real de Santo António): 

2 Malaguetas
200ml Vinho branco
Vinagre de vinho branco a gosto
2 colheres de sopa de azeite
2 a 3 folhas de louro
Orégãos ou tomilho a gosto

E em S. Miguel (para os chicharros ou para as cavalinhas):
  - Azeite
– 5/6 dentes de alho esmagados
– Duas colheres de sopa de pimenta da terra, moída
– Um copo com metade de vinho de cheiro, metade água
– Um fio de vinagre branco
– Uma mão cheia de salsa picada
– Colorau Doce
– Pimenta branca

segunda-feira, julho 20, 2015

A saga dos chinelos



Normalmente, em universos racionais, quem necessita de chinelos dirige-se a uma sapataria.
Tal como vai a uma farmácia quem precisa de medicamentos, ou a uma mercearia quem quer comprar batatas e feijão encarnado. Peixe compra-se nas peixarias, carne nos talhos. Esferográficas estão nas papelarias, cuecas e peúgas nas lojas de pronto-a-vestir.

Nem sempre foi assim.

Ainda conheci na aldeia de Alvoco da Serra uma "venda" que tinha disto tudo, desde roupa interior de homem e de senhora até bacalhau ao kg. Passando pelos artigos de retrosaria, pelas sementes da batata (e da propriamente dita) e pelo vinho a garrafão. Eram as antigas lojas provincianas de "secos e molhados" numa versão ainda mais abrangente, que incluía agulhas de costura e novelos coloridos de lã da "EFANOR".

Hoje em dia podemos também concordar que as "grandes superfícies" apresentam toda esta catrefa de artigos num mesmo local, de forma conveniente para o público em geral e "assassinante" do chamado comércio tradicional ( pós-secos e molhados).

A figura da loja "especializada" passou para o universo do modelismo ou da alta fidelidade , vivemos na era do "genérico". Desde o genérico do medicamento até ao genérico do creme para a barba. E tudo se pode encontrar no mesmo local. A única diferença face às antigas "vendas" será que esses artigos estão agora em prateleiras e corredores distintos, deixando a caixa das pastilhas "Gorila" de dar o braço à dos atacadores de botas da tropa...

Mas mesmo sabendo destas misturas que o comércio de hoje permita e apoia, deve parecer estranho ir à procura de chinelos a uma loja de mobiliário rústico...

As "santas" cá de baixo informaram-me do desejo de irem comprar chinelos, e deram-me a morada:
 -"No Vassoureiro. Lá é que os encontramos!"

Saberão (ou ficam agora a saber) que o Vassoureiro era uma loja com mobílias rústicas de pinho, ali para os lados de Alcoitão.  Era, digo bem, porque quando lá cheguei vi que tinha sido convertida para um daqueles "empórios" chineses.

Nem discuto o mistério de duas anciãs de 85 anos saberem mais do que eu sobre o destino da dita loja que já foi de madeiras de pinho, e agora é de bric-á-brac asiático. O que me faz sobretudo confusão foi saberem que lá teriam chinelos...

A não ser que entendam serem as "lojas dos chineses" uma espécie de arca de noé dos não-vivos
(não são zombies malta! Das coisas inanimadas!) onde tudo o que não respira se pode encontrar. Desde as gaiolas dos canários aos tais chinelos.

Ao fim de hora e meia (bem contada por mim, minuto a minuto) a  compra não se concretizou. Os "chinelos eram de plástico".  

Mesmo desdenhando trouxeram as "santas" alguns molhos de flores (também de  plástico, vá-se lá entender), bué de pilhas para os transistores (parece que passam a noite a ouvir a radio na cama), molas para a roupa  e ainda duas ventoinhas de pôr à janela dos carros para que o vento as faça mover (nem perguntei para que queriam aquilo. Já estava para morrer com o cheiro a lavanda da dita loja).

Saímos do "Empório de Pequim" , ou lá como aquilo se chama agora e  fomos direitos ao Continente do tio Belmiro ( parece que agora passou a ser do primo Paulinho). embora eu ainda protestasse que
-"Chinelos de pele e sola de cabedal era mesmo nas sapatarias!"

Mais de uma hora depois saímos sem chinelos  mas com pão de forma integral, bolinhos secos, courgettes e bananas, mistura solúvel de cevada e dois pacotes de chá de camomila.

Já dentro do carro pediram-me para ir então aos "outros chineses,  lá em baixo ao pé do Pão de Açúcar de Cascais,  esses é que tinham tudo..."

Pôrra Compadres!! Foram vossas mercês?  Pois eu também não. Ala para casa que o almoço fica atrasado.

Agora quase que não me falam. Mas só até Sexta à noite. Chegada a proximidade do sábado é certo e sabido que me vêm chatear mais uma vez.

O Tio Santidade, lá em cima na Serra, quando se empiteirava valentemente (era dia sim, dia não)  e se esquecia de ordenhar as cabras, vinha para a rua ouvi-las berrar  e dizia em voz alta "é sina que as cabras têm , coitadinhas...já nasceram com esta sina..."

E esta também é a minha sina, sábados e domingos...

sexta-feira, julho 17, 2015

Para Descansar a Vista...olhando para a zona Euro...



Num frenesim de orgulho pátrio várias vozes na Finlândia estão a erguer-se contra o "Euro".
Calcula-se que a economia finlandesa (pós-Nokia) terá perdido cerca de 20% da sua competitividade por deixar de poder jogar com as flutuações de moeda para exportar.

E dizem ainda que o nível de vida no país piorou depois dos 15 anos de adesão à moeda única. E  sem a  Nokia (acrescento eu).

Depois do colapso da Nokia a Finlândia exporta sobretudo petróleo e seus derivados, pasta de papel (e madeira ) e ainda aço.

Se houvesse petróleo em Portugal provavelmente também cantaríamos de galo...Melhor dito, de rena.

Alguns economistas entendem que este será o princípio do fim do euro. Outros dizem que são apenas sobressaltos da ressaca do que se passou ( e ainda está a passar) na Grécia. Leiam aqui o Economist:
"Without Greece many will conclude that the Euro zone might actually be more stable. Saddly, that is wrong! Look beyond Greece and conflict within the euro is all but inevitable. Although Greece’s departure would prove the euro is not irrevocable, nobody would know what rule-breaking would lead to expulsion. Nor would it resolve the inevitable polarisation of debtor and creditor governments in bail-outs. If the single currency does not face up to the need for reform, then this crisis or the next will witness more Greeces, more blunders and more dismal weeks. In time, that will wreck the euro and the EU itself."
E eu não diria melhor... 
Para afastar estes mau-olhados e presságios de desgraça vamos a um poema de alegria .  De Eugénio de Andrade, "Anunciação da Alegria", uma pequena jóia da nossa língua que aqui deixo:
Devia ser verão, devia ser jovem:
ao encontro da manhã ia cantando
como quem entra na água.

Um corpo nu brilhava nas areias
   corpo ou pedra?, pedra ou flor?

Verde era a luz, e a espuma
do vento rolava pelas dunas.

Soltei os olhos sobre aquele corpo,
o coração latindo de alegria.

De repente vi o mar subir a prumo,
desabar inteiro nos meus ombros.

Sem muros era a terra, e tudo ardia.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, julho 15, 2015

Vantagens de ser Tuga comparadas com o gosto de um inglês

As redes sociais estão cheias de notícias do crítico gastronómico do Times, Giles Coren, depois deste ter "investido" contra a cozinha portuguesa, fruto de uma má experiência (segundo ele) no restaurante  londrino "A Taberna do Mercado" de Nuno Mendes.

Eu próprio , a quente, escrevi que o Sr. Giles normalmente não comeria, antes pastava que nem um boi, e que teria febre aftosa (comum às cavalgaduras).

Agora, com mais distanciamento, acho que somos um bocado pacóvios se nos pusermos todos a protestar , tipo  vaga de fundo ou  manif estudantil de 68.  São achaques de provincianismo.

Não os devemos ter porque a posição da nossa gastronomia está acima, muito acima dessas dores de "corno" (com vossa licença).

Obviamente que um crítico influencia, e sendo o do circunspecto The Times, ainda mais. Mas é apenas a opinião de uma criatura. E atrevo-me a dizer que a gastronomia portuguesa sobreviverá a isso.

O próprio Giles compara nesse artigo a pretensa má qualidade da nossa cozinha com a do seu país, gozando com o assunto. E para quem entende o humor britânico (Monty Python são aqui chamados à colação) o homem devia estar num dia de "marrar" com tudo o que lhe pusessem na manjedoura (digo, no prato) e, sem outro tema para escrever, fez disso o seu artigo.

Tenho de parar com estas analogias bovinas, senão ninguém acredita na tese que aqui defendo...

Crítico também tem prazos e crítico também tem, ocasionalmente, blackouts imaginativos.

Quem não se sente não é filho de boa gente?  Está bem, mas a melhor vingança come-se fria (agora que é Verão).

 E para além disso, sem largar a língua de Shakespeare, "Living well is my best revenge!".

Imagino o que diria Giles se estivesse  no final da tarde de Segunda feira passada, no Casino da Figueira, perante três mesas monstruosas de acepipes tradicionais portugueses ali dispostos com amor e carinho pelas Confrarias Gastronómicas do nosso país.

Desde os charutos de S. Miguel (com rótulo adequado ao dia), até ao venerável queijo da Serra, passando pelos presuntos de Vale do Sousa (de cair para o lado), pelos rojões , pelo leitão da Bairrada, pelos pastéis de bacalhau, pelos panados de vitela, pelas muitas broas (doces ou salgadas) , pelos doces conventuais em barda...

Das duas uma: ou o Sr. Giles caía nauseado, ou se rendia à desbunda...

Em qualquer dos casos a sua atitude pouco ou nada afectaria o ânimo dos presentes, demasiado ocupados a  venerar (comendo) o bodo ali  apresentado por mãos benfeitoras.

E é aqui que quero chegar. Deixem criticar. Há espaço neste mundo de Deus para todos.

Enquanto uns criticam, outros aproveitam e vão comendo...

Imaginem o horror da situação oposta: o homem dizer bem da nossa gastronomia e a mesma ser má. Mázinha mesmo, quase péssima.

Isso sim, seria um pesadelo do qual queremos acordar já! Pôrra Compadres!

segunda-feira, julho 13, 2015

É pena que os KM em terra não acumulem milhas de voo...

Estou feito um autêntico "caixeiro viajante" dos selos postais. Não paro com as deslocações, fruto das solicitações que não param de chegar.

Hoje estarei na Figueira da Foz, para assistir à apresentação formal do Dia Nacional da Gastronomia  recentemente aprovado na AR e que terá lugar no último Domingo de Maio. E vamos obviamente comemorar o 1º Dia , em Maio de 2016, com um Postal Inteiro.

A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, instituir o Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa no último domingo de maio. Aprovada em 26 de junho de 2015. 
A Presidente da Assembleia da República, 
Maria da Assunção A. Esteves. 


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Estou ao mesmo tempo satisfeito pelo facto da filatelia estar na moda e das cerimónias de apresentação dos selos serem cada vez mais  procuradas por todas as entidades intervenientes, promotores das emissões e outros que por elas se sentem abrangidos.

Mas sai-me do corpinho, e com a malvada da ciática sempre a espreitar por cima da "nádega", o que posso dizer é que o amor à arte tem de ser grande para ultrapassar os incómodos.

Mas não sou hipócrita. Vingo-me das dores parando sempre que posso nalgum restaurante que valha a pena e que encontre nestas deslocações.  Et voilá o incentivo!

 Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe...

quarta-feira, julho 08, 2015

Estronços e outros que tais



Muitas vezes ouvi, lá na terra, a minha santa chamar "estronços" a certas personagens de quem não gostava muito. Sempre achei que fosse um adjectivo local.

Até que se fez luz nesta fraca cabeça: "Estronço" era uma forma popular do termo "Mastronço" (Mastronço, como sinónimo de indivíduo grosseiro, mal arranjado e sujo).

Outra expressão popular, tornada célebre por Vergílio Ferreira ( A Palavra Mágica), foi o termo "Inoque", utilizado na aldeia como grande ofensa: fulano chamou-lhe tudo! Que era um grande bruto e estúpido ! E que não passava de um grande inoque!!

Mais tarde veio-se a constatar que "Inoque" era um abastardamento popular da palavra "Inóquo", a qual, a bem dizer, não prefigura grande insulto...

A redução ou apagamento de sílaba é considerada um processo fonológico do desenvolvimento, caracterizado pela eliminação de uma sílaba ou mais sílabas durante a produção de uma palavra. Não sei se foi isto que aconteceu, mas estas ideias de simplificação populares não ocorrem apenas na linguagem coloquial. 

Ora leiam esta "novidade" sff:

Parece que uma reputada empresária brasileira do ramo editorial ( penso que se tratará da "Leya" lá do sítio) conseguiu uma avultada verba do Ministério da Cultura do Brasil para "simplificar Machado de Assis". Isto é, reescrever as obras do Mestre em linguagem "que todos entendessem, desde o rico que estudou na faculdade até ao pobre que apenas aprendeu a ler"... E começou logo pelo "Alienista" a obra-prima de Machado de Assis,onde  este nos deleita com a história de Simão Bacamarte e do seu hospício Casa Verde.

Os termos de comparação são retirados do excelente artigo "Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis",  de José Maria e Silva.

Nota: Paulo Freire foi um pedagogo controverso, admirador de Mao Tse Tung e que desejava arrancar as palavras burguesas da cartilha do trabalhador, determinando a alfabetização a partir das palavras proletárias, , como “tijolo”. (Sem comentários que ainda me engasgo a rir e não acabo o Post.)

Como exemplo da estranha simplificação do "Alienista": Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”;  ficou depois da "revisão" : “Uma curiosidade científica iluminou os olhos de Simão Bacamarte.
E ainda: Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”.  
E na traduçãozinha para ignorantes: “Simão Bacamarte começou organizando um pessoal de administração. Convencendo o farmacêutico Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”.
Ou, por último: Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo”. Após a ação revisionista: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, prejudica o juízo”.

"Conquanto" (embora) fica "enquanto"; "hebreu" passa a "judeu"; "Transeuntes" são agora "Os que por ali passavam", "pasmado"  foi substituído por "espantado"...

Se a moda aqui pega, no nosso Jardim à beira mar plantado, já estou a ver os versos de Camões "adaptados" para o povo: 

As Armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana

Por Mares nunca dantes navegados

Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
Entre gente remota edificaram
Novo reino que tanto sublimaram
(....)

E a versão revista e melhorada:

A forte rapaziada de Chelas  
Depois do trabalhinho no  "28"  amarelo

Tomou o cacilheiro para a Trafaria
Agarrados ao fundilho  belo
Deixando para trás  a bófia esbaforida
Esganados como cães de Niza
Esperam lá para a Caparica
Não de areia, mas de maravedis
Acabar de vez com a larica

Ganda Camões! 
Rejuvenesceu, ou melhor "ficou mais novo"!

terça-feira, julho 07, 2015

De regresso (outra vez)...

 Começo com um  voto  de sentidas condolências pela partida da Drª Maria Barroso, nossa amiga e que connosco compartilhou ao longo de muitos anos largas sessões de lançamento de selos e de livros.  A última foi a emissão que dedicámos à ACNUR (Agência da ONU para os refugiados) onde esteve também o Alto Comissário Engº António Guterres.

Uma grande Senhora, com uma vida notável, lutadora infatigável pelas causas da democracia e das liberdades, direitos e garantias,  que tivemos o privilégio de conhecer. Boa Viagem!

Depois desta nota triste o resto das notícias a comentar parecerão de uma palidez excessiva.

Mas temos a Grécia, os resultados do  referendo e as suas consequências.  Como desatar esta meada?

O circunspecto The Guardian escreve:

The next 48 hours will test Tsipras’s argument that a no vote would strengthen his hand with negotiators.
The Economist Intelligence Unit puts the chances of a Grexit (saída do Euro)  at 60%.
“The referendum result raises the stakes for both sides. It makes it more difficult for Mr Tsipras to make big concessions in order to reach agreement with the country’s creditors. It also makes it more difficult for German chancellor Angela Merkel and other eurozone leaders to make concessions to Greece because of the moral hazard arguments,” says the EIU’s Joan Hoey.
Um dos maiores problemas é o estrangulamento do sistema bancário, onde segundo parece existem agora apenas  45 euros por  cada cidadão grego em cofre... Caso o BCE não se atravesse a saída do euro será inevitável. Fala-se já de Bail-in, o que se passou no Chipre, e que não é mais do que um arresto de poupanças superiores a um determinado montante, para financiar as despesas do estado.
A grande data, a data de todas as decisões será o dia 20 de Julho, onde a Grécia deveria pagar 3,5 biliões ao Banco Central Europeu.  Se falhar esse pagamento, a "malta" de Frankfurt provavelmente fecha a torneira e o GREXIT será inevitável...
Veremos. 

sexta-feira, julho 03, 2015

Para Descansar a Vista...No Panteão




Resultado de imagem para Entrada do palácio de S. Bento, leões

Estou chegado de andanças muito eclesiásticas - S. Vicente de Fora e S. Pedro de Rates - carimbando a emissão dos "Caminhos de Santiago" junto de um dos meus padres preferidos, o Sr. Arcebispo D. Jorge Ortiga.

Hoje há a trasladação de Eusébio da Silva Ferreira para o Panteão, e já estive de manhã, nos Passos Perdidos de S. Bento (é só santos...) a carimbar mais uma vez...

Nota: De tanto carimbar a p*** da palma da mão já desenvolveu um calo. Ando a ver se o transformo em doença profissional...

Por acaso, e fruto de ter dormido menos de 5 horas nesta noite por ter regressado já tarde de Rates depois de quase 800 Km de carro no mesmo dia, acabei por chamar Guilherme Aguiar ao Dr. Guilherme Silva e Vice Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia ao Humberto Coelho... Mas fora esses dislates correu tudo bem...

Aqui para nós,  não achei bem estarmos a fazer uma homenagem ao Eusébio numa sala onde a decoração proeminente dos tectos são leões...Para já não falar das bestiúnculas que se encontram à entrada, nas escaditas... Mas adiante que não estamos em Amarante.

Venham então uns versos para celebrar o Desporto .

Do grande António Aleixo ("Este livro que vos deixo") aqui vão algumas verdades.

Que já eram verdades quando foram escritas, mas que mantêm a actualidade!!

Vejam lá se não mantêm:

Desporto e Pedagogia

Diz ele que não sei ler 
Isso que tem? Cá na aldeia 
Não se arranjam dúzia e meia 
Que saibam ler e escrever. 

P'ra escolas não há bairrismo, 
Não há amor nem dinheiro. 
Por quê? Porque estão primeiro 
O Futebol e o Ciclismo! 

Desporto e pedagogia 
Se os juntassem, como irmãos, 
Esse conjunto daria, 
Verdadeiros cidadãos! 


Assim, sem darem as mãos, 
O que um faz, outro atrofia. 
Da educação desportiva, 
Que nos prepara p'ra vida, 
Fizeram luta renhida 
Sem nada de educativa. 

E o povo, espectador em altos gritos, 
Provoca, gesticula, a direito e torto, 
Crendo assim defender seus favoritos 
Sem lhe importar saber o que é desporto. 

Interessa é ganhar de qualquer maneira. 
Enquanto em campo o dever se atropela, 
Faz-se outro jogo lá na bilheiteira, 
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela. 
 
Convém manter o Zé bem distraído 
Enquanto ele se entrega à diversão, 
Não pode ver por quantos é comido 
E nem se importa que o comam, ou não. 

E assim os ratos vão roendo o queijo 
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto, 
De vez em quando solta o seu bocejo, 
Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto. 

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..." 

terça-feira, junho 30, 2015

O calor estraga os vinhos?

Os velhos adegueiros, lá na Beira Alta, não gostavam do Verão. Na sua opinião "o calor dava cabo dos vinhos".  Refugiados na adega era lá que faziam a tertúlia de Agosto (fazia fresquinho e tinham o "material" à mão de semear). E muitas vezes ali os ouvi a discorrerem sobre estas coisas.

Enquanto se esperava para o almoço  (uma horita antes) utilizava-se o clássico método do garrafão atado com uma guita e enviado para dentro do poço. Ali refrigerava até chegar à temperatura considerada adequada. Qual era ela?

Não sei bem. O método era empírico e a medida certa era a do gosto dos bebedores, dos convivas.  Lembro-me que no pino de Verão bebia-se o tinto quase que à mesma temperatura do branco, pois o velho poço não tinha termostato nem regulador de temperatura por secções...

A "regulação" era deitar o garrafão do branco lá para dentro meia hora antes do que o do tinto...

Essa era a aventura empírica dos tempos pré-ciência do vinho. Antes de chegarem os enólogos , os estudiosos do tema,  acompanhados dos seus engenheiros apologistas das vinificações a temperaturas controladas... Eram os tempos em que o Sr. Nicolau de Almeida mandava buscar gelo à Serra da Estrela para arrefecer os mostos do que viria a ser o Barca Velha clássico, dos anos 50 e 60.

Hoje em dia acho que podemos confirmar que é verdade. O calor estraga os vinhos. Estraga de mais do que uma forma.  Diminui o tempo de duração em garrafa, "ofende" o palato na altura da prova.

Já o frio apenas prejudica a prova, sendo até recomendado (sem exageros!) para ajudar a preservar as garrafas boas na adega.

Um tema neste momento bastante discutido é o da "uniformização" da temperatura do vinho a servir (tinto e branco).

Há quem defenda que, independentemente do ambiente ser de Agosto ou de Fevereiro, os vinhos terão que estar sempre à mesma temperatura (14º a 16º para os tintos mais encorpados e velhos; 12º a 14º para os tintos jovens; 6º para os espumantes e champanhes; 8º para brancos e verdes jovens ;10º a 12º para grandes brancos envelhecidos). Em média, está claro!

Mas há outros (onde por acaso eu me incluo) que acham que o ambiente tem influência , sobretudo se a prova se der em meios onde a temperatura não é condicionada. Isto porque o provador não se pode isolar da temperatura que faz, se está muito calor à mesa pode pedir ( e deve pedir) para lhe baixarem a temperatura do tinto para o limite mínimo da categoria. Se está frio , pelo contrário...

Claro que o ideal seria comer em salas preparadas para estarem sempre a 22º, de Verão ou de Inverno... Mas quem as tem lá em casa?

Imaginem uma cena tipicamente portuguesa: a sardinhada de Junho ou de Julho no meio de amigos, ao ar livre. Um assa as sardinhas (é o desgraçado do João...),  outros fazem as saladas, outros ainda tiram a pele às batatas cozidas. Algumas "mulas" sentam-se e esperam pelo prato (aqui tusso eu, um bocado embaraçado...).

Estarão debaixo do alpendre uns 32º ou 33º. Como se faz ao vinho? A nossa solução é iniciar as hostilidades com umas garrafas de espumante bruto (ao  pé do assador tem de estar sempre um flute cheio!). Continuar com um vinhão de Ponte de Lima (soberbo o de 2013). Até aqui não saímos da fasquia dos 6º a 8º...

Depois, na sossega e quando a adstringência pede um tinto a sério, lá abrimos 2 ou 3 garrafas de um tinto do Dão ou do Douro, mas jovem! Um vinho que aguente bem ser servido a 12º sem sofrer com isso. Lembro aqui dois:  Passagem (do Douro , primo do Poeira) ; Vinha Paz ( do Dão). Ambos de 2011.

segunda-feira, junho 29, 2015

A Grécia de hoje



Recordo-me mal das consequências que sofri (pessoalmente) no caso da crise de 1979\1980 (choque petrolífero).

A política dos países produtores - OPEP - que consistiu em subir os preços do barril quase 8 vezes (!!) desde 1973 , viria a criar enormes problemas de inflação nas nações industrializadas. Governos e bancos aumentaram as taxas de juro, agravando o problema de pagamento de dívidas, que ainda hoje atormentam grande parte dos países em vias de desenvolvimento. 

Nessa altura eu já trabalhava.
Dava aulas na Universidade e tinha acabado de entrar para os CTT. Mas como normalmente andava de transportes públicos (comboio e metro) não me recordo de grandes perturbações. Lembro-me do meu pai ir com o FIAT 1600 de noite para a fila do combustível, lembro-me de haver alguma contenção nas deslocações "à terra", que normalmente demoravam 5 horas e tal , e quase dois depósitos, pois o FIAT bebia como um alemão na Feira de Munique. Mas pouco mais.

Era novo, tinha acabado de casar, o mundo parecia "porreiro"...

Tenho por isso mesmo, alguma dificuldade em compreender o que espera os nossos amigos gregos a partir do dia de hoje (e em cima da "tareia" que já levaram nestes anos).

Não tomo partido.  Compreendo os dois pontos de vista:

Há quem diga que aquela gentinha grega teve anos de vacas gordas em barda e o que está agora a acontecer é o ajustamento inevitável, a caída na realidade. Há quem diga, por outro lado, que são os  euro-burocratas que estão a dar cabo do conceito humanista de Europa e que o  que vai acontecer é o início do fim do sonho, a derrocada dos ideais de Jean Monet e de Robert Schuman.

Deixando isso para lá da fronteira, uma coisa me parece certa: na Grécia ( como em qualquer país do mundo) houve pessoas que se "safaram" enquanto puderam e que estarão hoje mais ou menos a coberto da tempestade. Mas decerto que a maior parte do povo não teve culpa do que lhe aconteceu e está agora em iminente processo de retroagir dez ou vinte anos no desenvolvimento pessoal e institucional.

Há quem "empoche e ganhe " nestas alturas? Sim. E são muitos. Lembro o que aconteceu em Portugal com os famigerados cursos de formação pagos pela Comunidade Europeia... Não havia bicho careto que não se armasse em "formador da CEE". Quantos andares e casas se compraram à conta disso? E Beamers? E Mercedes?
Mas, e os outros que eram muitos mais? Os que não criaram empresas para dar formação (porque não tinham habilitações). Os que não roubaram dos Fundos Estruturais (porque a eles não tinham acesso). Os que não meteram para dentro os subsídios das cabeças de gado e dos Hectares (porque nem gado, nem terra tinham)?? E desses?  Ninguém fala??

Como sempre, desde que o mundo é mundo, serão esses milhões que sofreram, sofrem e vão sofrer.

Infelizmente , nestas ocasiões,  só se fala dos milhares que "roubaram, enganaram, vigarizaram, viveram bem à fartazana e melhor do que nós"... Não se fala dos outros.

Dos  milhões que não roubaram nem vigarizaram. Dos milhões que viveram como puderam em função das condições que lhes deram para tal. E que actualmente se vão ver aflitos com a falta de dinheiro para  farmácia, para a comida, para a escola, para a electricidade, para a água .

E aqui é que a porca torce o rabo ! São milhares os aproveitadores, são milhões os sofredores. Mas as decisões são tomadas em função desses milhares. E que se "prejudiquem" (para não dizer outra coisa) os restantes milhões  que vão com a cheia...

Não acho bem.

Como dizia o outro : "Não foi para isto que fizemos o 25 de Abril"!

Nem, digo eu, "Não foi para isto que a Europa travou duas guerras mundiais"!


sexta-feira, junho 26, 2015

Para Descansar a Vista...Na outra margem



LSB não é um anagrama de SLB! Não senhores! Trata-se das iniciais da nova proposta para dinamizar o turismo e o investimento lá na "margem sul"... O recém-criado Lisbon South Bay...
O que dizer da saloiada? Talvez desejar-lhe tantos anos de vida como teve a outra bimbalhice chamada "Allgarve". Lembram-se dela?  Eu também não , graças a Deus.

Vamos lá deixar estas "modernices" para trás e tratar de saudar os bons amigos da margem sul com um grande poeta de Setúbal, quase, mas mesmo quase, a ter homenagem com direito a selo e a carimbo na sua terra natal de Setúbal.

Nascemos para Amar

Nascemos para amar; a Humanidade 
Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura. 
Tu és doce atractivo, ó Formosura, 
Que encanta, que seduz, que persuade. 

Enleia-se por gosto a liberdade; 
E depois que a paixão na alma se apura, 
Alguns então lhe chamam desventura, 
Chamam-lhe alguns então felicidade. 

Qual se abisma nas lôbregas tristezas, 
Qual em suaves júbilos discorre, 
Com esperanças mil na ideia acesas. 

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre: 
E, segundo as diversas naturezas, 
Um porfia, este esquece, aquele morre. 

Bocage, in 'Sonetos' 

quinta-feira, junho 25, 2015

Tempo de Melgas

Melga e mosquitoEncontrei informação científica sobre esta matéria (num site da "Dum-Dum" imaginem!!) mas não foi muito esclarecedora:

Melgas e Mosquitos são termos genéricos usados para designar várias famílias de insectos pertencentes à ordem Diptera e em particular, à subordem Nematocera, embora, estritamente falando,  se refiram apenas aos membros da família Culicidae. Na verdade, existem 39 géneros de melgas e mosquitos e 135 subgéneros no total, com mais de 3.200 espécies conhecidas. São insectos voadores com corpos magros e pernas longas. Os adultos raramente têm mais de 15 mm de comprimento. As larvas e pupas crescem na água.

No Verão estas bestiúnculas martirizam mais a pele das pessoas, pois será a altura em que (sempre segundo a "Dum-Dum") se encontram mais ativas.

Aqui para nós, digitei mal Dum-Dum e apareceu-me o site "Bum-Bum". Isso é que é um site porreiro Pá! Ganda site, sem melgas carago!! 

Mas tresvario e divago... Adiante que não estamos em Ipanema (hélas...).

Existe um mito urbano (e generalizável para campos e praias) segundo o qual há peles (existem indíviduos) com maior poder de atracção para estas alimárias. Seriam "pessoas de pele mais açucarada". As melgas castigariam assim as pessoas "mais doces", mais "boazinhas" e mais estimáveis.


Isso é mentira. 

Quando as noites de calor apertam e nos encontramos perto de água doce, não há ruindade ou malvadez que nos valha. Elas atacam como esquadrões de "stukas". Ai de quem se atreve a mostrar o corpo nessas alturas!

Nota: stuka é abreviatura de Sturzkampfflugzeug, o bombardeiro de mergulho  Junkers JU-87 que foi o caça mais utilizado pelos alemães na  2ª Grande Guerra.

O termo "Melga" foi depois generalizado no vernáculo da língua para também significar "indivíduo chato e implicativo; alguém que nos incomoda constantemente".  Conheço "melgas" destas que nunca mais acabam... E algumas entram todos os dias por nossa casa dentro, mesmo com portas e janelas bem fechadas, pela radio e pela TV... 

"Melga" também significa um daqueles assuntos que já não há pachorra para continuar a ver e\ou a ouvir em discussão infindável através dos meios de comunicação social.

Nesse sentido são grandessíssimas "Melgas " de assuntos: a possível participação do Prof. Marcelo nas presidenciais, a discussão do futuro de Maxi Pereira, o Dr. Rui Rio e o que fará, a nova namorada de CR7, a revista de Cristina Ferreira, a vida de Cristina Ferreira, os negócios de Cristina Ferreira, as escutas telefónicas dos USA  aos aliados (quem não foi escutado que se levante, pôrra!), quem irá para a liderança da FIFA e etc...

Quanto a esta questão da FIFA tenho por certo e sabido que será eleito quem o Senhor quiser. O mesmo em relação aos próximos vencedores da Champions , da Premier League e da Ligue 1 francesa. 

Apenas aqui em Portugal existem imponderáveis que não permitem  ao Senhor, ao  Altíssimo (aka Jorge Mendes) decidir o resultado. É o Belfodil e o Bruno da Ferramenta, por um lado, o Orelhas e sus muchachos, por outro, estando sempre à coca o Pintinho, velho mandril de rabo pelado que sabe mais a dormir que os outros todos acordados. O futebol luso é ingovernável.

Mas, Melga por Melga,  se tivéssemos  que eleger a maior Melga do reino animal (entre os vivos) o meu voto iria para uma pessoa e um assunto: a discussão sobre o Blatter (que ganda Melga!!) e quem lhe sucede,  e se o Platini avança , e que fará o Figo nessa conjuntura (com uma mulher como a dele eu sabia o que faria...). 

Go Home Blatter! Go Home!

quarta-feira, junho 24, 2015

Habemus Papam. E é verde!!



Nihil Obstat, Imprimi Potest, Imprimatur!  São estes os três passos na cega rega da aprovação eclesiástica de um texto (velho hábito a cheirar um pouco aos fumos da Inquisição), mas que ainda hoje se mantém.

Há alguns anos atrás a nova encíclica Laudato si (Louvado seja) não sei se teria passado no crivo assanhado dos rigorosos teólogos da Congregação para a Doutrina da Fé, a mais velha das nove Congregações da Cúria , a quem compete a análise da adesão das ideias escritas aos cânones.

De acordo com o Papa Francisco :
Em grande parte, é o ser humano, que dá chapadas à natureza, quem tem responsabilidade nas alterações climáticas. De certa forma, tornamo-nos donos da natureza, da mãe terra”...“o homem foi longe demais”.
Francisco traça um diagnóstico “preocupante” do meio ambiente e fala das desigualdades entre países pobres e ricos e da falta de “sensibilidade social”dos mercados e das empresas multinacionais – que exploram recursos naturais sem terem em conta as consequências que provocam nos territórios desfavorecidos".
O Papa apela a uma “maior responsabilidade sobre o planeta, cuja degradação se deve à acção humana".  Francisco insurge-se  ainda contra a “esquizofrenia permanente” e a “exaltação tecnocrática”  e critica o facto de a política e a economia não se colocarem “decisivamente ao serviço da vida, especialmente a vida humana”. “A política não deve submeter-se à economia e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia”, escreve ainda Francisco, acusando a Finança de “sufocar a economia real”. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e só muito lentamente se aprende a lição da degradação ambiental”.

Por acaso sempre gostei dos argentinos. Nessa matéria estou de acordo com meu mestre Quitério, um apaixonado por Buenos Aires e pelo tango. A isso junto Jorge Luis Borges e (porque não) Diego Maradona...  Os grelhados de carnes vacuns argentinas são do melhor que existe no mundo. E para terminar os grandes vinhos tintos de Malbec (Finca Adrianna ou Altamira) , que também são de cair para o lado!! 

Mas este argentino feito Papa bate tudo isso e mais alguns juntos.  Ganda Papa Chico!! Que tenha muita saúde e muitos anos de vida !  

terça-feira, junho 23, 2015

De regresso! E vim de motorizada!

Cá estou de novo, tenho logo apanhado pela frente a apresentação do nosso último livro "Motorizadas de 50 cc Portuguesas", hoje no Palácio de S. José 20 (podem ir malta!). 

A aventura dos motociclos de origem portuguesa demorou cerca de 40 anos, de 1950 até ao final da década de 90 do século passado. Durante esses anos um conjunto de empresas nacionais conseguiu “motorizar” milhares de cidadãos nacionais, quase todos trabalhadores que conseguiam a preço razoável ultrapassar um dos problemas mais complicados das periferias e das zonas rurais: a falta de meios de transporte público adequados.
Uma forma prática de chegar de casa ao trabalho nas fábricas que no rescaldo da 2ª Grande Guerra se abriam, mas também de chegar às vinhas e aos campos de cultivo, toda uma independência de movimentação pessoal que haveria de contradizer a antiga (medieval) associação psicológica e cultural entre estatuto social e o uso do meio de transporte.
Referindo-se ao período em causa  lembra o Prof. António Barreto (Mudança Social em Portugal 1960-2000): “…pela primeira vez parecia haver uma alternativa industrial ao emprego agrícola, o que implicava uma nova organização do trabalho, salários superiores e emprego durante mais tempo em cada ano. Entre 1960 e 1973 o rendimento nacional por habitante cresceu a mais de 6.5% ao ano, tendo sido esse o período de maior crescimento económico do país”.
Para ajudar a concretizar este pequeno milagre económico  contribuiu o humilde ciclomotor, nivelador de classe social, facilitador do acesso ao trabalho e ao emprego.
A motorizada de facto - e na devida proporção - democratizou a sociedade portuguesa.
Correios e meios de transporte estiveram também sempre intrinsecamente ligados. Por esse motivo os CTT Correios de Portugal aproveitaram o aparecimento dos motociclos e melhoraram em muito todos os seus circuitos de distribuição porta-a-porta. Em 1971 dá-se a regulamentação dos serviços de transportes postais e tem início a distribuição motorizada que permitirá que nenhuma população fique privada dos serviços postais.


É toda esta história que o jornalista especializado Pedro Pinto nos descreve neste livro, imensa matéria interessante nunca antes compilada sobre o mundo das motorizadas de 50 cc que, estou seguro,  interessará a qualquer leitor.

quarta-feira, junho 17, 2015

As questões da Toponímia

Penso que sabem que o nome "Cascais" derivaria do facto de ali se terem encontrado várias necrópoles neolíticas onde abundavam os vestígios de  conchas (cascas) de bivalves. Tantas eram essas "lixeiras" com cascas que se começou a referir "Cascais" para designar o local onde as mesmas se encontravam.

Bom, essa é uma das explicações... Existem outras a atirar mais para o vernáculo (tipo "calão").

Uma das que mais gosto conta-nos a história de D. Afonso Henriques, perseguindo os Mouros até ao castelo de Sintra e ali os sitiando com a sua hoste.

Consta que Dona Teresa, sua Mãe, teria acompanhado os cavaleiros cristãos e que, chegada  ao lugar que hoje é Cascais, à Praia da Rainha , nomeada em sua honra ( ganda treta, mas deixemos continuar) decidiu banhar-se nas águas aprazíveis do mar.

Não tendo trazido fato de banho, entrou assim mesmo como veio ao mundo pela baía adentro, nas barbas dos homens de armas de el-rei Afonso.

O Rei acorreu ao local e, vendo o que considerou grande aleivosia e altíssimo desmando, não está de modas. Entra pela água adentro e desata a bater na mãe (no que já tinha alguma prática, segundo se dizia).

O velho aio Egas Moniz bem o puxava de um lado e de outro, gritando em alta voz:

-"Senhor, senhor, porque lhe cascais assim?"

Esta fala foi depois repetida pelos  ricos-homens e infanções presentes na hoste:

 -" Não lhe Cascais mais Senhor! Não lhe Cascais mais!"

E pronto! "Cascais" teria assim nascido desta má acção do primeiro rei, um gajo aparentemente com problemas mal resolvidos  no que dizia respeito a esta coisa do relacionamento parental...
A Rainha não era flor que se cheirasse, sempre metida na cama com os galegos, mas pôrra! Mãe é mãe!

A não ser (e há quem o jure e trejure) que possivelmente não era D. Afonso Henriques filho do Conde e de Dona Teresa, mas sim filho do aio Egas Moniz... Teorias da conspiração que não se esclareceram completamente dado que a Scully e o Mulder abandonaram  a actividade laboral e , segundo parece da última vez que os vi, se dedicam agora à pesca...

Há também quem diga que esta propensão marginal a "aviar" tudo o que lhe aparecesse à frente tinha a ver com a educação do Afonsinho, criado na Feijoeira (bairro "típico" de Guimarães) por malta da pesada e habituado desde que abandonou as tetas ( seja lá de quem for) a andar sempre com uma moca de  Rio Maior pendurada ao pescoço, em vez da habitual chucha...

"Estórias" da história.


quinta-feira, junho 11, 2015

Emoções

Nestas férias andei pela Zona Centro. Primeiro em Coimbra, para a cerimónia de lançamento do IP comemorativo dos 75 Anos do Portugal dos Pequenitos ( com direito a Sr. Governo) , e depois uma visita a Tentugal,  à Pastelaria Afonso, para ver ( e provar) os famosos pastéis que ali são feitos respeitando escrupulosamente a receita tradicional que fez famoso o convento da terra.

Altura também para uma troca muito amigável de palavras com a Drª Olga Cavaleiro, Presidente da Confederação das Confrarias Gastronómicas de Portugal, para analisarmos a possibilidade de projectos comuns no âmbito das emissões filatélicas.

Está na forja ( digo, na Assembleia da República) a proposta de criação oficial de um Dia da Gastronomia Tradicional Portuguesa. E era engraçado comemorarmos filatelicamente a sua primeira realização, porventura já em 2016.

Em Junho ( durante as fériazinhas) tenho ainda a comemoração dos 80 Anos do Inatel (mais um Postal Inteiro)  e ainda outro Postal sobre o Dia Internacional do Ioga, sob proposta e em colaboração com a Embaixada da Índia. Mas esta cerimónia calha em cima do casamento em que serei "padrinho"...

Por isso nesse dia  alguém terá de se encarregar da "minha" caixa de carimbos de prata (Leitão&Irmão Antigos joalheiros da Coroa fecit), carinhosamente conhecida aqui nos CTT como "caixa dos sapatos"... Embora um Sr. Ministro amigo já lhe tenha também chamado "instrumento"...

Há "instrumentos" maiores (por exemplo a Tuba) mas aquela caixita já permite albergar um "instrumento" jeitoso, para aí com 30 cm... Para que é que alguém quer coisa maior? Mas divago.

Ala que estou de férias e hoje almoço com o velho amigo Prof. Carlos Fabião!

sexta-feira, junho 05, 2015

Ir de férias com os Santos



Inicio um período de férias entre esta Segunda Feira dia 8 e o dia 22 do mesmo mês.

Tenho casórios na aldeia serrana! De um deles serei o Padrinho!!

A responsabilidade é grande. Andar com a noiva no carro, sempre com um olho no cunhado e demais primos, não vão "descarrilar" no meio do "Copo de Água" ( se fosse só "de água" estava eu mais sossegado...).  O que vale é que o noivo é oficial da Guarda ( não estou a brincar!).

Posso ir espaçando os Posts aqui no Blog. Logo se vê como fica a inspiração antes e depois da preparação para os matrimónios (salvo seja!). Até já comecei a treinar a dicção para a leitura do Evangelho.

Em laia de aviso e de também de saudação às noivas e noivos aqui deixo um belo poema da minha ( e vossa) Sophia:

Contigo

Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte 
Para ver a verdade para perder o medo 
Ao lado dos teus passos caminhei 

Por ti deixei meu reino meu segredo 
Minha rápida noite meu silêncio 
Minha pérola redonda e seu oriente 
Meu espelho minha vida minha imagem 
E abandonei os jardins do paraíso 

Cá fora à luz sem véu do dia duro 
Sem os espelhos vi que estava nua 
E ao descampado se chamava tempo 

Por isso com teus gestos me vestiste 
E aprendi a viver em pleno vento 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

quinta-feira, junho 04, 2015

O vale, afinal, era Verde...

Temos o famoso linguista, semiólogo e filólogo Jorge Jesus em mais uma etapa da sua brilhante carreira, dirigindo-se agora com armas e bagagens para o outro lado da 2ª circular e poupando assim nas despesas de transporte e de mudança.

As razões desta alteração de percurso estão no coração. De facto é perto do órgão em causa, no bolso do peito, que  JJ costuma guardar a carteirita com os trocos.

Achei estranho, na última vez que o vi, estar o homem murmurando para si próprio:

-" Iscas Sem mãos? Junior Tikitaka? Frei Monteiro? Boi-cavalo? Evereste? Nabo com Sarro? Oriol do Rissol? Olha que pôrra! Que raio de equipa onde me meti..."

É de esperar que apoiado no ombro do grande presidente - Brutus do Coiso - estas dúvidas de início de trabalho sejam rapidamente ultrapassadas.

"Profetas da Descrença nada podem contra esta Equipa! Sobrinhos ( e tios, e primas) estão connosco! Viva a República Popular de Angola! ( e o seu mony)".

Segundo parece Luis Filipe Vieira está já a explorar o seu "Plano B".   "B" de Berço. Cidade Berço...

Mas alguns parecem acreditar que o "orelhas" estará mas é a acabar o prazo de validade dentro do clube. Leiam aqui sff:

http://comunidade.xl.pt/Record/blogs/semanada/archive/2015/06/03/o-caso-jesus-pode-ser-o-princ-237-pio-do-fim-de-lu-237-s-filipe-vieira.aspx

Voltas e reviravoltas.

Uma dúvida todavia me assola (bem escrito isto): Quando for o jogo para a super-taça mandam vir o Sub-Comissário Filipe Silva (mais os seus bastões)?  Pode ser preciso...Agora que o Guarda Abel se reformou e que o Máximo e o Barbas estão a ficar entradotes perdeu-se um bocado o respeito.

Um gajo tem que se entreter com alguma coisa e o circo das eleições ainda demora mais uns mesitos a aparecer cá no burgo para diversão dos tristes...

quarta-feira, junho 03, 2015

Três bastiões nacionais

Começando por cima: Presunto de Melgaço DOP . Produtor: Quinta de Folga (dos produtores do Alvarinho Soalheiro...) (http://www.quintadefolga.com/). De raça Bísara.

Passando para o lado: Presunto Bísaro de Trás-os-Montes. Produtor: Fumeiro do Bísaro (Gimonde)(http://www.bisaro.pt/?lang=pt&page=homepage/homepage.jsp#.VW6u1s9Viko).

E acabando em baixo: Presunto de Barrancos DOP. De raça Alentejana. Produtor: Casa do Porco Preto (http://www.porcopreto.iwork.pt/pt/produto/17/presunto-de-barrancos-dop-cortado-a-mao/).

Recomendo todos. Provei de todos e gostei de todos. São glórias nacionais que deveriam ser protegidas tal e qual como a Torre de Belém, linda jovem que perfaz 500 aninhos.

Tenho ainda uma Menção Honrosa para outro produto transtagano ( mas mais raro...).  Soledo de Mértola. (http://www.soledo.pt/pt/retalhista.php). Também ele admirável.

O que beber para acompanhar uma destas preciosidades?

Tarefa difícil que pede engenho e arte. A mais simples e diplomática forma de resolver o assunto seria a de fazer acompanhar cada um destes grandes presuntos com os vinhos tintos das suas terras: Vinhão do Minho, Tinto das Terras Frias de Trás-os-Montes; Tinto alentejano (de Portalegre para o meu gosto).

Mas porque não inventar e tentar fazer a mesma prova de copo de branco na mão?  Vinho branco sim senhores. Não me preguem na cruz sem experimentar sff!
E a alternativa que dou é um branco notável da Herdade de Portocarro (perto do Torrão). Chama-se Alfaiate.  Dele escreveu Rui Falcão:

"O vinho é um portento de austeridade, dureza, secura, extracto seco e frescura, um vinho à moda antiga que denuncia um perfil intemporal. Não tem nenhuma da frutinha tropical e sintomas de fogo-de-artifício que marcam muitos dos vinhos brancos actuais mas é um vinho sério, profundo, misterioso e que dá vontade de beber. E isso é um dos melhores elogios que se pode fazer a um vinho...".

Mas talvez mais importante do que isto tudo: bebi e gostei. Muito! Custou cerca de 13 € na Garrafeira Nacional. Colheita de 2013.


terça-feira, junho 02, 2015

A transmutação dos velhos restaurantes continua

Houve tempos em que muitos cafés clássicos de Lisboa e do Porto passaram a agências de bancos.

Em retrospectiva foram esses bons tempos, apesar dos pontapés na gramática do ordenamento urbano que essas transformações causavam...  E do ranger de dentes de muito cronista na imprensa de referência. Mas pelo menos o consumo privado ia-se fazendo, e os bancos iam angariando clientes e dinheiro.

Mais tarde viu-se  que tanto dinheiro à solta lá dentro das casas-fortes deu volta à cabeça de muito banqueiro e de muito bancário, desatando a emprestar a quem quer que fosse e sem qualquer critério. Mas isso foi depois.

 A crise de 2008 causou (também) que o fenómeno da mutação das fachadas comerciais nos centros das cidades  se tivesse invertido: fechavam agências de bancos, fechavam estações de correios, fechava o comércio tradicional de bairro, fechavam restaurantes familiares. E abriam lojas dos chineses, abriam "hamburguerias", abriam lojas de compra e venda de ouro.

Um dos últimos baluartes da restauração popular na zona da Praça D. Luis, em Lisboa,  acabou por não resistir à voracidade destes tempos.

A "Adega dos Macacos" vai ser transformada em mais uma "Hamburgueria"...

Depois de estoicamente ter sabido suportar as obras infindáveis do parque de estacionamento subterrâneo (em primeiro lugar) em frente ao mercado da Ribeira e ( a seguir) as obras da sede megalómana da "chinesa" EDP, não conseguiu enfrentar o aumento astronómico dos preços do aluguer.

O senhorio conteve as rendas durante uns 8 ou 9 anos, enquanto que o ordenamento das ruas e dos jardins esteve adiado, mas logo que a situação finalmente se recompôs afinfou-lhe a receita completa, não se esquecendo de ter em linha de conta para agravar as verbas os tais anos de contenção.

O problema é que o pouco pé-de-meia dos gerentes do restaurante foi-se esgotando nos tempos das vacas magras, quando apenas sobreviviam ao encerramento das ruas ao tráfego e à falta de estacionamentos, e não houve como esperar pela possível recuperação.

Temos assim mais uma casa de Hamburgers!  Era aquilo que mais faltava em Lisboa, como concordarão...

Uma palavra de simpatia e um abraço de amizade para o Sr. Luis que levou mais de 40 anos a atender-me.

Comecei por lá ir quando meu tio Joaquim era gerente do Fonsecas e Burnay da Rua de S. Paulo, e por vezes convidava o sobrinho universitário para almoçar com ele na Adega dos Macacos. E continuei depois, com mais frequência quando trabalhei em frente, no paradigmático edifício cor-de-rosa dos CTT , com torre de relógio.

Era uma casa honesta, onde por um prato do dia bem confeccionado e abundante, de tradicional cozinha portuguesa, se pagava cerca de 8 € e onde uma refeição completa, com vinho, queijo fresco, café e sobremesa, raramente excedia os 17 €...

Faziam por encomenda o arroz de línguas de bacalhau, o bacalhau assado e lascado à ribatejana e a carne do alguidar bem frita à portuguesa (sem a ameijoa). O peixe fresco ali da Ribeira (mesmo em frente) podia também ele ser encomendado e muitas "cabeças" lá comemos... De Cherne, de Garoupa, de Pescada, de Pargo...

Paz à sua Alma! Bom descanso para empregados e gerente!

segunda-feira, junho 01, 2015

Os "Outros"

Neste fim de semana tive de dar boleia às minhas santas que iam de visita a um sobrinho, meu primo em segundo grau, internado numa instituição particular para pessoas adultas com deficiência mental e  necessidades especiais.

Normalmente esses locais não fazem parte do nosso imaginário do fim de semana.

Mas é muito importante que existam na nossa sociedade organizações - públicas e privadas - que se preocupem com estes casos de deficiências , os quais muitas vezes se transformam em situações de grande ansiedade para pais idosos, com receio de morrer e deixarem os filhos com deficiência abandonados,  ou com medo de ficarem sem forças para manterem os cuidados em casa nestas condições.

Os "cuidadores" deste Centro onde fomos - muitos são voluntários que se chamam e são tratados como "padrinhos" - são de uma dedicação e de uma delicadeza que comove.

Este projecto específico - da CEDEMA - tenta apostar na integração na sociedade através de trabalho comunitário e da existência de um centro de dia onde os idosos da comunidade de Odivelas, onde o projecto está inserido, podem interagir com os utentes portadores da deficiência.

Um projecto científico está também em marcha, tentando investigar até que ponto a interacção dos utentes com as pessoas idosas das comunidades envolventes pode melhorar os processos cognitivos e comportamentais dos primeiros.

Obviamente que estes projectos têm de ser pagos, através da colaboração da Segurança Social e de alguns utentes que podem fazê-lo (pelo menos contribuindo com as suas pensões caso as tenham). Mas outros não têm quaisquer meios para financiar a estadia.

E aqui é que podemos entrar nós. Ajudando, está claro! Vejam aqui sff:

http://www.cedema.org.pt/textos.asp?tipo=quemsomos

No intervalo dos "comes e bebes", dos filmes e dos jogos de futebol,  manda o coração que haja algum tempo para dar atenção ao que realmente também importa.