terça-feira, janeiro 20, 2015

O "Outro Lado"

Tenho passado parte das noites a ver de empreitada uma série chamada "Dead Like me" que passou em 2003 e 2004 na TV americana em apenas duas temporadas, provavelmente por ser demasiado "intelectual" para o prime time dos pequenos burgueses que mandam nos ratings.

Podem ler mais aqui sobre a série em causa: http://www.imdb.com/title/tt0348913/

Um miúda de 18 anos morre subitamente porque lhe cai em cima da cabeça um tampo de sanita da estação espacial MIR, que se estava a desintegrar no espaço. Esse "bocado" veio parar mesmo em cima da dita miúda.

Convenhamos que haverá formas mais normais de morrer, mesmo com apenas 18 anos...

Em vez de continuar o percurso para o "outro lado", a protagonista é recrutada para uma unidade especial de mortos-vivos que tem por função "recolher almas". Na prática o que eles fazem é estar presentes na altura da morte e dar algum consolo aos falecidos antes de estes partirem não se sabe bem para onde...

A série parece-me admirável pela qualidade dos argumentos e dos textos, mas também pela participação de grandes actores em episódios como artistas convidados, normalmente a fazerem a "parte" do morto.
Dead Like Me: Life After Death (2009) Poster
Nesta interessante reflexão sobre o "grande mistério" que se prolonga por todos os episódios, existem sempre facetas de muito humor  que se cruzam com outras mais dramáticos.

Lembro-me, por exemplo, do grande actor Shelley Berman (teria 80 anos na altura) , que neste episódio  (IV, Temporada 2) morre numa piscina a saltar da prancha. Depois disso passeia nu pela cidade arvorando uns "meninos" de tamanho para recorde mundial, ao lado do seu "anjo da morte" , e insistindo que antes de "partir" queria por força assistir ao seu enterro, para ver quem iria e o que diriam dele... E o anjo da morte encartado para o levar embora a correr atrás dele, com uma toalha na mão para o tapar, embora ninguém o possa ver .

O grupo destes anjos meio esquisitos reune-se todas as manhãs num café tirolês (!) de Chicago, para que o "chefe" distribua as tarefas do dia. Os mortos a recolher. O que não impede que antes , durante ou depois da recolha, tenham que trabalhar como os comuns dos mortais para ganhar a vida (mesmo estando mortos)...

É uma série de humor negro muito engraçada e feita com muita inteligência.
Recomendável.

Veio depois um filme, que ainda não tive ocasião de "puxar" da Net. Chamava-se Dead Like Me : Life After Death  e era de 2009.

http://www.imdb.com/title/tt1079444/

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Para Descansar a Vista

Foi O'Neil que, na minha opinião, escreveu o mais belo poema em português sobre a Amizade. Mas já aqui o citei. E mais do que uma vez, porque muito o aprecio.

Variemos então um pouco em torno da Amizade  com algumas outras jóias da nossa poesia:

Para Um Amigo

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"


Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"


Bilhete a um Amigo

Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"


 


quinta-feira, janeiro 15, 2015

Excitações em torno de um "Cozido à Portuguesa"

O assunto conta-se em poucas palavras: Um dos chefs actuais que pontifica no "Tavares" terá ousado fazer uma interpretação do prato tradicional "Cozido à Portuguesa" que foi mal vista ( isto será dizer pouco) por alguns dos mais tradicionais escritores de gastronomia em Portugal.

Reis Torgal, venerável especialista destas matérias, arrasou desde o seu solar Vimaranense: " (...) este prato assim apresentado é o resultado da pascovice portuguesa e da pouca-vergonha dos "chefes" apoiados por uns média ignorantes ou vendidos".

Na blogosfera houve ainda quem lhe chamasse "Caganitas de Gourmet", com algum exagero...

Bento dos Santos, outro grande especialista, pôe água na fervura e , declarando-se defensor intransigente da matriz do que se considera cozinha tradicional portuguesa, não deixa de acrescentar:
 
"Porém, uma vez que a mudança e o progresso são inexoráveis, só vejo na possibilidade da modernização de tais receitas a garantia da manutenção da memória coletiva dessa "matriz do gosto" que afinal todos gostaríamos de preservar".
 
O politicamente correcto perante esta matéria parece então ser qualquer coisa como:
 
Preservar o "GOSTO", manter as características dos pratos antigos, defender a tradição, mas...não deixar de "autorizar" a experiência e a inovação da malta jovem, prendada que baste.
 
Por mim concordo, obviamente,  mas sou talvez um pouco mais prático:
 
Se algum portuga for ao Tavares ( ou ao Bel Canto, etc...) comer um cozido à portuguesa, só merece que lhe saia no prato uma coisa daquelas.
 
Só peço uma coisa: não lhe chamem "Cozido à Portuguesa"!! Falem de "Variações sobre um Cozido"... Ou ainda de "Cozido: Interpretação do Chef".
 
E quem lá for talvez goste! Pois se foi lá tem ideia do que se passa portas adentro, da filosofia da casa e de que forma é que o "mestre cuca" interpreta a "pauta" da música. 
 
Já agora, quanto custará o tal "cozido" no Tavares? Parece que em redor de 30 euros. Esta é outra subtil  (assim-assim) forma de seleccionar a clientela. O Zé dos Pneus teria a tendência de enviar aos c*** do chef este cozido "impressionista", enquanto que Madame Nouvelle Riche se extasiaria com a "ousadia do jovem génio culinário"...
 
Agora, se fosse na Tia Matilde que tal coisa saísse da cozinha? Pôrra Santinhos do Céu!! Mandávamos logo vir a ambulância para internar o Ti Emílio (com todo o respeito!!).
 
Cada macaco no seu galho! O Zé Avillez no BelCanto e a Srª Dona Graça no Solar dos Presuntos.
 
Poderá o "Arroz de Lampreia" vir a ser interpretado "à moderna"? Porque não? O resultado visual não me parece ( assim à distância) que seja o melhor do mundo, mas quem sou eu?
 
Não lhe chamem é "Arroz de Lampreia" assim taxativamente. Arranjem uma alcunha diferente.
 
Viva a diversidade ! Viva a autenticidade! Todos diferentes mas todos iguais.
 
Mas cuidado! Trazer um estrangeiro "de fora" aqui ao cantinho pátrio, querer mostrar-lhe a gastronomia lusitana e levá-lo a comer uma das tais "interpretações post-modernas" do Cozido? 
 
Eu não iria por aí. Primeiro, o Cozido canónico. Depois, a modernidade. Até para dar à criatura oportunidade de fazer o seu próprio discernimento.
 
E se o dinheiro não der para tudo isso? Então escolha-se a Tia Matilde (por exemplo). Pelo menos vai melhor alimentado e mais bem servido. O que, para os tempos que correm, não é dizer pouco!
 
 

terça-feira, janeiro 13, 2015

A "bola" comanda o mundo

Todos gostámos que o CR7 fosse vencedor da noite de ontem.

Isso não está em causa e até eu (benfiquista que ainda se lembra do "dedinho no ar" do atleta no estádio da Luz) fiquei satisfeiro.

Agora, gastar cerca de 7 horas de emissão em três canais, durante toda a tarde de ontem,  apenas com esta notícia?  Melhor dito, ainda nem era "a" notícia da Bola de Ouro, apenas a "preparação" do mesmo acto??!!

Só eu é que penso que foi demais?  Terá o futebol assim tanta importância nesta terra que cala tudo o resto? E isso transforma-nos em quê?

"Saloios" da redondinha?  "Drogados" da relva? "Provincianos" dos estádios?

É de meter medo a quem reflectir sobre o que andámos a fazer todos estes anos. A evolução da cena  salazarista dos 3 "F's"  (Fado, Futebol e Fátima) foi pouca ou nenhuma...

E, vá lá , vá lá, que em 1963 não havia a "Casa dos Segredos" e outras enxovias parecidas. Talvez até nem fossem permitidas, por causa da piscina. O "Botas" era retrógrado em tudo excepto na recomendação do vinho à refeição... Nesse aspecto estava adiantado.

O grande Millôr Fernandes, parafraseando Hegel  na Crítica da Filosofia do Direito ("Die Religion ... Sie ist das Opium des Volkes")  escreveu: "O Futebol é o ópio do Povo e o Narcotráfico dos Media"

E estava certo.

Gosto de futebol como gosto de bom cinema ou de livros que admiro. Mas cada macaco no seu galho pôrra!

Se calhar sou eu que estou a exagerar... Ou não.

Pode ser das alergias que não me largam este ano.  Atchim!!!

segunda-feira, janeiro 12, 2015

A época da caça

 Quem ainda não o fez em Novembro e Dezembro, por aguardar abastecimentos fidedignos,  é em Janeiro que prova as peças ditas "de caça" que por aí aparecem nas ementas dos restaurantes. Mesmo em cima da época da Lampreia, embora digam os entendidos que quem quer lampreia gorda e ovada terá de esperar mais uns dias, lá para Fevereiro.

Para efeitos gastronómicos que se apercebam nos pratos dos restaurantes das nossas cidades, caça-se em Portugal a perdiz, o coelho bravo, a lebre, o javali e, em jeito de consolação, os tordos e os passarinhos.

Galinholas e narcejas são para os previligiados (excepto as primeiras nos Açores). Gamos e veados nem sempre aparecem e, quando se dão a conhecer, nem sempre têm quem saiba tratar deles.

Muito do que se caça - salvo raríssimas excepções - é "criado" para o efeito. Perdizes completamente selvagens são hoje tão raras em Portugal  como os tetrazes grandes (galo silvestre). Salva-se desta "criação" em cativeiro alguma lebre e os coelhos bravos que, pela menor importância económica, não são considerados dignos de com eles se perder tempo e dinheiro para coutar.

São passados os tempos do Sr. João Morgado da Silva Goes (Alvito) que quando abria um dos seus montes para caçar e não apresentava 200 perdizes mortas no 1º dia, enchia-se de vergonha e no ano seguinte não convidava ninguém para ali...

Em Lisboa come-se uma boa perdiz no Galito. De três formas: à moda da Dº Gestrudes, escabechada e estufada. Para mim a primeira dá "10 a 0" às outras, sobretudo se o Sr. Henrique for avisado de antemão... Ainda no Galito podem comer-se nesta altura, passarinhos, tordos, lebre em diversas apresentações, como a famosa lebre bruxa (por encomenda), muitas vezes referida pelo nosso malogrado amigo Alfredo Saramago, e que  é divinal.

No Beira Mar em Cascais são famosas as perdizes à moda da Casa, em vinagre e azeite, mas sobretudo as galinholas, estufadas em vinho da Madeira, crâneo com bico disponível para degustar os miolos,  e com o paté das tripas ao lado em tostas.

 Será no Alentejo e em Trás-os-Montes que brilha mais intensamente esta época da "caça no prato". De Marvão a Beja, passando pelos incontornáveis de Évora, Fialho e Oliveira, sem esquecer as muitas pequenas locandas onde a arte da cozinheira se eleva ao nível do que lhe trazem para fazer.  E em Bragança lembro com saudade e gratidão o Geadas e o Solar.

Nem sempre de grandes complicações culinárias vive a caça. Disfarçar (ou realçar) o sabor da "faisandage" parece ser o objectivo das grandes receitas tradicionais. Mas  no campo a "moenga" é outra: simplicidade de meios e boa qualidade da matéria prima.

Mestre Mendonça muitas vezes me deu a comer a perdiz do ano, apenas grelhada e temperada com sal, e como esse simples pitéu - desde que a perdiz fosse mesmo boa - superava as combinações mais trabalhadas da cozinha tradicional!

 Coma-se a lebre  em Évora e em Bragança e apreciem-se as diferenças. Vejam como  azeite ou a banha de porco, ou o toucinho, fazem muitas vezes a diferença em ambos os lados.

E vejam sobretudo como é possível usar ambos,  em pratos cuja génese tanto pode ser alentejana como nordestina!

Lebre Bruxa (Receita de Nelson Banza - Santiago do Cacém))
  • 1 lebre
  • vinagre
  • azeite
  • toucinho grosso
  • banha de porco
  • 2 cebolas médias picadas
  • 3 dentes de alho picados
  • 1 molho de cheiros (1 folha de louro, salsa e 1 ramo de manjerona)
  • 2 copos de vinho tinto
  • sal e pimenta

  •  

    Esfole a lebre, aproveitando-lhe muito bem o sangue que deve guardar numa tigela com um pouco de vinagre.

    Numa caçarola grande deite as três gorduras: o azeite, toucinho grosso e banha de porco. Junte-lhes a cebola picada, o alho picado e até o ramo de cheiros, deixe alourar e depois  meta tudo num bom  tacho ao mesmo tempo  até a  cebola quebrar e ficar macia.

    Deite dois copos de vinho tinto e a lebre partida aos bocados grossos.

    Deixe ferver em lume brando durante 1 hora.

    Ao fim deste tempo separe a carne e passe o molho por um passador fino.

    Leve ao lume e adicione sal e pimenta.

    Deixe levantar fervura e deite o sangue que guardou.

    Ferva mais 5 minutos e está pronta.

    Falemos um pouco dos  vinhos tintos para acompanhar a caça . De facto, nestes tempos de mudanças em tudo "ao gosto do freguês", parece ser esta uma das últimas leis canónicas que se mantêm  no relacionamento entre a comida e os vinhos: tintos para a caça.

    Fora o escabeche! Nada acompanha bem o escabeche, a não ser um vinho rosado ou um branco gordo e encorpado (digo eu). Já experimentei também um espumante tinto e ficou bem.

    Para uma lebre ou uma perdiz estufada eu escolheria um Dão de grande categoria  como o  PAPE 2005 , que tem um pouco de Baga, ou um Bairrada clássico e antigo, Sidónio de Sousa de 2005 Garrafeira, por exemplo e se o encontrarem...

    Um alentejano de Borba - "Grande Reserva Tinto de 2009" -  é também uma boa opção. E mais barato, por cerca de 15 euros a garrafa!

    Outros haverá. No Douro, sem dúvida, e também em Trás-os-Montes, onde o magnífico Vale Pradinhos "Lost Corner" de 2010 (15 euros) parece ir muito bem com a inevitável gordura deste tipo  de confecção.

    sexta-feira, janeiro 09, 2015

    Para descansar a vista

    Obviamente em francês, aqui vai o habitual poema das sextas feiras.

    É de Rimbaud que, por uma vez, limita a sua habitual verborreia gigantesca às dimensões de um soneto.



    Sobre a juventude e sobre a liberdade de ser jovem.

    Ma Bohème

    Je m’en allais, les poings dans mes poches crevées ;
    Mon paletot aussi devenait idéal ;
    J’allais sous le ciel, Muse ! et j’étais ton féal ;
    Oh ! là ! là ! que d’amours splendides j’ai rêvées !


    Mon unique culotte avait un large trou.
    - Petit-Poucet rêveur, j’égrenais dans ma course
    Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
    - Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou


    Et je les écoutais, assis au bord des routes,
    Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
    De rosée à mon front, comme un vin de vigueur ;


    Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
    Comme des lyres, je tirais les élastiques
    De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur !


    Arthur Rimbaud, Cahier de Douai (1870)

    quinta-feira, janeiro 08, 2015

    Bater nos Palhaços

    Estava cheio de ganas para fazer hoje, aqui, uma crónica inflamada contra a barbárie passada ontem em Paris.

    Mas acho que a malta do Charlie não o desejaria. Se fossem vivos fariam outra capa a gozar com o assunto da carnificina, como era e será (não tenho dúvidas) o timbre da publicação.

    Em memória dos 12 de Paris aqui vai a homenagem ao humor e ao direito de gozar com tudo e com todos.

    O bobo da corte era bode expiatório dos pecados alheios. Servia de válvula de escape para que o grand seigneur não exercesse intempestivamente a justiça sumária, interpondo entre a ira e o réu algum véu de humor que desmontasse a trama.

    O "fou du roi" , o Bouffon medieval, era de dois tipos: o que sofria de doença mental e que fazia rir pela incapacidade, e o que artificialmente "fingia" ser um simples de espírito, fazendo da sua arte o protótipo do "animador profissional" que chegou aos nossos dias revestido de várias farpelas, desde o "clown" (Augusto ou Contra) até aos "compéres".

    O bobo seria , na interpretação de Mircea Eliade: "à la fois intelligent et stupide, proche des Dieux par sa ‘primordialité’ et ses pouvoirs, mais plus voisin des hommes par sa faim gloutonne, sa sexualité exorbitante et son amoralisme".
     
    Como um Rei (mesmo que o fosse) não podia parecer louco, criou-se a função de "louco do rei" para exorcisar esses fantasmas. Desta forma era usual nas cortes medievais mandar bater no palhaço ou mandar prender o bobo, quando este exorbitava as funções pelo excesso de sátira.
     
    Triboulet, talvez o mais famoso dos bobos dessa época (na corte de Francisco I) várias vezes se viu castigado pela imprudência. Dizer mal de um nobre era uma coisa, meter-se com a rainha ou com alguma dama cara a El-Rei seria outra muito diferente, e normalmente dava azo a penitência.
     
    Matar o bobo da corte parece que já foi moda antigamente. O Imperador romano Galienus mandou queimar o dele vivo, não se sabe bem porquê..  Mas não gozou muito depois desse acto. Galienus foi por sua vez assassinado pelos seus guarda-costas algum tempo depois...  
     
    Mas fora esses percalços, à medida que uma sociedade se apurava mais respeito grangeavam os seus humoristas e "entertainers".
     
    Tivemos que esperar muitos anos até que a civilização conseguiu enobreçer a profissão do "faz tudo". Do brincalhão deus  Loki dos mitos escandinavos a Triboulet, e deste a Artur Mendes de Abreu (o grande palhaço Porto, como era conhecido em França) até Oleg Popov, rei dos clowns, ou até  Jon Stewart passaram alguns milhares de anos.
     
    Milhares de anos de apuro da raça humana (bem sei que houve percalços pelo meio, mas  a bissectriz foi o caminho para a civilização) honraram o saber fazer sorrir e o  riso como formas superiores de inteligência.
     
    Não serão agora uns animais que nunca aprenderam a  rir que vão alterar as coisas...Com um pedido de desculpas aos verdadeiros animais, incapazes destas misérias.
     
    Je suis Charlie!

    quarta-feira, janeiro 07, 2015

    Brancos de Inverno

    Um pequeno Post , destinado a responder a alguns amigos que questionam se existem vinhos brancos ditos "de Inverno".

    Esta matéria tem sido tratada por quem sabe muito mais do que eu, na Revista de Vinhos e noutros lados, pelo João Paulo Martins (por exemplo). Mas não custa aqui deixar a minha achega.

    Do meu ponto de vista os grandes vinhos brancos do Inverno  devem aquecer o corpo e o espírito (e com o frio que está ainda com mais razão).

    Primeiro que tudo têm de ser servidos à temperatura ideal, que nunca deverá baixar dos 10 graus. E depois, devem ser encorpados, estagiados em madeira, com grau álcoolico que baste, de preferência com alguma complexidade e a acidez suficiente para , juntamente com a mineralidade, equilibrar o álcool.

    Nota: Ter sempre em atenção a regra de ouro  "O aroma dos vinhos é incrementado a 18º C diminuído a 12º C e neutralizado a menos de 6º C"

    Algumas dicas  para estes grandes brancos  incluem o Primus da Quinta da Pelada, O Vinha do Contador (de Santar), o Pera Manca e o Esporão , e ainda alguns Bairrada, com o Vinha Formal de Luis Pato e o Quinta das Bágeiras Reserva a saltarem para a memória.

    E devo dizer que os grandes Alvarinhos de Anselmo Mendes (Curtimenta) ou o Soalheiro Primeiras Vinhas também resolvem bem esta aparente contradição de beber algo fresco no meio da invernia.

    Um consolo para um final de manhã a roçar os 5º será uma terrina de boa sopa de peixe à moda de Sesimbra, aromatizada com as ervas tradicionais, e acompanhada por um destes grandes brancos, servido a 10º ou 11º.

    terça-feira, janeiro 06, 2015

    Asnear

    Asneira virá de "asno"? 

    Suponho que sim, embora me pareça neste caso mal empregue a etimologia da palavra, já que os "asnos" que são burros são muito espertos.

    Temos até tido várias propostas para fazer uma emissão de selos dedicada aos burros de raça portuguesa.

    Os de 4 patas, está claro, porque para fazermos uma emissão dos "burros" de duas patas não haveria no mundo programa filatélico suficientemente grandioso para englobar todas as criaturas portuguesas dessa laia.

    Contudo , e como dizia o sempre lembrado Professor Brito,  dos Salesianos do Estoril,
    - "Há os burros e depois temos os que abusam dessa qualidade!".

    Tratava-se de uma época em que se podia chamar "burro" ao aluno sem o impetrante ir preso preventivamente. E onde até era possível dar-lhe uns "calduços" sem perigo de ser imediatamente enviado para Guantánamo.

    Tenho saudades desse tempo. Não por causa dos métodos "musculados" do ensino eclesiástico, mas sim porque tinha a vida toda à minha frente.

    Não defendo que hoje em dia se insultem as crianças, nem sequer (ou sobretudo) que se lhes aqueçam as orelhas manualmente sem recorrer ao cache-col. Todos evoluímos e bem.

    Mas a asneira grossa continua a ser observada a toda a hora a todo o momento, dentro e fora de casa. Sendo que não é exclusiva da nossa actual Juventude, embora nessa classe etária se dê mais por ela...

    Casos como estes que aqui relato por os ter presenciado, lido, ou visto nas TV's:

    O plural de "Vale" ser "Vais";  o facto de, quando chegaram as autoridades,  "o cadáver se encontrar rigorosamente imóvel"; aquela questão moral em que a Sabedoria e Experiência seriam as "duas mãos do mesmo braço"; aquela estranha situação (do Brasil) onde a "vítima foi estrangulada a golpes de facão".

    Existem, aparentemente, pessoas que contrairam a doença mortal na época em que "ainda estavam vivas"; E foi uma grande melhoria o ter-se finalmente instalado àgua -corrente no cemitério, "para grande satisfação dos habitantes". E a grande verdade de ser na cidade do Porto que "o povo é o mais hospitalar do país".

    E etc, etc... Sem querer entrar no futebolês, onde apenas menciono a jóia (referindo-se ao grande jogador Deco) : "O Deco é Invendável, inegociável e imprestável!".

    Agora, tendo tudo isto em perspectiva, num território onde encerrou aquela preciosidade indelével que foi a "Casa dos Segredos",  andarem por aí a dizer que só o ancião Mário Soares tem ultimamente "asneado" neste país não será uma afirmação demasiado "ponderada" e "limitada"?

    Não estaremos a ser injustos para os "outros" , os grandes candidatos ao Nobel da asneira?

    Segundo um aluno  lusitano, "Antes de ser criada a Justiça o Mundo era todo injusto!".

    Ora a Justiça parece-me, dá-me a ideia, que já foi criada? Pode é ainda ser adolescente...


    segunda-feira, janeiro 05, 2015

    Passagem de Testemunho

    Comprava-se o Expresso em minha casa desde o primeiro número, embora meu Pai (que era funcionário público)  chegasse a ser interpelado no Ministério por entrar aos Sábados com “aquilo” debaixo do braço…

    Quando comecei a ganhar dinheiro como assistente na faculdade, em Outubro de 1977, decidi que era a minha vez de cumprir o dever cívico dessa aquisição. E nunca mais deixei de o fazer.

    Já nessa altura (começou em 1976) José Quitério escrevia a sua crónica de gastronomia no semanário. E não seria apenas por ela que o Expresso me sabia tão bem como o primeiro café da manhã, mas era fundamental para compor o ramalhete.

    Probo, ridiculamente honesto, senhor de enorme cultura geral que o leva a discorrer também pela Tauromaquia e pelo Tango, José Quitério diz que a sua actividade não tem segredos. Era preciso provar muito e ler ainda mais. Ter cuidado com as fontes e nunca abdicar de pôr em causa conceitos e lugares desde que a experiência não os recomendasse. E estudar. Estudar sempre.
    Dois textos de Quitério tenho como exemplares. O seu panegírico ao nosso Bacalhau, “Um Adeus Português”, de tal forma impressionante que David Lopes Ramos o  considerava o mais notável texto feito sobre o assunto na nossa língua, tendo-o várias vezes citado ipsis verbis. E o que dedicou aos 50 anos da morte de Manolete, em Agosto de 1997. Ambos publicados no Expresso.

    O gosto pela nossa cozinha, pela investigação dos detalhes curiosos a ela associados e por procurar onde  bem comer devo-o a ele. E foi esse interesse, semanalmente espevitado, que permitiu  mais tarde incluir na minha actividade profissional esta faceta nobre da divulgação dos usos e costumes gastronómicos lusitanos.
    Foi com o José Quitério que começámos a aventura da divulgação mundial da gastronomia portuguesa através dos selos postais. Portugal foi o primeiro país do mundo (em 1996) a colocar nos selos de correio imagens com os  pratos tradicionais de cozinha, e esse facto a ele se deve. Hoje muitos países nos imitam.

    Os CTT Correios de Portugal já emitiram 73 selos e 15 blocos filatélicos dedicados à Gastronomia de Portugal,  com uma tiragem conjunta de mais de 19 milhões de unidades.
    E, para além disso, temos 9  livros sobre temas de gastronomia também editados ou no prelo, com tiragens conjuntas de mais de 55 000 exemplares, tendo sido o primeiro “Comer em Português”, de José Quitério, lançado em 1997. E os dois  últimos serão lançados em Abril  e Junho de  2015  -  “Conversas de Café” de Fátima Moura e “A Dieta Mediterrânea” de Fortunato da Câmara.

    Presumo que, em termos de quantidade de mensagens que circulam por todo o mundo através dos nossos selos e dos nossos livros bilingues, serão os Correios de Portugal dos mais prolíficos divulgadores dos usos e costumes gastronómicos do nosso país.
    E tudo começou pelo Expresso e pelas crónicas do José Quitério.

    O fim do ciclo aproxima-se, com o anúncio feito na última edição do Expresso (3 de Janeiro de 2015) sobre a substituição de José Quitério na autoria da crónica semanal de gastronomia , por motivos de saúde. Nesta passagem do testemunho felicito o Expresso pela escolha do substituto , e transmito a Fortunato da Câmara  desejos sinceros de boa fortuna. Saber e Vontade de bem fazer não lhe faltam.
    Mas não posso deixar passar a ocasião sem agradecer ao “Zé” por todos estes anos, enviando-lhe desta forma um abraço bem apertado.  

    E grande. Tão grande  como só ele foi e ainda é, em todos os sentidos.

    Obrigado meu Amigo, por todos estes anos.

    sexta-feira, dezembro 26, 2014

    O Rescaldo e a partida para a Serra

    Prestes a tomar o rumo da "mais alta" (do Côtenente!) faço com os amigos o rescaldo da noite de 24 e do dia de ontem.

    A santa mãe amuou porque não lhe fiz o bacalhau com as couves. É engraçado que quando questionada dias antes disse que não o desejava...Mistérios da 4ª idade. A santa tia acha tudo bem, come e faz sempre boa companhia. Bem haja.

    Na Garret foi engraçado medir a cauda da fila e comparar com as dos anos anteriores. Os "habitués" da velha pastelaria resguardam-se sempre nestas ocasiões com o truque da "encomenda". Para além do bolo-rei ou rainha, a encomenda exige que se leve mais qualquer coisinha. Mas a vantagem é entrarmos directamente para a sala das "encomendas" , evitando assim a fila para o bolo-rei. Neste ano pareceu-me ser a fila um pouco mais longa do que no ano passado.

    Não posso garantir, mas lá que me pareceu, isso pareceu...

    Pelas 7,30h o último dos  "esperantes" já aguardava na curva da rua, lá em cima depois da porta do "Saloio".  E a Garret só abre às 8.00h.

    Nota: A "Quinta do Saloio" é uma das melhores mercearias de luxo  da linha.

    O Amigo Casaleiro fecha a 26 e 27, como contrapartida das noites em branco à frente dos fornos.

     Por isso muita gente se avia até ao dia de Ano Novo. Como a santa mãe amua sempre que não vê a mesa cheia de doces, lá tive de esportular uns bons euritos. Para 4 gatos-pingados comerem.
    Enfim...
    Mas estou a chegar à idade em que não aturo dois amuos no mesmo dia (ou noite), vindos de  onde vêm.

    Parto para a Beira Alta com alguma preocupação, Mas é esta aquela situação em que saímos da frigideira quente para o meio da panela que está ao lume... Com anciãs nos dois lados, e em estado de saúde mais complicado, cabe ao blogger equilibrar a sua vida numa situação de compromisso entre o Estoril e São Martinho.

    Outra preocupação, menor obviamente, é que a recepção de rede para enviar estes Posts e receber os mails está cada vez pior lá na Serra da Estrela. Pelo menos para quem usa banda larga da MEO.

    Se as costumeiras Crónicas da Serra não se fizerem notadas não é por preguiça, mas sim por traição da tecnologia.

    No Ano Novo a grande decisão será em redor da ementa: cozido à portuguesa com os enchidos caseiros lá da quinta ou o cabrito assado que me ficou atravessado neste Natal?

    Lá mais para o dia 30 tomarei a decisão. Autocraticamente, pois claro, porque uma das vantagens de um gajo chegar aos 60 com algum juízo é poder decidir sem passar cartão a ninguém...

    Mas sobre isto tudo ainda falaremos (ou melhor, falarei). Desde que a "rede" o permita.

    Continuação de muito Boas Festas para todos. Saúde e dinheiro para trocos!

    Como nos disseram ontem que "Este Natal é o primeiro de há muitos anos em que não há nuvens negras no horizonte", pode ser que o "dinheiro para trocos" signifique mais largueza de gastos das desgraçadas famílias. Mas neste caso estou como o velho São Tomé: Ver para crer.

    terça-feira, dezembro 23, 2014

    As Festas

    É suposto que todos temos de partilhar nesta altura do ano o famoso "Espírito de Natal".

    Mesmo quem não sinta muito essa toada de "paz e amor" na sua vida de todos os dias. A Consoada  e o almoço de Natal,  embora pobrinhos, se forem passados com a família ao redor acabam sempre por trazer algum conforto aos que deles partilham.

    Esta é a teoria oficial do politicamente correcto. Nada tenho contra quem assim pensa, mas para mim  não é esta uma quadra que me agrade por aí além.

    Razões históricas (a Natália faleceu a 28), mas também razões mais práticas. Sem crianças em casa -  a quem dedicamos sempre mais tempo e mais alegria nestes dias - o que se pode fazer à volta de duas anciãs a bater nos 85?

    Dar-lhes o bacalhauzinho da Consoada logo ao almoço do dia 24, pô-las a verem por algumas horas o programa favorito das TV's (será o Natal dos Hospitais?) e, em tendo elas abandonado a casa para se irem deitar logo pelas 7 da tarde, lá ficamos eu e o meu senhorio a ver algum filme antes de irmos também nós para a cama, porque no dia de Natal a azáfama na cozinha começa bem cedo.

    Lá para cima, para a quinta, ainda será mais solitária essa noite, O meu cunhado e a minha sogra a olharem um para o outro e a lembrarem-se quando aquela mesa (que senta 10 pesooas) estava cheia de gente e de boa disposição nesta altura do ano.

    Iremos ter com eles para o Ano Novo, mas mesmo dobrando a audiência não deixamos de ser apenas 4...

    Que estas reflexões não deixem os meus amigos de passarem um Santo Natal, na companhia de quem mais gostam. E se por acaso tiverem que aturar nestas dias alguém menos "afável" e cuja companhia bem dispensavam, não se esqueçam do tal "espírito de Natal" com que começei a crónica. Façam o sacrifício por uma noite (ou duas).

    Sogras e sogros, noras e genros? É Natal. Até cães e gatos devem fazer um esforço para se aturarem por algumas horas.

    Por mim já decidi que passaremos a noite do dia 24 a fazer uma maratona de Downton Abbey. Parece que o G. Clooney é artista convidado no episódio de Natal.  Pena a mulher também não ter vindo...


    sexta-feira, dezembro 19, 2014

    Para Descansar a Vista

    Em louvor de Cuba , do seu povo, da sua história, dos ideais que quase todos compartilhámos quando éramos (mais) novos. Em louvor desta trégua e paz.

    Embora com alguma desconfiança "à cause des puros" - com receio que o USD tome conta dessas ocorrências num futuro próximo e deixe apenas as sobras para nosotros.

    De todas as  formas e como pareceria de um egoísmo extremo estar a assombrar estas notícias magníficas por causa de um vício*, aqui vos deixo Roberto Fernandez Retamar .

    *Nota: Fumar um cubano  de quando em vez será ainda um vício que mantenho, mas raro, muito raro atendendo à crise que atravessamos. Nem lhe chamaria já uma "adição", mais uma "subtracção" onde, de vez em quando, lá somamos uma parcela em dia de arco-íris. Nem todos podemos ser Álvaros Sobrinhos...

    Bio de Retamar por cortesia de Virgilio Lopez Lemus: Começa a carreira literária em 1950, com  Elegía como un himno (1950). 
    Em 1952 edita Patrias e em 1955 Alabanzas, conversaciones. Reconhecido como um ensaísta de talento, esteve sempre entre os mais importantes criadores de sua geração. Vuelta a la antigua esperanza (1959) é um livro do coloquialismo, corrente que se expressa com mais intensidade em Con las mismas manos (1962), Historia antigua (1964), Que veremos arder (1970), Circunstancia de poesía (1977), Juana y otros poemas personales (1981), Hacia la Nueva (1988), entre outros. Agrupou quase todos seus poemas em Poesía reunida (1966) e no livro mais destacado Palabra de mi pueblo (1980). Em 1989  recebeu o Prémio Nacional de Literatura.
     
    FELICES LOS NORMALES
    Felices los normales, esos seres extraños.
    Los que no tuvieron una madre loca, un padre borracho, un hijo delincuente,
    Una casa en ninguna parte, una enfermedad desconocida,
    Los que no han sido calcinados por un amor devorante,
    Los que vivieron los diecisiete rostros de la sonrisa y un poco más.
    Los llenos de zapatos, los arcángeles con sombreros,
    Los satisfechos, los gordos, los lindos),
    Los rintintín y sus secuaces, los que cómo no, por aquí,
    Los que ganan, los que son queridos hasta la empuñadura,
    Los flautistas acompañados por ratones,
    Los vendedores y sus compradores,
    Los caballeros ligeramente sobrehumanos,
    Los hombres vestidos de truenos y las mujeres de relámpagos,
    Los delicados, los sensatos, los finos,
    Los amables, los dulces, los comestibles y los bebestibles.
    Felices las aves, el estiércol, las piedras.
    Pero que den paso a los que hacen los mundos y los sueños,
    Las ilusiones, las sinfonías, las palabras que nos desbaratan
    Y nos construyen, los más locos que sus madres, los más borrachos
    Que sus padres y más delincuentes que sus hijos
    Y más devorados por amores calcinantes.
    Que les dejen su sitio en el infierno, y basta.
    (De: Historia antigua - 1962)

    quinta-feira, dezembro 18, 2014

    O incómodo das peruas no Natal

    As peruas ( e esposos) sofrem mais no Natal do que nas outras épocas do ano.
    Penso que todos conhecem aquela anedota em que um bando de perús vem para a rua em solene manifestação, trazendo um cartaz onde se lia:
    " É Natal! Jesus comia peixe!"

     Na véspera ainda lhes damos algum crédito, mas quando se trata do dia 25 não consta que se tenham safado. Eu próprio até já partilhei aqui  uma receita para melhor se tragarem estes galinácios nesta época festiva.

    Todavia, não é às peruas com penas que me quero referir.

    Nem sequer às outras "peruas", às que são primas das "cadelas" e que decorrem do exagerado consumo de liquidos nesta época do ano, embora o assunto também mereça um Post dedicado.

    Falo das "outras" peruas que tenho lá por casa e que aproveitam a minha disponibilidade para pedirem boleia e "irem às compras" nesta época .

    Quando a minha santa ainda se enxergava era mais fácil. Eu metia-a dentro da superfície comercial, punha-lhe um carrinho nas delicadas mãozinhas, dava-lhe um prazo para "ir às compras" e combinávamos um lugar onde a fosse buscar, 2 horas depois.

    Neste momento - e por culpa dos governantes que introduziram a nova moeda em 2000 - a santa já não dá conta do recado sozinha. Preciso de andar sempre atrás dela para lhe dizer quanto custam as coisas em "escudos e contos".

    Ainda hei-de acabar esta quadra a concordar com o MRPP : "Portugal tem de sair do Euro! Já!".

    Dir-se-ia que se a minha santa fosse acompanhada pela irmã - um ano mais nova, e com uma cabeça melhor do que  a dela ( e do que a minha!) para as contas - tudo se resolveria.... Mas não. Elas não gostam de andar juntas nestas altura do ano, com medo que "se a outra visse o que eu comprava ia logo atrás comprar o mesmo também".

    E tratando-se de irmãs que vivem a metros uma da outra, as criaturas a quem dão presentes são sempre as mesmas, o que traria algum incómodo quando as recipentes da bondade alheia verificassem que estavam a receber o mesmo presente em dobra.

    Atendendo a estas restrições, cabe ao desgraçado do Blogger resolver a quadratura do círculo: Ir com as duas, depositá-las no mesmo local, andar atrás da mais velha para que ela não compre uma caixa de bombons por 70 euros pensando que eram 70 escudos, mas nunca deixando de ter um olho nas andanças da mais nova, que apesar de ter boa cabeça para as contas já não se entende muito bem com os códigos das balanças para pesar a fruta e os legumes.

    Sim, porque encontrando-se ambas no Hipermercado não mercam apenas os presentes. Isso é que era bom!! Leva cada uma o seu carrinho carregado de todas as outras coisas que entendem necessárias, desde o leite às alfaces.

    Onde é que estas anciãs nos idos dos 80's metem tudo aquilo que compram carago??!! Todos os fds têm de se abastecer... Mistério que me recuso a investigar com receio de descobrir alguma verdade incómoda, tipo uma arrecadação a tresandar a podre, cheia de tudo o que compraram mas não utilizaram. Ou então dão guarida lá em suas casas a um pelotão fugido à guera do Afeganistão...

    Na óptica dos meus leitores trata-se de uma manhã mais chata por ano para mim, sem dúvida, mas , há que ter paciência, não é?

    Pois é...Se fosse uma manhã apenas. Ando nisto desde que entrou o mês de Dezembro. Pelas minhas contas já são 3 fins de semana.  E ainda falta um importante detalhe: as flores para o cemitério!! Já que os falecidos também têm direito ao Natal, no entendimento "peruano".

    Dessa Via Sacra me ocuparei no dia 20.

    Depois disto tudo acho que mereço um cubano e um belo whisky de malte na noite de Natal, sozinho com o meu senhorio no conforto do meu sofá.

    Mas já nem sei se isso está garantido, amigos.

     Cuba está a fazer as pazes com os USA!!  Magnífico!! Que bela notícia de Natal e para todo o ano!!

    Mas  reparem nisto:  sendo muito bom para quase tudo, tem um senão... Quando o embargo acabar para onde é que V. acham que vão voar os meus ( salvo seja) "puros"?? E a que preçozinho vão chegar aqui ao rectângulo?

    Exactamente... Ainda não tinham pensado nisso?

    Arriba Cuba! Y Raul , amigo, no vendas todos los habanos a los  hermanos Yankees!  Si non ainda te f*** (te prejudicas) comigo y los otros lusitanos (Partáguas!).

    segunda-feira, dezembro 15, 2014

    Adaptações e Prioridades

    Como de costume hoje de manhã passei pela Versailles. A única diferença foi que tinha  dois bolos-rei já previamente encomendados , um mimo que faço aos colegas nesta quadra.
    Hoje para o Báltico, no dia de reis para a João Saraiva, onde o início do balanço não aconselha que seja agora.

    Um dos arrumadores que costuma estar de serviço à porta da clássica pastelaria foi neste momento promovido a ajudante dos proprietários do meu quiosque de jornais e revistas. Acarta os molhos de jornais, arruma as revistas, ajuda a abrir a porta do veículo da VASP, etc, etc...

    Pensava eu que ele tinha arranjado outro trabalho, quando logo que me viu dirigiu-se a pedir a moedinha do costume.

    -" Oh Amigo, então V. não ajudou a estacionar! Estava a arrumar jornais!"
    -"Nos outros dias também não ajudo e o Senhor dá sempre..."
    - "Não ajuda mas ao menos faz a parte!"
    - " Olha! Já tem o senhor chegado primeiro que eu e depois dá a moeda!"
    - "Então mas isto é pagamento de serviços ou esmola?"
    - "Qualquer coisa serve, desde que dê a moeda..."

    No que tinha o homem inteira razão. Para quê estarmos a filosofar sobre as causas se as suas consequências são as mesmas?

    A placa do meu fogão - antiga e boa, 5 bicos protegidos com ferro forjado - deu o corpo ao manifesto. Tem bicos que já não mantêm o gás aceso, tem outros que devem estar entupidos.
    A placa é fundamental durante todo o ano, mas então agora nem se fala.

    No Sábado passado,  e com medo  das compras de Natal  ( suplício que todos temos que passar), estava logo de manhã à porta da Loja que dava apoio técnico à marca da minha placa.

    Os clientes que se dirigiam aos balcões para falar de assistência técnica eram atendidos por ordem de chegada, mas parecia haver pouca gente nesse serviço, e a única senhora que havia nada percebia. Questionada , o que disse foi que:

    -  " Estou aqui por necessidade, não sou especialista. Os especialistas na assistência técnica são dois. Um está doente e o outro de férias".

    Como iamos dizendo que não parecia ser a melhor altura para irem de férias, a amável e jovem senhora retorquiu:

    -"Sabe, nesta altura do ano o que queremos é vender... Assistência técnica pode esperar para Janeiro".

    Todos entendemos.

    Os "especialistas na assistência técnica" deviam mas era estar ao balcão a vender! Qual doença e quais férias!

    Se eu quisesse comprar uma placa nova estava já ali quem me explicasse tudo!

    E quem os pode criticar?



    sexta-feira, dezembro 12, 2014

    Para Descansar a Vista

    Recorro mais uma vez a meu mestre Eugénio de Andrade. Esta sexta feira de nevoeiro lembrou-me o primeiro tema. Ao qual acrescentei um belíssimo poema de solidão, também ele adequado a este Inverno do nosso descontentamento.

    E é Natal... Mas só a 24. Talvez esse seja o problema.

    Passamos pelas coisas sem as ver

    Passamos pelas coisas sem as ver,
    gastos como animais envelhecidos;
    se alguém chama por nós não respondemos,
    se alguém nos pede amor não estremecemos:
    como frutos de sombra sem sabor
    vamos caindo ao chão apodrecidos


    Eugénio de Andrade

    As palavras que te envio são interditas

     As palavras que te envio são interditas
    até, meu amor, pelo halo das searas;
    se alguma  regressasse, nem já reconhecia
    o teu nome nas suas curvas claras.

    Dói-me esta água, este ar que se respira,
    dói-me esta solidão de pedra escura,
    estas mãos nocturnas onde aperto
    os meus dias quebrados na cintura.

    E a noite cresce apaixonadamente.
    Nas suas margens nuas, desoladas,
    cada homem tem apenas para dar
    um horizonte de cidades bombardeadas.

    Eugénio de Andrade

     

    quinta-feira, dezembro 11, 2014

    Perú ou Cabrito?

    Falsa questão. Sempre o cabrito pois então!

    A não ser que alguém possua  meios para criar  perús livremente no campo, alimentados a milho, alfaces e couves, vadiando alegremente pelos prados?

    Não têm desses? Então façam um favor a toda a gente lá de casa e atravessem-se pelo Cabrito...

    Dito isto, por motivos que se prendem com a necessidade das minhas anciãs cá de baixo ("velhas" nesta quadra parece mal, e "santas" não lhes chamo enquanto me lembrar da última partida que me fizeram) viverem em boa harmonia comigo e com o senhorio, este ano terei de assar um perú... A decisão foi tomada por ambas, tendo em atenção que:

    - "Tu (eu) depois vais-te embora para a quinta e do cabrito não sobra nada! Ao menos com perú  ficamos com sandes para vários dias!".

    Lógica inatacável...

    Para assar um perú (conhecido nos meios entendidos como o McDonald's circulante) que tenha nos pratos  um mínimo de sabor e que disfarce tanto quanto possível a ração e a farinha com que foi alimentado, há apenas duas opções.

    Ou compramos no El Corte Inglês (encomendando) um perú de criação biológica, segundo parece oriundo da Herdade alentejana do Freixo  do Meio:
    http://www.herdadedofreixodomeio.com/pt/component/content/article/70-perus.html

    Ou então há que utilizar a imaginação (com resultados as mais das vezes sofríveis, mas melhores do que nada).

    Assim, aqui vai uma proposta que parte do princípio que temos um perú inteiro, com os seus miúdos.

    Depois do peru arranjado e bem limpo, esfrega-se com vinho branco e cortam-se  as extremidades das patas e o pescoço. Coloca-se o peru num alguidar coberto com água fria, sal (1kg) ,  laranjas e  limões ás rodelas. Deixa-se ficar assim de um dia para o outro.
    No dia seguinte, escorre-se e enxuga-se com um pano de modo a ficar bem enxuto.
     
    Temos entretanto já preparada uma pasta de barrar feita com massa de pimentão, alhos, cebola , pimenta preta, sal e azeite.  Os alhos e as cebolas são levados à máquina de triturar  (1,2,3) e depois temperados com os outros ingredientes numa tigela funda. Com a mão passa-se esta pasta por todo o peru. 
     
    À parte, partimos para outra tigela  250g de pão alentejano de trigo em bocados, que se envolve em 3 ou 4 ovos inteiros. Juntamos 150 g de presunto cortado em pedacinhos, um patê de foie gras que tenha pelo menos um "arremedo" de trufas , os miúdos que foram alourados em azeite, picados ou partidos finos . Mexam bem com o molho que ficou na frigideira de alourar os miúdos, de forma a  ficar um preparado homogéneo.
     
    Enche-se o peito do peru com este preparado, calcando para que fique bem cheio, e fecha-se a  a abertura com agulha e linha .

    Vai ao forno quente por umas 2 horas a 2 horas e meia. Na altura de tirar deve ser "apresentado" a uma corrente de ar fria para se "constipar", ficando a pele crocante.


    Costumo acompanhar este Perú com batatas fritas aos cubos e grelos salteados de nabo.

    Mesmo que o sabor final  não seja entusiasmante para gastrónomos exigentes, ajuda muito se o acompanharmos com um Tinto "à maneira"!

    Três opções "capitalistas":
     - Quinta da Leda 2011 (magnífico Tinto do Douro de um ano excepcional! Cerca de 37 euros...)
     - Dão Quinta da Pelada , Álvaro Crasto, 2011 (idem, idem para o Dão, cerca de 28 euros...).
     - Quinta do Mouro Tinto de 2008, alentejano de Estremoz. Custará cerca de 35 euros.

    Baratas são carochas? É bem certo...

     Mas ainda há outras possibilidades, com relevo para uma, que descobri por acaso e me entusiasmou. O Vinha do Mouro 2011 (também ele do Dr. Miguel Louro) que não chega aos 6 euros! Muito bom!

    Nota: quem não gosta de perú mas é obrigado a tê-lo na mesa, faça como eu. Coma pouco da ave e passe logo para um pratinho de queijo da serra a escorrer, com pão quente. Tem é que manter perto de si um vinho tinto em condições! Isto não é negociável!

    terça-feira, dezembro 09, 2014

    Os Brancos do Tramagal

    O vosso Blogger não deu em racista tardio. Apesar do título.

    O que está em causa são os vinhos brancos da região do Tramagal, que já foi berço de industria muito importante ( a clássica metalúrgica Duarte Ferreira) e hoje apresenta  uma inexorável asfixia laboral, remetendo-se aos serviços (poucos) e retomando a vocação agrícola que era dos seus bisavós.

    Nada de extraordinário. Nas terras pequenas deste país por norma não há trabalho, por isso são pequenas (dirão alguns). Na retoma da actividade agrícola que se verifica um pouco por todo o lado como forma de fazer face à crise, a Vila do Tramagal encontrou algum lampejo na vinicultura.

    A  empresa  Casal da Coelheira , com  Adega  na Estrada Nacional 118, possui vinhos premiados, como o Casal da Coelheira Reserva e DOC, Terraços do Tejo e, mais recentemente, o Mythos e o Casal da Coelheira Rosé 2009 (premiado como melhor Rosé do mundo em Bruxelas, no ano de 2010).

    Devo confessar que os tintos desta região nunca me convenceram nos chamados "topos de gama".  Um destes é o Mythos, feito apenas em anos excepcionais a partir de Touriga Nacional e Franca , e de Cabernet. O último que bebi foi o de 2007. Apesar das críticas muito favoráveis do Amigo João Paulo Martins (que lhe atribuíu 17 pontos em 20), achei-o com fruta demasiado "madura" e a madeira proeminente, quase doce na boca...

    Agora já por aí se encontra à venda o de 2011, e pode ser que este ano abençoado tenha estendido a benção ao vinho. Custará cerca de 16 euros no local e nas Garrafeiras talvez vinte e picos...

    Mas do que gosto, sem reservas, é o Branco Reserva (neste momento em venda está o de 2013) feito à base de Chardonnay com um pouco de Arinto. É um branco notável, de relação qualidade preço muitíssimo boa (custa menos de 6 euros). A maçã da Chardonnay casou muito bem com amadeira , originando um vinho com alguma complexidade, mas ainda assim bem fresco na boca. E que, na minha opinião, vai melhorar com a idade.

    Veremos quando o provar daqui a alguns anos.

    A tradição do Tramagal em vinhos brancos é muito antiga. Já o saudoso Dr. Chambel, do Fórum Prior do Crato, acreditava nesse binómio do Ribatejo em brancos.  Cooperativa de Almeirim, Alorna (que nos deu um magnífico espumante há uns anos atrás), mesmo até ao  Sardoal, com a Quinta do Vale do Arno, eram famosas pelos brancos de Fernão Pires, casta rainha naquela zona.

    E mesmo nos tintos "normais", se não quisermos sinfonias e cantatas à moda do Douro, para o dia-a-dia, há propostas bem honestas a preços muito razoáveis naquela zona.

    Tintos bons para o bacalhau, assado ou em arroz de línguas, para as migas de couve com sável, para acompanhar a morcela de arroz e os maranhos da Sertã. Sem falar na Rainha Dona Lampreia...

    Aqui em Lisboa, passe a publicidade, encontram-se por vezes bons Maranhos (encomendando, pois os proprietários são da Região) e um excelente Bacalhau Cozido com todos (segundas feiras), no Restaurante " Tertúlia do Paço", a Telheiras.

    sexta-feira, dezembro 05, 2014

    Ovos mexidos à Maluco (Je)

    O meu mestre António Mendonça (Beira Mar e Monte Mar) foi um dos que se encarregou da minha "endoutrinação" na prática da cozinha, assim que - mau fado nosso e dela - a minha mulher partiu.

    Eu tinha sido criado por tias velhas que sabiam cozinhar muito bem. Meu Pai também se ajeitava à frente dos tachos, fruto dos ensinamentos maternos. A Natália já cozinhava para 10 pessoas lá na quinta, ainda não teria 15 anos... E eu, bem criado e bem casado, aproveitava que me fartava (o que ainda hoje se nota).

    Minha Mãe, infelizmente, nunca soube estrelar um ovo  e o vosso blogger sempre entendeu que, neste aspecto, saía à mãe (salvo seja).

    Na altura da nossa crise familiar Mestre Mendonça ensinava, eu ia aprendendo. O que me preocupava por vezes era a falta de tempo, durante a semana, para me dedicar à cozinha. Quem começa necessita de mais tempo, e  apenas a experiência dá desembaraço.

    Uma das primeiras coisas que aprendi foram uns ovos mexidos com alguns ingredientes que os faziam destacar do vulgar de Lineu. Mendonça chamava a isto "comida de p****", mas como isto é um Blogue decente, em vez disso chamei-lhes "ovos mexidos à Maluco". Sendo de referir que o maluco sou eu, e não quem mos ensinou a fazer!!

    Digo isto e sublinho, para ver se me cabem algumas perdizinhas à Beira Mar ainda este ano...

    Os ovos devem estar à temperatura ambiente, bem assim como um pouco de leite gordo.
    Cortamos em bocados pequenos uma cebola e três ou quatro dentes de alho. Tomates cherry devem também estar já lavados e cortados ao meio. Deitamos para uma tigela grande os ovos (3 por pessoa) juntamente com sal, pimenta e uma colher de sopa de molho de tomate (gosto de Barilla). Batemos , contando 100 golpes de garfo.
    Depois de batidos juntamos a cebola, os tomates cherry e o alho e envolvemos bem.

    Numa frigideira de bom tamanho e com bom azeite alouramos um chouriço cortado aos pedacinhos  (de porco preto custa 2€ no Tio Belmiro, marca branca).
    Em estando o chouriço alourado juntamos o conteúdo da tigela à frigideira e vamos mexendo até os ovos fritarem, mas sem deixar queimar.



    Vai na frigideira para a mesa, salpicado de salsa. Onde deve estar bom pão (que será o único acompanhamento). Único, não, porque um copo de tinto faz sempre boa companhia.

    Ao longo dos anos evoluí dos ovos mexidos à p*** para outras coisas. Nesta aprendizagem muita gente sofreu, destaco o meu senhorio (coitado) mas também os amigos Alves, que ainda hoje se devem lembrar das "batatas Cabo da Roca" que se viram negras para chegar à mesa do bacalhau...

    Depois triunfou o ADN. Minha bisavó Jerónima foi cozinheira de El-Rei D. Carlos, no Palácio de Queluz , e  seu marido, meu bisavô João da Cruz, era carteiro no Murtal e no Estoril. Nasceu em 1853, na data de emissão do 1º selo português.

    Eu teria inexoravelmente de ser o que sou hoje...


    quinta-feira, dezembro 04, 2014

    O regresso do Tollan?

    Estive ausente uns dias a tratar de algumas emergências familiares, primeiro na Beira Alta, agora cá por baixo. São as minhas "santas" a dar trabalho... mas neste caso foi maior o alarme lá para cima.

    Entretanto houve o Congresso do PS (bom, bem concluído com um discurso à antiga socialista portuguesa), o Sr. Engº José Sócrates descobriu uma veia epistolar que só fica bem a aprendizes de filósofos, e a velha cidade de Évora recebeu mais uma atracção, depois do Fialho, da Tasca do Oliveira, da Sé Catedral e demais monumentos.

    O homem das farturas e a senhora das sandes de couratos já pensam em executar o franchising das respectivas roulottes, por forma a que não deixem de estar no novo local da moda "passeante" lusa, sem abandonar a sede , no Estádio da Luz (onde o negócio já foi melhor)  ou no Estádio de Alvalade (onde o negócio nunca foi assim tão bom).

    Está criado um novo fenómeno semelhante ao do Tollan. Quem se recorda das tardes de Sábado e de Domingo, quando os nabos lisboetas com as  suas alfaces pelo braço, "iam ver o Tollan"? Estou a ficar um bocado ginja...

    Esta "moda" aconteceu entre 1980 e 1983 ( acho eu). Tratava-se de um porta-contentores inglês que foi abalroado no Tejo, virou-se e ficou por ali anos a fio, sem que ninguém o conseguisse  voltar a pôr a flutuar . Deu origem a anedotas, baptizou cafés e restaurantes , etc, etc...

    A cadeia de Évora arrisca-se a ser o "Tollan do Sócrates". Pelo menos as TV´s não arrancam pé da porta da esquadra (digo, da porta da cadeia).

    Entretanto o Sr. Governo lá continua a sua vidinha, muito satisfeito porque o impacto mediático se tem desviado para outras freguesias. Que grande taluda de Natal lhes saíu!

    Por mim, estou muito curioso por saber dos resultados das sondagens eleitorais nacionais, depois do efeito Sócrates e  do efeito António Costa no Congresso do PS.

    Arrisco dizer que, apesar das vozes e das nozes, não mudou assim tanto o sentido de voto dos tugas...

    Mas esperemos para comentar com toda a propriedade!

    "Toda a Propriedade" não, que ainda pensa a AT que estou carregado de prédios, andares, vivendas e quintas...

    Altero a frase: "Comentarei na posse da informação de carácter público, que for veículada pelos MCS, sem ter sido obtida através de fontes duvidosas,  em confissões forçadas, por meios enganosos ou escutas telefónicas, aprovadas ou não por Juiz de Direito".

    (Acho que não me esqueci de nada?).