terça-feira, julho 28, 2015

Embirro com os "reality shows".



Eu embirro com poucas coisas, mas discordo de muitas.
"Embirrar"  é para mim sinónimo de reacção pouco racional.

"Embirramos" com algumas coisas sem saber bem porquê... Tem raízes fundas, o "embirrar".

Talvez nos traumas da infância ou da adolescência? Ou não viesse a palavra "embirrar" de "birra" , daquilo que fazem os meninos e as meninas quando são contrariados.

Já por outro lado, o "discordar" é próprio da civilização. Discorda-se de uma decisão, discorda-se de uma exposição de ideias. Discordar permite  utilizar depois o contraditório. Contrapor as nossas ideias às ideias que foram emitidas e com as quais não concordamos.

O contraditório mais natural da "embirração" é gritar: "Porque sim! Porque acho que é assim! Porque me irrita ser de outra forma!".

Já aqui expliquei que "embirro" com três coisas na restauração: quererem fazer passar por peixe do mar o que é de piscicultura, apresentar no tacho  lampreias de barragem (francesas ou canadianas) a fingir que são das apanhadas no rio, aqui em Portugal e tentarem convencer-nos que "aquelas perdizes são mesmo de caça", quando logo se percebe pela pouca consistência dos peitos que foram criadas em gaiolas.

Hoje trago à colação outra das minhas "embirrações". Mas esta é mesmo profunda!

São os "reality shows" e outras coisas parecidas: Tudo o que envolva pessoas a serem "despidas" em directo da sua dignidade para gáudio da audiência.

Bem sei que as supostas "vítimas" foram  para ali a tentar receber dinheiro e por vontade própria. Bem sei que estes programas são ímanes para a grande maioria dos espectadores e nenhuma estação de TV poderá hoje em dia passar sem eles, se quer continuar a atrair anunciantes.

Mas a minha "embirração" é irracional. Não tem em consideração aquelas verdades do mundo mediático. Não a consigo explicar. Só sei que existe e que é profunda.

Abrange as "Quintas disto e daquilo", "Big Brothers", " Master Plans", "Casas dos Segredos", " Peso Pesado" e passa depois pelos "Ídolos", "Canta para Mim", etc, etc...

Abomino aquilo tudo. Desde as cenas de nudez, sexo e de violência (as que mais agradam ao "povão") até às reacções do tipo homofóbico, revelações de segredos íntimos em horário nobre, pedidos de casamento em directo, humilhações públicas e o mais que houver ( e há!).

Consigo perceber quem  faz estas imbecilidades e até quem nelas participa  por dinheiro. O vil metal escraviza tudo e todos. E todos - incluindo eu - dele necessitamos. Não haja hipocrisias.

 Não consigo é perceber quem gosta  de ver estas indigências mentais... Mas nessa opinião estou obviamente muito ultrapassado e muito atrás do "trend" actual.

Os "Reality Shows" são a "fast food" ordinária do entretenimento.  Ocupam agora o lugar do futebol e do fado como ferramenta de alienação da populaça.  São os jogos de coliseu do Imperador Calígula transvestidos de roupagens actuais.

Estou a ficar velho. Devo estar a meio caminho do asilo geriátrico...

Imaginem vocês que ainda sou de opinião que ler um bom livro é infinitamente mais enriquecedor.

Embora também  admita que há alturas em que a "malta" quer é mesmo diversão sem introspecção. Gratificação imediata.

Uma espécie de "shots" com vínculo assegurado para a bebedeira rápida, sem passar pela fase do "vinho branco, tinto e whisky velho". Sem requinte nem maneiras civilizadas.

Consigo compreender isso. De vez em quando...

A resposta pode ser:  vejam um filme engraçado. Ou uma série de TV ( a HBO tem algumas de cair para o lado).

Nem sempre Ingmar Bergman, nem sempre Peter Jackson. Nem sempre Teixeira de Pascoaes, nem sempre Eça de Queiroz.

Os desenhos animados do  Chuck Jones (Bip-bip) ou do Tex Avery (Droopy) ainda hoje são para mim  bons substitutos do Prozac .

Somos humanos e temos direito à diversidade na qualidade.  Na qualidade!!  Sublinha-se qualidade!

Um comentário:

Ana Jorge disse...

Concordo perfeitamente consigo.