quinta-feira, novembro 22, 2012

Pessimismo ou Otimismo são inatos?

O psiquiatra de serviço nas manhãs da TSF dizia, com graça, que existiam dois tipos de pessoas:
 - Os que eram "Pré-divorciados" , os quais  mesmo no melhor dos mundos conjugais andavam sempre a queixar-se e a fungar pelos cantos, convencidos da sua infelicidade.
- E os "Apaixonados" , que mesmo que vissem a mulher ou o marido na cama com outro (a) achariam que estavam mas era a ver mal e marcavam consulta no oftalmologista...

Na bissectriz entre as duas atitudes, entre o "8" e o "80"  estaria a "normalidade" desejável e desejada.

Começo o Post desta forma porque me apercebi que estou a mudar o meu comportamento em relação a essas coisas.

Sempre fui otimista por natureza, tentando encontrar em todas as situações  a face mais positiva. Neste momento, e sem dúvida que "massacrado" pelo aperto de cinto que todos estamos a sofrer, sinto cada vez mais dificuldade em encarar o mundo de forma tão "sorridente" e "descuidada".

Já nem falo nas vezes em que tenho de controlar a carteira, (mal) habituada a outras andanças, pois estou convencido que essa "reeducação" é mal necessário e comum a todos nós.

O pior é mesmo a ausência de sentido de futuro que resulta de ver e ouvir os principais atores nesta tragédia em que Portugal faz de palco.

Desde o 1º Ministro até ao Ministro das Finanças, passando pelo Sr. Abebe Selassie, Chefe de missão da Troika e representante do FMI em Portugal.

Este, na sua entrevista de fundo aos dois "Notícias" , levanta-se contra ainda mais aumentos de impostos, mas aconselha: "chegou o tempo dos cortes nos sistemas sociais. A opção do Governo deve ser cortar na despesa e debater a fundo o que fazer na saúde, na educação pública e nos apoios sociais."Vejam aqui sff:

À primeira vista o Sr. Selassie começa bem - Mais Impostos não!

Mas analisemos melhor:

1) Considerando o balde de trampa que nos vai cair em cima da cabeça com base no orçamento de 2013 , ao nível do IRS, como seria ainda possível cobrar mais impostos neste país?

Acabava por se gastar mais dinheiro na manutenção de uma Polícia que controlasse os contribuintes não pagantes... E se se instituisse a prisão por dívidas (à moda do tempo do Sr. Charles Dickens) não haveria em Portugal prisões que chegassem para os faltosos...

Ora a 1ª regra do dono dos escravos - mesmo lá para o Alabama de 1860 -  era não matar o "investimento" antes deste render o que se esperava!

2) Agora, no eufemismo das palavras "cortar nas despesas sociais" , o que deveremos efetivamente ler?

Bem falou o "velho do Restelo" encartado, Medina Carreira:  Só faz sentido ir cortar nas verbas maiores - Pensões de Reforma e Ordenados de Funcionários Públicos. Por muito que se corte na Saúde e na Educação, são quantias relativamente mais reduzidas do que o resto. Atuando apenas nessas vertentes não é possível arranjar os 4 mil milhões que são necessários.

Não se esqueçam que  Abebe Selassie, chefe da missão do Fundo Monetário Internacional (FMI), considera que Portugal tem um sistema de pensões “muito generoso”.

Quem acha que temos motivos para Otimismos?  Ninguém?

A não ser aquele "artista" que ainda acha  que vai ver  o Benfica  ganhar a Champions, mais o Campeonato Nacional, calhando a Bota de Ouro ao Sálvio e a Bola de Ouro ao Lima!

E tudo isto no mesmo ano!!

É capaz de ser pouco provável. Digo eu que já não sei nada...

quarta-feira, novembro 21, 2012

Fazer as Contas

Ontei dediquei-me a uma tarefa das mais improdutivas que conheço: deitar fora contas de restaurantes que  deixei de poder utilizar contabilisticamente - ou porque a austeridade levou a que a contribuição patronal para essas despesas seja agora pouco maior que um oxiuro (se não conhecem vão ver o que é) , ou ainda porque me recuso a pactuar com aquela cena mirabolante dos "descontos"  em sede de IRS desenvolvida pelos génios das nossas Finanças.

Lembram-se que a redução de 250 (duzentos e cinquenta) euros no IRS implica a apresentação de facturas no valor total de 26.637 (vinte e seis mil seiscentos e trinta e sete) euros de despesas, ou seja, qualquer coisa como 2.219,75 (dois mil duzentos e dezanove virgula setenta e cinco) euros mensais!

Desta forma, ala para o lixo com esse "papel" todo. Inevitavelmente houve algumas dessas faturas que me prenderam um pouco mais do que outras na altura de amarrotar e deitar fora...Pelo valor (graúdo ou miúdo) pelo local, mas sobretudo pelas lembranças dos episódios a que se referiam.

Exemplo 1 - 2 pessoas na Pensão Borges , em Baião: Carne de Vinha de Alhos para entrar, monumental Cozido à Portuguesa para dois, 1 jarro de vinho branco  avesso de Baião, 1 garrafa de Tinto Crasto 2009, 1 mousse de chocolate, 2 cafés  e uma bagaceira Alvarinha: 40,55€...

Exemplo 2 -  2 pessoas na Casa Pega de Famalicão: Bacalhau à Gomes de Sá, Cabrito assado no forno com arroz de forno, batata assada e grelos, "biquinhos" de vitela e marisco para entrar (são rissóis e eram 4), um jarro de branco da casa e uma garrafa de tinto Passadouro de 95 ( e estava ainda soberbo!), queijo da Serra para terminar e 2 cafés: 56€...

Exemplo 3 - 4 pessoas na Meta dos Leitões: Prato de enchidos da Casa de Sarmento para entrada, 1,6kg de Leitão, 3 garrafas de Espumante Sarmento Moscatel Galego, 4 cafés: 78€...

 Exemplo 4 -  o rol da minha despesa de "avio" na velha Casa  "Frigideiras do Cantinho" , em Braga (Largo de S. João do Souto) - 24 bolinhos de bacalhau (são pura e simplesmente os melhores do mundo!) , 10 croquetes e 10 rissóis: 25,45€!!

E para terminar em beleza uma conta de jantar de gala, no Beira Mar, para 7 Amigos, em ocasião especialíssima: 1,5 kg de Gambas de Cascais ainda a saltar de frescas, 2 Santolas desfiadas na sua casca, Pregado  estalado no forno (o melhor peixe deste mundo e dos arredores, uma bisarma de quase 4 kg!) , vários  toucinhos do céu e framboesas com gelado de baunilha, queijo seco de Serpa  e presunto pata negra, à discrição;  café e digestivos (vinho foi oferecido pelos convidados): 572€...

Oh Tempo, volta para trás!

Responde o Gaspar:
-"Querias oh Guloso!! Vai mas é comer M****! Por  causa dessa e de outras é que o país está como está!"
Que logo tem o responso:
-" E tu oh Bruxéu, vai mas é cobrar o imposto com um camaroeiro para o pé do caneiro da Praia da Rata, que  era para onde   iam parar antigamente os resultados destas alarvices!"

terça-feira, novembro 20, 2012

Há Palavras que matam...

Matar não digo que matem, mas lá que chateiam até encher o balde ,digo, o contentor,  disso podem ter a certeza!

A "coabitação" (por falta de melhor termo a esta hora a que escrevo) na casa do senhorio entre o dito cujo, a "santa" obrigada pelas circunstâncias e este vosso escriba, já foi mais fácil.

A Senhora avó e mãe, cansada de estar sem fazer nada a não ser "ver a Júlia" ou lá quem seja na TV e  receber as amigas (de tarde), começa a ansiar pela sua liberdadezinha de "bater chinelo" - o que sempre fez com muito gosto - daqui para acolá: do padeiro para a lavandaria, desta para a costureira, da costureira para a casa da irmã, da casa da irmã para a do sobrinho , de casa do sobrinho para a mercearia fina do Chico, dali para a Bouticarnes (o que chamam agora ao talho),  rematando tudo com largas visitas à Igreja e ao Patronato, depois de passar pelo Sr. Artur dos jornais e revistas.

Nesta roda de "contatos" se tecia a rede que a fazia feliz e que muito simplesmente consistia em  ser das primeiras a saber as últimas novidades: quem se vai separar de quem, o namoro que começou ou que acabou, o filho que sai de casa dos pais, o filho que entra na casa dos pais, o acidente, o emprego de fulano ou o desemprego de sicrano, etc, etc...

Como isto lhe falta e não me compete nem a mim nem ao senhorio alimentar esta ânsia de "notícias", temos que levar com as más disposições e os impropérios de quando em vez.

Bem, não é sempre! É só desde que chego a casa até que saio. Para estar livre do azedume e das aleivosices verbais o importante é não estar em casa!

Ontem, por exemplo,  reparou em mim e disse-me:

-"Com a gordura até parece que encolheste homem! Estás cada vez mais baixo!"

A mim irritam-me referências à minha altura. Não sei bem porquê ou se devemos procurar causas profundas e à moda de Freud nessa questão. Mas irritam-me!

-"Eu tenho 1,79m agora e desde os 18 anos de idade Mãe!"
-"1,79m? Pois não pareces!  E quantos quilinhos?"

Não sei se já referi que também me irritam referências àquilo que peso? Irritam-me mesmo!

-" Não tem nada a ver com isso!"
-"Deves ir nos 150kg! Ou mais!"
-" Que exagero Mãe!"
-" Pareces um quadrado! Tens mais de lado do que de altura!"

E daí para a frente ficou a falar sozinha, porque me lembrei de repente que tinha de fazer na Garret...

Quando cheguei logo disse:

-"Foste à Garret e não me trouxeste  nada?"
-"A esta hora já estavam os bolos frios. Mas tem aqui broas castelares"
-"Disso não gosto!"
-"Mais sobra!"

Se tivesse trazido o habitual queque de maçã frio ainda mais levava que contar...

Não é fácil! Como conseguiremos aguentar mais um mês ou dois?

Bem, tal como "não há bela sem se não", também nas situações mais desastradas existe refrigério. É preciso é saber encontrá-lo!

No caso vertente importa saber  que lá em casa  tenho a carteira da Senhora mais à mão de semear... E com a confusão dos medicamentos  o controlo sobre o saldo do cartão de crédito é decididamente menor...

 Levantamento a levantamento...Lá vamos aguentando...E olhem que podia ser pior...

Agora só falta o chibo do meu primo ir fazer queixinhas! Mas eu sei onde é que ele mora!

segunda-feira, novembro 19, 2012

O verdadeiro português: Manuel Borda d'Água!

Na TV deste fim de semana deram uma reportagem (acho que foi na TVI24) sobre o "último dos campinos": Manuel Borda d'Água.

Este senhor de 87 anos, que não lê jornais nem vê a televisão, mas que continua  rijo que nem corno de touro bravo, deu uma lição de vida a muita gentinha cá do burgo, com as suas respostas sinceras. Ora leiam sff:

- "O Senhor Manuel já ouviu falar da Troika?"
- "Treta?"
-"Não senhor, Troika!"
- "Nunca ouvi falar. Que bicho é esse?"
- "E da Chanceler Merkl?"
- "De quem?"
 - "Da Senhora Merkl!"
 - "Merdl? Merdl, Merdl nunca ouvi falar nem sei quem será..."
 - "Sabe quem é o Passos Coelho?"
 - "Coelho? Olhe ainda vi ali um há bocado, a fugir pela campina !He,he,he .... "
 - "Não é esse. É o primeiro Ministro Passos Coelho!"
 - "Atão puseram um coelho a mandar nisto?"

 E terminou em grande:

-"Sou pequeno mas danado para trabalhar! Fora esta que aqui vê nas minhas mãos, já são 3 enxadas que parto! E ainda me faço à terra , como estão a ver... Fumo muito? Se não fumasse já tinha morrido minha senhora..."

Ah grande ribatejano!  Ele e o seu cão "Valente",  rafeiro negro que já deve ter visto melhores dias, na sua juventude, mas que nunca o larga.

Quando me deparo com estas cenas ainda julgo que existe esperança para todos nós...

quinta-feira, novembro 15, 2012

Antecipação

Amanhã vou lançar o Postal Inteiro comemorativo dos 150 Anos da  publicação do "Amor de Perdição" , a S. Miguel de Seide , e não passarei por aqui. Vou num pé e venho no outro, para não ter que passar qualquer noite fora de casa atendendo às circunstâncias...

Por isso aqui deixo antecipadamente o habitual poema das "sextas".

De Mestre Almada aqui vai uma incursão (notável!!) no campo da fantasia mística, à moda do também grande Lima de Freitas noutra expressão artística. Este sim, o pintor por excelência de todas as fantasias e excentricidades.

Ambos foram - digo-o com muita honra - artistas que trabalharam para os CTT, fazendo originais de selos vários.

  Sèvres Partido

A amazona negra era bella como o sol e triste como o luar,
e ninguem acredita mas era pastora de galgas.
Figura negra muito esguia,
cypreste procurando vaga na margem do caminho.

Nas manhãs de Outomno, frias como os degraus do tanque,

 era Ella quem largava às galgas a lebre cinzenta,
e a que a filásse já sabia com quem dormia a sésta.
E as galgas já nem dormiam bem noutra almofada.

Sobre a relva, na sombra arrendilhada

das folhas amarellecidas dos plátanos
onde os repuxos do tanque cuspiam lagryrnas de vidro,
a Amazona negra sonhava o seu Principe encantado
e a galga do dia dormia quieta,
estendido o focinho no ventre d'Ella.

Uma manhã mais turva as galgas todas voltaram tristes,

de focinhos pendidos - e nenhuma para dormir a sésta!

Uma flauta triste vinha de viagem pelo caminho;

 chorava de seguida imensas canções de choros
e tinha acompanhamentos funéreos de guisalhádas surdas.

Callou-se a flauta, um cypreste distante gemia baixinho

 as dôres da tatuagem que lhe iam abrindo no peito.
O pastor lembrava ali o nome do seu Bem.

Pendia-lhe da cinta uma lebre cinzenta e a funda torcida.
As galgas como settas deixaram nú o caminho. E as guisalhadas...

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'




Nota: Pintura "O Istmo" de mestre Lima de Freitas

"O Istmo - tela de Lima de Freitas -, assegura a máxima alquímica: o que está em baixo é como o que está em cima… Terra e Céu e Céu e Terra. O istmo do mundo Imaginal faz a mediação entre o mundo material e o mundo espiritual, entre o inteligível e o sensível, entre o imaginário e o simbólico. Está de acordo com o objectivo da Obra alquímica: (re)ligar Céu e Terra, espírito e matéria, por outras palavras, “materializar o espírito” e “espiritualizar a matéria”.

Trecho retirado de: ELEMENTOS ALQUÍMICOS (2)                                            Raquel Gonçalves (Departamento de Química, Faculdade de   Ciências, Universidade de Lisboa)

quarta-feira, novembro 14, 2012

A Greve Geral

Ontem não passei por aqui. Mais uma urgência com a "santa". Nada que eu não estivesse à espera... Vê-se sem dores e com alguma mobilidade e vai de imaginar que está "boa e pronta para outra!"

Mas não está. E ontem pregou-nos um susto com as exéquias que por lá fez em casa,  tal e qual como se estivesse a treinar para alguma maratona com o colete dorsal de identificação vestido , quando o que ela tem é mesmo um colete de imobilização! Não é a mesma coisa......

Mas está resolvido até à próxima. Questiono se não será de a trazer todos os dias para o emprego comigo? Pelo menos aqui estava debaixo de olho... E poderia ser (grande vantagem!) que contribuisse para a demolição da conhecida "unidade de queimados" do passeio do Báltico.

Mas hoje é dia de Greve Geral.

Já sabem que enquanto for responsável desta casa não adiro. Não tem a ver com nada de ideológico. Apoio as reinvindicações e compreendo o mal-estar e o ranger de dentes.

Mas mandava a honestidade e a frontalidade que antes de fazer greve me demitisse primeiro das funções que tenho, já que sirvo em comissão de serviço ( a conhecida frase "I serve at the pleasure of the President" tanto se aplica na West Wing lá da Casa Branca como aqui em Portugal).

Fora isso,  o que vi hoje entre as 6,10 e as 7.10H?  Mais carros na estrada mas nenhum autocarro. A  Versailles abriu com menos pessoal na barra - e com os sócios a atenderem, o que só lhes fica bem. Havia Jornais e os quiosques funcionavam. Metro? Nem sombra dele, pelo que me disseram.

Esperemos lá mais para os noticiários das 20h para saber os detalhes, uma vez que esta Greve é generalizada ao Sul da Europa e terá ainda a solidariedade de mais uns vinte e tal países.

Uma coisa é certa: com o relatório económico do Banco de Portugal (que saíu ontem) a pintar ainda mais de negro uma situação que - a bem dizer - já era fuliginosa, não será de esperar que quem de direito ouça os clamores dos trabalhadores?

De esperar será. Mas que os tais  "de direito"  farão ouvidos de mercador mais uma vez , isso  também me parece seguro.

Tão "seguro" ou mais do que o enconapado do homónimo, cabeça da oposição e que  - em bom português vernáculo - "nem defeca nem sai da moita"...

(Não era bem defecar, mas V. já compreenderam o que era.)

Há dias em que um gajo acorda a pensar que devíamos todos levar uma carga de vacinação geral de bom senso. De   cima para baixo e da  esquerda para a direita... Assim uma espécie de benção em forma de Cruz.

Só que os espertos do Laboratório Pasteur de Paris ainda não descobriram essa vacina. Ou já a descobriram e a malta das secretas (talvez os Illuminati" que estão outra vez na moda) fez desaparecer os cientistas para não ser divulgada...

Vejam aqui sff ( e não se riam muito, porque o mundo está perigoso!): http://www.realidadeoculta.com/illuminati.html

segunda-feira, novembro 12, 2012

A Visita do Papão,ou da Papoa...eh... ou da Coisa ou lá o que é...

Por algumas horas Portugal será o "centrão" da Europa toda. Vem por aí a Chanceler.

A Kaiserin Ângela chegará,  ficará 6 ou 7 horinhas e partirá.

Falará com os súbditos Cavaco, Portas e Passos. Passará por uma conferência organizada pela Câmara de Comércio Luso-Alemã onde estarão empresários "convidados"..

Ignorará mais de metade do País , o que, nas presentes circunstâncias, não é bom nem é mau, é um acontecimento  inevitável.

Deve ser bem recebida? Sim, obviamente. Isto ainda não é uma terra sem rei nem roque. Bem recebida dentro dos limites da hospitalidade lusa, mas sem que lhe beijem a fímbria do manto ou deitem no chão as capas para que ela não molhe o delicado pézinho...

É uma representante de uma certa sociedade do centro da Europa que nos conviria analisar friamente antes de enveredarmos pela condenação pura e dura. Ora leiam sff:

A Senhora Merkl é herdeira de uma sólida educação burguesa e calvinista. Com formação na área das ciências exatas ( Física teórica). Convencidíssima que não há pão sem suor do rosto , nem prosperidade sem trabalho árduo. Respeitadora em último grau das fontes  do dinheiro. Amada pelo seu Povo, a quem garante que não serão "eles" (os trabalhadores e honestos tedescos) a terem de pagar o "sempre em festa" em que se tornou a vidinha de todos os dias dos povos sulistas. Crente , sinceramente, que a destruição do tecido económico português ( e grego, e espanhol, e italiano , e...) foi fruto de décadas de dissipação , de falta de controlo e de truques de baixa política para ganhar eleições (e quem lhe prova o contrário?).

Agora, vamos nós tentar colocarmo-nos dentro dos seus sapatos. Sei que é difícil, mas tentem lá.

Sem conhecimento específico daquilo que por aqui se passou ( e eu pergunto: mesmo nós que cá vivemos sabemos extamente o que se passou e que deu nesta miséria atual??!!) é de estranhar que a Senhora em causa torça o nariz às Greves, Manifestações e  e outros clamores dos Povos por onde passa? E que defenda a Austeridade como única resposta para tudo? Uma espécie de Purgatório Protestante nesta Terra?

Não é nada de estranhar. Acho eu.

Mas obviamente que o que ficou dito é apenas uma das faces da moeda.

O problema é que "ela" também não quer saber as minudências que nos levaram todos até aqui...

Por exemplo,  de que forma as manobras dos "seus" banqueiros foram responsáveis pelas crises das dívidas soberanas...

Ou ainda - e talvez mais importante - porque é que a política comum da União Europeia , dominada pelo Centro da Europa, deu cabo da Agricultura, da Pesca e de alguma Industria dos Países periféricos, a quem os "nordestinos" pagavam para não trabalharem a terra e para abaterem os navios em vez de irem para o mar fazerem pela vida.

E será tão responsável quem tomou essas decisões como quem - confesso que talvez de braços abertos - as aplicou e aceitou.

Em conclusão: Não se trata de uma Valquíria em busca de vingança depois das humilhações de 1918 e de 1945, como muitos imaginam. É mais uma Reitora severa, que castiga o mau comportamento dos alunos sem levar em conta que os professores têm eles também responsabilidade no mau aproveitamento. E isto sem falar dos "chefes de turma" , os Primeiros Ministros que por cá formaram Governos.

Quem a nomeou  Reitora? Foi quem lhe pediu dinheiro para tapar o "buraco" que se abriu por debaixo de nós.

Há alternativas? Enquanto for "ela" a mandar na torneira desse dinheiro, não há.

Ou melhor, há a alternativa de sair do euro e recomeçar a vida sem luxos , sem demagogias e sem importações.

Lá mais para o meio do ano que vem veremos se essa alternativa, agora tão sinistra, não se revela de repente mais atraente...

Espero que não, mas já não juro nem prometo nada.

Nota: Tradução livre do "balão" : " É preciso Poupar! Eu já começei,  vejam como estou a usar os trastes  velhos lá guardados em casa..."

sábado, novembro 10, 2012

Para Descansar a Vista

Tal foi a volta que a vida deu que me esqueci do poema das Sextas... Não faz mal. Vai hoje ao Sábado!

Não quero que falte poesia na nossa relação malta!

Do moçambicano Mia Couto uma reflexão meia amarga sobre o Destino:

Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


E sempre tendo por horizonte o mesmo Destino, aqui vai uma peça um pouco mais alegre, que bem precisamos todos.

Quem não gostaria de embarcar nesta "nau" admirável aqui lançada ao Mar por David Mourão-Ferreira?

A Secreta Viagem

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"






sexta-feira, novembro 09, 2012

A Jardineira da nossa Avó

Uma "jardineira" é um guisado que, como o nome indica, pode levar vários legumes (uma espécie de “jardim” dentro da panela).  Era antigamente um cozinhado de Verão, altura em que levava as batatas novas, as ervilhas frescas, o feijão verde da horta...Hoje em dia faz-se todo o ano e como se deve comer bem quente não deixa de ser uma bela comidinha de conforto para os dias de invernia.

A minha avó paterna, que sabia muito de cozinha, fazia mais ou menos assim:

500g de carne de vaca
1/2 chouriço de carne
1 cebola média
2 dentes de alho finos
2 tomates maduros
2 cenouras
200g de ervilhas (ou de feijão verde)
500g de batatas aos cubos
3 colheres de sopa de azeite
sal e pimenta qb
meia malagueta para quem aprecia, desfeita.

Fazemos um refogado com o azeite, a cebola, os alhos, as cenouras, o chouriço e os tomates, todos cortados em pedaços pequenos ou rodelas.
Estando bem apurado, acrescento um pouco de água com a concha e espero que ferva.
Juntamos depois  a carne em pedaços e deixamos cozinhar 20 minutos em fogo lento e com a panela tapada.
 Finalmente, acrescentamos as batatas cortadas aos cubos, as ervilhas, o sal e a pimenta. Devemos ir vigiando e juntar mais um pouco de água, sempre com a concha, caso seja necessário para não pegar.

Está pronto quando as batatas estiverem cozidas.
Tiramos do lume  e esperamos uns minutos para abrir os sabores.

Um Segredo da "bisa" Jerónima: A minha bisavó cozia sempre antes um pedaço de toucinho magro em água. Hoje diríamos "Bacon". Depois era dessa água que ia acrescentando ao guisado, a pouco e pouco. O toucinho, desfiado ou cortado às tirinhas, acompanhava a jardineira para dentro da panela antes de esta  ir para a mesa...

Vai ser o nosso almocinho de hoje. Vou abrir uma Ermelinda de Freitas Touriga Franca de 2009 para ajudar à festa. A "santa" não bebe... Mas fazia-lhe bem. Acho eu que não sou médico...

quinta-feira, novembro 08, 2012

Antevisão da Reforma

Um gajo acordar à hora normal e ficar a olhar para o relógio até que se possa levantar sem causar dano aos outros é complicado.

Claro que já acontecia nas férias, mas agora com a "santa" cá em casa é ainda mais complicado.

Faz-se o que se pode, e dou comigo a pensar que se esta chatice que agora desabou sobre nós durar muito - e vai durar, disso não há a menor dúvida - há que encontrar uma rotina que não nos faça perder qualidade de vida, equilibrando os necessários cuidados com a doente e alguma alegria de viver para todos.

Neste momento a rotina teima em não se deixar instalar. Ainda é cedo demais. Os medos são muitos e a ansiedade que alguma coisa de mal possa acontecer - o receio de alguma queda por exemplo - é alta.

Quer eu quer o senhorio não saímos de casa a não ser para o essencial, para comprar pão e as outras "mércolas", e estamos sempre com o olho no burro e o outro no cigano (salvo seja), pois a Senhora, como está medicada e não sente dores, está cada vez mais "soltinha" e perigosa...

Vingo-me a cozinhar. Por acaso distraio-me com isso e é o que vale para amenizar as horas que custam a passar... O Senhorio ainda está ocupado com a Tese, mas eu, se não fossem os fogões, havia de me aborrecer de morte.

E por isso concluo: E se esta vida que agora levo fosse em parte a antevisão da reforma?...Que grande maçada!!

Ir do sofá da sala para a cadeira da mesa do almoço? Saber de cor a que horas dão os programas favoritos na TV? Esperar pelas 15h para começar a receber as chatas das visitas (as vizinhas e amigas não largam...). Olha que Pôrra!

Antes dedicar-me ao golfe !! Pelo menos andava agarrado a maior parte do tempo (ao pau) e ainda dizem que de vez em quando costuma haver uns beneméritos que abastecem um certo "buraco" com umas garrafitas do escocês... Isso é que era!!
Tás a ouvir Luiz?

quarta-feira, novembro 07, 2012

Férias forçadas

Estarei até Segunda feira em casa, apoiando a  "santa" cá de baixo nos primeiros dias do  seu regresso do Hospital,  agora que está com a mobilidade severamente diminuída...

É de esperar "sangue , suor e lágrimas"... da minha parte , está claro!

Os Posts podem sofrer com esta contingência...

Barack: Toma lá mais Quatro!

Ainda sem saber -  à hora a que escrevo - se o número total de americanos votantes preferiu Obama a Mitt Romney ( são idiosincrisias do sistema eleitoral estadounidense o facto de algumas vezes o Presidente eleito não ter obtido a maioria dos votos expressos. Aconteceu com Al Gore face a Bush filho por exemplo...)

O que é absolutamente certo é que na votação que interessa - a dos Grandes Eleitores - Barack Obama já ganhou!

Tem mais 4 anos para mostrar o que vale .

Se possível dê aqui uma mãozinha de pensamento económico mais "democrático" a esta Europa presa pelo frenesim da Austeridade sem Crescimento.

Isso é que era bom!

terça-feira, novembro 06, 2012

Quem manda no Mundo? Logo se saberá...

A frase do título já foi mais verdadeira , noutros tempos em que um Homem era um Homem e um gato era um gato (que saudades do Sebastião!) , em que  existia o famoso "muro", a cortina de "ferro" e mais a de "bambú", em que a malta saía de casa ansiosa por voltar sem que a sombra maléfica do abominável cogumelo atómico tivesse aparecido nos céus do planeta.

Hoje tudo mudou. O folclore associado às "nukes" já só serve para fazer uns filmes , ou para justificar umas sanções contra o Irão, e o Sr.  Presidente dos USA já não mandará assim tanto no mundo como na altura em que o "cowboy Reagan" ocupava esse posto de "mandão-mor" ex-eaquo com o Gorbachov...

Quem manda hoje mais no planeta?

Boa pergunta... Não sei o que lhes responda. Talvez não exista resposta única nem definitiva. Tudo é relativo. Hoje algum consórcio financeiro, amanhã uns especuladores da dívida soberana, ou fabricantes de armamento, ou (porque não?) até a malta dos sistemas de comunicação integrados e das redes sociais.

Se a informação é poder, os gajos mais informados do mundo devem ser os da National Security Agency (NSA) dos Estados Unidos da América.  

Nota: The National Security Agency is the Nation's cryptologic organization. It coordinates, directs, and performs highly specialized activities to protect U.S. information systems and produce foreign intelligence information. A high technology organization, NSA is on the frontiers of communications and data processing. It is also one of the most important centers of foreign language analysis and research within the government.

E como (teoricamente) essa tribo da NSA ainda depende do Presidente dos USA, acho que posso voltar ao título:

Quem mandará no mundo amanhã de manhã?

Parafraseando vários artigos de opinião saídos por estes dias na nossa imprensa, eu também diria: Se fosse americano votava Barack Obama!
Porquê?

Bem, depois de muito pensar acho que é por muitíssimos motivos que têm a ver com a intrínseca democraticidade da personagem: é um liberal sem o "neo" antes, tem resquícios Keynesianos na sua personalidade económica, defende o trabalho e o emprego, criou o sistema de saúde para todos, tem a vontade de acabar com vergonhas como a da prisão de Guantánamo (espera aí que esta não me saíu muito bem....).

Retomo:  e para além de tudo o mais, porque o homem tem um cão de raça portuguesa! É o Bo!


Ganha lá isso Barack! E depois traz o cão para ver a casa dos seus avós (enquanto esta existir...).

segunda-feira, novembro 05, 2012

Mafra: O concerto dos 6 órgãos e o resto...

Neste Domingo a necessidade de andar rápida e eficientemente foi grande.

Tinha que ir ao Hospital ver como as coisas estavam encaminhadas  e graças a Deus vão bem, tendo em conta a situação, que não é simples. A "santa" já se senta (com o colete de imobilização) e já começou a dizer mal do pessoal do Hospital, o que é sempre bom sinal. O problema é quando for para casa ( e tem de ficar na minha, que não tem escadas...). Mas, como dizia o Dr. Pilar, "hoje resolve-se o problema de hoje e amanhã o de amanhã. Um de cada vez porque tudo junto só complica!"

Depois da visita  obrigatória partia para  Mafra para apresentar o selo comemorativo do Palácio de Mafra, no intervalo de uma sessão que começava  às 15h com um concerto para os seis (6!) órgãos da basílica e continuava com a Missa Breve de Haydn, com coro de 70 vozes.

E havia ainda que "enfiar" o almoçito no meio destas tarefas todas.

No centro de  Mafra , ao Domingo, um gajo vê-se aflito para almoçar! É pior do que a baixa de Lisboa depois das 20h, em dia feriado... está tudo fechado!

Lá encontrámos (eu e o senhorio) uma Churrasqueira que servia transeuntes ao Domingo. Casa modesta, modestíssima!

Tinha Cozido à Portuguesa como prato do dia, sendo que, como depois se viu, a meia-dose era descomunal: vinha em 2 travessas, uma para as carnes e enchidos e a outra para os vegetais. Tinha bom aspecto e quem comeu achou bom. Antes do final ainda vieram "carregar" a travessa das carnes com mais chouriço, farinheira e morcela. Custava 8€ esta meia-dose.

Eu comi meio frango assado (a 5€) com batata frita, arroz e salada.

Vinho só havia o da casa, branco da Vermelha e agradável, o Tinto era  mesmo ali de Mafra  ( e menos conseguido, para mim).
Beberam-se 4 cafés. Pediram-se 2 whiskys mas o proprietário só tinha Chivas. Lá veio para a mesa uma garrafa velhinha, ainda sem "stopper" no gargalo. E aquele quando foi engarrafado era mesmo do bom!

Tudo somado paguei...27 €. Doçuras provincianas?

Nota engraçada: na Churrascaria em causa ouvia-se a televisão, mas não se via nada... O aparelho, ainda daqueles com cinescópio, não "imaginava" nada! Nadinha mesmo! Só saía som daquela caixa. Parecia assim uma espécie de "voz off" que ia relatando umas cenas para invisuais... O Proprietário, dando-se conta que estavam na sala duas criaturas de gravata, não quis que ficassem com má impressão da Churrascaria! Arma-se de um secador de cabelo e vai de dar valentemente ar quente na TV! Mas sem resultado até virmos embora...

O Concerto dos órgãos de Mafra:
São seis e têm nomes: São Pedro de Alcântara, Sacramento, Santa Bárbara, Conceição, Epístola e Evangelho. Os instrumentos datam de 1807 e foram os únicos alguma vez construídos com o objetivo de funcionarem em conjunto. Os órgãos foram construídos  pelos organeiros António Xavier Machado e Cerveira e Joaquim António Peres Fontanes, a pedido de D. João VI, sucessor de D. João V, que mandou construir o Palácio Nacional de Mafra.

Após um interregno de duzentos anos, os seis órgãos históricos do Palácio de Mafra, únicos no mundo, voltaram a tocar em conjunto em Maio de 2012 - Congresso Europa Nostra -  após um restauro  premiado  pela Comissão Europeia.

Dinarte Machado, foi o mestre organeiro responsável. O complexo restauro foi ainda acompanhado por uma comissão científica, liderada por Rui Vieira Nery , o mesmíssimo Autor do nosso novo Livro temático dos CTT " O Fado"!

Esse restauro, que durou onze anos e meio, foi um dos seis projectos considerados de excepcional relevância no património europeu deste ano.

Como foi o Concerto? De cair para o lado... Só não caí mesmo porque era tanta gentinha que nos apoiávamos uns aos outros...

Aqui vai o Programa:

MICHAEL PRAETORIUS (1571 - 1621)
Es ist ein Ros’ entsprungen (arranjo para seis órgãos de João Vaz)
Sérgio Silva, órgão do Evangelho
Isabel Albergaria, órgão da Epístola
David Paccetti Correia, órgão de São Pedro de Alcântara
Margarida Oliveira, órgão do Sacramento
Diogo Pombo, órgão da Conceição
Daniela Moreira, órgão de Santa Bárbara

JOÃO DE SOUSA CARVALHO (1745 - 1798)
Toccata em Sol menor
Allegro
David Paccetti Correia, órgão de São Pedro d’Alcântara

GEORG FRIEDRICH HÄNDEL (1685 - 1759)
Voluntary VI
Daniela Moreira, órgão de Santa Bárbara

ANÓNIMO (SÉC. XIX)
Sonata para dois órgãos
Sérgio Silva, órgão do Evangelho
Isabel Albergaria, órgão da Epístola

DIOGO DA CONCEIÇÃO (SÉC. XVII)
Meio registo de 2º tom
Diogo Rato Pombo, órgão da Conceição
JOHN TRAVERS (1703 - 1758)
Voluntary I
Margarida Oliveira, órgão do Sacramento

MARIANO MÜLLER (1724 - 1780)
Sonata Pastorale à quattro organi per il Santo Natale
David Paccetti Correia, órgão de São Pedro d’Alcântara
Margarida Oliveira, órgão do Sacramento
Diogo Rato Pombo, órgão da Conceição
Daniela Moreira, órgão de Santa Bárbara

CARL PHILLIP EMANUEL BACH (1714 - 1788)
Sonata em Fá maior Wq 70/3, H 84
I. Allegro
Sérgio Silva, órgão do Evangelho

FLOR PEETERS (1903 - 1986)
Miniature Nº 7 (de 35 Miniatures, Op. 55)
Isabel Albergaria, órgão do Epístola

ANTÓNIO LEAL MOREIRA (1758 - 1819)
Sinfonia para a Real Basílica de Mafra
Sérgio Silva, órgão do Evangelho
Isabel Albergaria, órgão da Epístola
David Paccetti Correia, órgão de São Pedro de Alcântara
Margarida Oliveira, órgão do Sacramento
Diogo Pombo, órgão da Conceição
Daniela Moreira, órgão de Santa Bárbara.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Noite hospitalar

Depois de 9 horas a passear o real assento pelas cadeiras das urgências do Hospital de Cascais (já quase não tinha cú quando finalmente cheguei a casa para tomar um duche) , e depois de muita interacção com a malta profissional de saúde lá do local , não posso dizer mal do acolhimento nem do tratamento (naquilo que pude observar, porque quem lá estava dentro, na maca,  a amargar, não era eu).

Noite de urgências na véspera de feriado ( e ainda por cima noite de Haloween)... É de esperar muita complicação, e mais ou menos foi isso que se passou, desde as crianças que partiram braços, cabeças  ou dedos nas festas, até aos inevitáveis idosos que tanto naquela noite como noutra qualquer têm de ser assistidos, passando pelos vários amantes de Baco, que levaram esse "amor" até ao último grau (e quando escrevo "último" era último mesmo...).

Se excepcionarmos o facto do SO ser comum a homens, mulheres, (mas não a crianças) e nele terem de se acolher tanto o bêbedo sem sentidos, como a velhinha traumatizada (que era o meu caso), nada posso dizer de mais negativo sobre as condições do hospital.

Nem macas nos corredores, nem vomitado pelo chão, nem sangue pelas paredes, nem ratos à vista (dos de 4 patas),  nem exéquias estranhas na sala de espera - apesar, ou por causa, da muito evidente presença da autoridade policial.

Para além do evidente stress da ocasião - e por muito que eu aqui brinque hoje,  para exorcisar o medo que ainda tenho,  é evidente que a situação era complicada - há que reconhecer que foi feito bom trabalho na organização da unidade hospitalar. E eu posso falar porque muito bem conheci o anterior local desse mesmo hospital.

Todavia, houve uma cena mais fora do vulgar que passo a relatar.

Uma senhora na casa dos  60's, sozinha mas muito bem arranjada - à vista parecia classe alta ou média alta - só arranjou cadeira na sala de espera das Urgências ao lado de dois cidadãos de cor que esperavam por outro que perdera os sentidos e caíra de cabeça no chão.

Os cidadãos já de si falavam  muito alto, porque tinham uns phones nas orelhas por onde ouviam música étnica, mas quando recebiam ou faziam chamadas  pelo IPhone (sim, eu escrevi IPhone!)  é que era o bom e o bonito! Toda a gente da sala de espera ficava a saber os pormenores da conversa, e era tchilar para aqui , bué para ali, e depois as inevitáveis palavras do vernáculo da malta nova (de qualquer cor):
-  "Tu não me fales desse Cabr**!";  "Da-se!" ; "Vai mas é para o Ca****!"   E por aí diante.

A senhora do lado estoicamente  nada dizia. Os rapazes de vez em quando davam-se conta e pediam desculpa:

- " A senhora desculpe a conversa..."

E ela respondia:

-" Não se incomodem porque eu sou muito falha de ouvido e nem me dou conta do que estão a dizer..."

E embora ela lhes tivesse logo respondido, como se ouvisse ainda melhor do que eu, que estava a 5 metros e não perdia nada,  eles acreditaram...

Grande Senhora!

Noite das Bruxas faz jus ao nome...

Naquela madrugada do dia 31 a Santa cá de baixo caíu, fraturou 4 vértebras e  toca a ir  de urgência para o Hospital...

Não acredito em Bruxas, mas que "las hay, las hay..."

quarta-feira, outubro 31, 2012

A Vida começa aos 91

Ontem tive uma reunião que deu em almoço (como habitual) com meu Mestre Quitério.

Estávamos sozinhos, falámos sobre tudo o que nos veio à cabeça, até (imaginem!) sobre o assunto da dita reunião.

Estes encontros são sempre assim. A memória elefantina do Zé leva-me a "desfolhá-lo"  como se fosse uma enciclopédia bem fornecida sobre todas as trivialidades que andam ao redor da gastronomia e dos seus actores.

E, como não tínhamos empenhos, nem obrigações, nem combinações (nem sequer soutiens), em relação ao local da janta, decidimos ir visitar o nosso velho amigo Sr. Emílio à sempre respeitada Adega da Tia Matilde.

Aqui o adjetivo carinhoso "velho" aplicado ao Sr. Emílio tem um significado duplamente importante: não só se trata de uma jóia de pessoa, daquelas que se não tivessem nascido teriam deixado o mundo mais pobre, como também e para todos os efeitos "legais", convém reconhecer que  o Sr. Emílio já tem de facto alguma idade...91 aninhos para ser exato.

Do alto da complacência que essa idade lhe proporciona, com a sabedoria em barda e o saber fazer no seu métier que é incomparável, o Sr. Emílio não pára: recebe os Clientes na sala. Levanta as mesas, prepara o couvert, aconselha os pratos, serve os vinhos e, quase no final, chega humilde ao pé dos comensais e pergunta em tom baixo:
-"Então como foi? Acha que estivémos bem?"

Ontem começámos com pataniscas de bacalhau soberbas! Continuámos por eirozes fritas com vinagrinho, muito boas, e seguimos em frente com mioleira de borrego mexida em manteiga e ovos.  Para estas entradas juvenis serviu-se (e bebeu-se) um Camarate Branco Seco, que satisfez, limpando o palato para o que havia de vir.

Pausa nº1. Discussão filosófica sobre um dos meus outros mestres,  Borges (a quem Quitério não perdoa o silêncio sobre a ditadura de Vilela) e Eugénio de Andrade, sobre cuja qualidade geral concordamos ambos sem qualquer esforço.

Depois do "intervalo" viraram-se os olhos e as papilas gustativas para a garrafita de Mouchão 2006 já aberta desde que tínhamos chegado. Grande Vinho, Alicante-Bouschet no seu esplendor em terras transtaganas!

E para ficarmos de igual para igual reparem só no que se seguiu: Canja de Robalo de mar com ameijoas (deslumbrante!) . Coelho bravo à caçadora (magnífico de sapidez, molho guloso e pujante) . Canónico de apresentação e conteúdos.

Pausa nº 2. Aqui aproveitámos e dissémos mal da Fátima Moura, que me tinha dito que "talvez aparecesse para o café" mas que mais nada entoara depois dessa afirmação. Telefonámos-lhe, criticámos a opção de ter ficado em casa a preparar a viagem a Amarante (em trabalho para nós - Livro dos Sabores) e voltámos às coisas sérias.

Queijo da Beira Baixa e da Beira Alta, ambos curados no ponto certo e sem nenhum toque do abominável frio que estraga o gosto a qualquer um.

E para terminar em beleza a questão dos sólidos, um admirável Marmelo assado no forno!

Em redor de dois cálices de Lagavullin (o bem amado!) voltámos à conversa, desta vez sobre o nosso David  (e como ele estimava a Tia Matilde e o Sr. Emílio!) e sobre o panorama restaurativo atual no retângulo, o qual - e não obstante algumas esquisitices, como o desdobrável saído no fds a publicitar um restaurante conhecido na Ereira - parece estar a sofrer como gente grande.

Felizmente a Adega da Tia Matilde ontem não parecia muito afetada! Embora a presença de convivas angolanos fosse muito notada e daí talvez o bom aspecto cheio que a casa tinha.

E com estas reflexões nos despedimos os dois do grande Sr. Emílio! Que a idade nunca lhe pese meu Amigo!

Nota: Daqui vai um grande abraço apertado para o Pedro do Solar! Espero que se recomponha tão breve quanto possível!

terça-feira, outubro 30, 2012

O Convite da Aranha

Convida-se um vizinho para entrar lá em casa. Convida-se um amigo para almoçar. Convidamos os colegas da escola  para a festa de anos dos nossos filhos. Convida-se uma amiga especial para sair à noite. Admito até que em determinadas circunstâncias sejamos obrigados a "convidar" alguém a sair, antes que "saia" mas é  uma cadeira pelas costas da criatura...

Pois o nosso Primeiro Ministro apressa-se a convidar o lider da Oposição para uma conversa onde se discutirá a três (ou a 4) o futuro do Estado Social, as funções do Estado em Portugal.

Trata-se, já se percebeu, de uma conversa algo esquizofrénica, pois nela estarão metidos os 3 Partidos daquilo que se convencionou chamar o "arco da navegação", e mais o Governo que é formado por dois deles...

O porquê desta "chamada afetuosa" , tal e qual um Pai ao seu filho pródigo, percebe-se bem. Mais do que bem:

O Orçamento de Estado para 2013 é já um nado-morto. Tudo indica que lá para o final do 1º TRIM do ano que vem toda a gente entenda que não está a resultar. Pelo contrário, que os danos causados à trama económica do país são cada vez maiores. E que a Receita - responsável por 80% do esforço de ajustamento - não está a entrar como era previsto. Resta aos governantes virarem-se para a Despesa...

Virarem-se para a Despesa é um eufemismo para dizer: Despedimentos na Função Pública e abdicação das funções sociais do Estado: famílias a pagar a educação e a pagar a assistência médica, baixa considerável nas contribuições sociais.  Mas enquanto que o despedimento só acarreta mais problemas para a Segurança Social, pôr as famílias a pagar a educação dos filhos e as despesas com médicos, hospitais e enfermeiros e ainda a carregarem com maior percentagem do preço dos medicamentos,  são medidas que "aliviarão" o Estado.

À custa de quê? À custa de Portugal regredir 35 anos na escala evolutiva dos países desenvolvidos.

Aceitará o PS de TóZé Seguro esse convite? E ao aceitar, fará o frete ao Governo para alterar as normas constitucionais que impedem estas medidas drásticas?

Só se quiser cavar a sua própria sepultura política. Tem de haver alternativas dentro do enquadramento da Constituição atual. Para bem de todos, mas sobretudo para proteger os mais desfavorecidos.

O saudoso Jorge Perestrelo ( o relator desportivo do "ripa na rapaqueca" , lembram-se?)  quando lá no relvado o Árbitro mandava para os balneários algum jogador , pretensamente por lhe ter dito alguma coisa, comentava sempre:

-"Não ouvi o que disse este  jogador, mas  não deve ter convidado o árbitro para tomar chá lá em casa. Digo eu..."

Tó Zé, amigo, cuidado com os convites ! Não há almoços grátis!!

Não queiras ser a mosca convidada para visitar a sala de estar da aranha!

Mary Howitt - Poem: The spyder and the fly

Will you walk into my parlour?" said the Spider to the Fly,
'Tis the prettiest little parlour that ever you did spy;
The way into my parlour is up a winding stair,
And I've a many curious things to shew when you are there."
Oh no, no," said the little Fly, "to ask me is in vain,
For who goes up your winding stair can ne'er come down again." 

segunda-feira, outubro 29, 2012

"Engano de Alma Ledo e Cego..."

Outros datarão os anos como entenderem. Para mim, considero que entre 1974 e 2009 passámos pelos melhores 35 anos da história de Portugal.

Não me queixo da minha infância - tinha 19 anos em 1974 - e  fui um dos priveligiados: andei num colégio de élites, entrei para a faculdade facilmente, tirei a carta de condução logo aos 18 anos...

Mas para mim, a verdadeira felicidade veio depois, quando me licenciei, quando arranjei emprego a dar aulas na faculdade 1 mês depois da licenciatura tirada, quando organizei a minha vida de adulto de forma tão fácil que até parecia "tão natural como ter nascido":  Aos 25 anos tinha casa própria (embora a pagar hipoteca) , tinha um filho, continuava a dar aulas na faculdade, tinha entrado para os CTT  e ainda trabalhava como free-lancer a fazer estudos de viabilidade financeira para os bancos...

Nesses tempos havia democracia, votávamos e vivíamos intensamente a vida pública. Mesmo com dificuldades financeiras havia esperança, pois a Europa de Willy Brandt estava connosco.

Criou-se o SNS, o acesso ao ensino liberalizou-se e democratizou-se. Defenderam-se os mais pobres, reforçou-se a Segurança Social, deu-se dignidade ao trabalho.

Os anos que vinham pareciam ser anos cada vez melhores...
Tão fundo e amplo foi o "balde" de esperança que ganhámos com o 25 de Abril que esta parecia durar para sempre... Mas não durou.

Tal como a felicidade da "linda Inês".

Alguns analistas (Vasco Pulido Valente quase sempre, e mais próximo de nós, Medina Carreira, entre outros) sempre disseram que "isto não era para durar! O país não tem estaleca para tanto!".

E que "vivíamos acima da riqueza que criávamos, e que alguém, nalguma altura, havia de nos apresentar a conta desta destemperança". 

Estamos agora no período do "Ajuste das Contas". Podem chamar-lhe "ajuste orçamental", "reforma do Estado", o que quiserem.

Para muitos portugueses - para aqueles que ainda se lembram da ideologia da juventude -  os males que sofrem mais não são do  que uma vingançazinha dos ricos e poderosos pela "boa vida" que levaram nestes 35 anos. A retribuição do grande capital pelas leviandades praticadas. "Havia liberdade a mais! Agora aguentem!"

Para outros, tudo terá a ver com a "Sorte". Este país foi feito à sombra das crendices árabes no destino e na predistinação... "É o nosso fado".


Mas todos têm medo. Como muito bem dizia hoje de manhã na TSF Victor Cotovio:

-"As crianças têm medo do medo dos Pais, os pais têm medo do futuro dos filhos, os mais velhos têm medo de morrer sem deixar para trás uma situação pelo menos igual à que tiveram. Uns estão ansiosos, os outros estão desesperados."

E eu concluo: a pior coisa que pode acontecer a um povo é instalar-se este desespero, a pouco e pouco ir-se acumulando no pensamento coletivo a ideia de que "não há solução".
Sem esperança não há força de vontade para lutar contra as adversidades. Sem justiça ninguém pode exigir esses sacrifícios de todos.

Nota: Os Lusíadas, Canto III

 Estavas linda Inês, posta em sosssego,
 De teus anos colhendo doce fruito Naquele engano da alma, ledo e cego,
 Que a Fortuna não deixa durar muito,
 Nos saudosos campos do Mondego,
 De teus fermosos olhos nunca enxuito,
 Aos montes insinando e às ervinhas
 O nome que no peito escrito tinhas.