quinta-feira, março 31, 2016

A ver Voar

Cá vou a caminho de Vila Nova da Rainha, muitíssimo bem acompanhado pelo Tenente-General Mimoso e Carvalho, o grande conhecedor de tudo quanto é detalhe da história da aviação militar no nosso país ( e não só!).

Em Vila Nova da Rainha aconteceu o nosso 1º voo militar, por esse motivo os historiadores chamam-lhe  "o berço da aviação militar":

A Lei 162 de 14 de maio de 1914,  criou a Escola de Aeronáutica em Vila Nova da Rainha, “Berço da Aviação Militar Portuguesa” .

Desse "berço" darei notícias. Que serão boas!

terça-feira, março 29, 2016

Assar Sargos no forno



O grande peixe do nosso mar para o forno é o Pargo (Pagrus,pagrus). Ficam ali sempre bem ainda o Imperador e o Goraz. Todos têm gordura suficiente nos meses bons ( e até nos outros) para aguentar a "pancada" da temperatura do forno sem ficarem ressequidos.

 E se se tratar do Sargo?  Os peixes da família Diplodus sargus, são magníficos para grelhar sem dúvida, com uma alimentação baseada em bivalves  (a quem partem a casca com os incisivos) e moluscos, o que lhe dá carne branca e firme e um sabor excelente. Mas no forno?

 Já veremos como e quando...

Tal como é normal para as famílias de peixes mais conhecidas em Portugal, também existem vários tipos de "sargo": O sargo comum, o sargo veado, o sargo prateado de lábios grossos,  a safia e o sargo preto são os mais conhecidos.

De entre estes o que é melhor para o meu gosto é o sargo preto das rochas, que se apanha em Sagres e no Cabo da Roca perto de Cascais.

Quando tivermos sorte de apanhar um peixe destes na época em que está bem gordo, e se for um exemplar a atingir os dois kg ( ou até ultrapassando, o que será raro) temos os ingredientes para um invulgar prato de forno.

 De Setembro até Fevereiro são os melhores meses para  comer estes peixes. O peixe prepara-se para o acasalamento para depois desovar em meados de Fevereiro,  está geralmente gordo e aparecem exemplares de maior dimensão. As douradas e os sargos alimentam-se nesta época principalmente de marisco (mexilhão, percebes,...) o que os faz deliciosos.

Vamos agora à receita e ao truque para que o Sargo no forno não fique com aquele mau aspecto de encarquilhado e seco.

O lume quer-se brando e as batatas do acompanhamento devem ir para o tabuleiro já "entaladas" , para que asse tudo ao mesmo tempo. Ou então partir as batatas cruas às rodelas finas...

Quando o animal for mais magro podemos abusar um pouco mais dos temperos. E assá-lo "à moda de Sines" é aceitável: fazemos um pisado com um pouco de azeite, alho e coentros , juntamente com sal grosso. Esfrega-se com esse pisado e vai depois a assar no tal forno brando a médio, com mais um fiozinho de azeite,  com tomate e cebola às rodelas no fundo, sendo as batatas previamente entaladas na panela antes de se lhe juntarem.

Mas quando apanhamos por boa fortuna o tal sargo gordo preparado para a desova?

O mínimo de tempero: sal e uma pitadinha de orégãos. Azeite do melhor e chalotas às tirinhas , em vez da cebola, para não abafar o gosto a mar. Podem pôr tomates inteiros pequeninos em redor, fazendo companhia às batatas novas já acalentadas.

 O forno deve estar previamente aquecido a 170º ou 180º.  Dessa forma o tempo de forno serão uns 45 minutos a 50 minutos. Mas deitem para lá os olhos a partir da meia hora!

Acompanhem com um branco de categoria. Porque o sargo gordo o merece.

E aqui dou algumas referências, só de grandes vinhos brancos:  Alvarinho Dona Paterna 2009, Vallado Moscatel Galego de 2010, Primus 2013,  Cortes de Cima 2013.

segunda-feira, março 28, 2016

O mundo vai acabar



De propósito não juntei nenhum "ponto" à afirmação do título. Se fosse de exclamação diriam que sou alarmista (ou pessimista).

Se fosse de interrogação passaria por pusilâmine, indeciso ou sofrendo de anancástica (transtorno de personalidade compulsiva-obsessiva caracterizada, entre outras coisas, por um sentimento de dúvida perene).

A verdade é mais comezinha. Vou explicar: nestas alturas da Páscoa todos pegamos no telefone e damos saudações aos amigos e parentes. A mim cabem-me várias "parentas" que já estão a entrar na casa dos 90's...

Uma dessas tias da província , acicatada pelas desgraças da quadra ( Bruxelas e mais o desastre de Bordéus com os emigrantes), teve a seguinte frase:
 - "Olha filho, está a morrer mais gente do que aquela que nasce. O mundo assim vai acabar."

Remoendo a observação fui ver os dados oficiais da ONU e fiquei mais descansado. Segundo as estatísticas oficiais nascem 180 pessoas por minuto e morrem 102 no mesmo período. Estamos a crescer!

Menos satisfeito fiquei quando reparei que dessas 180 pessoas que nascem por minuto em todo o mundo tantas quantas 33  veêm a luz do dia na Índia, que a este ritmo deve ultrapassar a população da China em 2031.  E ainda que nascem mais homens que mulheres (105 para 100).

Ou seja, o mundo não estará para acabar já, mas cresce mais nuns lados do que noutros, e à custa de mais pilinhas do que da "outra coisa".

Aqui na velha Europa o panorama é mais sombrio:

"A Europa possui atualmente um ritmo de crescimento populacional inferior a qualquer outro no mundo. Certos países alcançaram o crescimento zero (número de nascimentos igual ao número de mortes) e alguns outros acusam até mesmo uma regressão populacional, isto é, a população tem diminuído ao invés de aumentar. Embora não deva ser tomado como regra, de maneira geral são os países mais desenvolvidos os que apresentam crescimento vegetativo negativo. Dessa forma, o déficit populacional tende a acentuar-se em toda a Europa. 

Os principais efeitos do decréscimo populacional são o aumento do número de velhos na população total e a diminuição progressiva da população ativa (carência de mão-de-obra)."


E aqui no rectângulo? Aumentamos  - crescimento natural - cerca de 1% ao ano. E por enquanto nascem mais mulheres do que homens (obrigado!). 

Mas se tivermos em conta a população existente  e não apenas o tal crescimento natural,  o "saldo" entre os que nascem vivos e os que morrem,  Portugal foi um dos 5 países do mundo que mais perdeu população em termos relativos (Porto Rico, Letónia, Lituânia e Grécia acompanham-nos). Porquê? 

Porque os nascimentos são mais baixos do que a mortalidade somada ao saldo migratório, as emigrações estão em alta, as imigrações estão a baixar cada vez mais. O país deixou de ser atractivo para trabalhar e para os trabalhadores.  E sem esperança numa vida melhor há cada vez menos bebés.

E isso sim, dá para pensar e remoer nas noites de insónia... Como subsistirá a Segurança Social?

quinta-feira, março 24, 2016

O "antecipa"

Já viram decerto aquele anúncio sobre a velocidade de acesso à net de um conhecido fabricante, onde a namorada de um cidadão se queixa dele ser "super-rápido"? O tal cidadão que apaga as velas antes de terem cantado os parabéns?

Está bem apanhado e leva-nos a pensar se o dito cujo não será também assim tão rápido a fazer o outro  "serviço" que faz parte das relações conjugais... Talvez não, porque a companheira parece, mesmo assim, bem disposta.

Se calhar  todos conhecemos alguém que, pelo menos em parte e com menos exageros, antecipa as situações do dia-a-dia, nem tendo senso comum para apreciar devidamente "o momento", cada momento.

Devo confessar que sou um bocado assim, embora tente lutar contra essa mania. A ansiedade leva-me muitas vezes a antecipar a hora importante do evento em que devo "oficiar". A adrenalina instala-se sempre antes e, tal como se dizia dos cobardes perante o combate, "morro" mil vezes antes do assunto estar em ordem de marcha evidente.

A coisa boa que salta daqui é que acabo por esgotar essa ansiedade antes da prova e depois, quando chegam os "finalmentes" , estou mais calmo do que a tartaruga Jonathan, nascida em 1832 e ainda viva (pelo menos respira). E este bicho (considerado o animal mais velho do mundo) já se deve ralar com pouca coisa.

Uma das coisas que me ajuda a ter mais calma no meu dia-a-dia é o prazer de uma boa refeição.

Apreciar um vinho de qualidade que é bem acompanhado por pratos a preceito é um convite à boa preguiça. Não se apressem nestas ocasiões, porque ofende o mestre Cuca  (e sei do que estou a falar) e pode estragar a vossa capacidade para mais tarde recordar...

quarta-feira, março 23, 2016

O mundo em que vivemos





Trago aqui Jacques Brel para lembrar a grande Bélgica da cultura e da convivência pacífica entre todos os povos.
Um poema de amor à sua terra que, hoje, também é a nossa.
Terreno de grandes batalhas durante as Grandes Guerras, planícies que desde a antiguidade eram cobiçadas por muitos, a Bélgica dos nossos dias corporizava a ideia de Europa.

Faremos tudo para que assim continue. Não importa o quê, nem como.

Le plat pays

Avec la mer du Nord pour dernier terrain vague
Et des vagues de dunes pour arrêter les vagues
Et de vagues rochers que les marées dépassent
Et qui ont à jamais le cœur à marée basse
Avec infiniment de brumes à venir
Avec le vent de l’est écoutez-le tenir
Le plat pays qui est le mien

Avec des cathédrales pour uniques montagnes
Et de noirs clochers comme mâts de cocagne
Où des diables en pierre décrochent les nuages
Avec le fil des jours pour unique voyage
Et des chemins de pluie pour unique bonsoir
Avec le vent d’ouest écoutez-le vouloir
Le plat pays qui est le mien

Avec un ciel si bas qu’un canal s’est perdu
Avec un ciel si bas qu’il fait l’humilité
Avec un ciel si gris qu’un canal s’est pendu
Avec un ciel si gris qu’il faut lui pardonner
Avec le vent du nord qui vient s’écarteler
Avec le vent du nord écoutez-le craquer
Le plat pays qui est le mien

Avec de l’Italie qui descendrait l’Escaut
Avec Frida la Blonde quand elle devient Margot
Quand les fils de novembre nous reviennent en mai
Quand la plaine est fumante et tremble sous juillet
Quand le vent est au rire quand le vent est au blé
Quand le vent est au sud écoutez-le chanter
Le plat pays qui est le mien

Jacques Brel


terça-feira, março 22, 2016

A importância da Água

Já prevejo amigos a rirem e a pensarem que a maior importância da água é não ser necessária para fazer o vinho.

Mas o que está em causa hoje - Dia Mundial da Água - é mesmo a água necessária à vida. Vamos ler o que pensa a ONU deste recurso fundamental:

Temos que garantir soluções  de abastecimento  sustentáveis e atingir os objetivos de desenvolvimento adoptados pelas Nações Unidas:  assegurar a disponibilidade de água e o saneamento para todos, alcançar a segurança alimentar,  promover o crescimento económico sustentado, assegurar uma produção de energia a custos acessíveis,  construir infraestruturas seguras, tornar as cidades seguras e resilientes,  promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, das florestas e dos recursos marinhos e  combater a mudança do clima e os seus impactos. 

Convém dizer que, de uma forma geral,  a qualidade da água das nossas torneiras é muito boa. 

Cumprimos actualmente 98% das normas qualitativas internacionais de referência em todo o território nacional, ficando apenas a 1% do nível considerado de "excelência" das melhores rede de abastecimento do mundo. Em termos gerais do país todo! Porque nas maiores cidades já temos o ambicionado número mágico de 99% de critérios de qualidade excelente há algum tempo. Melhor do que em Paris, por ex...

E já agora refiro que em 1993 este indicador de nível civilizacional estava em Portugal apenas nos 50% em média nacional!!

Que grande trabalho fizeram entretanto as entidades envolvidas, com relevo para o Engº Jaime  Melo Baptista, Presidente da Entidade Reguladora (ERSAR). 

Este investigador português  foi distinguido em 2012 com o "Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science pela Associação Internacional da Água". Merecidíssimo!


Louvar e respeitar  a água é também admitir que o seu consumo terá cada vez mais de ser comedido, já que a escassez deste bem está bem documentada em todos os jornais científicos de referência.

A própria ONU admite que daqui a 20 anos faltará agua para 60% da população mundial:

Dentro de 20 anos, uma proporção de dois terços da população do mundo deve enfrentar escassez de água, de acordo com a FAO, agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação, sediada em Roma.

Segundo a FAO, o consumo de água dobrou em relação ao crescimento populacional no último século. 

Isto é que devia meter medo a todos nós...

Nota: E, já agora, sem água não havia vinho... sabiam que a água representa entre 70% a 90% da composição química dos vinhos, dependendo se são licorosos ou de mesa?

segunda-feira, março 21, 2016

Trovoada



Há dois dias que a App "Weather" do meu IPhone promete trovoada para o Estoril mas nada tem acontecido. Chuvinha tem havido, apesar do calendário apontar para o início da Primavera.
Mas raios e coriscos, daqueles que fazem estrondo e pintam o céu de branco e amarelo? Nem um.

Gosto de trovoadas desde pequeno e não consigo explicar porquê.  E não me venham com os estudos modernos com base nos "likes" do facebook, segundo os quais quem afirma "gostar" de trovoadas tem inteligência acima da média:

According to researchers David Stillwell and Michal Kosinski, the best predictors of high intelligence include liking "Thunderstorms,"
Read more at http://www.christianpost.com/news/study-facebook-like-of-thunderstorms-the-colbert-report-curly-fries-linked-to-high-intelligence-91914/#Luk64ZcgPb8zLOA6.99


Ainda o Mark Zuckerberg era  menos que um projecto do pai e da mãe e já eu gostava de trovões e de relâmpagos. E desde que aprendi a medir o tempo entre o estrondo e a luz no céu para calcular a distância a que a trovoada se encontrava,  muito melhor!

Recordo-me como se fosse hoje de uma daquelas "bernardas" passada em Alvoco da Serra, teria eu uns 11 anos, quando duas trovoadas se encontraram no meio das serranias e iluminaram a noite por mais de meia hora.  Assombroso!

Enquanto que as velhinhas rezavam a Santa Bárbara,  eu e  meu pai viemos para a rua fazer as tais medições de relógio na mão e olhar para o espectáculo. Passámos por doidos varridos, sem dúvida, mas foi aquela uma noite para nunca mais esquecer.

Admito que quem sofre na pele (agricultores, pescadores) as consequências destas coisas não alinhe pelo mesmo diapasão. Mas até cair em cima de mim o 1º relâmpago (que provavelmente seria também o último) nunca me cansarei de admirar estes fenómenos.

Há uma história curiosa sobre o vinho e as trovoadas que conto aqui: 

O nosso vizinho na Beira Alta, o Tio Santidade,  abusava do tintito (era vinho do seu, mas tinha grau como os outros) e a  mulher dele   muitas vezes tirava-lhe o  jarro da vista para que ele não se lembrasse de beber. 
Uma vez levou o tal jarro para o terraço e nunca mais se lembrou  até que desata a cair uma carga de água com raios e trovões.  Vai a senhora a correr  para o retirar da chuva , mas o mal já estava feito. Tinha entrado água lá para dentro.
O Tio Santidade, já um bocado "entornado" da cena de copos daquela manhã , tira-lhe o jarro da mão, vaza para um copo, prova e logo disse:
-"Os antigos é que tinham razão. O barulho dos trovões dá cabo de qualquer vinho! Fica todo remexido! Olhem bem para este que não se parece nada com o que bebi de manhã!"

sexta-feira, março 18, 2016

Banco CTT e Rainha Nefertiti



Cá estou de novo depois de ausência forçada.

Acham estranho o título do Post? Reparem que poderia ser ainda mais estranho: Ex-Presidente do Brasil nomeado ministro para escapar à Justiça. Cargo dura 40 minutos...

O mundo está (no mínimo) esquisito.

Nestas férias obrigatórias, por motivos de saúde da minha "santa",  perdi a abertura do nosso Banco CTT ao público em geral. Será hoje, em 52 Lojas dos Correios pelo país todo. A maior abertura de qualquer banco em Portugal.

É obra!! Que tenha muita sorte! Extensível aos depositantes (grupo onde me encontro, com um pequeno, pequenino mesmo, depósito).

Uma antiga esperança de toda a comunidade postal do país, prometida desde o início dos anos 80 do século XX e sempre contrariada devido à força da CGD nas decisões do Banco de Portugal...

E ainda dizem que em Portugal não existem Lobbys? Excepto aquele em que estamos todos a pensar?
Existiam, existem e existirão. Outros Lobbys.

Mas alguma coisa de bom caiu do chapéu do neo-liberalismo. À mistura com muita trampa , claro está. E o que de bom se aproveitou foi mesmo esta decisão de deixarem criar o Banco CTT.

O que terá a ver a Rainha Nefertiti com tudo isto?
É que parece que se terá descoberto esta semana  o túmulo da consorte de Akhenaten - o faraó apóstata, criador do belo episódio monoteísta de Tell-el-Amarna.

Onde? Por baixo e por trás do túmulo do enteado Tutankamón.

Todavia, a sombra negra das antiguidades egípcias, o nefando (ou virtuoso, conforme a tribo que o classifica) Zahi Hawass, já aqui neste Blog tipificado, pode nunca deixar provar essa teoria...

Mr Hawass promised that Mr Reeves would not be allowed to test his idea. "I will not allow - neither would any archaeologist allow - making a hole in Tutankhamun's tomb,” he said. “The tomb is very vulnerable; any hole may expose the paintings to complete collapse."

Nefertiti, conhecida pelo maravilhoso busto atribuído a Thutmoses do Museu de Berlim, é considerada uma das mulheres mais belas da antiguidade, ao nível dos mitos de Helena de Tróia e de Cleopatra.

O Banco CTT e Nefertiti alinham bem neste Post, porque se considera que o período de Tell-el-Amarna (1350-1330 AC) terá sido um dos mais ricos da história do Egipto ... Banco e riqueza vão bem de mãos dadas. E se juntarmos à equação a beleza intemporal de Nefertiti será ouro sobre azul.

Neste caso, ouro sobre vermelho. O vermelho do Correio.

segunda-feira, março 14, 2016

Intermezzo (mas não musical). É pena.



Há ainda quem se lembre dos tempos heróicos da Televisão em Portugal, quando quase todas as noites havia largos minutos em que o público era mimoseado com um "paralítico" onde se lia Interlúdio?

Vicissitudes da TV em directo. Enquanto se preparavam os programas a audiência via...nada. Só mesmo o cartaz e a música de fundo que preenchia os intervalos entre dois programas.

Pois a minha vida aqui no Blog está parecida.  Entre hospitais por obrigação filial e deveres também obrigatórios da minha profissão tenho ocupado os dias que passaram e também ocuparei esta semana que entra.

Estarei em Viseu, para a grande cerimónia comemorativa do Centenário do Museu Grão Vasco, que será ao início da noite de Quarta feira, seguida pela performance do Coro Gulbenkian na Sé  Catedral.

Logo depois vou para Óbidos, para reunião com a Autarquia sobre o programa cultural da Vila das Senhoras Rainhas neste ano de 2016 e no de 2017.

Quarta, Quinta e Sexta andarei nestas andanças. Terça é dia de hospital.  Veremos se temos boas notícias, ou pelo menos menos más...

Os posts vão ressentir-se, mas tentarei publicar "interlúdios" de onde estiver e desde que os assuntos o mereçam.

quinta-feira, março 10, 2016

Governo Sombra na Presidência!



O conhecido comentador político ( mas também poeta!) Pedro Mexia foi escolhido para ser o Assessor Cultural do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Estamos desejosos por ver como os restantes membros do "Governo-Sombra" da TSF vão reagir ao assunto. Com relevo para o iconoclasta Ricardo Araújo Pereira, secundado por João Miguel Tavares e pelo moderador Carlos Vaz Marques.

O mote do programa "Eles podem, querem, mas não mandam" poderá ter de ser alterado... Há pelo menos um que de facto, manda.

Pode mandar pouco, mas manda...

quarta-feira, março 09, 2016

A gravata do Presidente



Marcelo Rebelo de Sousa estará a tomar posse dentro de minutos.

Adivinhamos a cor da gravata dele?

Um adepto do Sporting Clube de Braga poderá vir de vermelho. Um apóstolo da co-habitação e do diálogo entre todas as partes  deverá vir de azul. Azul mais claro indicará maior exuberância, azul mais escuro mais seriedade.

Um homem discreto que  queira dar a entender que não está ali para brincadeiras virá de gravata mais escura, cinzenta, por exemplo, ou bordeaux escuro, em homenagem à República

Na Televisão as cores sólidas passam melhor e os padrões menos bem. Será por isso mesmo quase obrigatório que a gravata seja lisa, ou quanto muito de padrão muito pequeno.

Numa das suas últimas entrevistas o novo Presidente assumiu ser tímido e  que em tempos teve dificuldade em lidar com a comunicação social, diz mesmo que "não pode haver o risco do Presidente aparecer numa posição de intervenção tal pública que prejudique o seu lado de magistério discreto". 

Mas logo acrescentou: "a pessoa não deixa de ser quem é: optimista, alegre, jovial, bem-disposta". E o que gostava mesmo que acontecesse era "o Braga ganhar a Taça de Portugal ao Porto e ser eu a entregá-la."

Com tanta opinião quase contraditória eu mesmo assim acho que vou pelo azul.

Será gravata azul. Veremos se errei. Já falta pouco para saber...

segunda-feira, março 07, 2016

Os CTT em Portugal , a propósito dos 500 anos



Na Sexta feira passada estive a tratar dos 500 anos das celebrações da fundação do cargo de Correio-Mor em Portugal.
Será em 2020 que se celebra esta efeméride e estamos a preparar um conjunto de iniciativas, comerciais e institucionais,  que  já a partir de 2016 e durante 5 anos recordem aos portugueses os 5 séculos em  que esta actividade de correios caminha formalmente a seu lado.

Deixo aqui um pequeno resumo do que foram esses 500 anos de vida oficial.

Foi a 6 de Novembro de 1520 que o Rei D. Manuel I – de cognome “O Venturoso” - criou em Évora o ofício de Correio-Mor do reino. O 1º Correio-Mor foi Luis Homem, cavaleiro da Casa Real.   Depois dessa data foram marcos fundamentais:
- Desde 1520 e até 1606, a época dos Correio-Mor de nomeação real.
- Em 1606 deu-se a compra do cargo (pela avultada soma de 70,000 cruzados) pela Família Gomes da Mata, aproveitando a necessidade de dinheiro sentida por Filipe II naquele tempo. Foi a primeira “privatização do serviço postal”.
- Em 1797 D. Maria I procede à reincorporação dos serviços outra vez na Coroa.
- Em 1852, durante o reinado de D. Maria II, deu-se a Reforma Postal Portuguesa, segundo o “modelo inglês” de Sir Rowland Hill.
- A 1 de Julho de 1853 começa a circular o 1º selo português.

Desde essa altura e até 2013, a entidade empresarial que se dedica ao correio  em Portugal sempre se manteve debaixo do controlo efetivo do governo do país.

A Empresa Pública Correios e Telecomunicações de Portugal inicia a sua atividade em 1 de Janeiro de 1970. Nesta altura engloba as áreas de correios, telefónica e telegráfica, exercida pelas empresas Telecomunicações de Portugal (depois PT), Telefones de Lisboa e Porto e Marconi. É a 3ª empresa do País em volume de vendas e a maior empregadora nacional, com mais de 45 000 empregados.

Os CTT autonomizam-se enquanto Operadores Postais designados, separando-se da atividade de Telecomunicações e assumem, em 1992, a forma de Sociedade Anónima de capitais exclusivamente públicos. E foi essa, até Dezembro de 2013, a sua formatação.


A 10 de Outubro de 2013 foi aprovado o modelo de privatização dos CTT, constando duma oferta em bolsa que se concretizou pela venda da maioria do capital e cotação na Euronext Lisbon em inícios de Dezembro de 2013. A conclusão da privatização deu-se em 5 de Setembro de 2014, com a alienação dos últimos 31,5% que a Parpública ainda detinha no capital da empresa. Os CTT passaram a ser uma empresa 100% privada a partir desse dia, e o encaixe total para o Estado foi de 909,2 milhões de euros, o que traduziu um sucesso absoluto da operação. Foi historicamente a 2ª vez que se privatizou o Serviço Postal em Portugal.

Nota: Na imagem o famoso " Português" de D. Manuel I.  Foi a moeda portuguesa de maior circulação mundial, reflectindo o poderio do País no apogeu da sua glória. 

Cunhada em ouro quase puro, foi uma das moedas que Vasco da Gama levou nas naus para a Índia. 

A moeda foi batida em Lisboa, Porto, Goa, Malaca e Coxim e foi cunhada por mais de quatro décadas.

quinta-feira, março 03, 2016

Cuidadores ou Aforradores?



Tenho estado relativamente limitado por causa da incapacidade da minha mãe. Quando não estou eu em casa cabe ao senhorio tomar conta da ocorrência.

Logo que chego tenho de fazer o almoço para o dia seguinte e tratar das outras situações que a nossa empregada deixe por resolver. E que são poucas, ainda bem.

A reflexão sobre a idade e a incapacidade é dolorosa. Quem não tem familiares em lares percebe do que falo. E quem tem acho que também sofre com esta impossibilidade do estado social em resolver todas estas situações.

Vivem-se mais anos para quê ? E como? Não deixo de pensar que não desejo acabar assim, dependente de terceiros e a ver o pecúlio que juntei a alimentar bolsos desses terceiros...

Uma morte limpa e rápida. A isso acho que todos  temos direito . Infelizmente quem pôe e dispôe nestas coisas da vida e da morte não somos ainda nós. Não fomos criados com o botão "on\off", E , se calhar, por alguma razão.

O actual forrobodó em torno da eutanásia mais achas lança para esta fogueira. Quem quer morrer? Ou quem acha que os outros devem morrer? E porquê? Com que fins? Poupar na dor ou amealhar os cobres dos pobres tristes?

Como dizia o meu Pai quando a conversa não lhe agradava:  "Religião , Política e Mulheres casadas? Isso são assuntos que não se discutem". 

Mas hoje discutem-se mesmo.

Entre cuidar do colesterol para evitar o enfarte ou beber e comer à tripa forra para garantir a "passagem indolor" não parece à primeira vista haver dúvidas... O pior é quando chegamos aos 90's , sem colesterol,  mas também sem pernas,  nem braços, nem articulações e - pior do que tudo - sem miolos...

E se pudéssemos acho que diríamos:  "Bendito colestrol: Vem Cabr*** entope-me essas veias já!".

A vida é uma passagem . Tá bem. Mas há o Expresso do Oriente e o comboio de Chelas...Com todo o respeito...

quarta-feira, março 02, 2016

Sobre os artesãos ignorados



Ainda estou com os olhos cheios de estrelinhas com o sucesso do lançamento do Livro das Catedrais, na Guarda.

Na "homilia" que dedicou à apresentação do livro, D, Manuel Felício (aliás, tal  como o autor, Arqº Saraiva) não deixaram de lembrar aqueles operários sem nome que durante séculos deram corpo a estas obras de muitos saberes e de longuíssimas gestações.

No caso particular da catedral da Guarda atual - que é da terceira geração e   filha da revolução de 1383 -  terá começado a ser erguida em 1390, para apenas estar concluída lá para o final de 1550. Mas outras houve cujo processo de construção demorou mais do que estes  2 séculos.

Ao longo desses anos muitos trabalharam, mas algum mestre terá desenvolvido o plano , o "risco" do grande edifício. E como? Com que sabedorias?

Nesta matéria existem duas opiniões: a daqueles que acreditam existir já sabedoria técnica e científica nestas obras, ou, a mais divulgada e aceite nos meios da engenharia, segundo a qual tudo se faria como se se tratasse de uma receita transcrita em livro de cozinha: sempre igual.

Reparem aqui na afirmação de um dos maiores especialistas sobre as técnicas de construção medievais, J.E. GORDON, “Structures or Why Things Don’t Fall Down":

Estes edifícios das catedrais não só eram muito grandes e muito altos; alguns pareciam transcender a tosca e pesada natureza dos seus materiais de construção e elevá-la à categoria de arte e de poesia. Perante isto parece óbvio que os mestres medievais sabiam muito sobre como construir igrejas e catedrais e por isso muitas vezes o fizeram de forma excelente e altamente satisfatória. Contudo, se tivessem a oportunidade de perguntar a um mestre como o fez realmente e porque resiste o edifício, a resposta seria algo como esta: - O edifício resiste graças às mãos de Deus. Sempre que construímos, seguimos fielmente as regras e segredos tradicionais do nosso ofício.”

E aqui apresento o contraditório, da pena do Engº Adriano Vasco Rodrigues, sobre o Mosteiro da Batalha:

“A edificação da igreja do Claustro, Casa do Capítulo, Capela do Fundador e começo do panteão de D. Duarte realizados ao longo de 50 anos, corresponde ao gótico joanino, devendo-se a orientação e planificação a Mestre Afonso Domingues (1388/1402), verdadeiro engenheiro pelo conhecimento matemático e físico com que resolveu o problema das estruturas da abóbada da igreja, obra-prima da Engenharia medieval.”

Perante estas diferenças compete-nos a nós, que não somos especialistas, admirar o que se conseguiu naqueles tempos à força de dedicação e empirismo esclarecido. Com pouca ciência talvez, mas com muita arte à mistura.

Havia necessidade de mão-de-obra profissional. Esses eram pagos. Mas em grande parte os serviços mais pesados e incaracterísticos eram executados por trabalhadores voluntários movidos pela fé.  E eram nobres, comerciantes, soldados, mestres-artesãos, povo simples das cidades e dos campos mais próximos.   

E o dinheiro?  Aparecia sempre. Podia demorar a chegar, o que também explicava o arrastar dos trabalhos, mas os próprios monarcas pagavam primeiro para dar o exemplo, e atrás deles seguia a sociedade civil.

Contudo trago à memória a conhecida frase do Bispo de Chartres,  segundo o qual  a catedral - paradigma da arte gótica - foi construída com o "dinheiro dos pobres"... Devia estar ofendido com os nobres e com o Rei Luís IX...Que não era um "Luís" qualquer, mas sim o que foi posteriormente canonizado com o nome de  São Luís.

Nota: Vitrais de Chartres na imagem.

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Para Descansar a Vista debaixo de chuva



O tempo hoje está de feição para um bom livro ao pé da lareira.  Recordo com saudade o meu amigo  Rainha e como ele, um transmontano de Carrazeda,  se referia à sua lareira do Estoril.

Era mais ou menos assim: tenho uma lareira em casa, coisa que já não me acontecia desde que saí da aldeia! Tenho saudades do  frio cá fora e do conforto da lareira. Temos que inaugurar a lareira! E claro que terá de ser num dia de temporalMas aqui no Estoril já ando há dois Invernos à espera...Mas que pôrra!

Vim à procura de poetas mais modernos e encontrei uma "rapariga" do meu tempo: Ana Luisa Amaral, nascida em 1956,  professora associada no departamento de estudos anglo-americanos da Faculdade de Letras do Porto.

E escreve admiravelmente:

A Mais Perfeita Imagem

Se eu varresse todas as manhãs as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o chão
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar-te.

Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.

Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor.

Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum.

O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurônio meu, unia memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.

Ana Luísa Amaral, in 'A Arte de Ser Tigre' 


quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Mexericar



A coscuvilhice tanto é macha como é fêmea.

E não me venham com tretas sobre a natural tendência das senhoras para bisbilhotar. Conheci e conheço muitos homens que são piores.

Normalmente esta secular actividade está ligada ao ócio, e como nos tempos antigos eram as senhoras comadres as que teriam mais tempo livre, talvez isso justificasse a fama ( e proveito) de serem praticantes fervorosas da fofoca.

Agora que tenho a santa em minha casa dei conta da quantidade de amigas da idade dela  que por lá passam para saber da saúde.  Ao princípio não as deixava entrar, dava-lhes as novidades pela janela. Mas isso não contentava as senhoras vizinhas... Queriam entrar, queriam falar e saber os detalhes todos do que se tinha passado no hospital.

São as "amigas da missa" as que iam com ela todos os domingos à missa na igreja de Santo António.

Quando cometi a imprudência de deixar entrar a primeira mal sabia que atrás daquela viria outra e outra e ainda outra... O mais engraçado é que como a minha mãe está um bocado baralhada (para não dizer outra coisa) a história que lhes vai contando nem sempre é a mesma.

Daqui têm surgido confusões, porque as senhoras vizinhas já de si , sem precisarem de nenhuma ajuda, "esticam" tudo o que ouvem, imaginemos então se as fontes não são fidedignas...

Um acidente psicótico passou a AVC. Este já era enfarte agravado.  E pouco depois, se não tenho cuidado, ainda a "matavam".

Recordo-me sempre do escudeiro Gonçalo Borges (o grande actor Costinha) no filme Camões, a dizer para Beatriz da Silva (Eunice Muñoz) , que pretendia salvar o poeta: "Eu senhora dona Beatriz? Perdoar a esse homem ? Que me matou?!"


quarta-feira, fevereiro 24, 2016

A Idade



Estou sem escrever aqui há dois dias em consequência de ter estado mais que ocupado com a saúde  da  minha "santa" cá de baixo. Não dou detalhes, porque não concordo em fazer deste local espelho de alma ou muro de lamentações.

Sempre tive a convicção que os bons momentos são para partilhar e os maus momentos são íntimos, para interiorizar. Mas aproveito a oportunidade para escrever sobre a "idade" e sobre a forma como a mesma nos vai afectando.

"Je suis incapable de concevoir l'infini et pourtant je ne puis pas  accepter le fini.  Je veux que cette aventure qui est ma vie ne termine jamais."
Simone de Beauvoir

À medida que vamos "entrando na idade"  a vida modifica-se.  Em qualquer das diferentes idades: na idade adulta, na idade média , na idade da sabedoria e na idade da bengala ou do  andarilho.

Não existem regras sobre quem entra,  como entra,  nem quando...Eu próprio por vezes tenho dúvidas sobre se já entrei na idade "adulta" (sobretudo de manhã ou ao almoço) mas quando acaba o dia sinto-me como se estivesse na fronteira da "sabedoria" para a "bengala", dependendo de como a ciática me tratou.

Dizem os americanos - peritos em listas e classificações - que nos tempos que correm a idade adulta atinge-se quando o jovem se estabelece por conta própria (sai de casa dos pais e tem emprego que lhe permite subsistir sozinho), a idade média será quando viu os filhos entrarem na Universidade (ou estarem empregados), a idade da sabedoria  ocorre quando fazemos saltar no colo os primeiros netos e, finalmente, a idade da bengala , será quando perdemos mais tempo nas salas de espera dos médicos e dos hospitais do que em outras actividades .

Se tivermos que pensar em anos seria mais ou menos assim e tendo em conta as circunstâncias actuais que infelizmente restringem o "sistema" em Portugal: 30, 55, 70, 80 anos.

Quando eu comecei nestas andanças a declinação dos limites anuais era diferente: Empreguei-me aos 21 anos, tive o filho aos 26 anos, este entrou na faculdade quando eu tinha 44. Netos é que nada ainda, pela incompetência do meu "senhorio". E bengala também já usei  e às vezes ainda uso quando a p*** da ciática aperta. Andarilhos é que por enquanto não (lagarto, lagarto) .

A forma como a nova geração vê a mais antiga também é influenciada por estes ritmos.  Vemos nos pais e mães formas de "vaca leiteira" (salvo seja),  para irmos esmifrando uns cobres em alturas de necessidade,  temos como garantido que eles (mais elas) tenham a disponibilidade para tomar conta dos netos e das casas.  Podemos dispor dos ensinamentos e da experiência em coisas tão diferentes como tratar dos arranjos em casa , orientarem a empregada, ensinarem a cozinhar ou ajudarem a compor um texto de carta para qualquer situação.

Até que chega o momento em que a situação se volta do avesso. A nova geração deixa de poder contar com a antiga para muitas dessas coisas, e, pelo contrário, tem de passar a dar parte daquilo que recebeu. E somos felizes quando temos tempo suficiente para "eles" receberem pelo menos tanto quanto nos deram.

 Começam estas andanças da última fase pela  mobilidade comprometida, e em consequência os nossos  idosos passam a vida em casa, com medo de saírem e caírem na rua. E continua inexoravelmente até que pode chegar a fase em que já não podem estar sozinhos.

Modernamente e graças aos avanços na geriatria em geral, com relevo pela prevenção cardiovascular, são cada vez mais os idosos que se encontram vivos mas dependentes. E para estes a sociedade ainda não  encontrou solução.

Acabaram as grandes famílias onde havia sempre em casa acompanhantes que não trabalhavam e que tinham como responsabilidade cuidar dos mais velhos.  Se estes forem ricos têm à disposição empregados dedicados ou lares de acolhimento decentes, se forem remediados ou pobres o panorama pode ser de fugir...

Pelo que faço minhas as palavras do povo : "até para morrer é preciso ter sorte".

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Para Descansar a Vista



Regresso a  Jorge de Sena para uma pequena reflexão em torno da forma como encaramos a vida de todos os dias. E acrescento um pensamento de Bansky: L’idéal serait de passer moins de temps à créer une image qu’il n’en faut aux gens pour la regarder.  

Devemos viver ao nosso ritmo, sem forçar as coisas.  Deixemos que seja a nossa obra ( de arte, ou seja qual for) a ditar o tempo que lhe devemos dedicar. Apenas ela.


Da Vida... não Fales Nela

Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.

Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.

Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.

Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal' 


quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Uma caldeirada

Há caldeiradas que são para comer e há das "outras", as que levam aspas.

Exemplo de grande "caldeirada", com aspas,  pode ser a do Banif. Ou a do BES, ou a do BPN...E já me calo.

Também há as outras "caldeiradas" futebolísticas das quais a mais imponente tem que ser a dos Mr. Blatter e Mr. Platini. Agora suspensos (coitados, como pagarão a renda de casa e alimentarão os filhos?).

E como hoje joga o Sporting e o Porto nada mais digo sobre "caldeiradas da bola "para não me acusarem de destruir o moral das tropas a cargo dos generais Jesus e Peseiro.

Mas a ideia deste blog era mesmo dar uma receita de caldeirada para estes dias frios de inverno. Uma Caldeirada de Peixe, não das outras que se comem mas não levam barbatanas.

E mesmo das que têm barbatanas não falarei das de bacalhau, nem das "à fragateira", normalmente feitas com peixes de rio, ou ainda das de "enguias". Caldeirada feita de peixe fresco de mar. Isso é que vai ser o nosso almoço neste Domingo,

E adianto a receita para quem queira.

Receita que aprendi com mestre Mendonça do Beira Mar, embora como bom artista que varia a cena,  ele fosse dizendo que às vezes fazia uma puxadinha (refogado), das outras era tudo em cru , "dependendo dos peixes " (isso ainda compreendo) e "da companhia" (aqui é ficava eu mais intrigado).

O termo Caldeirada deve vir de "caldeiro" , a antiga panela de ferro onde se cozinhava. E a génese da receita tem que ter a ver com a actividade piscatória. Os pescadores saíam para a faina e tinham que comer a bordo. Levariam legumes, cebolas, batatas e tomate sobretudo, e o resto seria dado pelo Mar.

Ainda hoje existe a mania que uma boa caldeirada "à pescador" deve ser feita com água do mar. Bem, com a poluição ao pé da praia não sei bem se teríamos que ir para o limite das 200 milhas náuticas para recolher água limpa salgada...Na dúvida tire-se da torneira e ponha-se-lhe sal.

O tacho tem de ser de fundo espesso, preferencialmente de ferro ou de alumínio fundido. No fundo colocam-se sempre ameijoas ou berbigão com as cascas, para que o guisado não pegue.  Por cima a cebola velha, pimentos verdes, tomate maduro e alhos picados grosseiramente. Azeite, sal, pimenta e salsa. Uma malagueta para quem aprecia. As quantidades são a gosto. Normalmente  e em relação ao sal (que é o mais importante) deito uma mão-cheia num tacho grande.

Estando o Tacho neste preparo, das duas uma: ou refoga-se, introduzindo a meio da puxada o vinho branco (ou moscatel),e só depois o resto dos ingredientes, ou faz-se tudo em cru, às camadas alternadas.

Num caso ou no outro é a teoria das camadas que prevalece. Mas esta teoria é científica, como veremos.

Por exemplo, se preferimos a caldeirada com molho grosso e a batata meia desfeita, esta deve ser posta por baixo e começamos a cozinhar sem o peixe por uns 15 minutos. Se apreciamos a batata mais rija então colocamos tudo ao mesmo tempo: camada de batata, camada de peixe (os mais rijos em baixo), intercalando com tiras de pimento e tomate,  terminando sempre com duas sardinhas para dar gosto.

Peixes que entram sempre: pata roxa, safio de posta aberta, lulas.   Peixes de que mais gosto para juntar a esses: corvina e tamboril (com os fígados, postos por cima).

As lulas frescas por baixo, tamboril por cima e o resto mais ou menos "ao molho", terminando com as sardinhas e o fígado do tamboril.

Tempo de lume quando se faz tudo em cru: cerca de uma hora nos fogões das nossas casa, em fogo médio. Nunca mexer com colher, mas abanar de vez em quando o tacho. E provem para ver como está o sal e o picante, tendo em atenção que o odor forte influencia o paladar.

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Recordações de S. Petersburgo ( a propósito do jogo)



Estive a ver ontem o joguito e a sofrer quase  até este acabar (até aos 91 minutos, para ser mais preciso). E durante a jogatana lembrei-me da minha aventura de 2007 em S. Petersburgo.

Já aqui contei as histórias das minhas comidas nos restaurantes "Na Zdrovie" e "Canvas".

O que talvez não tenha dito foi quem estava nesse "Canvas" (restaurante do Hotel Renaissance) na mesa ao lado da minha.

Não sei o nome nem o que fazia na vida o pai de família que ali se sentou com os dois filhos adolescentes e a (deslumbrante)  mulher, que não seria a mãe das crianças pelo aspecto.

O que me impressionou na altura ( a mim que paguei 50 euros por 30 graminhas de beluga) foi que o dito cidadão russo mandou vir do mesmo beluga, mas num balde. À primeira vista parecia ser um balde de gelo. E a família alimentou-se fartamente desse balde, brandindo para o efeito colheres de sopa prateadas que envergonhavam soberanamente a discreta colherzinha de café com que eu colhia, ova a ova, o precioso caviar.

O olhar de piedade que me foi lançado da mesa ao lado doeu. E pensei " Estes bois tanto comem desta m**** que ainda lhes dá uma volta ao intestino. Uma ou duas! E era bem feito!!".

Como percebem foi um autêntico  latido de raposa a olhar para as uvas (vinha de enforcado) no alto das pérgulas... Estão verdes, não prestam...

A noção de perspectiva, de relatividade,  que aquele encontro fortuito me deu ficará para toda a minha vida. Eu,  que pensava estar no escalão superior do consumo, encontrei ali a "família alfa" do consumo pantagruélico... No que ao caviar diz respeito.

Mais tarde, já no Hermitage, observei outra peculiaridade daquele grande país.  O Hermitage é um dos maiores museus do mundo, com uma dimensão descomunal. Estará para o nosso MNAA como a baleia azul para um golfinho do Sado. Tem 365 salas e 20 km de extensão linear. Para ver tudo , tudo mesmo, 3 meses de visitas diárias são capazes de não ser suficientes.

Em cada uma das 365 salas existem guardas.  Nas salas com as peças mais importantes a segurança é forte. Mas noutras salas que já não estão assim tanto na moda, a segurança é feita por senhoras com mais de 50 anos, que passam pelas brasas durante as tardes, sentadas em cadeiras nos cantos.

Perdi-me naquele labirinto e fui dar a uma sala que depois vim a saber que seria a porta de entrada para as colecções orientais .

Estive sozinho  - quero dizer, estava lá uma senhora guarda mas apenas de corpo, o espírito estaria no país dos sonhos - com magníficas esculturas e pinturas bizantinas. Cheguei a mexer ( a tocar com os dedos) nalgumas peças!  Uma experiência incrível.

Nota: a fotografia representa um Díptico de marfim bizantino com cenas de circo, datado do século V a.c. É da Coleção Oriental do Hermitage.