sexta-feira, agosto 22, 2014

Para Descansar a Vista: "Excitações literárias"

Meu mestre Herberto Helder está outra vez nas bocas do mundo por causa do seu último livro "A Morte Sem Mestre".

Parece que a mudança de uma editora "pura" , muito grata aos cultores da língua e seus praticantes mais austeros, para uma editora considerada "comercial" (da Assírio e Alvim para a Porto Editora) ajudou a alimentar esta polémica.

Será já HH um poeta "comercial"? Ter-se-ão perdido as características de rude honestidade e de despojo material que deram origem à lenda e ao mito de HH?

E onde está o valor íntegro e absoluto dos seus poemas? Mascarado pelas novas embalagens de papéis metálicos e "CD's" falantes?

Leiam aqui um texto do jornal público sobre a matéria que me parece ser esclarecedor:

"O mais recente livro de Herberto Helder, A Morte Sem Mestre, lançado esta segunda-feira com a chancela da Porto Editora — numa edição que inclui um CD com cinco poemas ditos pelo autor —, está a dividir opiniões, mesmo entre leitores que tinham apreciado sem reservas o anterior Servidões (2013). Num poeta que parecia ter-se tornado, sobretudo desde a publicação de A Faca Não Corta o Fogo, em 2008, um caso de consenso crítico quase absoluto, este acolhimento díspar é desde logo surpreendente.
Mas A Morte Sem Mestre é um objecto suficientemente estranho para provocar reacções desencontradas. Há um efeito de exposição da circunstância biográfica ainda mais radical do que em Servidões, passagens cuja força parece residir num exasperado e despido confessionalismo – “e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,/ vou morrer como um cão deitado à fossa!” –, mas também alguns desses poemas que, logo à primeira leitura, e antes de quaisquer digestões mais reflectidas, sabemos imediatamente que são geniais. Pela energia e pelo ritmo, pelo poder imaginativo, pela invenção verbal, mas também por um efeito de estranheza que é paradoxalmente acompanhado pela intuição de que batem certo com a mais funda verdade da obra. Poemas que não se pode imaginar mais ninguém a escrever, mas para os quais nunca estamos preparados, mesmo que tenhamos lido toda a poesia do autor."

Por mim, só direi o seguinte: Tomaram muitos senhores ou senhoras escritoras e poetas de 84 anos estar ainda a provocar estas celeumas por causa da sua produção literária naquela bonita idade!!


Porque eu sou uma abertura,
porque as noites cruzam os cometas,
porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,
porque abre as válvulas e se queima.

Alguém com os dedos na cabeça dando a volta à criança,
metendo-lhe mais força pelo fogo,
criança com um rastilho:
ou muita resistência na armadura, ou
peso, ou muita leveza, ou
dulcíssima:
ou fósforo, enxofre, pólvora, sopro, a farpa de outro
- e o ourifício que traz para o visível
o segredo: gota
com a trama de pedra calcinada em torno,
a pedra só abertura pela potência
de um pouco de pólen
oculto.

Porque riscam com áscua,
porque até à linha pulmonar as labaredas a iluminam,
porque um hausto de sangue a ilumina em toda a linha cardíaca,
porque as pontas irrompem do núcleo
do ouro pequeno.

Herberto Helder, Ofício Cantante – Poesia completa, 2009

Nota: O retrato de HH é de Francisco Penteado

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