sexta-feira, setembro 14, 2012

O Poço

Um dos meus primeiros trabalhos quando fui conhecer os meus sogros à quinta da Beira Alta foi - imaginem para um cascaense - ajudar o pessoal a "desentupir um poço de rega".

Naquela altura , lá para 1979,  a rega dos lameiros no Verão era feita com a água que , vinda de serra, se armazenava em duas ou três "minas" que se furaram na quinta. E uma dessas estava a necessitar de manutenção. Andei por lá um dia e meio, e juro que cada vez que tirava um balde de lama e pedras do fundo tinha quase a certeza que era o último. Mas não era...

O "fundo do poço" ficava sempre um pouco mais para baixo. Na prática, como depois compreendi, o fundo era aquilo que o meu sogro entendia que devia ser. Quanto mais fundo e desanuviado de constrangimentos melhor, mais água apresava...

Este Portugal parece ser  o tal poço...

Ontem nas TV's fomos bombardeados por uma catadupa de impressões sensoriais que começaram com a intervenção do Lider da oposição e  pela entrevista do 1º Ministro e depois , até altas horas, continuaram com os muitos comentários de tudo quanto era gente, de todos os quadrantes.

É certo e sabido que Pedro Passos Coelho está cada vez mais parecido com José Sócrates na teimosia e obstinação. Por outro lado, Seguro afirmou-se claramente e ergueu a bandeira da oposição firme a estas políticas. Do CDS nada se sabe : Paulo Portas imita a ficção e " mostra de Conrado o prudente silêncio"...

A tróika, o memorando, os sacrifícios , a TSU. O povo, a classe média, os banqueiros, o IRS as empresas , as falências e o desemprego... Mas que grande caldeirada!

Algumas coisas, contudo, parecem certas:
a) Portugal não sai deste "poço" sozinho.
b) Os credores só emprestam com condições.
c) Quem precisa tem de pagar e sofrer.
d) Mas...há graduações nos sacrifícios e nesse sofrer.

Pondo tudo isto em equação acho que qualquer cidadão de boa fé entenderia que o caminho tem de ser  a continuação dos sacrifícios e do sofrimento, MAS de forma a que os que têm de pagar ( e são os trabalhadores por conta de outrém, pensionistas e pequenos empresários que assumem essa condição quase exclusivamente) o possam fazer sem maior desagregação do seu nível de vida e mantendo a  esperança em dias melhores.

Por outras palavras: pagar e sofrer sim. Mas com conta , peso e medida que evite a revolta social e a ruptura do povo com o  Governo.

Aqui é que Passos Coelho e Gaspar falham: não entendem (ou, ainda pior, sabem-no perfeitamente mas não conseguem resolver)   que pela Receita estamos quase a romper a corda... E que todas as baterias têm de ser apontadas ao controlo da Despesa do Estado.

Mas esta não é facilmente controlável...

Medina Carreira incita o Governo a rasgar as PPP. Mas ontem percebeu-se porque é que o Governo não o faz: Os detentores desses contratos "complexos" são os mesmos bancos internacionais a que Portugal depois vai pedir dinheiro para se financiar... Que pescadinha de rabo na boca...

O mundo é uma roda. Tudo vai dar ao mesmo: o grande capital está em tudo, parece uma cola pegajosa que se prende às mãos. As marionettes (que são os Passos Coelhos deste mundo) dançam ao som dos tambores enquanto que os bonecreiros\banqueiros mexem nos fios que lhes prendem pés e mãos.

O que é Vitor Gaspar senão um "feitor dos patrões"?

Nesta situação já nem sei bem se não preferiria um corte profundo com tudo: sair do euro e pôr o contador a zeros outra vez...

Ou isso, ou finalmente haver sensatez no Governo e na Oposição para negociarem conjuntamente um Programa mais suave de ajustamento.

Os credores não o permitem? Olhem que sim...Mais vale receber a "maquia" mais tarde do que nunca mais a receber...

E a Islândia parece que conseguiu fazer entender isso perfeitamente aos seus credores. Porque não Portugal?

Vejam aqui sff:
http://www.standard-freeholder.com/2012/07/01/icelands-defiant-president-wins-record-fifth-term

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