quarta-feira, janeiro 20, 2016

Museu Grão Vasco



Amanhã estarei em Viseu, para reunião com o Director do Museu Grão Vasco sobre o seu centenário ( do Museu, não do Director!) que se cumpre este ano.

Podem ver aqui uma abordagem sobre o riquíssimo património disponível nesse Museu:
http://www.patrimoniocultural.pt/pt/museus-e-monumentos/rede-portuguesa/m/museu-grao-vasco/

Grão Vasco foi um dos primeiros pintores portugueses a
assinar os seus quadros, embora ainda subsista alguma
polémica sobre a autoria de determinados trabalhos.

O que hoje se chama "mestre de Viseu poderá até não ter
nascido na cidade do granito mas foi aqui que passou grande
parte da sua vida.

Sabemos de certeza que em 1506 já era mestre pintor e talvez já o tratassem por Grão Vasco, como ficou conhecido para a posteridade.

Sobre Grão Vasco dizem os entendidos:

Considerado um dos principais responsáveis pela renovação da pintura portuguesa no século XVI, o pintor Vasco Fernandes transformou-se, no século XVIII, num pintor-herói à escala nacional, atribuindo-se-lhe a autoria de praticamente toda a pintura antiga. Este fenómeno de exaltação da figura do pintor poderá explicar-se pelo facto de ter inaugurado um período brilhante da pintura portuguesa, numa região onde não havia qualquer tradição e pelo fascínio que o realismo da sua linguagem exerceu sobre as sucessivas gerações de espectadores. 

Uma curiosidade: O primeiro trabalho de Grão Vasco de que há registo foi o retábulo da capela- mor
da Sé de Lamego que executou por “350$000 réis, 100 alqueires de milho e 2 pipas de vinho”.

Como se observa, já o vinho tinha naquela região alguma importância há 500 anos atrás...

Viva o Dão!!

terça-feira, janeiro 19, 2016

O fim nem sempre está escrito



Acabar de escrever um livro ou um artigo é sempre, para mim, a parte pior da "encomenda".

Começar também não é fácil, há aquela questão da "angústia do escriba perante a folha branca" agora transformada pela tecnologia em "écran branco". Mas esta  - pelo menos no meu caso - resolve-se rapidamente.

O truque que uso para começar é desatar a escrever mesmo que sem ter nada a ver com o assunto. E ao fim das primeiras linhas lá arranjo forma de dar a volta ao texto e entrar dentro dos carris .

Mas para acabar uma obra criativa temos que decidir se o final deve ser moralista, eufórico, optimista, realista ou ainda do tipo duvidoso, aquele em que deixamos ao leitor a interpretação final do sucedido.

Como aqueles episódios um pouco datados sobre o Monstro do Loch Ness onde se provava que a criatura era uma invenção ao longo dos minutos de visionamento, mas onde a última imagem do documentário era um pescoço alongado a vir ao de cima do lago, no meio da neblina...

O mais engraçado é que quando começo a escrever nem sempre sei qual será o final do texto.  E do muito que tenho lido sobre o assunto, parece que assim acontece também com escritores de sucesso -  com quem não me comparo, obviamente!!

 Aliás, os filmes de Hollywood são revistos em sessões especiais de teste para avaliar qual o "fim" que mais agrada aos espectadores. O muito dinheiro investido obriga a que se tomem precauções para assegurar a rentabilidade da operação.

O "fim" pode ser ainda um assunto que desagrada aos escritores, na maioria das vezes porque se apaixonam pelo texto e não querem acabar a obra. São exemplos Tolstoi no "Guerra e Paz" e mais perto de nós Tolkien no "Lord of the Rings".

Há livros (e filmes, já agora) que acabam mal. Pelo menos para mim.
Dou como exemplo de filmes "Sinais" e "A 9ª Porta" , já para não falar do clássico "2001 Odisseia no Espaço".
E quanto a livros?  Não gostei do final de "Hucleberry Finn" (desculpa lá amigo Twain) nem sequer do final do "Monte dos Vendavais". E, em português, tenho que dizer que Alves Redol poderia ter acabado de outra maneira o seu magnífico "Barranco de Cegos".

É claro que temos de ter em atenção a frase mais que conhecida (e sábia) de Jules Michelet: 
Le but n’est rien. Le chemin, c’est tout." Nem sempre é o final que interessa. Mas sim a forma como lá se chega. 
E isto também pode ser verdadeiro noutras matérias. Acho eu.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Coisas boas nunca são demais?



Dizia um escritor francês,  gastrónomo famoso (de memória penso que foi Brillat-Savarin),  que pela forma como um aficionado pronunciava a palavra "Bom" quando se dirigia a algo que comia ou bebia logo nos apercebíamos se se tratava, ou não, de um gastrónomo requintado: -"Oh la la! c'est si bon". 

E o sibarita da mesa faria rolar o último "m" por entre os lábios entreabertos e de olhos fechados.

Ultimamente não me tenho entusiasmado muito com comes e bebes fora de minha casa.  Desta forma a exclamação de aprovação suprema não tem saído. Pode ser pela antiga razão que era atribuída pelo fiel escudeiro Grilo ao mal estar do seu senhor Jacinto, o príncipe da boa-ventura: "Sua Excelência sofria de fartura...".

Sofrer de fartura  neste enquadramento é estar tão habituado a comer do bom e do melhor de tal forma que essas coisas deixam de entusiasmar.  E atenção! Quando escrevo do bom e do melhor não quero dizer do mais caro e do mais notório! Bom e Melhor em sentido absoluto. Tanto o carapau de escabeche como o pastel de bacalhau com um competente arroz de grelos entram nestas "medições", a par do resto que custa muito mais euros ( se calhar demasiados).

A cura pode ser ( devia ser) um mês ou dois de dieta forçada, em que apenas comesse saladas e sopas, grelhados com legumes cozidos e coisas dessas. E bebesse água.

A parca refeição , 50 ou 60 vezes repetida, teria o condão de purgar o corpo e o espírito, preparando devidamente o glutão para futuros desmandos. Um pouco como aconteceu  quando saí do Irão pela primeira vez, depois de 6 dias a água e coca-cola (de origem turca). Quando chegámos ao avião da Lufthansa, já no ar, acho que nunca um Jack Daniels me tinha sabido tão bem... Um ou cinco (a recordação desse momento é difusa)...

Houve quem se lembrasse disto antes do vosso blogger.  Desde o século IV que a cristandade celebra a Quaresma  como tempo de penitência e de renovação para toda a Igreja, com a prática do jejum e da abstinência. E também nas outras religiões antigos preceitos higiénicos aconselham a que exista um período anual de abstinência e de introspecção. O Ramadão (nono mês do calendário muçulmano), o jejum ritual budista, etc..

A Quaresma segue-se ao Carnaval -  festival carnívoro, reminiscência das saturnálias romanas, onde era costume subverter a ordem social estabelecida, por entre banquetes de fazer dobrar as tábuas das mesas. 

Neste ano de 2016 o início da Quaresma será a 10 de FEV, com a Quarta feira de Cinzas.

Já tomei boa nota e vou ter em consideração. 

A partir de 10 de FEV.  Ainda falta...


quinta-feira, janeiro 14, 2016

Belas Artes e Matosinhos na Agenda



Amanhã vou para Matosinhos para mais uma reunião com os proprietários da mais antiga industria de conservas de Portugal - "Ramirez" - cuja 1ª fábrica foi inaugurada no ano de entrada em circulação do 1º selo português, 1853.
Desta coincidência vai sair uma ideia engraçada para a filatelia nacional, com saída reservada lá mais para o 3º trimestre deste ano.

E hoje passo ao final da tarde pelo Palácio da Ajuda - o herdeiro espiritual e físico da chamada "Real Barraca" mandada erigir por D. José em madeira, cheio de medo de habitar edifícios de alvenaria depois do terramoto de 1755.

Comemoram-se os 180 anos da Academia Nacional das Belas Artes, e teremos postal com carimbo comemorativo. Será também a estreia protocolar deste Governo na "difícil" tarefa da obliteração do postal. Terá a honra das primícias o Ministro da Cultura, Dr. João Soares.

O Pai dele era perito nestas coisas dos carimbos e até mandava chegar para trás os ministros para ter mais espaço para manobrar o "instrumento". Bons tempos esses.

Por estes motivos amanhã não passo por aqui, pelo que deixo já hoje o habitual "poema das sextas".

E como ontem foi dia de aniversário de Charles Perrault, o parisiense que foi pai e avô dos contos de fadas, aqui  fica um "conto de fadas", da nossa Florbela Espanca:

Conto De Fadas

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."


Florbela Espanca

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Dia Nacional da Gastronomia 2016



Recordo que este ano de 2016 será o primeiro em que se vai celebrar o Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa.

Será a 29 de Maio (último Domingo de Maio) conforme a Resolução da Assembleia da República n.º 83/2015. Parece que fora o caso dos votos de pesar, terá sido esta a única, ou uma das únicas, resoluções aprovadas por unanimidade e aclamação na nossa AR. E bem.

A Presidente da Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal - Drª Olga Cavaleiro - está já a tratar dos preparativos para esta celebração, e os CTT estarão presentes com um Postal Inteiro e um Carimbo Comemorativo.

Aproveito para tirar o chapéu ao trabalho da Presidência da Federação das Confrarias. Sem essa preparação de dossiers e sua explicação a todos os grupos parlamentares não teria sido possível ter-se alcançado este objectivo com tanta convergência. 

Parece - ainda a confirmar - que o local desta primeira celebração será Aveiro. Acho muito bem que assim seja.

Porque o Presidente da Câmara,  Dr. Ribau Esteves,  já provou que apoia este tipo de iniciativas com entusiasmo e porque os CTT têm uma equipe em Aveiro que não tem apenas 5 estrelas, já as ultrapassou largamente!

Aguardemos pela confirmação e também pelas próximas notícias sobre este assunto em que , pessoal e institucionalmente, quero estar bem envolvido.

Na última vez que estive em Aveiro (mais precisamente na Esgueira) tirei saudades de uma caldeirada de enguias com açafrão, num restaurante simples mas muito agradável chamado "Jardim das Estátuas". Deixo aqui a receita tradicional, para quem se atreva a mexer nas "bichas" ainda vivas... A Receita é do Roteiro Gastronómico de Portugal (Editorial Verbo). Faço notar que "pó de enguia" é o açafrão misturado com um pouco de pimenta branca e que "unto" é o toucinho gordo da barriga do porco.

Caldeirada de Enguias à Moda de Aveiro

Para se amanharem as enguias, retiram-se as cabeças, lavam-se em várias águas e raspam-se para se retirarem todos os resíduos viscosos (galheiras). Cortam-se em bocados.
Descascam-se as batatas e cortam-se às rodelas - tanto mais grossas quanto as enguias o forem. Descascam-se e cortam-se as cebolas ás rodelas.
Num tacho largo põem-se as enguias, as batatas e as cebolas, em camadas alternadas. Cada camada é regada com azeite e temperada com alho, louro, salsa, pós de enguia, sal e pimenta. Corta-se o unto em fatias finas e dispõe-se por cima. Rega-se com um copo de água. Tapa-se a caldeirada e deixa-se cozer entre 20 a 30 minutos.
Depois das enguias cozidas - reconhece-se pela consistência -, retira-se o unto e esmaga-se com sal grosso. Junta-se o vinagre a esta papa, que se dilui depois com duas conchas do caldo da caldeirada - estas conchas de caldo devem apanhar o máximo da gordura da caldeirada. Este preparado tem o nome de «moira» e é deitado sobre as enguias e as batatas.
Do resto do caldo da caldeirada faz-se uma sopa, a que se junta apenas pão torrado e um ramo de hortelã.


terça-feira, janeiro 12, 2016

Um dedal de "espírito"





A palavra "tumbler" cedo se começou a utilizar nos países anglo-saxónicos para significar um copo para qualquer tipo de bebida servida nas tabernas,  mas mais tarde  generalizou-se para definir também uma medida de whisky (ou de whiskey).   O tal copo tinha de ter fundo chato e ser de paredes finas.  Parece que foi inventado no século XIX por um carpinteiro, que terá levado o molde em madeira a um vidraceiro e lhe pediu para repetir a proeza em vidro.

O mais conhecido e apreciado copo para whiskys velhos é o de formato em tulipa (dito na Escócia "Glancairn") que aparece na gravura.
Mas muitos mais existem desde que se entenda fazer coabitar o "espírito" com a água, nas suas várias formas. Temos o "Old Fashioned", o "Long drink", o "On the rocks", etc...

Cá em Portugal desenvolveu-se o copo para vinho do Porto - existem até uns desenhados pelo mestre Siza Vieira - mais ou menos do mesmo modelo do que a túlipa, mas com caule alongado para que o toque da mão não vá contaminar a temperatura  do vinho.

Os Cognacs e Brandys são bebidos em copos do tipo "Balão", mais côncavos e de pé curto, desenhados para concentrar o poderoso bouquet e serem aquecidos pela concha das mãos.

Em relação aos álcoois mais plebeus  - bagaceiras, cachaças, poires, eux de vie, schnaps, vodka - é normal bebê-los em copos do tipo "dedal".  Com mais ou menos capacidade. O conhecido "copo para shot" que faz figura de ator principal em todas as  discotecas.

O que queria aqui compartilhar convosco é como a  forma do copo pode influenciar a apreciação da bebida.  Mesmo no caso dos destilados, pois já sabemos que para os vinhos essa é uma verdade indesmentível.

Nota: Leiam aqui o site da Riedl, que muito nos informa sobre esta questão: 
http://www.riedel.com/all-about-riedel/shapes-pleasure/content-commands-shape/

Um copo mais estreito, daqueles ditos de  "escorregar" , não permite apreciar as camadas de sabores e de odores que se libertam de um grande whisky ou cognac. Mas se bebermos um bagaço mais rústico por um copo de feitio em túlipa ou em balão podemos ficar enjoados pelo cheiro a "lagar" que dele se desprende com alguma violência.  Quase ninguém gosta do cheiro a bagaço, embora haja quem aprecie o gosto.

Evidentemente que quanto mais neutro for um destilado - por exemplo uma vodka muito pura, sem fruta - menos odores terá e menos necessidade haverá de copo em túlipa.

Se conseguirem encontrar uma especialidade da Ilha de Islay, como o excelente Bunnahabhain de 16 anos engarrafado pela "Signatory" , experimentem prová-lo em copo de túlipa com um fio de água à temperatura ambiente ( o gajo tem 52º) , e comparem com a mesma bebida em copo alto.

 Em prova cega duvido que os identificassem com sendo iguais.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Um elefante na sala




Quando um assunto incomoda de tal forma que evitamos falar dele ( embora toda a gente saiba do que se trata) costuma dizer-se que "está um elefante na sala".

Não se sabe bem a origem desta frase. Parece que terá sido o New York Times a usá-la pela primeira vez em 1959, numa frase em que falava do financiamento do sistema educativo (imaginem!!):
"Financing schools has become a problem about equal to having an elephant in the living room. It's so big you just can't ignore it."

Lembro-me de uma vez em que estava a família toda à mesa na quinta da Beira Alta, no almoço do Ano Novo. Alguns dos primos mais novos tinham apanhado uma "cadela" tão grande na véspera que se notavam perfeitamente os olhinhos ainda piscos e o ar enjoado com que encaravam o cabrito no forno. Para além disso espirravam de minuto a minuto.

Tinham ido para S. Romão passear pela aldeia com uma garrafa de espumante na mão, a comer e a beber até ser dia. E apanharam duas carraspanas: a do álcool e a constipação derivada de passarem várias horas ao relento.

Os tios e os sogros  desconfiavam da  saída noturna que tinha durado até de madrugada,  Mas  porque não queriam dar escândalo à frente do lisboeta (moi) ali presente e que tinha acabado de casar lá em casa, a  "cadela" da véspera era o tal "elefante na sala".

Lembrei-me desta frase idiomática para ilustrar a campanha eleitoral para a Presidência da República que começou ontem, dia 10 de Janeiro.

Sobretudo a a posição  do PS, para quem a situação ideal era que não houvesse campanha, de tal forma parecem incomodados pela necessária escolha de um candidato.

Ter dois será melhor do que não ter nenhum? Dar liberdade de voto na 1ª volta ( as tais "primárias de esquerda") em Maria e Nóvoa manifesta o mais puro sentimento democrático?

Até poderíamos acreditar que sim, sobretudo ao nível do discurso das ideias, em teoria. Mas esta prática não deixa de soar relativamente mal.

A verdade transmutada em  "elefante na sala" é que não houve tímbalos (tintins, tomat***)  para escolher em tempo devido. E face ao adiantar do processo a escolha salomónica acabou por ser: "deixa-os ir e depois se vê quem sobra para a segunda volta".

Se houver segunda volta! Pois aqui é que a porca torce o rabo. 

A posição do PS favorece a abstenção, disso não tenham dúvida. 

Em eleições que não possuem uma clivagem ideológica forte e posições bem extremadas, sobe a percentagem de abstencionistas porque os eleitores não se ralam com a escolha. 

E a abstenção favorece quem? Dizem os manuais que favorece sempre quem vai à frente nas sondagens. Esse mesmo. O Tio Marcelo !

Nota: Caricatura de Pedro Ribeiro.

sexta-feira, janeiro 08, 2016

A importância de saber escrever e ler para crianças

Na viagem que fiz a Esgueira (Aveiro), para apresentar o livro infantil " A Magia das Cartas" , fui acompanhado pela  autora, a Drª Margarida Fonseca Santos.

Os quase 600 km de viagem de ida e volta pareceram 60, tal a qualidade da conversa.  Mas foi quando chegámos  ao Centro Cultural da freguesia de Santa Joana que entendi porque é que existem pessoas que sabem falar com crianças e outras que infelizmente não têm esse dom.

Não sei se esta faculdade é inata ou adquirida. Mas mesmo para pessoas com  "jeito" , deve dar muito trabalho passar do "jeito" à realidade de uma acção em frente  a quase 200 crianças, com sucesso notável.

Quem me conhece sabe que nunca me intimidei para falar em público. Quando dava aulas na faculdade aos primeiros anos de Matemáticas Gerais cheguei a ter turmas com 180 alunos, nas aulas magnas.  Mas isso parecem "pinâtes" , como diria o Jorge Jesus, comparado  com uma plateia de 200 crianças entre os 6 e os 8 anos. Podem acreditar!

Por isso tenho que louvar a postura da Drª Margarida, que sentada numa cadeira e sem outro apoio que não fosse um microfone, entreve a dita plateia ( silenciosa!!) durante quase meia hora, enquanto lhes contava uma história deliciosa sobre uma folha de papel deixada na secretária de um escritor na véspera de Natal.

Porque hoje é sexta feira, e em memória desse momento que nunca mais vou esquecer, aqui deixo um poema dedicado às crianças de todas as idades. É de Ruy Belo e chama-se "Proposições sobre crianças":

A criança está completamente imersa na infância 
a criança não sabe que há-de fazer da infância 
a criança coincide com a infância 
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono 
deixa cair a cabeça e voga na infância 
a criança mergulha na infância como no mar 
a infância é o elemento da criança como a água 
é o elemento próprio do peixe 
a criança não sabe que pertence à terra 
a sabedoria da criança é não saber que morre 
a criança morre na adolescência 
Se foste criança diz-me a cor do teu país 
Eu te digo que o meu era da cor do bibe 
e tinha o tamanho de um pau de giz 
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez 
Ainda hoje trago os cheiros no nariz 
Senhor que a minha vida seja permitir a infância 
embora nunca mais eu saiba como ela se diz 

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]' 

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Há por aí quem pense que sabe de vinhos?

Na Terça feira recebemos em Lisboa (num almoço no Jockey) uma personagem admirável.

Trata-se de um dos maiores especialistas mundiais em vinhos, antigo perfumista numa grande casa francesa e que mais tarde utilizou as enormes capacidades olfactivas para se transformar num dos melhores provadores e conhecedores de vinhos de todo o mundo.

É o Sr. Ralf Weinman. Pessoa essencialmente discreta, que apenas tem 20 clientes em todo o mundo (alguns nem divulga devido a serem facilmente identificáveis pela altíssima notoriedade) desde o Golfo Pérsico até à Alemanha ( sua terra natal),  passando pelos USA, Suiça e Reino Unido. Para esses "pobrezinhos" aconselha a comprar, constrói de raiz as caves de vinhos e ainda os visita regularmente para testar a evolução das garrafas.

Eu, que entre amigos achava que percebia alguma coisa de vinhos, levei nesse almoço uma "abada" ainda maior do que os 6 a 0 que o SLB e o SCP "ofereceram" na Luz e em Setúbal ontem à noite...

O "homem" sabe de tudo. Identifica os grandes anos de Porto Vintage no copo ( na Garrafeira Nacional já deixaram de fazer apostas com ele...Quando chegava e começava a brincar com o dono, "limpava" tudo). Explica os defeitos de certos vinhos atuais , mais feitos à base de processos químicos do que com arte e paixão.  E defende tenazmente a qualidade dos vinhos com muitos anos de garrafa, desde que bem feitos e armazenados em condições.  Adora os grandes brancos alemães, Rieslings e Gewürztraminer (Roter Traminer), com anos e anos de engarrafamento.  E se possível apenas compra garrafas Magnum. Desde que as haja...

No seu castelo na Alemanha possui cerca de 28 000 garrafas, entre as quais se podem encontrar as maiores preciosidades deste mundo vínico, desde os Romanée-Conti de 37  (25,000 usd) até aos míticos Bordeaux Médoc de 1961 (mais de 6,000 usd). Porto Noval Nacional compra dos modernos (fora o que lhe oferecem) várias garrafas de cada vez que sai. Dos anos antigos , tem todos.

É tão esquisito no sabor das coisas que mete na boca que faz o seu próprio salami, a partir de porcos criados na Córsega, e tem duas variedades!

Trouxe para este almoço uma garrafa de litro e meio de Riesling de um pequeno produtor (na imagem). É um vinho admirável de 2011, que provámos em primeiro lugar à temperatura ambiente (cerca de 12º) e depois mais refrescado para 9º.  O mais fresco foi bebido em copo de boca mais larga e o mesmo vinho com mais três graus em copo de prova. Foi incrível a diferença que se sentiu.

O produtor chama-se Koelher Ruprecht. E é um vinho relativamente barato. Cerca de 60€ em Magnum.

Recusou um Mouchão moderno (enfim, de 2008) por ter um pequeno defeito . E do Dona Francisca Reserva Douro de 2012 tivemos que abrir 2 garrafas até se dar por satisfeito. Depois disse: "This bottle Ok.  Not excellent, but allright".

Foi um daqueles almoços que não se esquecem e que nos mete na linha da "perspectiva real das coisas"... Afirmar saber de vinhos ao lado deste monumento é como se um professor de física do liceu  se quisesse comparar com o velho Albert (Einstein).

terça-feira, janeiro 05, 2016

Dia de Reis em Aveiro



No  Auditório da Junta de Freguesia de Santa Joana  - Av. Afonso V,  Santa Joana,  3810-203 Aveiro - pelas 10H30, realiza-se amanhã ( Dia de Reis) uma sessão que deverá ser muito engraçada sobre o nosso último livro dedicado às crianças: a Magia das Cartas, de Margarida Fonseca Santos.

Terá a participação do Centro Social de Santa Joana Princesa onde um grupo de idosos e crianças irão recriar uma pequena peça de teatro de 40 minutos sobre este 1º livro filatélico da uma nova colecção : « A MINHA HISTÓRIA DE NATAL».

Irei com a Autora e faremos depois da peça uma sessão de autógrafos para os presentes.

Sobre este Dia de Reis recordo a história antiga que justifica serem apenas três os soberanos presentes na gruta do Menino Jesus. 

Aqui existem duas versões (para não complicar). 

A versão erudita bíblica  cuja fonte é o  evangelista S. Mateus e de onde se retira que  Melchior era rei da Pérsia. Gaspar , Rei da Índia e Baltazar, Rei da Arábia. De notar que para outros  estudiosos da Bíblia estes "Reis" seriam todavia simples seguidores de Zoroastro, estudiosos do céu e das estrelas.

E a da devoção popular que passou para os barristas dos presépios. Nesta última  a procissão dos Reis Magos queria representar a adoração por todos os povos da terra, mas como no início apenas se conheciam três continentes ( África, Europa e Ásia) os Reis convocados para estarem presentes nos primeiros presépios da época de S. Francisco,  foram apenas esses três - Melchior, Gaspar e Baltazar.
Depois dos descobrimentos portugueses e espanhóis houve barristas ( entre eles Machado de Castro) que não estiveram de modas e "meteram" mais um Rei mago no Presépio, representando a "América". Este apresenta-se nalgumas expressões formais montado num lama do Perú. 


segunda-feira, janeiro 04, 2016

De 2015 para 2016

Neste primeiro dia de trabalho do ano é normal pôr em primeiro lugar o que fizemos no ano passado, o que deixámos para trás  e ainda aquilo que queremos vir a fazer.

Do ponto de vista do trabalho foi um ano de 2015 muito bom.

Tivemos 3 prémios internacionais de design de selos e um prémio de edição, com possibilidade deste se transformar ainda noutra coisa maior e melhor, quando for o concurso mundial dos livros  "Gourmand"  na China.

* A folha comemorativa dos 500 anos de Vesalius (emitida em 2014) foi duplamente premiada em 2015 na categoria de impressão em relevo “Talhe Doce”. Teve um 3º lugar em Bruxelas e foi considerada a melhor do mundo (1º lugar) em Madrid.
* Grande Prémio ASIAGO 2015 categoria Turismo (em Vincenza, Itália), atribuído à emissão “Instituto Geofísico de Coimbra” de 2014:
* O Livro “Viver Portugal com o Mediterrâneo à Mesa”, de Fortunato da Câmara, foi considerado o Best Mediterranean Cuisine Book de 2015 em Portugal, e ficou qualificado para competir com os restantes livros internacionais (vencedores "Gourmand" em cada país) dentro da mesma categoria, mas a nível mundial.

Aliás, a "colheita" de 2015 dos nossos livros foi de grande qualidade. Recordo aqui os títulos e autores:
“Conversas de Café” , de Fátima Moura;
Motorizadas Portuguesas de 50cc”, de Pedro Pinto.
“Viver Portugal com o Mediterrâneo à Mesa” , de Fortunato da Câmara
“Do Mar Oceano ao Mar Português”, coordenação de Mário Ruivo
“O Meu Álbum de Selos 2015”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
“A Magia das Cartas” , de Margarida Fonseca Santos
“ Portugal em Selos 2015”, de Jorge Martins

Conseguimos editar 7 livros num ano. Livros feitos à moda antiga, com cuidados especiais em todos os processos de fabrico, impressão e acabamentos de gama alta e (obviamente) textos a condizer com tudo isto.  É obra!

Também homenageámos condignamente José Pedro Martins Barata e seu pai, o mestre Martins Barata, com uma exposição e catálogo a eles especialmente dedicados. Uma justíssima vénia aos pais  artísticos da moderna filatelia em Portugal.

Para 2016 posso levantar a ponta do véu em relação a alguns aspectos da nossa actividade

Em primeiro lugar será o ano em que celebramos os 50 anos das exposições filatélicas  LUBRAPEX, as bilaterais (Portugal-Brasil) mais antigas do mundo e que são hoje abertas a toda a lusofonia. Esta LUBRAPEX dos 50 Anos será em Viana do Castelo, entre 25 de Abril e 1 de Maio.

Vamos editar os seguintes Livros Temáticos:
 . "A Rota das Catedrais" de António Saraiva
 . "Jesuitas, Construtores da Globalização" de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais 
 . "Simetria Passo a Passo: Um olhar sobre a Calçada à Portuguesa", de Ana Cannas da Silva
 . "Vinhas Velhas de Portugal", de Carlos Antunes e Anabela Trindade

Sobre as emissões de selos podemos dizer que se tratará de um ano com ênfase na diplomacia filatélica, já que fomos solicitados para fazer Emissões Conjuntas com a Índia, Vietname, Filipinas, e França.  

Também a Alemanha e a Áustria nos pediram para se associarem a Portugal em 2016 numa emissão de tema comum dedicada aos "Santuários Marianos da Europa".Com esta emissão começamos a abordar os 100 anos das Aparições em Fátima, com data marcada para 2017 e visita papal prevista.

2016 será ainda o ano em que começam a sair os selos comemorativos dos 500 Anos do Correio em Portugal, num conjunto de 5 edições entre 2016 e 2020, em princípio todas elas desenhadas à moda antiga pelo pintor Carlos Possolo.

Mais novidades interessantes vamos ter. Por exemplo, uma emissão dedicada à "Industria Conserveira Portuguesa", no âmbito da qual queremos fazer uma edição especial de selos que serão apresentados ao público dentro de latas de conserva especialmente fabricadas para este efeito...

Bom ano para todos , sobretudo para os que se interessam por esta antiga actividade da emissão  de selos  e da edição de livros.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

A gripe espreita



Depois de várias tentativas anteriores  falhadas a insidiosa gripe acabou por me atingir ontem à tarde.

Estava eu ainda a gozar a notícia do prémio Gourmand 2015 atribuído ao nosso livro "Viver Portugal com o Mediterrâneo à Mesa", de Fortunato da Câmara...

Não pode um pobre mortal ter uma alegriazinha que logo os deuses invejosos lhe mandam o reverso da medalha.

Hoje tive de adiar um almoço há muito esperado com um bom amigo. E estou "piurso" por causa disso mas também  à conta do entupimento nasal e mal estar geral. Imaginem o que seria ter um "puro"  daqueles de origem protegida, lá da Ilha do tio Fidel de Castro  à disposição e não poder desfrutar do mesmo.

Depois vingamo-nos.

E quanto à gripe? Vale o velho ditado: abifa-te, abafa-te e avinha-te...

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Boas Festas!!



As pessoas andam desconfiadas. Não sei se o facto do banco mais confiável do país parecer ser aquele onde nos sentamos na cozinha (apesar das pernas tortas) terá a ver com isso...

Hoje de manhã estava eu a gozar com o dono do quiosque sobre a "figurinha" do Dr. Bruno de Carvalho na discoteca do Funchal (de onde foi convidado a sair). O meu senhorio não gostou e ia amuando.

Porquê? Um simples "fait divers" sobre uma personagem de interesse público...

É bem verdade que nem todos sabem aguentar o álcool, mas quanto a isso o SLB tem heróis antigos que poderiam dar lições ao novel  presidente leonino. Lembro-me de Toni em Teerão, lembro-me de Manuel Vilarinho (É pénalty? Manda vir 2!).

Há malta que não aguenta uma piada... O leão constipou-se? Nada disso! Caiu-lhe mal a poncha. Por isso foi Bruno Carvalho fazer a prova dos nove à Camacha. Encontrando-se esta fechada àquelas horas da noite , rumou à "Vespas" e foi o que se viu...

Por acaso já fui muito feliz na "Vespas",  que era perto da casa da "madame", local onde deve ter aprendido o ofício a mais célebre alternadeira do país...

Mas adiante que não estamos em Amarante... E nessas alturas éramos todos novos, eu, os meus colegas e as meninas da "madame". Esta é que se for viva deve estar hoje ao nível do Ramses II.

Entra o Porto à frente neste Natal. Vai o Sporting a seguir e o meu SLB encerra o pódium. Perguntarão: porque é que o gajo parece tão feliz se ainda anda a comer lama das patas traseiras  do gato? 

Ora essa! Porque estamos quase no Natal!! E amanhã vou passar o dia a cozinhar para as velh***, digo para as "santas" ,  e ainda tenho de ir com elas ao cemitério, porque aparentemente os mortos já gastaram as flores do dia de finados e querem agora as campas decoradas de novo para a quadra (mortos exigentes e mal agradecidos!). Cada vez mais me sinto um apoiante convicto da cremação.

Não acreditam nesta felicidade? Eu também não!

Boas Festas! Feliz Natal!

E bebam qualquer coisa de jeito na noite da Consoada, quando estiverem sozinhos em casa com a tropa fandanga já toda aviada para o dia seguinte. Pelo menos serve para  suavizar a dor...

P.S: Sobre o Bacalhau da Consoada leiam aqui:
gerador.eu
Neste site há um gajo que assina "Manuel Luar"  e escreve umas coisas sobre comes e bebes...Conheço bem a criatura.

terça-feira, dezembro 22, 2015

Bacalhau fresco? Para dar ao gato (sendo este pouco exigente)



Tenho de ter algum cuidado para não ferir as susceptibilidades de alguns amigos e amigas que juram pelo bacalhau fresco como eu juraria pelos presuntos de Bísaro.  Não lhes desejo mal nenhum, pelo contrário.

 Se o "bicho" fosse muito abundante só ansiaria que muito o comessem fresco e que deixassem o "outro" para quem gosta.

A Noruegazinha,  mai-lo seu Turismo alimentado a poços de pitrol, tem dado uma ajuda a esta moda do bacalhau fresco. Até já se organiza por esta Lisboa uma "Skrei Fest", evidentemente que acarinhada pelos pais babados da criatura.

Tentei comer duas vezes este dito Skrei. Na primeira fui ao engano, já que na carta do restaurante estava "bacalhau" e que eu saiba aqui em Portugal quando se escreve bacalhau é do salgado e seco. Odiei. Convenci-me a experimentar de novo, porque tenho por norma dar sempre e a qualquer coisa uma segunda oportunidade. E não gostei outra vez.

Li depois disso coisas mais ou menos incríveis em sites da especialidade, entre elas uma frase do tipo " Era o bacalhau fresco uma coisa muito prática porque não tinha que se demolhar...". Esta criatura era capaz de demolhar cherne ou pescada?  Talvez.

As razões da minha pouca inclinação para este novo "produto" são de duas ordens:

- Em primeiro lugar não me sabe bem. Prefiro o peixe da nossa costa mil vezes. Admito que as preparações do tipo "disfarça aquilo e mete espumas" não ajudam também.  Mas na grande prova real do peixe, que é a grelha com sal apenas ou a cozedura simples, esta proposta não se sai bem.

- A segunda razão do desgosto é mais estratégica. Se desatam a comer bacalhau fresco e dado que a espécie está a reproduzir-se com mais dificuldade, onde sobram os peixes para o bacalhau a sério??!!

Confesso que se vou a algum restaurante e vejo isto na carta irrito-me. E se é algum chef ou restaurador conhecido digo-lhe logo ali na cara o que penso.

O problema , como se pode adivinhar e tirando para fora da equação o "subsídio norueguês", é que o chef armado ao pingarelho - e desejoso de subir na escada do Miquelino - não admite ter na sua carta um prato dito de taberna, que é servido com alho picado , cebola e pode levar colorau... Mas ter um prato de "Skrei"? Só o nome dá uns ares de grito de falcão a subir no céu azul... Poesia pura...

Cada vez mais me parece que a gastronomia lusa está a ficar cheia de manias.  Cheia de manias e cheia de "pessoaszinhas" que abrem o restaurante e que o fecham no mês seguinte, queixando-se da crise e depois de terem torrado o dinheiro aos pais.

Chamo a isto a rota das três ervilhas e emulsão de caranguejo, com geleia de mirtilos em prato branco grande. 

Francisco José Viegas é que os topa a léguas!! Abençoado autor da "Dieta Ideal". Umas largas dezenas  de  receitazinhas que não utilizam skrei...  (Cruzes, Credo!).

E, em maré de livros de gastronomia, as palmas para o último de Fortunato da Câmara, outro cidadão que não parece conquistado pelo Skrei...O livro chama-se "Manual para se tornar um verdadeiro Gourmet". 

E é mesmo!


segunda-feira, dezembro 21, 2015

Vinhos para a Quadra



Sendo de esperar alguma parcimónia na frequência destes Posts, agora que se aproxima esta "quadra fatal", deixo aqui já hoje algumas recomendações sobre os vinhos que devemos ( ou podemos) apresentar nas nossas mesas.

A quadra do Natal e Ano Novo pode ser "fatal" para alguns, onde me incluo. Os motivos são muitos, mas não vindo a propósito os mais particulares, sempre lhes digo que em casas onde não há crianças e onde as famílias não se podem reunir por várias razões ( desde a antipatia mútua até à distância que os separa) nem sempre estas noites ditas "de festa" o são verdadeiramente.

Para amaciar esta nostalgia de outros tempos, onde se vivia o assunto natalício com alegria e calor humano, não há remédio melhor do que ter à mão um vinhito de qualidade. "Vinhito" é capaz de ser a palavra errada, como veremos...

Nem todos podemos beber aquilo que desejamos. Mas se o vil metal não fosse obstáculo, e mantendo-me apenas em Portugal, existem dois vinhos tintos que considero perfeitamente capazes de trazer uns momentos de felicidade a qualquer cidadão desanimado, a pensar como vai agora ajudar a pagar o Banif, em cima das outras coisas todas...

São eles o Legado 2011 - enorme vinho do Douro da Sogrape, feito em homenagem ao grande patrão, Sr. Fernando Guedes. E ainda o Carrossel 2011 da Quinta da Pellada, o cume da Touriga Nacional na sua região de excelência, que é o Dão. O primeiro custa em redor de 200€, e o segundo quase 60€. Por garrafa, não é pela caixa...

 Há  quem goste de ler estas coisas da mesma forma que se pode entreter no barbeiro a ler a crónica na revista "Turbo" sobre o novo Bentley Continental GT, uma ninharia do mundo automóvel proposta por cerca de 400 000€. Não é para comprar. É para saber que existem e para sonhar .

Para essa malta que pelo sonho é que vai, mas é com o olho no conteúdo da carteira que faz as compras, tenho outras propostas mais comuns.

E a minha bitola para este Natal ( e Ano Novo) são os 20€ por garrafita.  Bitola que permite beber muito bem. De notar que algumas destas propostas estão mais próximas dos 15€ do que dos 20€! Obrigado Portugal!

a) Vinhos Tintos até 20€ , e de Norte para Sul:  Quinta do Vallado, Sousão 2012; Luis Pato Vinhas Velhas, tinto de Baga 2010; Quinta de Saes estágio prolongado 2012, Dão; E para famílias grandes um achado: Uma Magnum Frei João da Bairrada de 1995 a menos de 20€ ela também (na garrafeira Nacional)!! Só para quem gosta da Baga mais evoluída.

b) Dos tintos para os brancos: Alvarinho Dona Paterna de 2014; Tiara 2010 (Nieepoort); Quinta dos Carvalhais Encruzado 2014; Vidigueira Grande escolha Branco 2013.

c) Espumantes: Murganheira Único; Vértice Gouveio 2007; Montanha Chardonnay Arinto Super Reserva;

d) E um belo Porto para acompanhar um charuto: Niepoort LBV 2011; Warres LBV 2003.

Nota: Um grande whisky de malte infelizmente não se apanha a menos de 20€... Hélas...

Boas Festas!!

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Desvendando segredos

Pensei bem se deveria fazer aqui esta revelação hoje.  Porque há coisas tão boas que se podem estragar com a divulgação...Mas estamos no Natal...

Trata-se de um pequeno restaurante que seria na  "província" nos tempos do Eça de Queiroz, mas que hoje está a dois passos do centro de Lisboa (para quem saiba lá ir ter).

Casal de S. Brás.   Rua Sebastião da Gama , nº1. E o local chama-se (imaginem) Restaurante Fialho!! TELEFONE - 214 942 899

A Matriz da carta e das propostas fora desta  é  do baixo Alentejo ( os proprietários são da Vidigueira), mas a arte da cozinheira e das matérias primas está a um nível bem alto.

A primeira vez que lá fui  estava tão bem acompanhado por dois mestres na arte de comer e de escrever sobre o assunto (Quitério e Fortunato) que me acobardei de dar testemunho desse almoço que foi notável. Pela companhia, sem dúvida, mas também pelo que se comeu.

Mas depois disso já lá voltei, motivo pelo qual estou mais à vontade para fazer a humilde reportagem.

Casa pequena, muito simples e plena de parafernália "verde". Dono, mas sobretudo o filho, são sportinguistas de gema. O que me levou a pensar se um estorilista com o coração na Luz seria ali bem recebido. Foi. E muito .

Convém reservar, não só porque a casinha é pequena, mas também porque muitos dos pratos mais apetecíveis são encomendados previamente.  Mas mesmo que venham ao sabor da maré e do vento (que foi o que me aconteceu na última vez) não sairão dali defraudados.

Não esperem mordomias de casa a atirar para o finório. Não esperem panejamentos de damasco e copos de cristal. Esperem apenas simplicidade, saber receber como se fossem da família, boa comida caseira e muito boa qualidade das matérias ali trabalhadas.

Não é casa para ver e ser visto. É uma casa para ir comer. E sair com um brilhozinho nos olhos.

 A lista fixa  é mais ou menos a que segue - Entradas: torresmos; farinheira frita; paio de Sousel; cogumelos.  Pratos Principais:  Bacalhau à Brás, Pernil assado; carne alguidar; lombo assado com poejos. Por encomenda; arroz de coelho bravo, javali, canja de pombo bravo, Perdiz em várias apresentações.  Sobremesas: pudim de mel de Portalegre; bolo de requeijão; sericaia. 

Mas o patrão tem sempre alguma coisa atrás do balcão que vale a pena experimentar. No dia em que lá fomos era um aromático Caldo de Peixe (poejos e hortelã da ribeira)  que podia ser servido com achigã ou com robalo. E o prato dia era o clássico Ensopado de Borrego. 

Comemos o Caldo  com o Achigã (superlativo) e o Ensopado (muito bom na  sua singeleza natural) . Rematámos com a Carne do Alguidar (magnífica) aqui com migas de pão. E ainda houve espaço para dois cafés e uma "branquinha" particular (porque era Sábado).

Os vinhos  propostos são geralmente pouco conhecidos e na sua maior parte transtaganos. Nesse dia bebeu-se uma garrafa de branco da Vidigueira e uma de tinto (também alentejano) Migas. Ambas de 2013. Muito interessantes e a preços afabilíssimos.

A Revista de Vinhos escreveu sobre o "Migas": Feito com Trincadeira, Aragonês e Alicante Bouschet. Muito bem no aroma, simples, directo mas com fruta evidente e um estilo muito acessível. Na boca mostra-se macio, de médio corpo e muito capaz de boa prestação à mesa. Beba-se novo.

Com isto tudo , 2 pessoas, 2 garrafas de vinho, três pratos principais mais as entradas plenas da casa, onde avulta um "toucinho de porco alentejano" daqueles que metem medo a qualquer cardiologista, pagou-se 72 euros...

Conclusão: É uma casa onde maníacos de dietas, metrosexuais e ávidos de publicidade manhosa se devem abster de entrar. Ali só vai quem gosta de comer. E apesar dos "leões" que avultam pelas paredes ( até nos copos! ) tenho que dizer que um benfiquista ou portista parciais à boa gastronomia não deixarão de entrar neste estádio e aplaudir estes "treinadores". 
Este "Fialho" do Casal de S. Brás faz honra ao nome fidalgo. E , embora possa parecer heresia para muitos, tenho até que dizer que algumas das suas propostas ultrapassaram -  no meu entender - as da outra "Catedral de Évora". O que não é dizer pouco...


quarta-feira, dezembro 16, 2015

Na Província



Houve tempos em que ser provinciano tinha conotações menos positivas. Era ser "tacanho", "pouco polido", "bisonho" ou "rústico".

Isto para utilizar apenas adjectivos simpáticos. Porque o que se podia chamar ao dito cujo era bem pior. Começava com a palavra "saloio" e acabava com coisas como "burro" ou "calhau".  E até havia malta citadina que dizia que " a maior diferença entre um provinciano e um penedo é o olhar inteligente do penedo".

Os provincianos também não se ficavam. Ficou célebre a fala do padeiro de Mafra, gozado em Lisboa por um grupo de fidalgotes  que tinha  ido aos fados: "levanta-se um homem tão cedo para dar de comer a semelhantes bestas!"

 Não vou aqui falar dos grandes exemplos de vultos extremes da nossa cultura que nasceram sem  vista de  cidade. Por exemplo, o Padre Manuel Antunes , um dos mais importantes Jesuítas portugueses do século passado,  classicista e filósofo, filho de aldeões, que fez o exame da 4ª classe descalço em Guimarães.  Ou o grande Aquilino Ribeiro de Sernancelhe.

Prefiro reparar na qualidade de vida que ainda se pode ter nesses locais afastados das grandes cidades.

Sítios onde almoçar e jantar fora são muito mais baratos, onde ainda é possível escolher o que se come e o que se bebe em casa dos produtores, e, finalmente, onde o maior stress do cair da noite não será a fila interminável de 45 minutos para fazer 7 km, mas sim ter de ouvir a vizinha do lado a dar uma "bernarda" ao marido, por ter chegado um pouco "aviado" do café.

Para já não falar da ausência de poluição e do facto de parecer que os dias ( e as noites) têm horas a mais. Horas para conviver!

E onde a conversa à mesa  seria sobre o lavrador que nos vendeu a rês de onde veio a carne de vitela, e não sobre o super-mercado onde uma embalagem com o mesmo nome pode ser comprada.

Imaginem um local onde 6 pessoas à mesa deram conta de três travessonas de vitela assada maronesa, 3 garrafas de bom vinho, excelente broa e pão de trigo, queijos,  doces e cafés. Tendo tudo isso custado ...72 euros.

Falta a FNAC, falta o S. Carlos, a Casa da Música,  ou o Coliseu?  Falta a Gulbenkian? Falta o Bairro Alto e a Ribeira ou a Foz?

Pois faltam. Não se pode ter tudo...

Mas há alturas da vida em que se começa a dar mais importância às outras coisas mais simples.

E a invenção do satélite permite hoje ter Banda Larga em 100% do território nacional. E acesso às TV's por cabo. E a possibilidade de termos quase todos os livros do mundo no IPad.

Que tentação...

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Para Descansar a Vista, a bordo do DeLorean



Trago hoje um poema já com vista para 2016.

Deste 2015 ainda não fiz o balanço. Assim de repente não me parece que tenha sido um ano mau...

Como sou sempre optimista receio que essa observação seja pouco fundada. Regressarei a este assunto depois de maior análise.

Mas como do ponto de vista do trabalho já "estou" em 2016 há pelo menos 1 mês, a bulir nas emissões e nas edições que vão sair nesse ano, não me parece mal a antecipação.

Fica então aqui, para não maçar muito, uma pequena "jóia"  do grande Alexandre O'Neill.

Aos Vindouros, se os Houver...

Vós, que trabalhais só duas horas 
a ver trabalhar a cibernética, 
que não deixais o átomo a desoras 
na gandaia, pois tendes uma ética; 
Que do amor sabeis o ponto e a vírgula 
e vos engalfinhais livres de medo, 
sem peçários, calendários, pílula, 
jaculatórias fora, tarde ou cedo; 
Computai, computai a nossa falha 
sem perfurar demais vossa memória, 
que nós fomos pràqui uma gentalha 
a fazer passamanes com a história; 
Que nós fomos (fatal necessidade!) 
quadrúmanos da vossa humanidade. 

Alexandre O'Neill, in 'Poemas com Endereço' 

quinta-feira, dezembro 10, 2015

O Banco da Malta





O Banco da Malta não é o do jardim onde a "malta" mais experiente joga à sueca. Nem sequer algum banco situado na Ilha de Malta, ou conhecido pelas suas ligações à Soberana Ordem de Malta.

Não senhores! O Banco da Malta é o Banco CTT. Ao qual não chamarei o "novo banco", por motivos óbvios, mas sim o "Banco Novo" cá do burgo.

Fui hoje abrir a minha continha na infante instituição e deram-me um número simpático, o 49.   Pelo menos na terminação acertaram.
Este banco - por enquanto apenas aberto aos trabalhadores dos CTT - oferece ao depositante home banking, mobile banking, transferências e outras operações sem comissões (por exemplo disponibilização de dinheiro ao balcão sem cartão).  Não dá juros nos DO. Ainda não se concretizou esse milagre, mas como estamos próximos do Natal..

Envio daqui calorosas saudações ao recém-nascido e aos felizes Pais. Desejos de muitas felicidades, que não são desinteressados...Quanto mais sucesso tiver,  melhor para a referida "Malta".

Os progenitores são é muitos...Mais de 25,000 accionistas. Bem sei que  se dizia antigamente "Mãe há só uma e Pai nem sempre" , mas isto é abuso...

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Uma volta pela "night", 20 anos atrás



Não me recordo da última vez que fui "aos fados".  Talvez fosse em 2005...

Houve uma altura da vida em que mais ou menos todos os meses passava pela casa da Maria Jô-Jô, a Taverna d'El Rei que fica na Alfama "baixa".  Não só - devido aos "ossos do ofício" -   algumas vezes levava clientes e amigos estrangeiros a esse local, como até acontecia encerrar por ali alguma noite "de trabalho" mais animada.

Digo "de trabalho" porque o pretexto era mesmo esse.  Marcava-se a reunião para o final da tarde.  Trabalhava-se até perto das 20h e a seguir  concordávamos que "já não valia a pena ir jantar a casa".

Depois era romaria para o saudoso "Barrote Atiçado" na Pontinha. Ali ficávamos até à meia-noite. Seguindo posteriormente para algum lado onde pudéssemos continuar a faina. Ou no Bairro Alto ou então na Maria Jô-Jô. Certos dias era eu que ganhava a aposta e íamos para o "Blues" nas Docas, ouvir Jazz.

Bons tempos? Eram pelo menos tempos diferentes. Lisboa parecia mais alegre, adivinhava-se a chegada do Euro e a entrada na CEE.  Fizera-se a EXPO 98. Havia dinheiro a circular em tudo o que era sítio. Por isso mesmo também nos bares e restaurantes, que estavam quase sempre cheios.

Para entrar e arranjar mesa era preciso conhecer os porteiros ou a dona da casa. E fazia impressão ver o número de garrafas de whisky com nomes de clientes que esmagavam as prateleiras. Tanto no Bairro Alto como em Alfama, em casas de fado  ou em discotecas e bares. Uma garrafa de 12 anos custava entre 8 e 12 contos naquela altura. Era dinheiro.

Não sei se ainda será assim, porque nunca mais frequentei a noite com aquela assiduidade. Mas dizem-me que há menos destes clientes gastadores. Leiam aqui sff a opinião do representante dos comerciantes do Bairro Alto, transmitida à Lusa:

A passagem para um maior consumo da cerveja é óbvia, porque é muito mais barata. O whisky velho até era uma bebida com bastante saída e agora deixou de se servir”,  Além disso, acrescentou, tem-se notado também um acréscimo de pessoas que marcam presença num bar ou discoteca uma noite inteira sem consumir. “Muitas vezes os espaços até estão compostos, mas as pessoas não consomem.

Na passagem do século XX para o actual não era assim. Quando chegávamos ao "Plateau" o porteiro mandava logo avançar a "caravana".  Cheirava-lhe a dinheiro, no bolso dele e na caixa registadora. Passávamos à frente da malta nova que nos fuzilava com os olhares e quando saíamos, sendo 4 ou 5, pelo menos duas garrafas de Johnny Walker Black tinham marchado.

Ainda hoje quando tenho ocasião de beber esse whisky - o velho malte ainda não estava na moda - lembro-me dessas aventuras dos meus 40 anos. Idade engraçada quando alguma maturidade ia de mão dada com  poder aquisitivo. E nessa altura nem era preciso ter muita sorte, quem quisesse trabalhar tinha emprego. E dinheiro para trocos.

O tempo não volta para trás. Mas era bom que a situação económica pudesse voltar.

Bem sei que os leitores mais cínicos (ou perspicazes) estarão a dizer que foi exactamente por termos gastado tanto nesse tempo que hoje estamos assim. Será verdade nalgumas coisas. Mas não se comparem barragens e auto-estradas com consumos privados de 100 euritos por noite, 2 vezes por mês.

Se bem que 100 euritos eram ao tempo 20 contitos... Fazia muita diferença.



segunda-feira, dezembro 07, 2015

Decorações de Natal



Depois de uma altura em que a "crise" apagou as ruas das nossas cidades , parece que agora o caracol do despesismo recomeçou lentamente a "pôr os pauzinhos ao sol".  Muito bem. Nem só de pão vive o homem e etc... E as "luzinhas " nas ruas animam o pessoal.

Não critico por isso estas decisões autárquicas.  Tenho todavia o meu grilo falante privativo a confidenciar-me ao ouvido que será ainda um pouco cedo para deitar foguetes...

E não falo obviamente das iluminações de Natal.  Mas sim de outras "aberturas orçamentais" que forcem as cadeias da austeridade.

Claro que se aplaudem as boas intenções da malta nova  e que é sabido que pelo consumo também se cresce.  Mas o gato escaldado da água fria tem medo. E, para o bem e para o mal, esta "perestroika" ainda não chegou aos bolsos de ninguém.  Nem dá para gastar, nem para poupar, por enquanto.

Tenham calma.

À laia de exemplo refiro o medo que os alemães ainda sentem - depois de 60 anos - da inflação galopante que sofreram nos anos 50 do século passado e que é  determinante na definição da respectiva política monetária atual.
Pelo menos assim entendemos o "responso" de Herr Wolfgang Shäuble cada vez que lhe falam em mexer na sua querida "estabilidade monetária".

Eu gosto de ver as "luzes" nas nossas ruas, mas dou de barato ter em casa decorações natalícias. Não me interpretem mal. Não é ausência de espírito natalício, mas sim prezar sobretudo alguma sobriedade naquilo que vejo quando estou sentado em casa: olhar para os nossos livros, passar os olhos pelas centenas de DVD's, admirar os velhos discos de vinil, esse tipo de coisas aconchegantes.

Para mais, não há ali crianças para admirar presépios nem para rodear a árvore de Natal. Apenas duas "anciãs" que fazem a parte de atrizes convidadas e dois matulões que - se lhes deitarem um pouco de Lagavullin no copo na noite de consoada - já gozam sem mais necessidade de outros estímulos.

Mas as "anciãs" normalmente tomam conta desta ocorrência da "decoração natalícia"nos dias que antecedem o Natal e - tendo por aliada a nossa empregada - metem "meninos Jesus" e "pais natal" em tudo quanto é puxador de gaveta. Não deixando de enfiar "estrelas" e "árvorezinhas de  Natal" nos espaços disponíveis das restantes prateleiras...

Particularmente ofensivo foi ver que na prateleira da ciência política taparam parte da obra do Maurice Duverger com a procissão dos Reis Magos. e quando me queixei logo me disseram que "não me enxofrasse porque a procissão todos os dias andaria mais um bocadinho até chegar ao presépio..."

No candeeiro de pé está um bojudo Pai Natal sorridente pendurado por um fio dourado. Em frente à televisão colocaram um presépio, de tal forma que  tapa o receptor do comando à distância.

Apenas meti o pé com estrondo quando me deparei com a "fotografia" do Menino Jesus nas janelas da sala.  Depois de muito falatório lá a retiraram...Para depois a dita cuja  ressuscitar colada na porta da rua...

Não há mais nada a fazer. Nesta quadra e como já não tenho possibilidade de fugir de casa, o melhor é aguentar e ir esperando que passe.

Vou esperando e vou bebendo (e comendo), como sempre me aconselhou o meu Pai.

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Um livro admirável sobre o Mar Português

Foi esta a primeira vez que os CTT, ao longo de um percurso editorial com 32 anos, desenvolveram um dos seus livros temáticos em estreita colaboração e parceria com uma entidade externa à nossa empresa, no caso em apreço, com o Centro Nacional de Cultura.
Provavelmente – pela temática abrangente, pelo rigor científico dos conteúdos e pela necessidade de apelar a vários grandes especialistas para colaborarem neste livro – foi este também o projeto editorial mais complexo alguma vez levado a cabo pelos CTT.

Trata-se da obra “Do Mar Oceano ao Mar Português”, uma proposta do Sr. Prof. Mário Ruivo, que também a coordenou em colaboração com o Prof. Álvaro Garrido, tendo a organização de conteúdos sido executada pelo Centro Nacional de Cultura.

Este livro - que já está à venda em todas as nossas Lojas - foi ontem apresentado no Torreão da Praça do Comércio, numa cerimónia que juntou dezenas de pessoas interessadas e muitas individualidades ligadas ao mar, começando pelo Sr. Almirante CEMA, passando pelo Dr. Rui Vilar, Dr. Augusto Mateus, Prof. Doutor Braga da Cruz, etc, etc...

Uma das principais conclusões que se podem retirar deste livro talvez seja o facto que a concretização de um “Império do Mar” atual não exige apenas grandes recursos económicos ou demográficos, mas se baseia sobretudo em conhecimento: domínio científico, meios técnicos e concepção estratégica, ou seja, na inteligência aplicada a uma vontade inequívoca de fazer.

O caminho está preparado, diríamos em termos marítimos, que o roteiro pode ser retirado deste portulano certificado pelo conhecimento e pela grande experiência dos seus autores. Falta cumpri-lo.

 E, falando em Autores, é devida nesta ocasião uma palavra de agradecimento e de grande estima a todos eles: EMANUEL GONÇALVES, FÁTIMA MOURA, FERNANDO BARRIGA, JOAQUIM ROMERO MAGALHÃES, MÁRCIA MARQUES, MARIA EDUARDA GONÇALVES, MARIA ISABEL JOÃO,  RAQUEL RIBEIRO e TELMO CARVALHO.

Todos são mestres nas suas matérias de eleição e a todos eles agradecemos sinceramente a colaboração que nos deram para fazer desta obra, perdoem a  falta de modéstia, um dos mais importantes, se não o mais importante livro sobre Portugal e o Mar que até hoje se escreveu em português.

Os mesmos agradecimentos são extensíveis ao Designer Prof. José Brandão que superiormente executou a arte final desta obra, e a toda a equipa do Centro Nacional de Cultura, inexcedível de dedicação a este projecto comum.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

O bicho

Na ressaca de mais uma discussão de Programa de Governo (perco-me nestas discussões) veio-me à memória a história do poema "bicho político". É um poema de que gosto muito logo pela 1ª linha...Mas não só.  Apesar de escrito em português (com açúcar) tem verdades verdadeiras em qualquer país do mundo.

Com a devida vénia ao autor (retirado de "habitat carioca") aqui fica:

Bicho Político
As águias estão no topo da cadeia,
Juntamente com a onça e o tubarão,
No meio estão os bichos mais valentes!
Porque, não sendo fracos, nem fortes,
precisam transitar entre dois mundos,
comer e dar comida pros filhotes.
Um pouco abaixo tem os produtores.
Que dão o sustento aos de cima,
se esforçam e fazem filhos no atacado.
E toda fauna e flora segue em frente,
lutando mais ou menos lado a lado...
Com apenas uma única exceção:
A classe principal dos parasitas!
Que em meio à lama suga as energias,
em tocas, sob coisas, às escondidas!

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Chocalhando pela planície



Os chocalhos são a música da natureza, segundo dizem.  Não me oponho e pelo contrário até aplaudo a citação. E embora a fama se deva em muito ao chocalho vaqueiro, o certo é que ovelhas, cabras e até cavalos também os usavam.

No site dos "Chocalhos Pardalinho" encontra-se material para galinhas, furões, perus, e cães. Para além dos mais comuns.

E em relação a "gatos" fala-se de "guizos" e não de "chocalhos". Porventura por aproximação semântica à palavra "guisado"... Guisado com ervilhas...

Não vi referência ( mas se calhar farão por encomenda) a chocalhos para outro tipo de animais, dos que andam em duas patas... Sendo que faço aqui notar (leia-se no parágrafo seguinte) que haveria situações onde seriam bué de úteis.

A pendureza chocalhante teria o objectivo de facilitar encontrar o animal durante a noite (para a ordenha).

E sendo esta situação relativamente de espanto para os citadinos de gema, convém lembrar a essas criaturas de estufa que no campo, pelas 5 da manhã de Inverno, está escuro como breu e  não dá para acender o candeeiro no chaparro mais próximo. Os chineses ainda não vislumbraram por ali negócio de electricidade.

Um chocalho está para a vaca como o telemóvel está para as pessoas (salvo seja) . Só que apenas faz chamadas. Não as recebe. Mas faz chamadas com diferentes "vozes", mais graves ou mais agudas consoante o timbre do metal e a dimensão do instrumento.

Lá na quinta da Beira Alta se ouço chocalhar indo a pé começo logo a olhar para o chão, não vá entrar em casa com as solas dos pés menos limpas... E se vou no carro está na altura de parar mesmo. "Devagar é que se ajunta o gado" como dizem lá por cima.

Em Alcáçovas temos a capital nacional do chocalho. Há centenas de anos que se fazem naquela terra segundo técnicas que já seriam conhecidas dos velhos romanos. Mas esta sabedoria popular está a acabar.

Porquê? Falta de pastores ou falta de gado? Menos crença na fama de "espanta espíritos" e "talismã contra doenças" que os chocalhos têm desde a Idade da Pedra? Generalização das lanternas de pilhas no meio pastoril?

Não tenho a certeza, mas como temos agora esta Arte como Património Imaterial da Humanidade UNESCO, haverá tempo e circunstâncias para nos inteirarmos de todos estes deliciosos pormenores...

E - como é óbvio - uma emissão de selos, dos oficiais da República, será proposta para 2017 tendo como tema estes instrumentos.