sexta-feira, julho 31, 2009

Para Descansar a Vista

De Ruy Belo, um dos poetas preferidos de Eugénio de Andrade, aqui vai o notável "Em elogio da Amada":

Elogio da Amada
Ei-la que vem, ubérrima, numerosa, escolhida ,
secreta, cheia de pensamentos, isenta de cuidados

Vem sentada na nova primavera
cercada de sorrisos no regaço
lírios olhos feitos de sombra de vento e de momento, alheia a estes dias que eu nunca consigo

Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso
que começa para além dela a ser longe

A amada é bem a infância que vem ter comigo

Há pássaros antigos nos límpidos caminhos
e mortes como antes nunca mais

Ei-la já que se estende ampla como uma pátria
no limiar da nossa indiferença

Os nossos átrios são para os seus pés solitários

Já todos nós esquecemos a casa dos pais
mas ela enche de dias as nossas mãos vazias

A dor é nela até que Deus começa
e eu bem lhe sinto o calcanhar do amor

Que importa sermos de uma só manhã e não haver
em volta árvore mais açoitada pelos diversos ventos?

Que importa partirmos num desmoronar de poentes?

Mais triste só mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência ...

Que importa se onde pomos os pés é Primavera?

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

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