quarta-feira, julho 31, 2013

As Palavras das Tribos que nos assolam


Pertinácia é Excesso de obstinação ou persistência; teimosia; Contumácia é a recusa de um acusado em comparecer a juízo quando obrigado. Perspicácia é  a capacidade de perceber claramente complexidades e subtilezas, Falácia é um raciocínio errado com aparência de ser verdadeiro e Verbigrácia é “por exemplo” na horrorosa aliteração á la mode de Copacabana do latim verbi gratia (v.g.)
 
Nos tempos que correm é possível (mas não desejável) construir uma frase com estes palavrões:
 
O pertinaz réu , culpado de abjeta contumácia, utilizou a falácia na defesa que fez da sua posição. Mas a perspicácia do Juiz de Direito cedo o encostou às cordas, verbigrácia na altura em que exibiu o falso atestado de óbito com que o suspeito andava há já alguns anos a enganar a Segurança Social.
 
Uma “gíria” ou melhor,  “linguagem especial” por demais conhecida é a do futebol, que alguns alcunham de “futebolês”. São termos como: garrinchear (driblar) , pelada (mau futebol), folha-seca (pontapé com efeito que muda a direção da bola), arquibaldos , geraldinos, zona do agrião (grande área), domingada, ripa na chulipa (remate à baliza), pimba na gorduchinha (remate), telegrafar a jogada.
 
O grande Osmar Santos, "O Pai da Matéria", o maior cronista de futebol relatado do mundo estabeleceu a primazia nesta linguagem típica e reconhecida por todos os torcedores.
 
Vejamos agora a “fala” do atual Governo, traduzida para o calão futebolês, na véspera das eleições autárquicas.
 
Diz o nosso Primeiro Ministro: Os meus jogadores estão muito motivados e a derrota sofrida na última jornada em nada afectou o rendimento. A vitória está ao nosso alcance.
 
E depois das ditas eleições:
 
Logo a seguir ao jogo aí estão de novo os intérpretes com novas e retumbantes declarações, desta vez o Capitão da equipa (digo, o Vice Primeiro Ministro) : Temos que reconhecer que a equipa adversária não se superiorizou mas o árbitro deu-lhe uma ajuda ao não marcar uma grande penalidade a nosso favor. Ganhámos moralmente e em jogo jogado fomos superiores. Só quem não viu o jogo pode pensar de outra maneira!
 
E a palavra da oposição vencedora:
 
Vem depois o treinador vencedor, estimo que seja António José Seguro (mas não juro nem aposto) : Ninguém pode ter dúvidas que mostrámos uma grande coesão; o árbitro teve alguns deslizes mas que não afetaram o resultado, como foi público e notório.A haver um vencedor tinha de ser este PS!
O árbitro, todos sabemos já quem é...
O que nem todos sabem é alguns dos nomes mais criativos que se chamam ao Árbitro na vida real:
 
"A sua mãe tá na zona!" ; "filho, mamãe é p*** e isso não impede de te amar."; Tens mais cornos que um prato de caracóis, meu grande FDP!" ; Marra bezerro, marra no vermelho ganda cab***!"
 
E o mais completo insulto já ouvido mas acho que nunca publicado na imprensa regional desportiva, segundo parece gritado por um benfiquista, não fosse a inexplicável referência final aos "pneus":
 
"filho da p*** de um ganda c*****, boi preto capado! De quanto é o cheque careca? palhaço vai para a c*** da tua mãe corrupto de m****  preto de m****  parte-lhe a perna c***** ladrao pinto da costa vai para o c******* pinto da costa faz-me um b*** porto é m****  lagartos nojentos tripeiros nojentos treinador de m****  este vale tudo é um ladrao kadhafi dos pneus boi nojento cornudo!!"
 
Até mete respeito caraças! 

E depois de tanta linguagem vernácula, português do mais puro antes do Acordo Ortográfico,  acabamos com um comentário erudito, mais de acordo com o espírito deste Blog:
 
Nota sobre a diferença entre  a Gíria e a Linguagem especial, da autoria do Professor Mattoso: Em sentido estrito, uma linguagem fundamentada num "vocabulário parasita que empregam os membros de um grupo ou categoria social com a preocupação de se distinguirem da massa dos sujeitos falantes" (Marrouzeau, 1943: 36), o que corresponde ao que também se chama JARGÃO. Os vocábulos da gíria ou jargão coexistem ao lado dos vocábulos comuns da língua: "a gíria só se torna tal porque se projeta num fundo de tela que não é gíria" (Krapp, 1927: 64); ela abrange o vocabulário propriamente dito e a fraseologia. A origem pode estar em: - a) derivações anômalas (ex.: bestialógico, da gíria dos estudantes), b) deformação de vocábulos usuais (ex.: brilharetur, idem), c) metáforas ou metonímias (ex.: burro, idem, para um texto grego ou latino com tradução literal), d) especialmente digna de nota a gíria dos malfeitores, designada como calão. Há gírias em classes e profissões não só populares, mas também cultas, sem qualquer intenção de chiste e petulância, que comumente caracteriza as primeiras; mas em todas há uma atitude estilística. Quando se trata de mero vocabulário técnico, sem essa atitude, tem-se a LÍNGUA ESPECIAL, como a dos médicos baseada em helenismos técnicos. Em sentido lato, a gíria é o conjunto de termos que, provenientes das diversas gírias em sentido estrito, se generalizam e assinalam o estilo na linguagem coloquial popular, correspondendo aí ao papel da língua literária na linguagem poética. Amplia-se com o uso de termos obscenos ou pelo menos grosseiros para a expressão de uma violenta linguagem afetiva.

 

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